SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO




                         ARTE
                           ENSINO MDIO

                              .
                             2 Edio




 Este livro  pblico - est autorizada a sua reproduo total ou parcial.
                           Governo do Estado do Paran
                                 Roberto Requio

                        Secretaria de Estado da Educao
                          Mauricio Requio de Mello e Silva

                                      Diretoria Geral
                                  Ricardo Fernandes Bezerra

                           Superintendncia da Educao
                           Yvelise Freitas de Souza Arco-Verde

                          Departamento de Ensino Mdio
                                 Mary Lane Hutner

                   Coordenao do Livro Didtico Pblico
                                Jairo Maral




Depsito legal na Fundao Biblioteca Nacional, conforme Decreto Federal n 1825/1907,
de 20 de Dezembro de 1907.


 permitida a reproduo total ou parcial desta obra, desde que citada a fonte.
SECRETARIA DE ESTADO DA EDUCAO
Avenida gua Verde, 2140 - Telefone: (0XX) 41 3340-1500
e-mail: dem@seed.pr.gov.br
80240-900 CURITIBA - PARAN


Catalogao no Centro de Editorao, Documentao e Informao Tcnica da SEED-PR


             Arte / vrios autores.  Curitiba: SEED-PR, 2006.  336 p.

             ISBN: 85-85380-30-6

             1. Ensino de arte. 2. Ensino mdio. 3. Histria da arte. 4. Msica. 5. Artes visuais. 6.
        Dana. 7. Teatro. I. Folhas. II. Material de apoio pedaggico. III. Material de apoio terico. IV.
        Secretaria de Estado da Educao. Superintendncia da Educao. V. Ttulo.

                                                                                          CDU 7+373.5




                                         .
                                        2 Edio
                                   IMPRESSO NO BRASIL
                                 DISTRIBUIO GRATUITA
                        Autores
                 Carlos Alberto de Paula
                Marcelo Cabarro Santos
                  Marcelo Galvan Leite
                 Maysa Nara Eisenbach
                Sonia Maria Furlan Sossai
                 Tania Regina Rossetto
                     Viviane Paduim

            Equipe Tcnico  Pedaggica
                Carlos Alberto de Paula
                Jackson Cesar de Lima
               Marcelo Cabarro Santos
                    Viviane Paduim

     Assessora do Departamento de Ensino Mdio
              Agnes Cordeiro de Carvalho

Coordenadora Administrativa do Livro Didtico Pblico
               Edna Amancio de Souza

                Equipe Administrativa
                   Mariema Ribeiro
                 Sueli Tereza Szymanek

              Tcnicos Administrativos
              Alexandre Oliveira Cristovam
                   Viviane Machado

                     Consultora
                Rose Meri Trojan - UFPR

                   Colaboradoras
             Consuelo Alcioni B. D. Schlichta
                  Isis Moura Tavares

                      Leitura Crtica
         Carla Juliana Galvo Alves Warken - UEL
                    Juciane Araldi - UEM
         Margarida Gandara Rauen - UNICENTRO


            Consultor de direitos autorais
              Alex Sander Hostyn Branchier

                   Reviso Textual
             Luciana Cristina Vargas da Cruz
                   Renata de Oliveira

     Projeto Grfico, Capa Editorao Eletrnica
            Eder Lima/Icone Audiovisual Ltda

                Editorao Eletrnica
                 Icone Audiovisual Ltda

                          2007
z Carta do Secretrio
Este   Livro Didtico Pblico chega s escolas da rede como resultado
do trabalho coletivo de nossos educadores. Foi elaborado para atender
 carncia histrica de material didtico no Ensino Mdio, como uma
iniciativa sem precedentes de valorizao da prtica pedaggica e dos
saberes da professora e do professor, para criar um livro pblico, acessvel,
uma fonte densa e credenciada de acesso ao conhecimento.

A motivao dominante dessa experincia democrtica teve origem na
leitura justa das necessidades e anseios de nossos estudantes. Caminhamos
fortalecidos pelo compromisso com a qualidade da educao pblica e
pelo reconhecimento do direito fundamental de todos os cidados de
acesso  cultura,  informao e ao conhecimento.

Nesta caminhada, aprendemos e ensinamos que o livro didtico no 
mercadoria e o conhecimento produzido pela humanidade no pode ser
apropriado particularmente, mediante exibio de ttulos privados, leis
de papel mal-escritas, feitas para proteger os vendilhes de um mercado
editorial absurdamente concentrado e elitista.

Desafiados a abrir uma trilha prpria para o estudo e a pesquisa,
entregamos a vocs, professores e estudantes do Paran, este material de
ensino-aprendizagem, para suas consultas, reflexes e formao contnua.
Comemoramos com vocs esta feliz e acertada realizao, propondo,
com este Livro Didtico Pblico, a socializao do conhecimento e dos
saberes.

Apropriem-se deste livro pblico, transformem e multipliquem as suas
leituras.



                    Mauricio Requio de Mello e Silva
                     Secretrio de Estado da Educao
z Aos Estudantes
                           Agir no sentido mais geral do termo significa tomar
                      iniciativa, iniciar, imprimir movimento a alguma coisa. Por
                      constiturem um initium, por serem recm-chegados e ini-
                      ciadores, em virtude do fato de terem nascido, os homens
                      tomam iniciativa, so impelidos a agir. (...) O fato de que o
                      homem  capaz de agir significa que se pode esperar de-
                      le o inesperado, que ele  capaz de realizar o infinitamente
                      improvvel. E isto, por sua vez, s  possvel porque cada
                      homem  singular, de sorte que, a cada nascimento, vem
                      ao mundo algo singularmente novo. Desse algum que 
                      singular pode-se dizer, com certeza, que antes dele no
                      havia ningum. Se a ao, como incio, corresponde ao fa-
                      to do nascimento, se  a efetivao da condio humana
                      da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distino
                      e  a efetivao da condio humana da pluralidade, isto
                      , do viver como ser distinto e singular entre iguais.


                                                                  Hannah Arendt
                                                             A condio humana



   Este  o seu livro didtico pblico. Ele participar de sua trajetria pelo
Ensino Mdio e dever ser um importante recurso para a sua formao.

    Se fosse apenas um simples livro j seria valioso, pois, os livros re-
gistram e perpetuam nossas conquistas, conhecimentos, descobertas, so-
nhos. Os livros, documentam as mudanas histricas, so arquivos dos
acertos e dos erros, materializam palavras em textos que exprimem, ques-
tionam e projetam a prpria humanidade.
   Mas este  um livro didtico e isto o caracteriza como um livro de en-
sinar e aprender. Pelo menos esta  a idia mais comum que se tem a res-
peito de um livro didtico. Porm, este livro  diferente. Ele foi escrito a
partir de um conceito inovador de ensinar e de aprender. Com ele, como
apoio didtico, seu professor e voc faro muito mais do que "seguir o li-
vro". Vocs ultrapassaro o livro. Sero convidados a interagir com ele e
desafiados a estudar alm do que ele traz em suas pginas.

    Neste livro h uma preocupao em escrever textos que valorizem o
conhecimento cientfico, filosfico e artstico, bem como a dimenso his-
trica das disciplinas de maneira contextualizada, ou seja, numa lingua-
gem que aproxime esses saberes da sua realidade.  um livro diferente
porque no tem a pretenso de esgotar contedos, mas discutir a realida-
de em diferentes perspectivas de anlise; no quer apresentar dogmas,
mas questionar para compreender. Alm disso, os contedos abordados
so alguns recortes possveis dos contedos mais amplos que estruturam
e identificam as disciplinas escolares. O conjunto desses elementos que
constituem o processo de escrita deste livro denomina cada um dos tex-
tos que o compem de "Folhas".

    Em cada Folhas vocs, estudantes, e seus professores podero cons-
truir, reconstruir e atualizar conhecimentos das disciplinas e, nas veredas
das outras disciplinas, entender melhor os contedos sobre os quais se
debruam em cada momento do aprendizado. Essa relao entre as dis-
ciplinas, que est em aprimoramento, assim como deve ser todo o pro-
cesso de conhecimento, mostra que os saberes especficos de cada uma
delas se aproximam, e navegam por todas, ainda que com concepes e
recortes diferentes.
    Outro aspecto diferenciador deste livro  a presena, ao longo do tex-
to, de atividades que configuram a construo do conhecimento por meio
do dilogo e da pesquisa, rompendo com a tradio de separar o espao
de aprendizado do espao de fixao que, alis, raramente  um espao de
discusso, pois, estando separado do discurso, desarticula o pensamento.

    Este livro tambm  diferente porque seu processo de elaborao e
distribuio foi concretizado integralmente na esfera pblica: os Folhas
que o compem foram escritos por professores da rede estadual de en-
sino, que trabalharam em interao constante com os professores do De-
partamento de Ensino Mdio, que tambm escreveram Folhas para o li-
vro, e com a consultoria dos professores da rede de ensino superior que
acreditaram nesse projeto.

    Agora o livro est pronto. Voc o tem nas mos e ele  prova do valor
e da capacidade de realizao de uma poltica comprometida com o p-
blico. Use-o com intensidade, participe, procure respostas e arrisque-se a
elaborar novas perguntas.

   A qualidade de sua formao comea a, na sua sala de aula, no traba-
lho coletivo que envolve voc, seus colegas e seus professores.
Sumrio
    1 Arte: Quem tem uma explicao? ..................................................11
     2 Afinal: a arte tem valor? ................................................................24
     3 Voc suporta Arte? .....................................................................42
    4 Esses fazedores de Arte: loucos
             sonhadores ou criadores irreverentes? .............................................64

     5 A arte  para todos? ...................................................................82
      
     6 Imagine som ..............................................................................98
    7 Cores, cores... e mais cores? ....................................................112
      
     8 Arte: Iluso ou realidade? ...........................................................126
     9 Teatro para qu? ......................................................................142
    10 O som nosso de cada dia ..........................................................156
   11 O Jogo e o Teatro ....................................................................172
   12 No peito dos desafinados tambm bate um corao ........................188
   13 Acertando o Passo ....................................................................200
   14 Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida .......................................216
   15 Arte do Paran ou Arte no Paran? ..............................................234
   16 Msica e Msicas .....................................................................256
   17 Uma Luz na Histria da Arte ........................................................272
   18 Afastem as carteiras, o Teatro chegou! ..........................................288
   19 Quem no dana, dana! ...........................................................302
   20 Como fazer a cobra subir? ..........................................................322
       Ensino Mdio




10   Introduo
                                                                                        Arte




                                                                       1
     ARTE: QUEM TEM
    UMA EXPLICAO?
                        n Carlos Alberto de Paula1, Marcelo Cabarro Santos2,
                Marcelo Galvan Leite3, Maysa Nara Eisenbach4, Viviane Paduim5,
                             Sonia Maria Furlan Sossai6, Tania Regina Rossetto7

                      evemos buscar sempre uma expli-
                        cao, quando estamos em conta-
                         to com uma obra de arte? A arte
                         precisa de uma explicao? Afinal,
                         quando voc est diante de uma
                        obra de arte, muitas vezes voc no
                      questiona: "O que  arte?" ou "O que
                  no  arte?"
Muitas vezes ouvimos falar em vrios termos como: Bienal,
Barroco, Rococ, Art-nouveau... Voc os conhece? O que
eles representam para a arte?
Alguns desses termos aparecem na msica Bienal, de auto-
ria dos compositores e cantores Zeca Baleiro e Z Ramalho.
Vamos ouvir a msica, se possvel, e analisar a letra.




                                1
                                 Colgio Estadual Lysimaco Ferreira da Costa - Curitiba - PR
                                2
                                 Colgio Estadual Frei Beda Maria - Itaperuu - PR
                                3
                                 Colgio Estadual Dr. Willie Davids - Maring - PR
                                4
                                 Colgio Estadual Campos Sales - Campina Grande do Sul - PR
                                5
                                 Colgio Estadual Natlia Reginato - Curitiba - PR
                                6
                                 Colgio Estadual Douradina - Douradina - PR
                                7
                                 Colgio Estadual Padre Manuel da Nbrega - Umuarama - PR

                                             Arte: Quem tem uma explicao?                    11
       Ensino Mdio


                             Bienal(lbum:VImbol)ZecaBaleiroeZRamalho.

                             Desmaterializando a obra de arte no fim do milnio
                               Fao um quadro com molculas de hidrognio
                                  Fios de pentelho de um velho armnio
                             Cuspe de mosca, po dormido, asa de barata torta

                                      Meu conceito parece  primeira vista
                                   Um barrococ figurativo neo-expressionista
                                   Com pitadas de art-nouveau ps-surrealista
                                   Calcado na revalorizao da natureza morta

                                    Minha me certa vez, disse-me um dia
                                    Vendo minha obra exposta na galeria
                                 Meu filho isso  mais estranho que o cu da jia
                                 E muito mais feio que um hipoptamo insone

                                    Pra entender um trabalho to moderno
                                        preciso ler o segundo caderno
                                        Calcular o produto bruto interno
                           Multiplicar pelo valor das contas de gua luz e telefone
                                        Rodopiando na fria do ciclone
                                          Reinvento o cu e o inferno

                                     Minha me no entendeu o subtexto
                                 Da arte desmaterializada no presente contexto
                                          Reciclando o lixo l do cesto
                                    Chego a um resultado esttico bacana

                                        Com a graa de Deus e Basquiat
                                       Nova Iorque me espere que eu vou j
                                          Picharei com dend de vatap
                                             Uma psicodlica baiana

                                           Misturarei anguas de viva
                                       Com tampinhas de Pepsi e Fanta Uva
                                       Um penico com gua da ltima chuva
                                         Ampolas de injeo de penicilina

                                           Desmaterializando a matria
                                          Com a arte pulsando na artria
                                           Boto fogo no gelo da Sibria
                                          Fao at cair neve em Teresina
                                          Com o claro do raio da Silibrina
                                          Desintegro o poder da bactria
                                          Com o claro do raio da Silibrina
                                          Desintegro o poder da bactria


                      n Zeca Baleiro. Fonte: <http://cifraclub.terra.com.br/cifras/cifras.php?idcifra=6072>
                        acesso em 30/10/2005




12   Introduo
                                                                                                    Arte

    Voc, algum dia j se sentiu como essa me que  citada na msi-
ca? J ouviu falar em barrococ, figurativo, neo-expressionista, rodo-
pio, art-nouveau, subtexto, ps-surrealista, psicodlica, natureza mor-
ta, pulsao? Voc sabe quem  Basquiat?
    Por trs de cada um desses termos, vislumbramos uma srie de
contedos da Arte. Na sua opinio, o que  "um resultado esttico ba-
cana"? Justifique sua escolha.
    Vamos tentar compreender um pouco disso comeando por anali-
sar o prprio ttulo da msica: Bienal. Mas, o que significa Bienal?


z Bienal
      "Exposio internacional de arte montada a cada dois anos e julgada por
um comit internacional. A primeira e mais famosa bienal foi a de Veneza, ins-
tituda em 1895 com o nome de "Exposio Internacional de Arte da Cidade
de Veneza" e que pretendia representar "as mais notveis atividades do espri-
to moderno, sem distino de nacionalidade". A esta Bienal acorreram artistas
de 16 pases, e o comit incluiu individualidades to clebres quanto Burne-
Jones, Israls, Libermann, Gustave Moreaux e Puvis de Chavannes. A expo-
sio logo adquiriu prestgio mundial, e quando foi montada, aps a Segunda
Guerra Mundial, em 1948, tornou-se uma espcie de ponto de encontro da
vanguarda internacional. Henri Moore, por exemplo, consolidou sua reputao
quando recebeu em 1948 o prmio Internacional de Escultura. Outras Bienais
foram inauguradas segundo o modelo de Veneza; dessas, as mais prestigio-
sas so a de So Paulo, fundada em 1951, e a de Paris, fundada em 1959".
(CHILVERS, 1996, p.61)


    Bienal  um evento  completo e complexo tambm  que pode
envolver diversas modalidades artsticas, na qual podem ser expostas
obras de Artes Visuais, Audiovisuais, Teatro e Dana (a Performance 
um exemplo). Assumindo formato prximo ao das bienais, h tambm
as exposies em Sales de Arte. Por exemplo: o Salo de Arte Parana-
ense, que ocorre uma vez por ano, atualmente no Museu de Arte Con-
tempornea, em Curitiba.
    Enquanto os Sales so momentos de apresentao da produo
mais recente dos artistas, as bienais so eventos responsveis por pro-
jetar obras inusitadas, pouco conhecidas e por refletir as tendncias
mais marcantes no cenrio artstico global.
    Por isso, quem imagina que nesses eventos encontrar apenas obras
consideradas pelo senso comum como "bonitas", e que podem ser co-
locadas nas paredes como simples objetos decorativos, est muito en-
ganado. Leia o quadro a seguir e analise o que Cristina Costa escre-
veu sobre isto:



                                                                        Arte: Quem tem uma explicao?     13
       Ensino Mdio


                           "Muitos falam em arte referindo-se s obras consagradas que esto em
                       museus, s msicas eruditas apresentadas em grandes espetculos ou
                       ainda aos monumentos existentes no mundo. Alguns consideram arte ape-
                       nas o que  feito por artistas consagrados, enquanto outros julgam ser arte
                       tambm as manifestaes de cultura popular, como os romances de cor-
                       del, to comuns no Nordeste do Brasil. Para muitos, as manifestaes de
                       cultura de massa, como o cinema e a fotografia, no so arte, ao passo
                       que outros j admitem o valor artstico dessas produes, ou pelo menos
                       de parte delas. No so poucos os que, mesmo diante das obras expos-
                       tas em eventos artsticos famosos, sentem-se confusos a respeito do que
                       vem". (COSTA, 1999, p. 07)

                          Ento, aps ter refletido sobre a citao acima, a qual concluso vo-
                      c chegou? Uma obra de arte, para ter qualidade, tem que ser necessa-
                      riamente bonita? Por qu?
                          Alm do termo Bienal, e retomando outros da msica de Zeca Ba-
                      leiro, voc sabia que "Barrococ"  nada mais, nada menos do que a
                      juno do nome de dois movimentos e perodos da Histria da arte de-
                      nominados: Barroco e Rococ?
                          Talvez voc j tenha ouvido algo semelhante a isto: "A grade da ja-
                      nela de minha casa  cheia de rococs". O que so estes "rococs"? De
                      onde vm estes termos?
                          A arte est presente no nosso dia-a-dia, faz parte de nossa vida e
                      s vezes nem a percebemos. Por qu? As aulas de arte possibilitariam
                      uma melhor compreenso dessas e de outras questes?



                      z Afinal o que  arte?
                          A arte, como veremos a seguir, tem sido definida de diferentes for-
                      mas, sendo que nenhuma delas chegou a esgotar o seu contedo ou
                      significado.
                          Arte, para JANSON (1993, pg. 11), , em primeiro lugar, uma palavra
                      que pode significar tanto o conceito de arte como a existncia do ob-
                      jeto arte.
                          Para KOSIK (2002) a arte  parte integrante da realidade social,  ele-
                      mento de estrutura de tal sociedade e expresso da prtica social e es-
                      piritual do homem.
                          J para MERLEAU-PONTY (1980), a arte no  traduo do mundo,
                      mas a instalao de um mundo. "A expresso no pode ser ento a tra-
                      duo de um pensamento j claro, pois que os pensamentos claros so
                      os que j foram ditos em ns ou pelos outros".



14   Introduo
                                                                                                     Arte

   Alguns artistas tambm tentaram definir um conceito para a arte,
conhea alguns:
   "Ser Arte tudo o que eu disser que  Arte" (Marcel Duchamp).
   "A Arte  uma mentira que nos permite dizer a verdade" (Pablo Picasso).
   "A Arte no reproduz o visvel, torna visvel" (Paul Klee).
   "A Arte no tem nada a ver com o gosto, no h nada que o prove"
(Marx Ernst).
    "A beleza perece na vida, porm na Arte  imortal" (Leonardo Da Vinci).
    "A fantasia, isolada da razo, s produz monstros impossveis. Unida a
ela, ao contrrio,  a me da Arte e fonte de seus desejos" (Francisco de Goya).
    "Enquanto a cincia tranqiliza, a Arte perturba" (George Braque).
    "Se eu pinto meu cachorro exatamente como , naturalmente terei
dois cachorros, mas no uma obra de arte" (Johann Wolfgang Von Goethe).
    A partir de tantas reflexes sobre o que  arte, surge a necessida-
de de se compreender, o perodo, os movimentos e o contexto em
que estavam alguns desses autores para compreendermos o real sen-
tido das suas definies para a Arte. Porm, nosso objetivo  chamar
sua ateno para o seguinte fato: h muito tempo se discute o sentido
da arte, sem que se chegue, porm, a um nico significado, cabvel a
qualquer cultura em qualquer poca.
    E voc, como definiria arte?


z Por que estudar arte?
   Alm de situar historicamente a produo artstica, compreenden-
do-a no contexto em que est inserida,  preciso destacar as razes
que nos levam a estud-la.

        "Habitamos um mundo que vem trocando sua paisagem natural por um
   cenrio criado pelo homem, pelo qual circulam pessoas, produtos, informa-
   es e principalmente imagens. Se temos que conviver diariamente com
   essa produo infinita, melhor ser aprendermos a avaliar esta paisagem,
   sua funo, sua forma e seu contedo, o que exige o uso de nossa sensi-
   bilidade esttica. S assim poderemos deixar de ser observadores passi-
   vos para nos tornarmos espectadores crticos, participantes e exigentes."
   (COSTA, 1999, p. 09)


    Pela arte, ento, o ser humano torna-se consciente da sua existn-
cia individual e social, ele se percebe e se interroga, sendo levado a in-
terpretar o mundo e a si mesmo.
    E nas aulas de Arte, como estas questes sero abordadas e desen-
volvidas?



                                                                         Arte: Quem tem uma explicao?     15
       Ensino Mdio

                         Na disciplina de Arte, trabalharemos com:
                      l Os conhecimentos que foram historicamente construdos, bem como
                         o conhecimento que trazemos conosco, sendo este um momento
                         em que a racionalidade opera de forma mais intensa.
                      l Percepo e apropriao, isto , a familiarizao com as diversas for-
                         mas de produo artstica.
                      l O trabalho artstico, o fazer, que  o momento do exerccio da imagi-
                         nao e criao, sendo este o instante no qual a sensibilidade ope-
                         ra de forma mais intensa.
                          O acesso que temos  arte e ao seu conhecimento possibilita tor-
                      narmo-nos mais crticos e conscientes em relao ao mundo, pois pas-
                      samos a compreend-la e a perceb-la, no s como parte da realida-
                      de humano-social, mas como algo que transcende essa realidade.
                         A arte no implica em dom inato, como muitos pensam, mas pres-
                      supe o contato do ser humano com seu meio, com a experincia e o
                      conhecimento que ele  capaz de adquirir por meio de suas prprias
                      experincias e/ou cientificamente.
                         "A arte no vive num puro terreno da afetividade imediata. Ela re-
                      quer, para o criador como para o consumidor, a posse de um certo n-
                      mero de ferramentas intelectuais e tcnicas que nenhuma espontanei-
                      dade permite dispensar." (PORCHER, 1982, p. 22)
                         Para isso, nas aulas de Arte voc perceber que teoria e prtica ca-
                      minharo juntas, pois o objetivo de seu estudo no se restringe ao do-
                      mnio dos fazeres artsticos, mas tambm da compreenso dos con-
                      tedos necessrios  sua apreciao e expresso, isto  "(...) a Arte
                      envolve um processo racional pois, embora normalmente as pessoas
                      no pensem desta forma, a razo  necessria  emoo artstica." (POR-
                      CHER, 1982, p. 22)
                         Isso significa que precisamos conhecer para analisar e apreciar a
                      Arte, superando uma viso restrita ao gosto pessoal. Cabe ento, des-
                      tacar os contedos estruturantes que sero estudados nestes trs lti-
                      mos anos da educao bsica. So eles:
                      l Elementos Formais (linha, cor, timbre, altura, durao, ao, persona-
                         gem, movimento corporal...).
                      l Composio (figurativa, tridimensional, harmonia, enredo, coreogra-
                         fia...)
                      l Movimentos e Perodos (medieval, barroco, romantismo, vanguardas
                         artsticas...).




16   Introduo
                                                                                             Arte

z Os Contedos Estruturantes
   Para podermos compreender o sentido da arte em nossa vida, tan-
to no presente quanto no passado, precisamos ter conhecimento dos
saberes que se constituem fundamentais  formao dos sentidos hu-
manos.
   Estes saberes, contedos estruturantes, da disciplina de Arte, podem
ser comparados  construo de uma moradia. Por exemplo: quando
construmos um edifcio ou algum tipo de residncia, necessitamos de
elementos basilares, fundamentais para termos a sustentao: a funda-
o, o piso, as paredes e o teto.
   Observe que no projeto da casa a seguir, podemos identificar cada
uma dessas partes, bem como nas construes da oca e do iglu:




n Oca
                                      n Planta baixa



                                                                          n Iglu
    No caso da Arte, estes elementos basilares e fundamentais so os
contedos estruturantes: os elementos formais, a composio, os movi-
mentos ou perodos e, perpassando a todos estes, a relao do tempo e
espao. Analise a comparao que fizemos entre os contedos estru-
turantes e as construes: nelas so usados os mais diversos tipos de
materiais. De forma semelhante, ocorre na "construo artstica", isto
, no fazer arte. Este  o momento que utilizamos os elementos formais,
como matria-prima, que com os conhecimentos e prticas da compo-
sio artstica (contedos, tcnicas) organizam e constituem a obra de
arte. No caso do edifcio ou de outras moradias, este trabalho de com-
posio tambm organiza e constri a obra final. Cada obra tem di-
menses, formas, cores, enfim, uma estrutura que se difere das outras.
Alm disso, dependendo da poca e do lugar em que foram feitas, ca-
da uma, apresenta resultado diferente de acordo com o movimento ou
perodo, isto , dos fatos histricos, econmicos, culturais ou sociais




                                                                 Arte: Quem tem uma explicao?     17
           Ensino Mdio

     envolvidos naquele momento. Ainda dever ser considerado, para este construir e fazer, a com-
     preenso do espao e tempo envolvidos no momento desses fazeres.
        Observe as imagens a seguir:




                                                                               n Museu Oscar Niemeyer em Curitiba  Paran  Foto: Icone Audiovisual




                                                                                    Essas obras foram produzidas num mesmo
                                                                                momento histrico? Por qu? Os elementos for-
                                                                                mais utilizados so os mesmos? Foram trabalha-
                                                                                dos e organizados da mesma forma?
                                                                                     O conhecimento desses contedos nos per-
                                                                                mitir compreender um pouco da complexidade
                                                                                da Arte. E por ser uma atividade complexa, apren-
                                                                                der, conhecer e fazer Arte exige de ns muita pes-
                                                                                quisa, concentrao, criatividade, entre outros.
     n VAN EYCK, Casal Arnolfini, 1434 leo sobre tela, 82x59,5 cm; National
       Gallery, Londres.


                                            z O Livro Didtico Pblico
                                                Saiba que o livro no  o nico instrumento de trabalho em sala
                                            de aula. Pelo contrrio, nossa proposta  que ele leve voc a pesqui-
                                            sar outros materiais, no s bibliogrficos, como tambm filmes, cds,
                                            internet, peas teatrais, shows, apresentaes de dana e folclricas,
                                            concertos musicais,... estimulando a curiosidade e a necessidade de
                                            pesquisa e freqncia em Arte.
                                                Quer saber quais sero os contedos abordados? Nos prximos par-
                                            grafos conhea o panorama geral do que  tratado neste livro.
                                                No Folhas 02 "Afinal, a arte tem valor?" procuramos esclarecer so-
                                            bre o valor que as pessoas atribuem a determinadas obras de arte, e
                                            a outras no, e o porqu disso. Com o conhecimento de diversas pro-
                                            dues artsticas, buscaremos ampliar o nosso olhar para alm das


18     Introduo
                                                                                               Arte

aparncias ou do senso comum. Nosso ponto de partida  o seguinte
questionamento: qual  a reao da maioria das pessoas diante de uma
obra de arte "moderna"?
    No Folhas 03 "Voc suporta Arte?" por meio da ambigidade dessa
frase, procuramos chamar a ateno para duas facetas do termo supor-
tar: de um lado, se voc gosta de Arte, j que  comum em sala de au-
la, a expresso: "no suporto Arte!" e, de outro, se o corpo serve tam-
bm de suporte artstico.
    Com esta indagao estamos propondo algumas reflexes sobre o
uso de diversos suportes, como a parede, o corpo, a tela ou o supor-
te digital nas Artes Visuais. Passaremos pela Pr-histria, Egito, Idade
Mdia, entre outros, at a contemporaneidade. Procuraremos discutir a
importncia do suporte no resultado esttico da obra de arte.
    No Folhas 04 "Esses fazedores de arte: loucos/sonhadores ou cria-
tivos/irreverentes?", problematizamos o modo como a grande maio-
ria das pessoas v o artista. Tomamos como objeto de estudo o Movi-
mento Surrealista no qual os artistas no foram muito compreendidos
pela sociedade, pois expressaram o inconsciente, transformando seus
sonhos e pensamentos em Arte. Entender os Surrealistas e a sua influ-
ncia na Arte do sculo XX nos far compreender o ser humano sob
uma viso mais ampla.
    Ao longo do Folhas 05 "A arte  para todos?", propomos os seguin-
tes questionamentos: O que  arte? O que  Arte Popular? Nosso ob-
jetivo  que voc compreenda que a Arte  feita para todos, mas nem
todos tm acesso  produo artstica. Mostramos quais artistas fizeram
parte da Arte Pop, seus trabalhos, suas tcnicas, isso para que voc te-
nha diferentes referncias em relao s formas de fazer Arte.
    A relao entre as Artes Visuais e a Msica  abordada no Folhas 06
"Imagine Som!" Alis, a antiga unio desses dois sentidos, a viso e a au-
dio, intensificou-se no sculo XX, aliadas aos ltimos avanos tecnol-
gicos.
    O Teatro, a pera, o Cinema, as trilhas sonoras, a televiso e de-
mais formas digitais como celulares, vdeo-games, DVD's, entre outros,
expressam a integrao das imagens e dos sons.
    Durante o Folhas 07 "Cores, cores e... mais cores?" abordamos a
questo da cor e da luz de forma instigante, com muitas provocaes
que o levaro a refletir sobre a presena e o uso das cores no nosso
dia-a-dia, bem como, artistas que se preocuparam com a relao das
cores em suas obras.
    No Folhas 08 "Arte: iluso ou realidade?" colocamos frente a frente o
que parece ser ilusrio e o que parece ser real. Aparentemente no h
como separar o real do ilusrio, no entanto,  possvel a arte represen-
tar a realidade a partir da iluso? Ao discutirmos essa questo veremos
que as duas coisas, muitas vezes, se confundem. Tanto na arte quanto


                                                                   Arte: Quem tem uma explicao?     19
       Ensino Mdio

                      na vida, nossos olhos podem ser enganados. Na arte o que  propos-
                      to pelo artista pode possibilitar o acesso a outros mundos, fazendo-nos
                      pensar: em que momento a iluso permeia a criao artstica? E na vi-
                      da, a iluso  algo positivo ou no?
                          No Folhas 09 "Teatro para qu?", voc ver que fazer teatro pode ser
                      muito prazeroso e divertido, mas ser que a sua nica funo  nos di-
                      vertir? E o teatro ritual, religioso, crtico, social e poltico, que funes
                      teriam? Numa viagem pela histria, vamos conhecer um pouco mais
                      sobre o surgimento e as diferentes funes que o Teatro adquiriu ao
                      longo de sua existncia para, ento, sabermos qual  a sua funo ou
                      suas funes atualmente. Afinal de contas, teatro serve para qu?
                          Para a compreenso da paisagem sonora cotidiana e dos sons uti-
                      lizados na msica contempornea, no Folhas 10 "O som nosso de ca-
                      da dia" abordamos o som e suas caractersticas fsicas. Trabalharemos
                      com o timbre, a intensidade, a altura, a densidade e a durao, que so
                      os elementos formais da msica. Alm disso, as alturas meldicas, as
                      duraes rtmicas, as variaes de timbres, a densidade harmnica e a
                      intensidade sonora relacionadas entre si, e tendo como base o tempo,
                      criam infinitas possibilidades de fazer Msica.
                          No Folhas 11 "O jogo no Teatro", partimos de questes importantes e
                      reflexivas que podem surgir na sala de aula, como: Podemos aprender
                      jogando? O que jogo e teatro tm em comum? Discutiremos neste cap-
                      tulo como organizar uma representao teatral a partir dos elementos
                      constitutivos do Teatro: a personagem, a ao e o espao cnico.
                          Jogar  descobrir, alis, quando jogamos podemos saber muito mais
                      sobre ns mesmos e sobre os outros. Voc perceber o que o jogo e o
                      Teatro tm em comum, lendo e desenvolvendo este Folhas.
                          A partir do uso do viodeok no Folhas 12 "No peito dos desafina-
                      dos tambm bate um corao" estaremos conversando sobre o som e
                      suas propriedades e sobre os nossos sentidos que possibilitam sua per-
                      cepo.
                          No Folhas 13 "Acertando o Passo" veremos que a msica e a dana
                      so geralmente associadas uma a outra, mas qual  a relao entre elas?
                      Neste captulo, propomos uma reflexo sobre os elementos formais da
                      Dana: o corpo, o espao e o tempo. O corpo, na Dana,  ao mesmo
                      tempo instrumento e meio de expresso artstica, e o espao e o tempo,
                      o que seriam? O desafio est lanado: quer acertar o passo e as idias?
                          No Folhas 14 "Arte brasileira: uma ilustre desconhecida", tentaremos
                      explicitar a trajetria da arte brasileira em busca de autonomia e inde-
                      pendncia artstica. Nos prembulos desse percurso vamos nos depa-
                      rar com a Semana de Arte Moderna de 1922, uma das mais importan-
                      tes iniciativas para firmar uma Arte Moderna no Brasil.
                          A partir de reflexes sobre a Semana de 1922, queremos saber:
                      existe uma Arte Brasileira? Sim, sabemos que existe. Mas ela  conhe-
                      cida pelos brasileiros?

20   Introduo
                                                                                              Arte

    J no caso da Arte Paranaense, que tambm  brasileira, sabemos
que boa parte dos expoentes no so naturais do estado do Paran,
por isso iniciamos o Folhas 15 com o questionamento: "Arte do Para-
n ou Arte no Paran?" Independentemente da resposta, o objetivo do
texto ser o de destacar alguns momentos significativos da Histria das
Artes Visuais no Paran desde as suas primeiras manifestaes at a
atualidade.
    No Folhas 16 "Msica e msicas" nosso objetivo  faz-lo(a) refletir
sobre as diversas maneiras de se fazer msica, assim como os instrumen-
tos musicais criados e utilizados nas composies. Problematizamos o
que  considerado "desagradvel" ou agradvel para os nossos ouvidos.
Evidenciamos que, dependendo do lugar e da poca, as formas musi-
cais assumem caractersticas diferentes e nem por isso so melhores ou
piores do que as msicas de outros tempos e espaos.
    No Folhas 17 "Uma luz na Histria da Arte", trataremos dos aspec-
tos fsicos da cor e como acontece o processo da viso humana. Nos-
so objetivo  que voc compreenda como se d a mistura de tinta ou
de luz e quais resultados visuais so possveis obter nas composies.
Voc ver que o uso da cor no se deu de forma homognea em to-
dos os perodos artsticos, por isso optamos por relacionar trs pero-
dos em que os artistas utilizaram-na de forma diferente: no Barroco, no
Fauvismo e no Impressionismo.
    No Folhas 18, onde a problematizao : "Afastem as carteiras, o Te-
atro chegou", abordaremos sobre as dificuldades em se organizar uma
representao teatral devido ao espao a ocupar. O teatro tem lugar
certo para acontecer? Sendo assim, neste captulo, destacamos um dos
elementos formais do teatro, o espao cnico, e propomos uma discus-
so sobre as possibilidades do espao onde fazemos teatro. Tambm
abordamos o que  cenografia e cenrio, sem esquecer de relacionar
as tcnicas de encenao com o espao teatral.
    No Folhas 19, "Quem no dana, dana!", abordamos a Dana co-
mo linguagem corporal, ressaltando que por meio dela, o ser humano
pode expressar-se usando diferentes possibilidades e combinaes de
movimentos corporais.
    Existem muitas danas, pertencentes a diversos gneros, por isso,
neste Folhas, trabalharemos com algumas delas. Voc conhecer co-
mo homens e mulheres de vrias pocas e lugares elaboraram mo-
vimentos, usaram determinado espao fsico e ritmos para expressar
sentimentos, questionamentos, emoes, desejos, tanto para o pblico
apreciar como por simples prazer.
    O Folhas 20, "Como fazer a cobra subir?", tratar da msica no Orien-
te e no Ocidente, de sua constituio e organizao, suas diferenas e
semelhanas e de sua presena na msica que ouvimos atualmente.
    Voc perceber que alguns contedos so apresentados em mais
de um captulo, mas no se preocupe, porque eles so enfocados e

                                                                  Arte: Quem tem uma explicao?     21
        Ensino Mdio

                              abordados de maneiras diversas. Voc ter a escolha, por exemplo, de
                              iniciar pelo captulo n 07, que aborda o uso das cores no nosso dia-
                              a-dia e nas obras de arte, ou pelos elementos fsicos da cor nos movi-
                              mentos e perodos, tratados no n 17. O mesmo ocorre com o captu-
                              lo 10 e 12, onde um aborda os elementos formais em relao ao som
                              e a msica e o outro trata desses elementos numa perspectiva da pai-
                              sagem sonora, respectivamente.
                                  A organizao dos contedos apresentados no sumrio foi pensada
                              de maneira a intercalar as 4 reas de arte e a articulao entre os conte-
                              dos, mas voc e o seu professor tem a liberdade de escolher o que se-
                              ja coerente para a sua realidade ou  proposta pedaggica da escola.
                                  E para voc, depois deste panorama geral sobre os captulos do Li-
                              vro Didtico Pblico, quais so as expectativas? Quer descobrir se a ar-
                              te tem explicao? O que pode ser mais feio que um hipoptamo in-
                              sone? Ou se voc suporta arte? Ento vamos l, o livro est em suas
                              mos!
                                  Nossa expectativa  de que ele realmente se constitua num mate-
                              rial de apoio para as aulas de Arte. E que voc, estudante, faa uso de-
                              le com o mesmo entusiasmo com que ele foi produzido.



     z Referncias
        CHAUI, M. Convite  Filosofia. 6 ed. SP: Editora tica, 1995.
        CHILVERS, I. Dicionrio Oxford de Arte. So Paulo: Martins Fontes, 1996.
        COSTA, C. Questes de Arte: a natureza do belo, da percepo e do prazer esttico. So Paulo: Edi-
        tora Moderna, 1999.
        JANSON, H. W. Histria Geral da Arte: o Mundo Antigo e a Idade Mdia. So Paulo: Martins Fon-
        tes, 1993.
        KOSIK, K. Dialtica do Concreto. 2 ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.
        MERLEAU-PONTY, M. A dvida de Czanne. in: Os Pensadores. So Paulo: Abril Cultural, 1980.
        PARAN. Secretaria de Estado da Educao. Departamento de Educao Bsica. Diretrizes curricu-
        lares de Arte para a Educao Bsica. Curitiba: SEED/DEB, 2007.
        PORCHER, L. Educao Artstica: luxo ou necessidade? 3 ed. So Paulo: Summus, 1982.
        VYGOTSKY, L. S. Psicologia da Arte. So Paulo: Martins Fontes, 1999.


     z Documentos consultados ONLINE
        www.inmetro.gov.br. Acesso em: 26 de Set.2004
        www.opuslibros.org. Acesso em: 26 de Set.2004



22    Introduo
                                           Arte



   ANOTAES




               Arte: Quem tem uma explicao?     23
       Ensino Mdio




24   Composio
                                                                                                      Arte




                                                                                          2
                                                           AFINAL, A ARTE
                                                             TEM VALOR?           <Tania Regina Rossetto1



                                                                          m uma aula de Arte, quan-
                                                                          do discutamos o valor da
                                                                          Arte Moderna, um estu-
                                                                          dante do Ensino Mdio
                                                                          afirmou: "Se eu pudesse
                                                            juntaria todas essas obras de Arte e fa-
                                                            ria uma grande fogueira, pois para mim
                                                            elas no tm valor algum". E para voc,
                                                            a Arte denominada de "Moderna" tem
                                                            valor? Qual  esse valor?




1
 Colgio Estadual Padre Manuel da Nbrega - Umuarma - PR


                                                                                Afinal, a arte tem valor?    25
       Ensino Mdio

                      z Um pouco de Arte
                          So tantos os acontecimentos que a vida parece passar diante dos
                      nossos olhos to rapidamente que, alm de nos deixar atordoados,
                      deixa-nos tambm sem tempo para pensar. Por exemplo, voc tem o
                      costume de olhar para o cu? Ou acha que isso  perda de tempo? Sa-
                      be quando  lua cheia, ainda conta estrelas e procura figuras nas nu-
                      vens? Ou isso  coisa de criana ou de quem no tem o que fazer?
                          Agora, se voc prestar ateno nos programas de TV ver que a
                      maioria aborda assuntos relacionados a catstrofes, escndalos polticos,
                      rebelies, mortes, seqestros, trfico, pobreza, violncia! Fatos do coti-
                      diano que nos causam medo e nos paralisam.
                          Enfim, diante desse cenrio fica difcil falar de arte. Como falar s
                      pessoas que cantem, que dancem ou que se maravilhem com o pr-
                      do-sol? Que se emocionem com o cantar dos pssaros, que vejam a be-
                      leza das flores e que pensem nos sonhos da infncia?
                          Pois , diante dessa realidade conturbada, pode parecer loucura fa-
                      lar de Arte. Alis, se vemos a arte como beleza, podemos nos pergun-
                      tar: qual arte algum  capaz de produzir diante desse quadro de hor-
                      rores? Qual beleza  possvel representar? Mas, ser que os artistas s
                      representam coisas belas em suas pinturas?
                          Observe, por exemplo, O Grito, de Edvard Munch.

                                                         O Artista:
                                                        Edvard Munch nasceu em 1863 e morreu
                                                    em 1944. "No devemos pintar interiores com
                                                    pessoas lendo e mulheres tricotando; deve-
                                                    mos pintar pessoas que vivem, respiram, so-
                                                    frem e amam". Dessa forma Munch retratava o
                                                    ser humano, vendo-os por dentro, represen-
                                                    tando seus sentimentos, propondo cenas de
                                                    medo e angstia. Sofria com crises nervosas
                                                    e depresso, mas isso no o impediu de se
                                                    tornar um artista genial.


                                                     Voc sabia que O Grito foi queimado em sinal de protes-
                                                    to? Munch pintou vrias verses para a mesma obra. O
                                                    Grito tem nada mais nada menos do que 50 verses.




                                                   < EDVARD MUNCH. O Grito, 1895. leo sobre carto, 91x73,5 cm.
                                                     Galeria Nacional, Oslo, Noruega.


26   Composio
                                                                                                Arte

    O que significa essa expresso, deformada pelo desespero, do per-
sonagem do centro que parece levar o eco do grito a todos os cantos?
O que ele pode estar gritando? E voc j gritou desesperadamente? Por
qu? Sua expresso de alguma forma se assemelhou  expresso do
Grito de Munch? Gritamos apenas por desespero ou existem outras si-
tuaes que nos fazem gritar?
    Nessa obra de Munch podemos quase tocar o medo com as nossas
mos ou sent-lo na prpria pele. Nesse quadro vemos uma das maio-
res representaes do medo humano. Por isso, essa imagem j foi uti-
lizada em campanhas anti-aborto, em camisetas, anncios e psteres
sempre com o intuito de despertar uma reflexo sobre o verdadeiro
valor da vida.
    Realmente, essa obra mexe com nossos sentimentos, mas, por
qu?
    Primeiro somos levados pelo movimento das linhas, das cores vi-
brantes e da deformao no rosto da figura. Na verdade, o pintor pas-
sou para a tela uma sensao, uma paisagem interior, expressa desta
forma por Edward Munch:
    "Lguas de fogo e sangue se estendiam pelo fiorde negro-azulado.
Meus amigos seguiram caminho enquanto eu me detive, apoiando-me
num corrimo, tremendo de medo  e senti o guincho enorme, infini-
to da natureza". (...) Veja, 23 de fevereiro,1994, p. 105.
    O Grito de Munch traduz o grito da natureza humana, um horizon-
te conturbado por uma das maiores e mais antigas sensaes huma-
nas: o medo.
    Para Edvard Munch, a arte no devia representar o mundo das apa-
rncias, e sim o mundo interior das pessoas. A paisagem natural 
substituda por uma paisagem interior que mais parecia um turbilho
de emoes como podemos observar em sua obra "O Grito".


z Expressionismo: a emoo  flor da pele!
    Essa forma de pintar era a marca registrada dos pintores expressio-
nistas, que se inspiraram nas obras de Vincent Van Gogh (18531890).
Munch foi um dos fundadores do movimento expressionista. Todos
eles tinham em comum a preocupao com a vida humana. Mas, afi-
nal, o que  Expressionismo?
    Ouvimos falar a todo momento em liberdade de expresso. E vo-
c, sente-se livre para expressar seus sentimentos? Pois esse foi um




                                                                          Afinal, a arte tem valor?    27
           Ensino Mdio

     dos pontos fortes do Movimento Expressionista: manifestar o mundo interior, ou seja, a dor,
     o sofrimento, a solido, a angstia, a morte, o sufoco. De acordo com Gombrich (1993, p. 449), "o
     Movimento Expressionista surgiu na Alemanha em 1910, aproximadamente, e seus artistas ali-
     mentavam sentimentos to fortes em relao ao sofrimento humano,  pobreza,  violncia e
      paixo, que eram propensos a pensar que a insistncia na harmonia e beleza em arte nasce-
     ra exatamente de uma recusa em ser sincero. No desejavam criar cpias idealizadas do real e
     sim uma representao dos sentimentos humanos".
         Alis, os sentimentos humanos e as deformaes prprias da vida humana tambm so re-
     tratados na foto abaixo. No  impressionante a semelhana entre a expresso facial do feto
     morto e O Grito de Munch?
         Observe com ateno:

                                                                 O Grito de Munch data, como j vimos antes, de 1895
                                                             e o feto, morto por contaminao radioativa, uma vtima
                                                             da exploso da usina nuclear de Chernobyl, na Ucrnia,
                                                             no ano de 1986. O acidente nuclear de Chernobyl foi um
                                                             dos piores de todos os tempos. Ocasionado por um dos
                                                             reatores da usina que lanou, no meio ambiente, uma
                                                             imensa quantidade de radiao, deixando um rastro de
                                                             destruio at mesmo em pases distantes, como a Itlia
                                                             e a Frana. Esse desastre matou cerca de 14 mil pessoas
                                                             s na Rssia e na Ucrnia.
                                                                     No Brasil tivemos um desastre semelhante: o aci-
                                                             dente nuclear de Goinia, em outubro de 1987, quando
     < Foto de um feto morto pela contaminao radioativa.
                                                             muitas pessoas tambm morreram. Na verdade, tudo co-
                                                             meou como uma brincadeira. Dois homens,  procura
                                                             de sucata, entraram numa clnica de radioterapia, desati-
                                                             vada, encontraram um aparelho de radioterapia (utiliza-
                                                             do para tratamento de cncer), levaram-no e venderam-
                                                             no a um ferro-velho.
                                                                 Durante a desmontagem do aparelho, cerca de 20g de
                                                             cloreto de Csio 137 (137 CsCI), que estavam numa cpsu-
                                                             la que foi quebrada, foram expostos.
                                                                 O Csio 137  um elemento qumico radioativo, artifi-
                                                             cial, semelhante a um sal de cozinha que brilha no escu-
                                                             ro. A radioatividade  um fenmeno que alguns elemen-
                                                             tos qumicos apresentam e se caracteriza pela emisso
                                                             espontnea de radiaes ALFA ( ) , BETA ( ) e GAMA ( ),
                                                             que interagem com as partculas do ar produzindo efeitos
                                                             luminosos. A luminosidade do Csio atraiu muitas pesso-
                                                             as que o manipularam e o distriburam entre parentes e
                                                             amigos. Foi colocado no bolso, esfregado no corpo e le-
                                                             vado para as casas de muitos moradores da regio; o c-
                                                             sio acabou contaminando muitas pessoas.



28     Composio
                                                                                                                           Arte

   O artista brasileiro Siron Franco retratou tudo isso em uma srie de
pinturas intituladas de Csio. Observe sua obra com ateno.
                                                              O Artista:
                                                            Siron Franco nasceu em Gois Velho  Gois
                                                       em 1947. Chegou  arte sem qualquer conceito
                                                       do que ela deveria ser. Filho de uma famlia nume-
                                                       rosa de Gois, sem referncias artsticas na fam-
                                                       lia e longe dos centros artsticos  admirvel que
                                                       tenha seguido a carreira nas artes visuais. A pintu-
                                                       ra de Siron  constituda por uma variedade de lin-
                                                       guagens visuais que exploram os limites e as pos-
                                                       sibilidades da pintura e da arte.


                                                      < SIRON FRANCO. Segunda vtima, srie Csio. Tcnica mista s/ tela, 155 x
                                                        135 cm, 1987. Coleo Naify, Rio de Janeiro.
                                                        In: Siron Franco  Pinturas dos 70 aos 90. Centro Cultural Banco do Bra-
                                                        sil, 15 de janeiro a 1 de maro, 1998. Pinacoteca do Estado (Pavilho Pa-
                                                        dre Manoel da Nbrega, Parque do Ibirapuera) So Paulo, 13 de maro a 3
                                                        de maio de 1998.




                 dEBATE

      O artista nesta obra retrata uma criana dentro de um retngulo azulado. Sobre ele podemos obser-
 var um par de sapatos demonstrando a luminosidade do Csio. O fundo da composio tem como ma-
 terial de pintura a terra, pois foi pela terra que a contaminao se espalhou.
     Quem  essa criana?
     O que o artista evoca por essa representao pictrica?
    Compare o vermelho da obra Segunda vtima, de Siron com o vermelho da obra O Grito, de Munch
 e destaque as semelhanas e diferenas.
     O que significa esse vermelho em cada uma das obras? Qual relao existe entre as duas obras?
    A srie Csio, alm de revelar uma preocupao social do artista, leva-nos a refletir sobre a vida. Na
 sua opinio, a Arte nos faz refletir sobre a vida? Escreva uma pequena crtica sobre a funo da Arte na
 sociedade. Leia para seus colegas e analisem as diferentes vises.



    A arte para Siron Franco tem o compromisso com acontecimentos
sociais e com a complexidade do mundo contemporneo e precisa dar
visibilidade s experincias sentimentais, intelectuais, ticas e morais
inerentes a essa poca.
    Por meio das linhas, das cores e das formas,  possvel evocar um
sentimento difcil de expressar com palavras. As imagens podem, algu-
mas vezes, dizer mais do que as palavras? Por qu?

                                                                                             Afinal, a arte tem valor?              29
           Ensino Mdio

                                          z O Expressionismo das Linhas
                                              Ser que uma simples linha pode passar uma mensagem ou uma
                                          sensao? Mas, o que  uma linha? Ou melhor, o que pode expressar
                                          uma linha?
                                              Analisando as linhas podemos perceber que so carregadas de
                                          emoo e portadoras de sentido. Cada artista pode estrutur-las e
                                          express-las, em uma obra, de modo diferente.
                                               o caso de Munch que, embora to expressivo quanto Van Gogh,
                                           muito diferente, pois cada artista possui uma maneira prpria de tra-
                                          ar essas linhas e usar as cores, tornando-as nicas e marcantes em ra-
                                          zo do estilo de cada um.
                                              "Vejamos a qualidade expressiva das linhas de Van Gogh: os traos
                                          so curtos, ele usa pequenas "vrgulas" e curvas, em breves momentos
                                          de espao e tempo, justapostas numa repetio enftica. As seqn-
                                          cias, tambm repetidas, adensam-se rapidamente e param, criando em
                                          nossa percepo o equivalente a obstculos fsicos a serem transpos-
                                          tos, dramaticidades e tenses altamente emotivas". (OSTROWER 1983, p. 32)




     < VINCENT VAN GOGH. A Noite Estrelada, 1889. leo sobre tela 73 x 92 cm.   < Composio com linhas da Obra Noite Estrelada.
       Museu de Arte Moderna, Nova York.




                             ATIVIdAdE

          Destaque as diferenas e semelhanas entre O Grito de Munch e a paisagem da obra Noite Estrela-
       da de Van Gogh.
           Na obra de Munch O Grito somos atrados pela personagem central que grita com as mos no ros-
       to. E na obra de Van Gogh? Qual elemento central direciona nosso olhar?
            Quais relaes podemos estabelecer entre as linhas de ambas as obras?

30     Composio
                                                                                                                                               Arte


                       ATIVIdAdE

     Observe as obras de Piet Mondrian e Pablo Picasso:




 < PIET MONDRIAN. Composio com Vermelho, Amarelo, Azul e Preto,
   1921. leo s/ tela, 59,5 x 59,5 cm. Haags Gemeentemuseum, Haia.
   In: Piet Mondrian  1872 -1944. Construo sobre o vazio, 1995, Bene-
   dikt Taschen Verlag. GmbH. Hohenzollernring. B3, D-50672. Kln, p. 62.



                                                                            < PABLO PICASSO. Mulher Chorando, 1937. leo sobre Tela 60,8 x 50 cm.
                                                                              Tate Gallery, Londres.

    Observe na obra Mulher Chorando as linhas da figura. Elas traduzem o desespero e o sofrimento
 dessa mulher?
     Compare as linhas da obra de Picasso com as linhas da obra de Mondrian. Elas traduzem diferen-
 tes significados? De que maneira cada artista trabalhou com as linhas? Por qu?
     A linha pode dar idia de: dinamicidade, estabilidade, flexibilidade, rigidez, vitalidade, ordem, desor-
 dem, realismo, religiosidade, irrealidade, tristeza, alegria, angstia, doura, solido. Observe a obra de
 Picasso Mulher Chorando e verifique quais sensaes so transmitidas na composio de Mondrian em
 relao s expresses das linhas predominantes.
    Faa esse exerccio com outras obras, especificando, como foi sugerido, a expressividade das li-
 nhas contidas nessas obras.


z O Expressionismo das Cores
   Vermelhos, azuis, verdes, laranja, violeta... So tantas as cores!
   Umas fazem rir, outras chorar; algumas so sombrias, outras lumi-
nosas; algumas so puras, contrastantes, loucas, vibrantes, densas, flu-
das ou transparentes; outras fazem pensar. O que seria da vida sem as
cores?
                                                                                                                  Afinal, a arte tem valor?           31
           Ensino Mdio

                                              Muitos artistas foram apaixonados pelas cores, mas, um artista usou-
                                          as como poucos: Vincent Van Gogh. Esse artista exagerava no uso des-
                                          sas cores. Alis, para Van Gogh, as cores, as linhas e as formas de um
                                          desenho eram apenas um pretexto para expressar emoo:
                                              "Eu quero a luz que vem de dentro, quero que as cores representem
                                          as emoes" (Vincent Van Gogh).
                                              Podemos ver que no  a sua vida que explica a sua obra e sim a
                                          sua obra que transcende as barreiras de sua prpria vida, dando sen-
                                          tido a ela. Van Gogh mesmo sendo considerado louco reformulou a
                                          pintura, teve a capacidade e a sensibilidade para ver o mundo de uma
                                          maneira completamente diferente.
                                              Que valor tem a arte ao pensarmos em Van Gogh? Quais so esses
                                          valores? So os mesmos valores de Munch?
                                              Observe com ateno esta obra de Van Gogh:




     < VINCENT VAN GOGH. Trigal com corvos, 1890. leo sobre Tela. Museu Van Gogh, Amsterd, Holanda.


       OArtista:
       Vincent Van Gogh (1853-90), nasceu na Holanda e, aos 27 anos, perguntou-se: "Existe alguma coisa
       em mim que pode ser til, mas o qu?" Decidiu cumprir por meio da arte sua misso para com a huma-
       nidade. A sua obra manifesta a essncia da prpria vida com cores que saltam aos olhos e expressam
       a alegria e a agonia de viver. Segundo STRICKLAND (1999, p. 120), o pintor era sujeito a crises de profun-
       da solido, sofrimento e colapso emocional, atirava-se  pintura com um frenesi teraputico, produzin-
       do oitocentas telas e outros desenhos no perodo de dez anos. No conseguiu o reconhecimento de
       sua obra como artista e vendeu apenas um quadro em toda a sua vida.




32     Composio
                                                                                                       Arte

    Essa foi a ltima obra que Van Gogh pintou. Os trigais so turbu-
lentos e inquietos, podemos ver que o cu apresenta-se escuro e car-
regado com corvos em revoada.
    Assim como as linhas, tambm as cores expressam muito do que
somos e do que sentimos. Por exemplo, o cu em um dia claro, no
nos transmite uma sensao diferente de um cu com nuvens carrega-
das? O que sentimos quando vemos o verde das rvores em um dia de
sol e em um dia chuvoso no inverno? Pois , somos envoltos pelas co-
res e o mundo, quanto mais iluminado, mais parece colorido.
    Van Gogh sabia disso e, em suas obras, usou e abusou das cores re-
tratando, por meio delas, alm de sua alma, as suas emoes.



                ATIVIdAdE

    Vimos como alguns artistas usaram as linhas e as cores e como  evidente, por exemplo, nas obras
 de Van Gogh uma nfase nos azuis e amarelos.
     E voc tem preferncia por alguma cor? Qual?
     O que essa cor "diz" sobre voc ou sobre seu estado de esprito? Por qu?
      Crie uma composio usando suas cores prediletas. Use lpis de cor ou giz de cera. Enquanto re-
 aliza a atividade, anote todas as suas impresses e sentimentos usando palavras-chave.
     Aps terminar seu desenho, crie uma "poesia" com as palavras-chave que traduzam seus sentimen-
 tos. Apresente a sua composio e leia a poesia para a turma.




z O Expressionismo das Formas
    Na sua opinio existem formas diferentes de representar uma mes-
ma idia ou uma mesma emoo? Como voc representaria, por exem-
plo, a dor e o sofrimento humano?
    Mas, e o que  forma?
    "Podemos dizer que a forma  a configurao ou o aspecto dos ob-
jetos quando representados em uma obra de arte". (MARCONDES, 1998, p.121)
    Alm disso, a forma  figurativa quando representa figuras e objetos
e abstrata quando no tem inteno figurativa. Quando usamos a for-
ma abstrata em uma obra, no representamos pessoas ou objetos, mas,
mesmo assim podemos "dizer" muita coisa, ou seja, representar algo,
pois as formas podem evocar alegria, tristeza, beleza, tranqilidade, agi-
tao, dinamicidade, conflitos, solues, representar a vida humana.




                                                                                 Afinal, a arte tem valor?    33
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

        Para Apreciar
        Observe atentamente a Batalha no mar, de Kandinsky e descreva o que voc v.




                        < WASSILY KANDINSKY. Improviso 31(Batalha no mar). 1913. leo sobre Tela. NG. Washing-
                          ton. DC.
           O que voc consegue perceber a partir de um primeiro olhar?
           Essa obra  figurativa ou abstrata?
           O que expressam as formas que vemos em Batalha no mar?
           As formas, linhas e cores nessa obra refletem, na sua opinio, uma batalha?
           Como voc imagina uma batalha no mar?



                              z A Pintura Abstrata
                                  O pintor russo Wassily Kandinsky foi o primeiro a abandonar toda
                              e qualquer referncia  realidade reconhecvel em sua obra, e chegou
                              a essa descoberta revolucionria por acaso. "Em 1910, quando estava
                              em seu estdio, deparou-se com seu prprio quadro virado de lado
                              no cavalete. O quadro no tinha tema, no representava qualquer ob-
                              jeto identificvel, era totalmente composto de manchas coloridas. Mas,
                              mesmo descartando todo realismo, para Kandinsky, as formas colori-
                              das pareciam despertar emoo independente do contedo". (GOMBRICH,
                              1993, p. 143) Voc concorda?




34   Composio
                                                                                                                        Arte

z A Pintura de Ao
    Outro artista abstrato  Jackson Pollock, mas o seu abstracionismo
 diferente do abstracionismo de Kandinsky. Observando a foto do ar-
tista podemos perceber que ele, diferentemente de Kandinsky, tirou a                               OArtista:
tela da parede ou do cavalete, colocando-a no cho, caminhando so-                                Jackson Pollock, pin-
bre ela ou ao seu redor enquanto pintava. Pollock, inventor da pintu-                             tor expressionista abs-
ra chamada informal, na dcada de 1940, foi apelidado de "Jack, the                               trato americano, nas-
Dripper" (Jack, o pingador), pois o artista espremia a sua bisnaga de                             ceu em 1912 e morreu
tintas sob a tela, sem qualquer inteno figurativa, ou mesmo geom-                              em 1956. Revolucio-
trica. Essa forma de pintar  conhecida como pintura de ao ou expres-                           nou a forma de pintar,
sionismo abstrato.                                                                                pois abandonou o tra-
    Observe na imagem que o artista no toca a superfcie do quadro                               dicional cavalete, pin-
com o pincel. Nesse tipo de pintura destaca-se a energia, a ao, o mo-                           tando sobre a tela ou
vimento do artista. A arte, nesse caso, no  s o produto da criao                             caminhando ao redor
artstica, mas tambm de um processo ativo da criao, no qual o ar-                              dela com gestos dra-
tista faz parte da obra.                                                                          mticos. Foi um pin-
    Observe uma obra de Pollock:                                                                  tor polmico, irrequieto,
                                                                                                  perturbador e diferente,
                                                                                                  e sua maneira de pintar
                                                                                                  acabou marcando pro-
                                                                                                  fundamente a Arte Mo-
                                                                                                  derna. Aos 44 anos,
                                                                                                  quando voltava diri-
                                                                                                  gindo embriagado de
                                                                                                  uma festa, morreu em
                                                                                                  um acidente de car-
                                                                                                  ro. Pollock  conside-
                                                                                                  rado um dos mais im-
                                                                                                  portantes personagens
                                                                                                  da pintura ps-guerra.
                                                                                                  Sua morte trgica e im-
                                                                                                  prevista tornou-o famo-
                                                                                                   so em todo o mundo.



    < JACKSON POLLOCK: Nmero 14, 1948. Connecticut, Miss Katharine Ordway.




                                                                 < Pollock pintando em estdio.




                                                                                                  Afinal, a arte tem valor?    35
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

         Aps ter observado o abstracionismo na obra de Pollock, realize uma composio. Sobre papel
     branco encorpado, usando tinta guache um pouco mais diluda e pincel, sobreponha as cores. Procu-
     re no tocar os plos do pincel no trabalho. Exponha o trabalho e construa um pequeno texto refletindo
     sobre as dificuldades de se construir uma pintura abstrata  maneira de Pollock.


                              z A Pintura Figurativa
                                  A partir das caractersticas de uma pintura abstrata voc consegue
                              dizer o que  uma pintura figurativa?
                                   Alguns pintores do ps-guerra mantiveram viva a pintura figurati-
                              va, opondo-se  tendncia da pura abstrao, mas conservaram a figu-
                              ra apenas para dobr-la  sua vontade.  o caso do grupo CoBrA.
                                  A linguagem pictrica do CoBrA aproximava-se do Expressionismo
                              Abstrato norte-americano. A diferena maior  que a pintura dos artis-
                              tas desse grupo  figurativa.
                                  O grupo CoBrA foi criado como resposta  destruio e desumani-
                              dade da guerra e, um de seus objetivos, era retomar os valores huma-
                              nos bsicos. Seu nome  formado pelas iniciais de Copenhague, Bru-
                              xelas e Amsterd, numa referncia  idia bblica da serpente como um
                              ser que corrompe, e, ao mesmo tempo, inicia a humanidade.
                                  Esses artistas lutavam contra a dura realidade da guerra e suas pri-
                              meiras exposies geram um impacto enorme. Alm da quebra total do
                              formalismo, os quadros eram colocados nas paredes de modo desorde-
                              nado, podendo estar tanto prximos ao cho, como quase no teto.
                                  Os artistas do grupo CoBrA no se restringiam  tela e ao cavalete
                              e, muitos deles eram atuantes em vrias reas, insistindo nas idias so-
                              bre a arte do grupo como parceiras ativas da sociedade.
                                  Observe uma das obras desse grupo:




                                                                                 < ASGER JORN. O conselheiro do sui-
                                                                                   cdio, 1950, leo sobre tela 37x30,
                                                                                   5cm. Coleo particular cortesia
                                                                                   Arken Museum for Moderne Kunst
                                                                                   Herning, Dinamarca.

36   Composio
                                                                                                                  Artes



                 ATIVIdAdE

     Para Apreciar
     Compare a obra abstrata de Pollock com O Conselheiro do Suicdio de Asger Jorn e destaque as seme-
 lhanast e diferenas em relao ao uso das cores e das formas.
     A linguagem pictrica de Pollock e a pintura do grupo CoBrA retratam um perodo ps-guerra. Quais
 as relaes que podemos estabelecer entre essas pinturas e as conseqncias de uma guerra?


z O Cnone Clssico e a Deformao na Arte
    As pessoas, de uma maneira geral, preocupam-se muito com os padres de beleza considerados
ideais. Por exemplo, a maioria das mulheres quer ter um corpo tipo "top model", hoje, considerado
o padro ideal de beleza feminino. Mas, esses padres de beleza mudam de acordo com a poca.
No Renascimento, o ideal de beleza ainda era inspirado no cnone clssico greco-romano que se
formou a partir de uma medida ideal de figura humana: o cnone das oito cabeas.
    Cnone ou cnon  uma palavra de origem grega que significa regra, padro, modelo ou nor-
ma. Um modelo seria proporcionalmente perfeito e tido como smbolo de beleza se apresentas-
se essa medida. Observe esse cnone no desenho de Leonardo Da Vinci.
    O Homem Vitruviano, um desenho de Leonardo Da Vinci, considerado o smbolo maior do
ideal de harmonia do Renascimento,  na verdade um estudo das propores do corpo huma-
no elaborado pelo artista segundo instrues do arquiteto romano Vitruvius (I a.C.). O homem
bem representado, de acordo com o desenho, deve estar de p, com as pernas e braos aber-
tos, posicionados com preciso nas figuras geomtricas mais perfeitas, o crculo  tendo como
centro o umbigo  e o quadrado  tendo como centro as genitais. O espao compreendido en-
tre a raiz dos cabelos e a altura do queixo corresponde a um oitavo da altura do homem.
    O texto que acompanha o Vitruvius examina todo o corpo
humano usando como unidade de medida o dedo, o palmo, o
p, concluindo que a natureza constituiu o corpo do homem de
forma que os membros correspondessem proporcionalmente 
sua soma total, ou seja, a figura humana perfeita deve ter a me-
dida exata de oito cabeas.
 OArtista:
Leonardo Da Vinci (1452-1519). Admirado por sua beleza, seu in-
telecto e charme. Cantava divinamente e sua conversao con-
quistava a todos.
   Adorava escalar altas montanhas e era fascinado pelo vo. Es-
boos de aves eram freqentes nos cadernos em que projetava
seus eventos voadores que veio a construir.
    Leonardo fez mais que qualquer outro para criar o conceito de
gnio-artista. Ao acentuar permanentemente os aspectos intelectu-
ais da Arte e da criatividade, Leonardo transformou o status do artista   < LEONARDO DA VINCI. Homem Vitruviano, 1490.
em, segundo suas palavras, "Senhor e Deus". STRICKLAND (1999, p. 34).       Lpis e tinta, 34x34 cm. Coleo da Gallerie
                                                                            dell'Accademia em Veneza, Itlia.

                                                                                        Afinal, a arte tem valor?          37
       Ensino Mdio




                      PESQUISA

        Pesquise os termos: ideal, idealizao, idealizar e depois responda a seguinte pergunta: o que vo-
     c entende por medida ideal?
         Observe as medida do desenho de Da Vinci Homem Vitruviano. Na sua viso, todos os homens do
     Renascimento mediam e apresentavam as mesmas propores harmoniosas observadas na represen-
     tao da figura de Da Vinci, nas formas do seu corpo?
        Diante de um homem considerado bonito, voc j ouviu a exclamao: Ah! Que "deus grego"! O que
     voc entende por um "deus grego"?
        As pessoas hoje se preocupam em manter as propores harmoniosas do corpo de acordo com
     um padro ideal? Por qu? Quem dita as medidas ideais?
         O cnone de beleza vigente na atualidade  diferente do cnone clssico? Destaque dois persona-
     gens, um homem e uma mulher, bem conhecidos pela mdia e que voc considere bonitos. Quais so
     os seus critrios de anlise?




                      ATIVIdAdE

        O homem  um bicho de sete cabeas?
        No cnone clssico a figura humana tem a medida de oito cabeas. E a figura
     de Botero? Com uma rgua, confira as medidas.
        Com uma rgua mea o tamanho da cabea de outras obras para verificar a
     medida do corpo. Todas elas esto dentro de um padro de medida ideal ou de
     acordo com o cnone clssico?
        Em papel mais encorpado crie uma composio com trs personagens alte-
     rando as propores do cnone clssico. Desenhe uma figura com a medida de
     duas cabeas, outra com a medida de quatro e outra com o tamanho correspon-
     dente a doze cabeas. Voc pode usar lpis, pincis e tinta e ainda recorte e cola- < FERNANDO BOTERO.
                                                                                           Os Cigarros,1979. Art
     gem. Com seus colegas, monte um painel na parede da sala, colando suas com-           Museum of the Ame-
     posies uma ao lado da outra.                                                        ricas. Washington D.C.
                                                                                                 EUA.

                                                z O Ideal de Perfeio do Renascimento
                                                    Voc sabe o que significa a palavra renascimento?
                                                    O Renascimento foi um perodo de renovao cultu-
                                                ral com grande produo artstica e cientfica, que ocor-
                                                reu na sociedade europia, nos sculos XV e XVI, em de-
                                                corrncia do desenvolvimento do capitalismo. Iniciou na
                                                Itlia e espalhou-se por outras partes da Europa.

38   Composio
                                                                                                             Arte


    O Renascimento firmou-se pelo aperfeioamento da imprensa, que possibilitou
a difuso dos clssicos greco-romanos, da Bblia e de outras obras, at ento ma-
nuseadas apenas pelos "monges copistas" dentro de Mosteiros e Abadias.
    A decadncia de Constantinopla, que provocou um verdadeiro xodo de
intelectuais bizantinos para a Europa Ocidental, e as Grandes Navegaes ou
Mecanismos de Conquista Colonial, que alargaram os horizontes geogrficos
e culturais, propiciaram o contato europeu com culturas completamente dis-
tintas, contribuindo para derrubar muitas idias at ento tidas como verda-
des absolutas. Neste perodo, consolida-se o mecenato, que financiava o tra-
balho dos artistas, com intuito de projetar o nome de burgueses ricos, prncipes
e at papas.
    Durante esse perodo, a cultura greco-romana passou a ser cultivada, o que para os
artistas renascentistas, os gregos e romanos possuam uma viso completa e humana da nature-
za, ou seja, humanista  valores da Antigidade, que exaltavam o homem como ser dotado de
liberdade, de vontade e de capacidade individual. Porm, o individualismo marcou mais que o
Humanismo da Antigidade. O individualismo renascentista trouxe a idia do gnio e o ideal
passou a ser um homem que se ocupa de todos os aspectos da vida, da arte e da cincia.
    Leonardo Da Vinci foi um desses gnios.
    Veja esboos de um de seus inventos:
                                                                            Alguns Gnios do Re-
                                                                           nascimento:
                                                                           Representantes        Artsticos:     -
                                                                           Michelangelo Buonarro-
                                                                           ti (1475- 1564), destacou-se em
                                                                           arquitetura, pintura e escultura. Prin-
                                                                           cipais obras: Davi, Piet, Moiss,
                                                                           pinturas da Capela Sistina  Ra-
                                                                           fael Sanzio (1483-1520), pin-
                                                                           tou vrias madonas, representaes
                                                                           da virgem com o menino Jesus 
                                                                           Leonardo Da Vinci (1452-
                                                                           1519), pintor, escultor, cientista, en-
                                                                           genheiro, fsico, escritor entre outras
                                                                           coisas. Principais obras: Mona Lisa,
                                                                           ltima Ceia.
< Leonardo Da Vinci - Asa de Madeira, a ser operada por manivela manual.
                                                                           Representantes Literrios: Nicolau
    O Renascimento instaurou uma nova viso do homem, a sua
                                                                           Maquiavel: O Prncipe, A Man-
inteligncia, o conhecimento e o dom artstico so valorizados, di-
                                                                           drgora  Giovani Boccacio:
ferentemente da poca Medieval que antecedeu o Renascimento,               O Decameron - Miguel de Cer-
na qual a vida do homem deveria ser centrada em Deus.                      vantes: D. Quixote de La Mancha
    Ocorre uma mudana da viso teocntrica da Idade Mdia, na              Lus de Cames: Os Lusa-
qual Deus era o centro do universo, para uma viso antropocntri-          das  William Shakespeare:
ca, em que o homem ocupa esse centro. A perspectiva antropo-               Romeu e Julieta, Jlio Csar, Hamlet,
cntrica trouxe o interesse pela investigao da natureza e o culto        Otelo, entre outras.
 razo e  beleza caractersticos da cultura greco-romana.

                                                                                 Afinal, a arte tem valor?           39
       Ensino Mdio

                      z A Arte alm das aparncias
                          Provavelmente voc j deve ter dito ou ouvido algum dizer dian-
                      te de obras tidas como Modernas: "Isso no  arte  uma rabisqueira!"
                      Ou ainda: "Isso at eu fao!" E at compartilhar do desejo de "quei-
                      mar" esse tipo de arte.
                          Certamente o homem no dispensa a beleza. Mas seria correto re-
                      duzir a arte  beleza? JUSTINO (1999, p. 193).
                          Mas, o que  belo?
                          Com o expressionismo a beleza e a arte so redefinidas. A arte dei-
                      xou de ter o compromisso com a beleza perfeita e imperturbvel. A Ar-
                      te deforma, intriga, desfigura, denuncia, desperta, grita e faz emudecer,
                      revelando aquilo que nos escapa num primeiro olhar. O olhar da Arte
                      Moderna desvenda a vida humana.

                      z Referncias
                         LEBRET, L. J. Suicdio ou Sobrevivncia do Ocidente? Problemas fun-
                         damentais de nossa civilizao. So Paulo: Livraria Duas Cidades, 1964.
                         AQUINO, R. S. L. de. Histria das Sociedades: das comunidades primi-
                         tivas s sociedades medievais. Rubim Santos de Aquino, Denize de Azeve-
                         do Franco, Oscar Guilherme e Pahl Campos Lopes. Rio de Janeiro: Ao Li-
                         vro Tcnico, 1980.
                         OSTROWER, F. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Editora Campos Ltda,
                         1983.
                         BELLO, S. Pintando sua Alma  mtodo para desenvolver a personalida-
                         de criativa. Braslia: Edio do autor, traduo de William Santiago, 1996.
                         GOMBRICH, E. H. A Histria da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koo-
                         gan, 1993.
                         STRICKLAND, C. Arte Comentada. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999.
                         BOSI, A. Reflexes sobre a Arte. So Paulo: tica, 1989.
                         GUIMARES, L. A Cor como Informao: a construo biofsica e cultu-
                         ral da simbologia das cores. So Paulo: ANNABLUME, 2002.
                         MARCONDES, L. F. Dicionrio de Termos Artsticos. Rio de Janeiro: Pi-
                         nakotheke, 1998.
                         MOSQUERA, J. J. M. Psicologia da Arte. Rio Grande do Sul: Livraria Su-
                         lina Editora, 1973.
                         JUSTINO, M. J. A Admirvel Complexidade da Arte. So Paulo, Scipio-
                         ne: 1999.
                         SIRON FRANCO  Pinturas dos 70 aos 90. Centro Cultural Banco do Bra-
                         sil, 15 de janeiro a 1 de maro, 1998.


40   Composio
                                                                                                      Arte

  Pinacoteca do Estado (Pavilho Padre Manoel da Nbrega, Parque do Ibirapuera) So Paulo, 13 de mar-
  o a 3 de maio de 1998.


z Referncia das imagens
  Foto de um feto morto pela contaminao radioativa. In: http://www.gorbenko.com/chernobyl.htm
  18/12/2005 s 11:32. ou SUPER, Junho 1995, O macabro expressionismo da era nuclear, pg. 8.
  Siron Franco. Segunda vtima, srie Csio. Tcnica mista s/ tela, 155 x 135 cm, 1987.
  Col. Naify, Rio de Janeiro. In: Siron Franco  Pinturas dos 70 aos 90. Centro Cultural Banco do Brasil,
  15 de janeiro a 1 de maro, 1998.
  Edvard Munch. O Grito, 1895. leo s/ carto. Galeria Nacional, Oslo, Noruega. In:
  Pinacoteca do Estado (Pavilho Padre Manoel da Nbrega, Parque do Ibirapuera) So Paulo, 13 de mar-
  o a 3 de maio de 1998.
  Vincent Van Gogh. Noite Estrelada, 1889. Museu de Arte Moderna, Nova York. In:
  Vincent Van Gogh. Trigal com corvos, 1890. Museu Van Gogh, Amsterd, Holanda. In:
  Vassili Kandinky. Improviso 31(Batalha no mar). 1913. NG. Washington. DC.
  In: STRICKLAND, Carol. Arte Comentada. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999, p.143.
  Jackson Pollock in studio In: Jackson Pollock: Nmero 14, 1948. Connecticut, Miss Katharine Ordway In:
  GOMBRICH, Ernest H. A Histria da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1993, p. 478.
  Asger Jorn. O conselheiro do suicdio, 1950 leo sobre tela 37x30, 5cm. Coleo particular cortesia
  Arken Museum for Moderne Kunst Herning, Dinamarca. In:
  Leonardo Da Vinci. Homem Vitruviano, 1490. Lpis e tinta, 34 x 24 cm. Galeria da Academia, Veneza,
  Itlia.
  Leonardo Da Vinci. Asa de Madeira, a ser operada por manivela manual. Desenho do Codex Atlanticus.
  In: Revista Histria Viva Grandes Temas, Ed. especial n 5 - pg 39.




                                                                                Afinal, a arte tem valor?    41
       Ensino Mdio




42   Movimentos e Perodos
                                                                                                                Arte




                                                                                                  3
                                                              VOC SUPORTA
                                                                     ARTE?               <Maysa Nara Eisenbach1


                                                                         omumente quando vemos
                                                                         uma pintura executada  tin-
                                                                        ta a leo sobre uma tela, de
                                                                     preferncia representando for-
                                                                     mas figurativas, consideramos
                                                                     esta uma "verdadeira obra de
                                                                    arte".  este o tipo de quadro que
                                                                a grande maioria das pessoas entende
                                                              que merece estar nas paredes dos mu-
                                                              seus. Mas ser que a pintura de cavalete
                                                              pode ser considerada a nica, verdadei-
                                                              ramente Arte?




                                                                           < GALVAN, Marcelo. Pintura de Cavalete,
3
 Colgio Estadual Campos Sales - Campina Grande do Sul - PR                  2005. Ilustrao Grfica.

                                                                                            Voc suporta arte?         43
          Ensino Mdio

                                         z Das paredes das cavernas
                                           aos muros das cidades
                                             O chamado Homem de Cro-Magno, h aproximadamente 25 mil
                                         anos, ainda habitava as cavernas e em seu cotidiano fazia rituais que
                                         ele considerava vitais, pois por meio deles, cultuava os deuses em que
                                         acreditava. Esses deuses so hoje chamados de "animistas" que so os
                                         elementos da natureza como o sol, a lua, o vento, a chuva, ou seja, ele-
                                         mentos que o homem pr-histrico podia perceber e que influencia-
                                         vam diretamente em sua vida.
                                             Foi com inteno ritualstica que surgiram as primeiras pinturas ru-
                                         pestres que constituem registros que permanecem at a atualidade e
                                         auxiliam inclusive na compreenso, por parte de historiadores e arque-
                                         logos, sobre como era a vida naquela poca.


            Perodos da Pr-histria:
            A Pr-histria est dividida da seguinte forma:
              =   Paleoltico Inferior (c. de 500.000 a c. de 30.000 a.C.);
              =   Paleoltico Superior (c. de 30.000 a c. de10.000 a.C.);
              =   Neoltico (c. de 10.000 a.C. at o surgimento da escrita a c. de 3.000 a.C).




                                         z "O artista caador e o sentido
                                           mgico de sua arte"
                                             O "artista-caador" da Pr-histria, ao representar os animais nas
                                         paredes das cavernas, acreditava domin-los. No Paleoltico Superior,
                                         ele supunha que, pintando o animal, seu grupo conseguiria captur-lo
                                         durante a caada. Observe a imagem:




     < Touro Negro. Parte de uma
       pintura rupestre, 15.000-10.000
       a.C.  Gruta de Lascaux (Dor-
       dogne), Frana. (JANSON, H.W.
       Histria Geral da Ar-
       te: O mundo Antigo e a
       Idade Mdia. SP: Martins
       Fontes, 1993, p. 66]

44     Movimentos e Perodos
                                                                                                                              Arte

    Como o artista fez para representar os olhos, o focinho e a pata do
touro? Se voc observar bem, notar que ele consegue representar cer-
to volume na barriga utilizando para isto um material com cor mais
clara. Veja que logo abaixo do focinho dele, parece haver uma pintu-
ra mais desgastada de outro animal, possivelmente um cavalo. Prxi-
mo aos seus chifres, pode ser percebido tambm que por baixo desta
pintura h outras aspas pintadas, o que indica a pintura de outro tou-
ro ali. Mais para trs, na regio do cupim, aparecem outros chifres no-
vamente. Voc consegue imaginar por que h tantas pinturas no mes-
mo lugar?
    O "artista-caador" escolhia uma parede de difcil acesso para pin-
tar, e l retratava o animal tal qual era visto na natureza, utilizando
como material o carvo, a seiva de plantas e de frutas, argila, fezes e
sangue de animais. Nessas paredes, as pinturas costumavam se repe-
tir muito, umas sobre as outras como ocorre no Touro Negro. Isto le-
vou alguns pesquisadores a afirmar que para o homem pr-histrico,
no era s a imagem do animal que era mgica, mas a prpria parede
da caverna. E voc, se acreditasse que a parede de sua casa  mgica
o que representaria l?
   Observe que h homens e animais nesta
pintura. O que eles parecem estar fazendo? Vo-
c sabia que no Perodo Paleoltico no eram
desenhados seres humanos? Sua representa-
o pictrica comea a acontecer no Neoltico.
Nesta fase, o homem comeou a utilizar a pare-
de para registrar sua histria, retratando cenas
ocorridas em seu cotidiano. Nelas d para per-
ceber a convivncia entre homens e animais,
o que mostra que os homens j os domestica-
vam nessa poca. Para estas representaes,
                                                       < Homens e Touros, Pinturas rupestres encontradas em Tassili, regio do
o homem continuava utilizando elementos da               Saara (c. de 4500 a.C). (PROENA, Graa. Histria da Arte. SP: Editora ti-
natureza, porm suas pinturas agora so mais             ca, 2000, p.14  figura 2.1.)
simplificadas do que no Paleoltico.

       interessante lembrar que o termo "artista-caador" foi utilizado entre
 aspas porque nesta poca as pinturas tinham apenas funo mgica e de
 registro.
     O termo artista, entendido como aquele que se dedica s Belas Artes ou
 que delas faz profisso,  aplicado somente a partir do sculo XV, tanto  que
 at o sculo XIV o artista era considerado um arteso ou artfice.


   E no Brasil, h pinturas pr-histricas? Se voc supe que no, sai-
ba que o stio arqueolgico da Serra da Capivara, no Piau,  um dos
mais importantes do mundo. Que tal pesquisar?


                                                                                                      Voc suporta arte?               45
           Ensino Mdio

                                                                                          Nesta pintura tambm esto presentes ani-
                                                                                     mais e humanos juntos. O que est represen-
                                                                                     tado na mo das pessoas? O que pretendiam
                                                                                     contar por meio do desenho desta parede?
                                                                                          Agora compare as trs obras. Perceba que a
                                                                                     do Paleoltico detalha melhor o animal, repre-
                                                                                     sentando o focinho, a barriga, etc. J no Neo-
                                                                                     ltico, as figuras so mais simplificadas, com os
                                                                                     animais sendo representados com uma cor s
                                                                                     e quase sem detalhes. Ser que no Neoltico o
                                                                                     homem piorou seu desenho? Ou ser que ele
                                                                                     aprendeu a compreender imagens mais sim-
     < Arte pr-histrica Brasileira  Serra da Capivara  PI. Revista Histria
       Viva. n 9, julho 2004, p.12.
                                                                                     ples, no necessitando mais de tantos detalhes
                                               para entender que o desenho tratava deste ou daquele animal?




                                 ATIVIdAdE

             Em uma folha de papel kraft, crie um desenho com as caractersticas do Paleoltico e em outra fo-
        lha com as caractersticas do Perodo Neoltico. Assim como os "artistas-caadores" utilize apenas ma-
        teriais extrados da natureza, no vale partir para o lpis.


                                                                               A palavra graffiti, extrada do italiano, tem
                                                                          sentido de "rabisco". Se considerarmos as es-
                                                                          critas, palavras, desenhos e outras expres-
                                                                          ses feitas com materiais alternativos nas pa-
                                                                          redes como graffitis, as inscries encontradas
                                                                          nas paredes das cavernas e at nas tumbas
                                                                          do Egito Antigo tambm podem ser conside-
                                                                          radas como tal.




                                               z Graffiti, no Egito Antigo?
                                                   No Egito Antigo, pas localizado na regio nordeste da frica, em
                                               aproximadamente 3000 a.C., a parede j era usada para desenhar e fa-
                                               zer baixos relevos com a inteno de registrar a sua histria das dinas-
                                               tias e de sua mitologia. O povo egpcio acreditava que aps a sua mor-
                                               te, poderia viver eternamente no "Mundo dos Mortos", se tivesse lido
                                               o "Livro dos Mortos" que comentava sobre os deuses egpcios. Mas eles

46     Movimentos e Perodos
                                                                                                                     Arte

s poderiam viver neste mundo, desfrutando de tudo o que tiveram em vida, aps um julga-
mento, conhecido como "Julgamento de Osris". O Fara contratava artesos e escribas para,
nas paredes das pirmides, registrar com desenhos detalhados a sua vida. Mas, para que o cor-
po do fara se mantivesse intacto para esta nova vida, era necessrio mumific-lo.
    A representao dos personagens nestas paredes obedecia a um padro conhecido como
"Lei da Frontalidade", segundo o qual as figuras eram representadas com o tronco de frente, as
pernas, braos e cabea de lado. Quanto mais importante o personagem, maior o espao que
sua representao ocupa na parede, obedecendo-se  seguinte hierarquia: primeiro o Fara,
em seguida sacerdotes, depois militares, camponeses e por ltimo escravos.
    Observe este baixo relevo. Nele fica fcil observar como foi utilizada a lei da frontalidade
nos personagens humanos. Observe que na parte superior h uma pessoa maior que represen-
ta o rei Ramss II caando touros selvagens. Ele usa um arco e uma flecha e h um risco repre-
sentando o trajeto de uma flecha at a parte traseira de um touro que corre para a mata. Veja
que Ramss II no est correndo, mas apoiado em uma espcie de charrete presa a um cava-
lo.  interessante destacar que os cavalos no so provenientes do Egito, quem os levou para
l foram povos chamados hicsos, entre 1750 e 1580 a.C.




              < Relevo do templo em Meidnet Hamu (detalhe). Vigsima Dinastia. C. 1190-1160 a.C. (GARBINI,
                Giovanni. O Mundo da Arte: o mundo antigo.Editora Expresso e Cultura, 1966, p. 126)


    Note as pessoas representadas em dimenso menor, logo abaixo de Ramss II. O que elas
tm nas mos? Voc consegue imaginar qual sua profisso? O que eles estavam fazendo ali? Do
lado direito, no p do primeiro militar, h uma linha inclinada e depois um peixe representa-
do. Esta figura possivelmente represente o Rio Nilo, indicando em que local o Fara estava ca-
ando. Por que os militares esto representados menores que o Fara?
    H tambm uma srie de pequenos desenhos em volta, normalmente seguidos de linhas re-
tas na posio vertical. Esses pequenos desenhos eram a escrita dos egpcios naquela poca,
e se chamam hierglifos. Voc sabia que os hierglifos foram desvendados? Quem os decifrou
foi um francs chamado Jean-Franois Champollion (1790-1832) em seu ltimo ano de vida e
por isso ele  considerado o primeiro egiptlogo do mundo.


                                                                                                      Voc suporta arte?    47
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

     01. Certamente voc percebeu que essa obra, embora visual, trata-se de uma espcie de narrativa. Es-
         creva a histria desta caada.
     02. Agora que voc j conhece o sentido da lei da frontalidade e da hierarquia utilizada nas representa-
         es bidimensionais egpcias, faa uma composio obedecendo as mesmas regras. Escolha o te-
         ma, por exemplo: poltica, esporte, educao, famlia ou outro que preferir. Mas lembre-se, tem que
         ter pelo menos trs personagens para que seja representada a hierarquia, e no deve ser esqueci-
         da a lei da frontalidade para ficar com caracterstica de desenho egpcio.




                              z A Parede na Idade Mdia
                                 A Idade Mdia ocorreu entre os sculos V, que tem como marco
                              a queda do Imprio Romano, e o XV, quando inicia o Renascimento.
                              No incio da Idade Mdia, os brbaros invadiram a Europa ocidental
                              e destruram muitas das construes e obras de arte. Mais tarde foram
                              construdos os grandes castelos, como esses que vemos nos livros de
                              contos de fadas. Nesta poca, as religies pags entraram em declnio
                              e a Igreja e o Cristianismo passaram a dominar a Europa. Neste pero-
                              do tambm ocorreu a Santa Inquisio, em que aqueles, considerados
                              pagos ou hereges, eram perseguidos e, muitas vezes, mortos em no-
                              me de Deus.
                                 Na Idade Mdia, temos trs perodos artsticos: o Bizantino, o Rom-
                              nico e o Gtico. Neles h uma nfase no mundo espiritual, em detri-
                              mento do mundo fsico, da resulta que as imagens sofrem uma esque-
                              matizao, no havendo preocupao com a perfeio anatmica. As
                              principais tcnicas utilizadas eram o mosaico e o afresco.

                                    Afresco  um mtodo de pintura mural que consiste na aplicao de co-
                                res diludas em gua sobre um revestimento de argamassa ainda fresco, de
                                modo a facilitar a absoro da tinta.
                                    Mosaico  uma imagem ou padro visual criado por meio da incrustao
                                de pequenas peas coloridas de pedra, mrmore, vidro, esmalte ou cermi-
                                ca, justapostas e fixadas com cimento sobre uma superfcie. Por exemplo,
                                as pastilhas de cermicas fixadas em uma parede, um piso.
                                    (Houaiss, 2001).




48   Movimentos e Perodos
                                                                                                                                          Arte

    Observe que o Imperador Constantino foi representado, no mosaico do Perodo Bizantino,
com uma aurola na cabea. Constantino foi o imperador romano que confirmou o cristianis-
mo como religio oficial do Imprio.
    Nas imagens sacras apenas a cabea de Cristo e dos santos era envolvida por esse crculo
dourado e brilhante. Como podemos interpretar a aurola na cabea de Constantino?
    A aurola na cabea de Cristo, dos santos e at mesmo de personagens como o imperador
Constantino  um smbolo de poder. Na atualidade, quais objetos representam poder?
    Veja a seguir a obra A Lamentao, de Giotto; nela as aurolas foram representadas apenas
sobre as cabeas dos santos. Observe que o afresco parece dividido em duas partes. Quais so
elas, e o que significam?
    Giotto utilizou alguns artifcios de representao para destacar a figura do Cristo. Por exem-
plo, todos os personagens do quadro  anjos, santos e pessoas comuns  dirigem seu olhar pa-
ra Jesus. O caminho que aparece atrs das figuras que protegem Cristo simboliza a descida do
Calvrio. O que o artista consegue exprimir por meio desta representao?
    Compare o afresco de Giotto com o mosaico representando Constantino e o Relevo Egp-
cio do Templo em Meidnet Hamu. Note que diferentemente das obras do Egito Antigo quan-
do o Fara, por ser o personagem mais importante, era representado maior, Giotto representou
Cristo do mesmo tamanho dos outros personagens. J em comparao com a figura de Cons-
tantino, em que a aurola foi representada sobre um imperador, Giotto representa as aurolas
identificando os santos, os anjos e Cristo.




< Detalhe do Mosaico A Virgem com Constantino e Justiniano. Bas-   < GIOTTO di BONDONE, A Lamentao, 1305. Cappella dei Scrovegni, Pdua.
  lica de Santa Sofia, Istambul.




                                                                                                                     Voc suporta arte?          49
           Ensino Mdio

                                           z O Pergaminho como Suporte
                                              Pergaminho  o nome dado a um tipo de couro de caprino, ou ovino
                                           prprio para se escrever, muito utilizado na Idade Mdia. Esta tcnica foi
                                           aperfeioada no antigo reino de Prgamo, da seu nome. (Houaiss, 2001).
                                              No Ocidente, foram feitas no pergaminho as primeiras ilustraes
                                           de textos que conhecemos. Um dos tipos de ilustraes desta poca
                                           era a "Iluminura", que  aquela primeira grande letra decorada que
                                           costumamos ver nos textos de contos de fadas.


                                           z A Tela como Suporte
                                               Na Renascena passa-se a utilizar a tela como suporte para a pintura.
                                           Normalmente feita de tecido, por exemplo, algodo, cnhamo ou linho,
                                           esticado sobre um chassi ou caixilho, o uso da tela facilitava o transpor-
                                           te das pinturas.
                                               O material utilizado era a tinta a leo que, segundo Vassari, foi in-
                                           ventada por Jan Van Eyck, um pintor do final do Perodo Gtico ou do
                                           incio da Renascena. A terebintina, uma espcie de solvente oleoso,
                                           era misturada ao pigmento que depois era aplicada  tela. Esse proces-
                                           so impedia a secagem rpida da tinta, possibilitando ao artista refazer
                                           parte do trabalho, modificar sombreados, mudar certas tonalidades pa-
                                           ra dar maior realismo s obras.




     < SANDRO BOTTICELLI. Nascimento de Vnus, 1482.Tmpera sobre madeira, 1,72.5m x 2,78.5 m, Galleria degliUffizi, Florena.

50     Movimentos e Perodos
                                                                                                       Arte


                     ATIVIdAdE

     Para Apreciar
     Observe na obra de Botticelli a representao (de dois) dos personagens da antiga mitologia gre-
 go-romana: Vnus, tambm conhecida como Afrodite, a deusa do amor e da beleza, representada co-
 mo uma moa nua no centro da composio. E Zfiro, o jovem com asas, deus grego do vento, pare-
 ce soprar Vnus para a margem das guas onde  recebida por uma ninfa que representa a primavera.
 (CUMMING, 1996, 22-23).


    Note que esta obra pode ser, a partir da Vnus, dividida em du-
as partes, uma com Zfiro flutuando e outra com a primavera. Obser-
ve que Botticelli, para conseguir uma boa organizao visual, repre-
senta a Vnus com uma certa curvatura para o lado direito da obra.
Para contrabalanar a Primavera com um tecido nas mos sobre um
fundo arborizado no lado direito da obra, o artista coloca dois perso-
nagens abraados na parte superior esquerda. Isto d o equilbrio se-
reno  obra, passando a impresso que a Vnus nasce em meio a mui-
ta tranqilidade.
    Voc consegue ver a linha de contorno? No encontrou? Claro que
no. Nesta poca, os pintores deixaram de representar a linha de con-
torno como foi utilizada na Idade Mdia. O que ocorre,  que na ver-
dade, se voc observar, a linha de contorno  uma inveno humana,
no existindo na natureza.
    Em que momento os personagens parecem-se mais com os seres
humanos de verdade, na Lamentao de Giotto ou no Nascimento de
Vnus de Botticelli? Por qu?


                     ATIVIdAdE

    Crie uma cena da mitologia grega. Mas antes reflita sobre algumas questes: Como poderia ser a re-
 presentao de uma deusa do Amor e da Beleza na atualidade? Como voc representaria o nascimento
 do amor e da beleza? Descreva os aspectos que voc manteria iguais e quais voc mudaria.
     Utilize uma folha de papel sulfite para fazer esta representao e tente pintar com vrios tons. Pode
 ser com lpis de cor ou tinta, se preferir. Depois, compare a sua composio com a de Botticelli. Exis-
 tem semelhanas? Quais? Por que voc acha que elas ocorreram ou deixaram de ocorrer?


z O Papel como Suporte da Arte
   O papel surgiu na China por volta do ano de 150 d.C. Chegou ao
Japo no incio do sculo VII e  Europa no sculo XII levado pelos
mouros. Seu uso como suporte artstico no Ocidente, ocorreu pratica-


                                                                                       Voc suporta arte?     51
          Ensino Mdio

                                                                  mente junto com a tela, embora bem menos
                                                                  valorizado e restrito a esboos artsticos.
                                                                       Ainda hoje, uma obra em papel  vendi-
                                                                  da por um preo at 200 vezes menor do que
                                                                  uma obra do mesmo artista em leo. Mesmo
                                                                  assim, grandes obras foram feitas em papel,
                                                                  especialmente na atualidade, o que de manei-
                                                                  ra alguma diminui seu valor e significado ar-
                                                                  tstico.
                                                                  < LEONARDO DA VINCI, Auto-Retrato, 1512 - 15. Sangria sobre papel, 33 x
                                                                    21,6 cm. Royal Library, Turin.



                            ATIVIdAdE

            Para Apreciar
           Observe, na imagem de da Vinci, os olhos, as rugas que evidenciam sua idade, as linhas da barba on-
       dulada, que lhe do uma certa leveza. Nesse auto-retrato, Leonardo Da Vinci usa o papel como suporte.
          Embora esta obra no seja to conhecida como sua Mona Lisa, ela reflete tambm o domnio da re-
       presentao da figura humana, o domnio da tcnica do chiaroscuro (contraste entre luz e sombra) e do
       sfumato ( passagem sutil de um tom a outro).


            Para Fazer
           Que tal agora seguir o exemplo de Leonardo da Vinci e fazer o seu auto-retrato a lpis em uma fo-
       lha de papel? Experimente fazer vrios esboos. Use lpis 3b ou 4b. Voc vai ver que com o exerccio
       a tendncia ser um resultado cada vez melhor!




                                               z A Parede Urbana como Suporte
                                                  Na dcada de 1960, os jovens do Bronx, NY, EUA, comearam
                                               a utilizar o spray para escrever nas paredes da cidade. Esse tipo de
                                               manifestao ocorreu de forma paralela ao hip hop, justificando tal-
                                               vez a estreita relao entre eles. Os primeiros adeptos deste movi-
                                               mento eram chamados "writers" (escritores) e costumavam utilizar
                                               as paredes para escrever seus nomes e frases de protesto. Aqui no
                                               Brasil, estas pessoas so chamadas de "grafiteiros", e tambm reali-
                                               zam seus trabalhos nos muros das cidades.
                                                  Mais tarde, alguns artistas, em busca de novas tcnicas, come-
                                               aram a utilizar esta linguagem, e foi desta forma que o grafite
                                               passou a ser considerado Arte. Os nomes dos artistas mais conhe-
     < DANIEL MELIM. ABC Paulista, SP. 2005.
       Foto do autor.
                                               cidos so: Jean-Michel Basquiat, Keith Haring e Kenny Scharf.


52     Movimentos e Perodos
                                                                                                                                         Arte

   J no Brasil, alguns dos nomes mais conhecidos so: Alex Vallauri, Matuck e Zaidler.
   O grafitti da pgina anterior foi executado por Daniel Melin, professor de Arte em So Pau-
lo que procura fazer trabalhos de crtica social.



                     ATIVIdAdE

     Para Apreciar
     O que voc imagina que Daniel quis representar com este homem bem vestido, sorridente? O que
 significam as duas crianas dentro das bolsas que ele segura? Ser que ele se preocupou s com a
 tcnica do grafitti ou seu desenho  uma forma de protesto? Protesto contra qu?
     Voc conhece a msica "Cano do Senhor da Guerra", da Legio Urbana? Leia um trecho:
                                                "Existe algum esperando por voc
                                                  Que vai comprar a sua juventude
                                                       E convenc-lo a vencer"
     Cano do Senhor da Guerra. Legio Urbana. Composio de Renato Russo e Renato Rocha. Em < http://legiao-urbana.letras.terra.com.br/le-
 tras/65536/> acesso em 18/12/05.


     Para Fazer
     Qual a relao da letra desta msica e o grafite elaborado por Daniel? Escreva ento qual seria es-
 ta relao.




                     PESQUISA

     Voc sabe quais so as modalidades do grafite?
        =   Grafite 3D:  aquele que passa a idia de profundidade sem precisar de contorno. Para esta
            modalidade o grafiteiro ou "writer" precisa ter uma tcnica bastante apurada e destreza na com-
            binao de cores e de formas.
        =   WildStyle: usa letras distorcidas, em forma de setas que praticamente cobrem o desenho.
        =   Bomber: nesta modalidade o grafiteiro usa letras gordas e arredondadas que parecem ter vi-
            da. Para elas so utilizadas normalmente duas ou trs cores.
        =   Letras Grafitadas: so as letras que representam a assinatura do grupo. Normalmente incor-
            poram as tcnicas do grafite  pichao.
        =   Grafite com mscaras e spray: o artista usa a mscara como um molde para o desenho
            que vai ser feito com spray. Esta tcnica facilita a rpida execuo ou disseminao do dese-
            nho ou marca desejada.
        =   Grafite Artstico ou Livre Figurao: neste estilo valem todas as tcnicas para fazer perso-
            nagens de histrias em quadrinhos, caricaturas, desenhos realistas e tambm abstratos.




                                                                                                                   Voc suporta arte?           53
       Ensino Mdio

                             z Grafite X Pichao: embora semelhantes no
                               suporte, estes dois times no jogam para o
                               mesmo lado.
                                 Experimente perguntar a um grafiteiro o que ele pensa sobre picha-
                             o ou sobre o pichador?
                                 Certamente, no meio de sua resposta, haver uma afirmao seme-
                             lhante a esta: "grafite  arte, pichao  lixo". E  verdade, no   toa
                             que normalmente, chamamos de grafite a pintura na parede com in-
                             tenso artstica e de pichao, a pintura na parede que simplesmen-
                             te depreda, destri. Mas a diferena no  s esta. O grafiteiro nor-
                             malmente tem ordem do proprietrio da "parede" para fazer a pintura,
                             pois o que ele faz embeleza a cidade, j o pichador pinta de forma de-
                             sordenada, destri o patrimnio alheio e torna o aspecto da cidade su-
                             jo, feio e perigoso.
                                  por isto que no devemos chamar o grafiteiro de pichador. En-
                             to, no faa lixo, faa Arte e torne sua cidade cada vez mais gostosa
                             de se viver e se visitar.
                                 Alis, depredar o patrimnio alheio, seja pblico ou privado,  cri-
                             me previsto no Cdigo Penal Brasileiro.

                             < Destruir, inutilizar ou deteriorar coisa alheia. Pena: deteno de 1(um) a 6(seis) meses, ou multa. (Cdigo Penal Brasi-
                               leiro, Decreto-Lei n 2848 de 07 de dezembro de 1974, Ttulo II, Captulo IV: do Dano Art, 163)




                      ATIVIdAdE

        Que tal agora testar algumas destas modalidades? No precisa ser no muro ou parede do colgio,
     pode ser numa folha bem grande de papel Kraft (papel bobina) ou at mesmo no papel sulfite.




                             z O Corpo como Suporte da Arte
                                Vivemos hoje numa poca de "culto ao corpo" em que as pesso-
                             as esto desesperadas para mold-lo o ao seu "bel prazer". Para isto,
                             muitos freqentam academias, tomam anabolizantes, fazem de tudo
                             para parecerem mais fortes e saudveis... Pessoas anorxicas, bulmi-
                             cas, tudo com o intuito de se adaptar aos padres estticos que re-
                             gem a moda.




54   Movimentos e Perodos
                                                                                                       Arte

    Nossa sociedade  extremamente visual e cada pessoa, muitas ve-
zes na iluso de ser nica, utiliza-se do visual para realizar este intento.
Utilizam para isso roupas, acessrios, maquiagens, penteados...
    Quem nunca se pegou em frente ao espelho, combinando a cala
com a camiseta? Ou vendo se o corte de cabelo ficou legal? Mas quan-
do estamos falando de todos estes comportamentos, estamos falando
da Body Art (arte corporal)?
    A Body Art no sentido artstico no se preocupa com a moda. Em-
bora contendo seus elementos, a body art vai alm, pois prope o uso
do prprio corpo como suporte artstico. Para isso, muitas vezes so
utilizadas modificaes corporais conhecidas como body modification
(modificao do corpo), que ocorre quando a preocupao visual vai
alm de agregar acessrios ao corpo que agora passa a sofrer modifi-
caes corporais nas suas mais diversas formas, usando desde produ-
tos qumicos at intervenes cirrgicas. (PIRES, 2003. pg. 18-23)
    Com esse intuito, a pessoa nem sempre consegue um resultado
bem aceito pela sociedade em geral. Algumas pessoas chegam a tama-
nhas mudanas, que a aparncia deixa de ser humana.
    Podemos dizer ento que com a body art o artista se coloca como
uma obra viva. Nela, a arte j no se separa do indivduo, pois ela po-
de ser o prprio indivduo.

     Desta forma, podemos dizer que dentro da body art temos dois grandes           < SPRAGUE, Erik.

 grupos: um que se preocupa em se aproximar ao mximo aos padres de be-
 leza determinados pela sociedade e para isto valem dietas, musculao e ci-
 rurgia plstica e um segundo grupo que compartilha de idias e ideais em rela-
 o s modificaes corporais, e para isto utilizam piercing, implante esttico,
 escarificao (ferimentos na pele capazes de deixar marcas) e tatuagem.
    (PIRES, 2005. pg. 19).

    Este pensamento do corpo como suporte artstico no comeou
a existir agora, sabe-se que nas culturas mais primitivas j havia uma
preocupao com a esttica, mesmo que com intuito religioso e no
propriamente artstico. Para elas, suas vestes, sua pintura corporal ou
adereos tinham inteno mgica, e normalmente determinavam a hie-
rarquia na tribo.
    Hoje, as marcas no corpo so escolhidas de acordo com o gosto es-
ttico pessoal, ou dependendo da ligao emocional que o indivduo
tem com a imagem escolhida, mas, assim como nas sociedades primiti-
vas, a marca, independentemente da tcnica utilizada, tambm funcio-
na como um sinal de incluso (na sociedade ou no grupo desejado).
 como se a pessoa, depois de escolher e usar esta marca, se sentis-
se mais segura, protegida e preparada para as diversas situaes da vi-
da. (PIRES, 2003. pg 61)



                                                                                      Voc suporta arte?      55
       Ensino Mdio

                                         z Piercing
                                           Zeca Baleiro consegue suscitar vrios caminhos para pensar por
                                         meio do refro de sua msica:
                                               "Tire o seu piercing do caminho, que eu quero passar com a minha dor"
                                               (Piercing, Zeca Baleiro, V Imbol)
                                             Onde ser que est este piercing?
                                             Que dor  esta?
                                             Qual  o caminho da dor?
                                             Alm dessas, quais outras reflexes ele prope?
                                             Para quem pensa que  novidade, o uso do piercing (do ingls per-
                                         furante, agudo) j ocorre h mais de 5000 anos. Ele comeou sendo
                                         usado em tribos e cls primitivos, normalmente como expresso social,
                                         distino de realeza, rito religioso ou cultural. Foi usado nas tribos da
                                         Amrica do Sul, frica, Indonsia, nas castas religiosas da ndia, pelos
                                         Faras do Egito e tambm pelos soldados de Roma. Mais tarde, foi uti-
                                         lizado pela aristocracia europia dos sculos XVIII e XIX. Depois, ficou
                                         esquecido no incio do sculo XX at a dcada de 1970, quando ressur-
                                         ge nos circuitos undergroud (subterrneo ou na gria, dos grupos do
                                                submundo, alheios aos padres) de Londres. Hoje, o piercing
                                                  tornou-se moda pelo mundo e pode ser visto nas orelhas, so-
                                                   brancelhas, lnguas, umbigos, etc. dos jovens de todas as clas-
                                                   ses sociais.
                                                            (Revista Tatoo Creator, n 1, p. 32-33)




        Locais de aplicao de piercing
          =   Orelha: foi usado pelos marinheiros que acreditavam que utilizando-o teriam uma melhor vi-
              so. Para os romanos, significava luxo e riqueza. J para as tribos sul americanas e africanas
              tudo dependia do tamanho do buraco conseguido. Quanto maior ele fosse, maior o status so-
              cial.
          =     Nariz: teve origem no Oriente Mdio h aproximadamente 4000 anos. No sculo XVI, foi usa-
               do na ndia pelas castas nobres. Os hippies que viajaram para ndia nos anos de 1960 e 1970
               tambm aderiram. Os punks utilizaram na dcada de 1980 e at hoje faz parte da moda.
          =    Lngua: este foi usado pelos sacerdotes Astecas e Maias, que o consideravam auxiliar na co-
               municao com os deuses.
          =    Lbios: os Maias e Astecas tambm utilizavam, e em puro ouro. Na frica, era utilizado pelas
               mulheres da tribo Makolo para atrair os homens. Tribos indgenas da Amrica do Sul (inclusive
               do Brasil) usavam uma espcie de prato de madeira para alargar o lbio inferior.
          =    Mamilos: em tribos da Amrica Central, era utilizado como marca de transio  masculini-
               dade (da infncia para a fase adulta).
          =     Umbigo: os primeiros surgiram no Antigo Egito e eram liberados apenas para o Fara e fam-
               lias nobres. No caso dos Faras, o piercing era introduzido durante uma cerimnia religiosa.
              (Revista Tatoo Creator, n 1, p. 32-33).



56   Movimentos e Perodos
                                                                                                  Arte

    O piercing pode ser utilizado em nome da Arte de diversas formas.
Uma delas  por meio de performances de suspenso nas quais se uti-
lizam piercings como apoio. Observe a figura abaixo:




< FAKIR MUSAFAR. Ritual/performance de suspenso (PIRES, 2005, p. 123)


z Tatuagem
   Essa  outra moda que comeou bem antes do que a maioria das
pessoas imaginam.

       "A origem da palavra "tatoo" vem do capito ingls James Cook (tambm
 descobridor do surf) que, ao desembarcar no Taiti (Polinsia) em 1779, deu
 de cara com habitantes locais de ambos os sexos que simplesmente no
 usavam roupas e sim, cobriam seus corpos com desenhos feitos por meio
 de injees de tinta preta na pele (...). O som "tatoo" ou tattow como escreveu
 Cook em seu dirio, era o som feito durante a execuo da tatuagem, em que
 utilizavam ossinhos como agulhas e uma espcie de martelinho para a intro-
 duo da tinta na pele. Tatu, no idioma Taiti, significa "desenho no corpo".
      (Revista Tatoo Creator, n 1. pg 07)


   Na verdade, no Antigo Egito j eram feitas tatuagens. Essas foram
encontradas em mmias no Vale do Rio Nilo e segundo especialistas,
eram feitas em prisioneiros, para que eles no fugissem.
   No sculo XVIII, foram vistas por europeus, durante suas navega-
es pelo Pacfico Sul. Os nativos da Polinsia, Filipinas, Indonsia e
Nova Zelnida (Maori) tatuavam-se em rituais religiosos bastante com-
plexos. Os Maori tatuavam inclusive seus rostos e acreditavam que isto
os faria lutar com maior ferocidade, bem como atrair as mulheres.
   Como as tatuagens eram praticadas pelos povos conhecidos na Ida-
de Mdia como "pagos", as pessoas que possuam ento desenhos no
corpo foram brutalmente perseguidas pela Inquisio.

                                                                                   Voc suporta arte?    57
       Ensino Mdio

                                 Mais tarde, no Japo, as tatuagens foram utilizadas para identificar
                             as pessoas da famlia Yakuza (mfia japonesa). Os desenhos preferidos
                             eram cerejeiras, peixes, drages e samurais.
                                 Na ndia,  muito usada a tatuagem de henna, que  feita com um
                             tipo de tinta extrada de uma semente chamada "merrandi" a qual sai
                             da pele em alguns dias. L, a tatuagem  utilizada pela noiva no dia de
                             seu casamento que tatua em seu corpo as letras do nome do marido.
                             No Brasil, a tatuagem j era praticada pelos indgenas antes da chega-
                             da de Pedro lvares Cabral, em 1500 e continua sendo praticada em
                             algumas tribos at hoje.
                                 Entre os ndios Tupinambs, por exemplo, os guerreiros recebiam
                             tatuagens como prmios quando capturavam inimigos. Note que a ta-
                             tuagem, neste caso, possui uma funo hierrquica e no somente es-
                             ttica como nos dias de hoje.


                                  Apesar da tinta da tatuagem de henna ser de origem vegetal e de sair
                               em poucos dias, pode provocar alergia em algumas pessoas, sensveis aos
                               componentes.
                                  J a tatuagem definitiva  feita colocando-se a tinta de forma subcut-
                               nea, o que faz com que ela s saia por meio de cirurgia plstica (o que 
                               bastante caro).




                             z Body Art e a Pele Humana: uma relao que
                               pode "criar o maior caso"
                                 A Body Art, como arte no corpo, utiliza o invlucro que todos te-
                             mos em comum: a epiderme. Quando pensamos em sade fsica, difi-
                             cilmente nos lembramos de sua importncia, mas ela possui um senti-
                             do absolutamente vital para ns: o tato.
                                 Sem este sentido morreramos facilmente, pois no conseguiramos
                             diferenciar, por exemplo, leo fervendo de gua fresca, ou pior, na
                             hora de comer um delicioso chocolate, mastigaramos e engoliramos
                             junto a nossa lngua, pois no sentiramos dor. Sem contar, que evita a
                             perda de lquidos do corpo, mantm sua temperatura e, como boa pro-
                             teo que , a pele nos livra de boa parte das infeces.
                                 Quando decidimos fazer um piercing ou uma tatuagem, estamos op-
                             tando por ferir a pele, um rgo vital, e desta forma ficamos suscetveis
                             a vrias doenas que muitas vezes podem pr em risco nossa vida.
                                (Revista Super Interessante: Colees O Corpo Humano, Vol 8, p.7  8).




58   Movimentos e Perodos
                                                                                                                         Arte

z Voc sabe a diferena entre infeco e
  inflamao? E entre contaminao e contgio?
    Vamos comear falando sobre a inflamao: a inflamao  uma
resposta defensiva do corpo a um tecido lesionado. Ela ocorre quando
o corpo tenta eliminar os microorganismos, toxinas ou o material estra-
nho ao tecido danificado, evitando assim sua disseminao a outros r-
gos e ao mesmo tempo, prepara o local para o reparo do tecido. Ela
possui quatro caractersticas principais que auxiliam no seu reconheci-
mento: rubor (vermelhido), dor, calor e edema (inchao).
    Existem trs estgios na resposta inflamatria: a dilatao e o au-
mento da permeabilidade dos vasos, a migrao fagocitria (movimen-
tao de glbulos brancos para o local) e o reparo.
     no estgio do reparo que aparece um elemento que normalmen-
te no nos agradamos quando o vemos no machucado: o pus. O pus 
um fluido espesso que contm glbulos brancos vivos e mortos e de-
tritos de outros tecidos mortos.
    Sua formao ocorre em praticamente todas as inflamaes, exce-
to as muito brandas, e continua at que a infeco seja reduzida. (TOR-
TORA, 2000, p. 390)
    E a infeco?
    Nem sempre os nossos glbulos brancos so suficientemente efica-
zes para conter a inflamao, ento, ela aumenta e os microorganismos
acabam por se depositar numa variedade de tecidos e rgos, e  a
que ocorre a infeco, que  uma "enfermidade causada pela presena
e desenvolvimento no interior do organismo de uma ou mais varieda-
des de agentes vivos patognicos (bactrias e vrus)". (Houaiss, 2001)
    Existem trs tipos de infeco: a persistente, doena auto-imune e
inalao de material antignico.
    No caso da agresso da derme, ocorrida por meio de piercings e
tatuagens, o tipo de infeco mais comum  a persistente, que ocor-
re por uma resposta fraca dos anticorpos que levam a uma inflamao
crnica e conseqente deposio do tecido. Ex: hansenase, malria,
febre hemorrgica da dengue, hepatite viral, etc. (ROITT, 2003, p. 357)
    J a diferena entre contaminao e contgio  mais fcil de enten-
der. A contaminao ocorre quando h a disseminao de agentes no-
civos, ou seja,  a presena num ambiente, de seres patognicos, que
provocam doenas, ou substncias, em concentrao nociva ao ser hu-
mano. (NASS, em <http://www.cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_13/poluicao.html>, acesso em 07/12/2005)




                                                                                                          Voc suporta arte?    59
       Ensino Mdio

                                 O contgio por sua vez,  a transmisso de uma doena de uma
                             pessoa a outra, seja por contato direto (como no caso da AIDS) ou in-
                             direto (como a gripe, por exemplo). (Houaiss, 2001)
                                 Ento, agora que voc leu sobre os perigos, que tal saber sobre os
                             cuidados?

                                     Cuidados com piercings e tatuagens
                                   Se resolver fazer uma tatuagem ou um piercing, procure, em primeiro
                               lugar, ir a uma clnica indicada por algum como excelente. Observe a hi-
                               giene, o material deve ser totalmente descartvel e esterilizado para evitar
                               infeces. Na hora que estiver fazendo o piercing ou a tatuagem evite se
                               mexer. Doer  normal, portanto, no adianta utilizar remdios ou drogas para
                               evitar a dor. A cicatrizao do piercing pode levar de 6 semanas a um ano,
                               dependendo do local escolhido.
                                  A jia deve ser de material inoxidvel para evitar alergias. J a cicatriza-
                               o da tatuagem  mais rpida e leva em mdia 15 dias, e nesse perodo
                               deve ser passada uma pomada cicatrizante trs vezes ao dia, que normal-
                               mente  indicada pelo tatuador.
                                   Tanto no caso do piercing quanto da tatuagem, no esfregue o local,
                               nem tire a casquinha. Para dormir, proteja a tatuagem com plstico filme.
                               Evite roupas que possam apertar o local. No tome banho de mar, lagoa ou
                               piscina, no v  sauna, nem pegue sol. No tome banhos quentes ou de-
                               morados. Seque o local com muito cuidado e no use roupas apertadas.
                               Tudo isso pelo perodo de 20 dias.




                             z Pintar o corpo tambm  fazer Arte?
                                       Existem outras formas de utilizar o corpo como suporte artstico.
                                        Uma delas  pintando.  dentro deste tipo de Body Art que o
                                             designer Daniel Caballero produz obras artsticas. Ele proje-
                                              ta a pintura, executa sobre o corpo humano e guarda seu
                                              registro na forma de fotografia.
                                             Observe que quando pintado, o corpo j no parece mais
                                       nu, j que a tinta cobre a pele das personagens. O que voc
                                      imagina que represente este enlace entre o vermelho e o azul?
                                         Voc sente vontade de entender o que est escrito em bran-
                                           co no fundo azul, ou as letras e grafismos no so necess-
                                           rios de ser lidos? O que  a obra neste caso, os corpos pin-
                                          tados ou a fotografia?

                             < DANIEL CABALLERO. Mulher azul
                               e Vermelha. Body art e Fotografia,
                               2005.

60   Movimentos e Perodos
                                                                                          Arte

z O Suporte Artstico na Era Digital
    A Arte sempre est "por dentro" de tudo que ocorre no mundo, e 
claro na Era Digital ela no poderia ficar "por fora". Aqui esto exem-
plos que evidenciam sua presena no nosso cotidiano, embora muitas
pessoas nem percebam:
= Infoarte:  a Arte que utiliza recursos de computadores e/ou pro-
    cessamento de dados para ser concebida. Atualmente, com os re-
    cursos de informtica ela est disponvel a uma parcela bastante
    grande das pessoas. Sendo assim, qualquer criao artstica ou de-
    monstrao de arte feita em sistema computacional pode ser deno-
    minada como Infoarte.
= Arte Ditigal: utiliza sistemas binrios de processamento para ser con-
    cebida. Desta forma, ela  a Arte apresentada na tela do computa-
    dor, que fica armazenada em disquetes, cds ou harddisk. Outro re-
    curso da arte Digital hoje  a wap arte.
= Arte na Web: seu meio de apresentao  a Internet. Ela pode ser ob-
    servada em sites de museus virtuais como <http://www.museuos-
    carniemeyer.org.br/>, que  a pgina do Museu Oscar Niermeyer,
    localizado em Curitiba, ou <http://www.louvre.fr>, do Museu do
    Louvre, na Frana.  claro que no  igual estar ao vivo no museu
    e ver suas obras, mas ajuda a conhecer o que h de arte pelo mun-
    do.
= Infogravura:  a gravura cuja matriz  um arquivo digital. No utili-
    za buril, ponta seca, goiva, madeira ou metal para a impresso. Em
    vez disso pode utilizar impressoras matriciais, jato de tinta ou la-
    ser. O computador neste caso, no  usado s como instrumento
    de reproduo, mas  um meio para a criao artstica e o resulta-
    do, aps impresso  a infogravura.
= Wap Arte:  criada para aparelhos que utilizam a rede wap, como ce-
    lulares, por exemplo. Ela s  wap arte enquanto est na rede wap.
    Se passar para o computador, deixa de ser.
= Web Arte: so sites que concebem arte na Internet. Diferente da arte
    na web, que  a apresentao de obras de arte na Internet, na web
    arte a Internet  o suporte da arte, que se faz atravs de softwares
    e da imaginao do artista. Para ela, tambm no h limites. Mas 
    bom lembrar: se voc baixar um site deste para o HD do computa-
    dor, ele deixa de ser web arte, pois j no est na Internet e passa
    a ser infoarte. Exemplos de sites de web arte:
    http://www.artbr.com.br/2002/artes/webart/webart.html>,
    http://gladstone.uoregon.edu/~grodrigu/webar/bwCinema.swf>,
    http://www.boogaholler.com/webart/thegrid.html>.
    Vale consultar tambm o site <http://webartenobrasil.vilabol.uol.
com.br/>, elaborado por um doutorando em arte da USP (Universida-

                                                                           Voc suporta arte?    61
       Ensino Mdio

                             de de So Paulo), que possui um contedo bastante profundo sobre o
                             assunto. Vale a pena conferir.
                                 claro que ainda h muito que desenvolver dentro desta nova for-
                             ma de suporte artstico, pois ainda  muito nova. Mas voc tambm
                             pode participar. Use o seu micro, ou o da escola, biblioteca, ou de on-
                             de tiver acesso.


                             z Referncias
                                Dicionrio Eletrnico Houaiss da Lngua Portuguesa. Verso 1.0. Rio
                                de Janeiro: Editora Objetiva Ltda  Dezembro de 2001.
                                Revista Super Interessante. Colees: O Corpo Humano. Pele: a embala-
                                gem perfeita. Vol. 8. SP: Editora Abril:
                                Revista Super Interessante. Colees: O Corpo Humano. Sistema Imuno-
                                lgico: A linha de defesa. Vol. 12. So Paulo: Editora Abril:
                                Revista Tatoo Creator. N 01. So Paulo: FSK Editora Ltda.
                                Tribos perdidas da Amaznia. Revista National Geographic Brasil. Edi-
                                o agosto 2003. SP: Editora Abril, 2003.
                                COELHO, Teixeira. O Papel da Arte. So Paulo: Museu de Arte Contem-
                                pornea da USP, 2000.
                                CUMMING, Robert. Para Entender a Arte. So Paulo: tica, 1996.
                                NUNES, Fbio Oliveira. Web Arte no Brasil. Disponvel em < http://webar-
                                tenobrasil.vilabol.uol.com.br/>, acesso em 07/12/2005.
                                PIRES, Beatriz Ferreira. O corpo como suporte da arte: piercing, implan-
                                te, escarificao, tatuagem. So Paulo: Editora Senac So Paulo, 2005.
                                PROENA, Maria das Graas Vieira. Histria da Arte. 4 ed. So Paulo:
                                tica, Brasil, 1994.
                                ROITT, Ivan; BROSTOFF, Jonathan; MALE, David. Imunologia. 6 ed. So
                                Paulo: Editora Malone, 2003.
                                STRICKLAND, Carol. Arte Comentada: da Pr-histria ao Ps-moderno.
                                13 ed. Traduo: ngela Lobo de Andrade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
                                TORTORA, Gerard J. Corpo Humano: fundamentos de anatomia e fisiolo-
                                gia. 4 ed. Porto Alegre: Artmed Editora, 2000.
                                Cuidados  piercing. Disponvel em <http://www.tattoocompanysp.com.
                                br/cuid_piercing.asp>acesso em 11/09/05.
                                A histria do piercing. Disponvel em: <http://www.solbrilhando.com.br/
                                _Tatuagens_P/Piercing_Historia.htm> acesso em 11/09/05
                                Mosaico do Imperador Constantino. <http://pt.wikipedia.org/wiki/Ima-
                                gem: Byzantinischer_ Mosaizist_um_1000_002.jpg> acesso em 18/12/05.
                                O que  grafite? Disponvel em: <http://www.ibge.gov.br/ibgeteen /datas/
                                desenhista/grafite.html> acesso em 10/09/05



62   Movimentos e Perodos
                                                                                            Arte

O que  infogravura? Em <http://sergiohelle.com.br/expo/o_que_e_info/
centro.htm> acesso em 11/09/05>
SPRAGUE, Erik. Em <http://www.bmezine.com/news/lizardman-all.html>
acesso em 18/12/05.
MELIM, Daniel. ABC Paulista, SP. 2005. Foto do autor. <http://www.stencil-
brasil.com.br/imagens2.htm> acesso em 18/12/05.
BOTTICELLI, Sandro. Nascimento de Vnus, 1482, Uffizi, Florena. Em <ht-
tp://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Botticelli_72.jpg> acesso em 18/12/05.
DA VINCI, Leonardo. Auto-Retrato. Sangria sobre papel em <http://
pt.wikipedia. org/wiki/Imagem:Possible_Self-Portrait_of_Leonardo_da_Vinci.
jpg> acesso em 18/12/05
Cano do Senhor da Guerra. Legio Urbana. Composio de Renato
Russo e Renato Rocha. Em < http://legiao-urbana.letras.terra.com.br/le-
tras/65536/> acesso em 18/12/05.
Pedra de Roseta: o Egito no seria mais o mesmo. Disponvel em: < ht-
tp://www.geocities.com/lord_dri/b2/pedra_de_roseta1.htm> acesso em
24/09/05
O Pensamento Egpcio, Disponvel em <http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/
novo/2216y013.htm> acesso em 09/09/05.
Os segredos da boa tatoo. Disponvel em: <http://www.terra.com.br/jovem/
especiais/tatuagem /dicas.htm> acesso em 11/09/05
NASS, Daniel Perdigo. O conceito de poluio. Disponvel em < http://www.
cdcc.sc.usp.br/ciencia/artigos/art_13/poluicao.html> acesso em 07/12/05.
Tatuagem, fazer ou no? Disponvel em <http://www.ciadocorpo.com.br/
cia/noticias/tatuagem.htm> acesso em 11/09/05.
<http://www.artbr.com.br/2002/artes/webart/webart.html>     acesso     em
11/09/05
<www.babylon.com> acesso entre 08 e 12/09/05
<http://www.boogaholler.com/webart/thegrid.html> acesso em 11/09/05
<http://gladstone.uoregon.edu/~grodrigu/webart/bwCinema.swf>        acesso
em 11/09/05
<http.//www.louvre.fr> acesso em  11/09/05
<http://www.museuoscarniemeyer.org.br/> acesso em  11/09/05.
<http://noticias.terra.com.br/ciencia/interna/0,,OI118914-EI1728,00.html>
acesso em 24/09/05
<http://geocities.yahoo.com.br/marcusu2/politica.html>     acesso      em
24/09/05




                                                                             Voc suporta arte?    63
       Ensino Mdio




64   Composio
                                                                                                                              Arte




                                                                                                             4
                                               ESSES FAZEDORES DE ARTE:
                                                 LOUCOS SONHADORES OU
                                               CRIADORES IRREVERENTES?
                                                                                              <Sonia Maria Furlan Sossai1




                                                                               izem que sou louco, por pen-
                                                                               sar assim, mas louco  quem
                                                                               me diz, e que no  feliz, eu
                                                                              sou feliz(...)"
                                                                                                         (Rita Lee e Arnaldo Batista)


                                                                                         < Clssicos do Rock Srie Millennium - Os
                                                                                           Mutantes - Polygram - 1998, faixa 7.


                                                                       O que leva as pessoas a pensarem que Ar-
                                                                   te  coisa de loucos?




1
 Colgio Estadual Douradina - Douradina - PR


                                                 Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?                  65
        Ensino Mdio


                                        z Arte  coisa de louco?
                                            Voc com certeza j ouviu o ditado "De mdico e de louco todo
                                        mundo tem um pouco". Estendendo para a Arte, "De artista e de lou-
                                        co todo mundo tambm tem um pouco." Mas, o que isso significa? Se-
                                        r que todos os artistas so loucos?
                                             Fausto, apresentador de TV, sempre que entrevista um artista, faz a
                                        seguinte pergunta: "Na sua famlia todo mundo  normal e trabalha, ou
                                        so como voc?" Algumas pessoas pensam que os artistas no so pesso-
                                        as "normais", so pessoas diferentes, dotadas de um dom especial.
                                            Na sua opinio, como se costuma dizer, um artista pode "fazer a ca-
                                        bea" de algum? O artista, ao expressar sua viso sobre tudo o que
                                        acontece no mundo, pode mesmo mudar a forma de pensar das pes-
                                        soas? Como? Por que ser que artistas populares so contratados para
                                        realizar campanhas publicitrias? O que voc pensa sobre isso? E, afi-
                                        nal, quem  essa figura que chamamos de artista?
                                            Dizem que os artistas possuem o "poder" de influir no modo de
                                        pensar e viver das pessoas. Isso acontece porque o artista trabalha no
                                        s para divertir e entreter, mas, para expressar sua viso sobre tudo o
                                        que acontece no mundo por meio da sua produo. Com isso pode
                                        contribuir para conscientizar o ser humano.
                                            Antes de responder as questes, vamos analisar com cuidado a obra
                                        de alguns artistas que provocaram polmica e, tambm, foram consi-
                                        derados loucos.
                                              Observe com ateno o quadro abaixo:




     < SALVADOR DALI. O enigma de
       Hitler, 1939. leo sobre tela,
       51,2 x 79,3cm, Museu Nacional
       de Arte Reina Sofia, Madri.

66   Composio
                                                                                                      Arte

    O enigma de Hitler  um quadro de Salvador Dali, no qual mostra a
ameaa da guerra que se vislumbra a partir das aes nazistas. Na pintu-
ra, impregnada de sombras, observamos uma foto de Hitler, como que
rasgada de um jornal, sobre um prato. Uma das extremidades de um te-
lefone preto gigantesco tem a forma de uma garra de lagosta, para mos-
trar como a guerra est prxima de acontecer, apesar de todas as conver-
saes para estabelecer a paz. Imagine voc atendendo a um telefonema
como esse! Que mensagem na sua opinio voc poderia ouvir?
    Antes de iniciar a Segunda Guerra Mundial, ningum tinha certeza
do que Hitler seria capaz de fazer,  o que indica o ttulo da obra. Ve-
ja o que Salvador Dali disse sobre a figura de Adolfo Hitler: "Hitler me
atraa somente como objeto de meu delrio e porque me impressionava por
seu inigualvel valor de desastre". (DALI, apud ANDERSON, 2002, p.33)
    Dali  um dos grandes expoentes de um movimento artstico cha-
mado Surrealismo. De onde vem a palavra surrealismo?
    Surreal  uma palavra que significa mais do que real, alm do real,
inventada por um grupo de artistas liderados por Andr Breton (1896-
1996), escritor francs, que influenciou, juntamente com as idias de
Sigmund Freud, o movimento surrealista.


     SigmundFreud (1856-1939), foi um mdico de um grande legado na cultura do sculo XX. Alm do
 termo psicanlise que foi concebido por Freud em 1896, muitos outros conceitos, que foram posterior-
 mente includos na teoria e prtica da psicanlise, foram criados por ele. (ANDERSON 2002, p. 30)
    AndrBreton (1896  1996), foi um dos principais fundadores do Surrealismo, escreveu, alm do
 Manifesto, muitos livros e artigos sobre o movimento. Fazia composies poticas a partir de objetos
 do cotidiano, s quais chamou de "poemobjetos". (CHILVERS, 1998, p. 50)



    A livre associao e a anlise dos sonhos, pensamentos, fantasias e lembranas so mate-
riais de estudo da Psicanlise para entender a mente humana. Para Freud, nada acontece por
acaso. H uma causa para cada pensamento, para cada memria, sentimento ou ao. Os
sonhos so desejos disfarados  tanto os produzidos pelo sono, quanto o que sonhamos en-
quanto estamos acordados.



                 ATIVIdAdE

 ColagemSurrealista
    Para fazer uma imagem surrealista voc vai precisar de cola, tesoura e algumas revistas velhas.
    Recorte de revistas imagens que por alguma razo lhe chamaram a ateno.
    Numa folha de papel A4 desenhe e pinte uma paisagem .
    Selecione das figuras que voc recortou, objetos inusitados que no fazem parte da paisagem que
 voc pintou, cole ao estilo surrealista e d um ttulo para seu trabalho.

                                  Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?      67
       Ensino Mdio

                               z O Manifesto Surrealista
                                   Entre o perodo de 1924 e 1925, alguns artistas surrealistas escreve-
                               ram um manifesto artstico no qual se propunham exprimir, por meio
                               das diversas formas de expresso artstica  artes visuais, msica, poe-
                               sia, cinema  o pensamento inconsciente, livre de qualquer controle da
                               razo. Pretendiam romper com quaisquer regras ou preocupaes so-
                               bre o que pudessem pensar sobre essa arte.
                                   Os artistas surrealistas produziram obras que mostram cenas inte-
                               ressantes, diferentes, ilgicas e, s vezes, amedrontadoras, permitindo
                               que o inconsciente se expressasse na arte, exprimindo as contradies
                               que, segundo eles, ocorrem entre sonho e realidade.
                                   O Manifesto Surrealista foi lanado em Paris, em 1924, por Andr
                               Breton, que vive a aventura do surrealismo como uma experincia
                               existencial, fazendo investigao sobre o homem e o mundo do seu
                               tempo, e como um meio de renovar a arte. Leia um trecho do Mani-
                               festo:


         Fica a loucura. "a loucura que  encarcerada", como j se disse bem. Essa ou a outra. Todos sa-
     bem, com efeito, que os loucos no devem sua internao seno a um reduzido nmero de atos le-
     galmente repreensveis, e que, no houvesse estes atos, sua liberdade (o que se v de sua liberdade)
     no poderia ser ameaada. Que eles sejam, numa certa medida, vtimas de sua imaginao, concor-
     do com isso, no sentido de que ela os impele  inobservncia de certas regras, fora das quais o gne-
     ro se sente visado, o que cada um  pago para saber. Mas a profunda indiferena de que do provas
     em relao s crticas que lhe fazemos, at mesmo quanto aos castigos que lhes so impostos, permi-
     te supor que eles colhem grande reconforto em sua imaginao e apreciam seu delrio o bastante para
     suportar que s para eles seja vlido. (BRETON, Manifesto do Surrealismo, 1924, apud BATCHELOR, 1998, p.50)


                                   Qual o conceito de loucura que Breton retrata nesse Manifesto?



                               z Loucura! Loucura! Loucura!
                                   No sculo XX, quando se desenvolve o processo de industrializa-
                               o da produo econmica, a urbanizao e o desenvolvimento das
                               cincias tecnolgicas, o poder poltico passa da aristocracia para a bur-
                               guesia capitalista. A partir dessas mudanas, a arte transforma-se ge-
                               rando diferentes tendncias, estilos e movimentos, que apresentam
                               caractersticas diferentes e denominaes prprias, tais como: Expres-
                               sionismo, Fauvismo, Cubismo, Futurismo, Abstracionismo, Dadasmo,
                               Surrealismo, etc. Foi um perodo de grandes transformaes de todas
                               as ordens: econmica, poltica, social e cultural. Nesse contexto, um
                               estilo se sobrepunha ao outro com muita rapidez.

68   Composio
                                                                                                       Arte

   "A beleza tem que ser convulsiva", disse o porta-voz do Surrealismo
Andr-Breton. (BRETON, apud STRICKLAND, 1999, p. 128) Atravessando esse conturba-
do perodo, um tema permanecia constante: a arte concentrava-se me-
nos na realidade visual externa e mais na viso interna, como disse Pi-
casso, "... no o que voc v, mas o que voc sabe que est l". (PICASSO,
apud STRICKLAND, 1999, p. 128)
    A arte ocidental do sculo XX produziu uma ruptura radical com o
passado, libertando-se das regras tradicionais e da idia de represen-
tar com exatido a forma visvel dos objetos. Os artistas modernos de-
safiaram as convenes e os estilos da poca, seguindo o conselho do
pintor Gauguin: "...quebrar todas as janelas velhas, ainda que cortemos
os dedos nos vidros". (STRICKLAND, 1999, p. 128)

     Todos esses artistas pertencem  chama-
                                                             O artista
da Vanguarda Artstica Europia, que define os
movimentos da Arte Moderna. De acordo com                   Paul Gauguin(1848-1903), foi um pintor fran-
o Dicionrio Aurlio, com o termo "Vanguar-              cs, uma das maiores figuras do ps-impressio-
da" designamos o grupo de indivduos que                 nismo. Iniciou-se na pintura, por volta de 1870.
exerce papel de precursor ou pioneiro em de-             Aos 23 anos visitou o Brasil, passando um ms
terminado movimento cultural, artstico, cien-           na Guanabara, no Rio de Janeiro.
tfico, etc.


    Assim, a partir do perodo entre as duas Grandes Guerras (1914-
1918 e 1929-1945) os valores comeam a ser questionados, ou seja, tu-
do o que poderia ser considerado certo ou errado, o que se poderia
ou no fazer, etc.
    Iniciados no territrio das artes plsticas, os movimentos de van-
guarda rapidamente se ampliaram em direo s outras manifestaes
artsticas, defendendo a interdependncia e a integrao entre a escul-
tura, a arquitetura, o cinema, a literatura e a msica.


z Maluco Beleza
    Mesmo no pertencendo ao mesmo perodo dos surrealistas da
Vanguarda Artstica, Raul Seixas (1945  1989) era conhecido como
"Maluco", desde a sua adolescncia. Era visto pela sociedade como
uma pessoa cheia de "paranias". Gostava de ficar sozinho, pensando,
horas e horas. Suas reflexes e seu mundo interior, muito rico e inten-
so,  expresso nas letras de suas msicas.
     A maior parte das letras das msicas de Raul era composta com
Paulo Coelho, escritor muito conhecido, autor de vrios livros editados
em diferentes pases do mundo. Leia a seguir a letra da msica de Raul
Seixas que retrata um "Maluco Beleza". Voc j ouviu essa msica? Se
possvel, escute a msica e analise a letra da msica com ateno.

                                     Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?    69
       Ensino Mdio


                                                                  Maluco Beleza
                                          "Enquanto voc se esfora, pra ser um sujeito normal
                                          E fazer tudo igual
                                          Eu do meu lado aprendendo a ser louco
                                          Maluco total na loucura real
                                          Controlando a minha maluquez
                                          Misturada com a minha lucidez
                                          Vou ficar...ficar com certeza
                                          Maluco beleza ...
                                                   Este caminho que eu mesmo escolhi
                                                    to fcil seguir
                                                               Por no ter onde ir (...)"

                                     < Raul Seixas- Enciclopdia musical Brasileira - Maluco Beleza- Faixa 01 Warner Music,
                                       WEA music 2001




                      ATIVIdAdE

         O que questiona a letra da msica de Raul? Comparando o trecho citado do Manifesto Surrealista
     (que propunha uma atitude de revolta contra a ordem do mundo) com a msica Maluco Beleza  fcil
     perceber que os dois textos falam de idias semelhantes, mas em diferentes linguagens: os dois falam
     da loucura, da maluquez, protestando contra o pr-estabelecido.
        Com a sua turma, discuta e aponte as diferenas e semelhanas entre os dois textos.
         Elabore uma narrativa a partir de uma situao observada no seu dia-a-dia que voc considera "fo-
     ra do normal" ou "maluca". Apresente o trabalho para seus colegas. A turma poder escolher a situa-
     o "mais maluca" apresentada e a partir dela, dramatizar a cena.




                             z Realismo e Surrealismo
                                 Enquanto o Surrealismo trata dos sonhos e do imaginrio, o Rea-
                             lismo de Courbet, por exemplo, tem por objetivo revelar os aspectos
                             mais caractersticos e expressivos da realidade "nua e crua", sem en-
                             feites. Observe a obra, Bom dia, senhor Courbet, que mostra uma ce-
                             na com realismo e uma franqueza, na qual o artista se representou de
                             bengala e mochila no momento em que seu anfitrio veio ao seu en-
                             contro na estrada, com um criado e um cachorro. (STAHEL, 1999, p.111)




70   Composio
                                                                                                                        Arte




< GUSTAVE COUBERT. Bom dia, senhor Coubert, 1854. leo sobre tela, 129 cm x 149 cm. Museu Fabre, Montpellier, Frana.

    A tendncia realista se expressa, sobretudo, na pintura. As obras
privilegiam cenas cotidianas de grupos sociais menos favorecidos.
Apesar da oposio entre os movimentos, vrios pintores surrealistas
eram apaixonados pelo Realismo, porque o tipo de composio e o
uso das cores mostravam a realidade dos camponeses, dos trabalhado-
res, enfim, das classes populares, como voc pde observar na obra
de Courbet.
    O francs Gustave Courbet (1819-1877)  considerado um dos
maiores expoentes do Realismo. Para ele, a beleza est na verdade e
suas pinturas chocam o pblico e a crtica da poca, acostumados com
as pinturas romnticas, alegres e embelezadas. Suas obras so conside-
radas um protesto social, em defesa dos trabalhadores e dos homens
mais pobres da sociedade do sculo XIX.



                                                  Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?        71
           Ensino Mdio

                                           z Realismo e Modernismo
                                               Muitos artistas brasileiros tambm retrataram a realidade social dos
                                           trabalhadores. A obra de Tarsila do Amaral  um exemplo disso.
                                               Essa obra apresenta uma cena comum. A obra 2 Classe retrata a si-
                                           tuao das pessoas que so obrigadas a viajar numa condio inferior
                                           a uma outra, de "primeira classe", exclusiva da elite.
                                               Na busca da realizao do sonho de melhores condies de vida,
                                           muitas pessoas deixam o campo e vm para a cidade.

                                                                                                   A artista
                                                                                                     Tarsila do Ama-
                                                                                               ral (1886 - 1973), foi
                                                                                               uma das mais impor-
                                                                                               tantes artistas brasi-
                                                                                               leiras de sua poca.
                                                                                               Suas obras so de
                                                                                               grande simplicidade,
                                                                                               inspiradas nos temas
                                                                                               e na realidade nacio-
                                                                                               nal. Tarsila fez parte
                                                                                               do movimento mo-
                                                                                               dernista brasileiro, es-
                                                                                               tudou na Europa, e
                                                                                               lutou para que o Bra-
                                                                                               sil tivesse o reconhe-
                                                                                               cimento da sua Arte.
     < TARSILA DO AMARAL. 2 classe,1933. leo sobre tela, 110 x 151 cm. Coleo particular.




                             ATIVIdAdE

           Descreva a cena representada no quadro de Tarsila do Amaral, 2 Classe e discuta com seus cole-
       gas: O que mais chama sua ateno no quadro? Por qu? Na sua opinio, qual foi a inteno de Tarsi-
       la ao escolher esse tema?
            Procure em jornais e revistas imagens que retratem situaes semelhantes.
           Selecione, recorte e elabore uma composio que retrate a realidade brasileira. Pode complemen-
       tar com lpis e canetas coloridas.
         Combine com sua professora para guardar todos os trabalhos artsticos dessa unidade para fazer
       uma exposio.




72     Composio
                                                                                                                       Arte

z A Perspectiva na Arte Clssica e Moderna
   A perspectiva  uma tcnica de representao pictrica que se de-
senvolveu a partir do incio do sculo XV, por artistas italianos. Nela,
quanto mais distante o objeto estiver do observador, menor ser a re-
presentao da sua figura e mais distante da base inferior da tela, que
corresponde ao primeiro plano de representao.
   Muitos quadros surrealistas figurativos foram elaborados de acor-
do com as regras da perspectiva. Entretanto, so muito diferentes das
obras daquela poca, pois mostram um mundo estranho, fantstico,
expressando desde a serenidade de um sonho, at a turbulncia de
um pesadelo.
   Observe e compare as obras A ltima Ceia dos artistas abaixo:




< LEONARDO DA VINCI. A ltima Ceia. Afresco (1495-1497). Capela Santa Maria delle Grazie, Milo, Itlia.




< SALVADOR DALI. A ltima Ceia. leo so bre tela, 167 x 268 cm. Nacional Gallery of Art, Washington DC.




                                                     Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?    73
       Ensino Mdio

                          Apesar de utilizar as regras de perspectiva nesse quadro, a obra de
                      Dali no tem a mesma forma da obra de Leonardo da Vinci, no Re-
                      nascimento. Enquanto Leonardo preocupa-se em representar a reali-
                      dade visvel, Dali trabalha simbolicamente com o nmero doze: os do-
                      ze apstolos; os doze pentgonos que compem o dodecaedro, para
                      compor o fundo do quadro; e, doze horas e doze minutos, como o ho-
                      rrio que teria ocorrido a cena.
                          Mas, em relao  composio, as duas obras apresentam seme-
                      lhanas. Vemos que ambas utilizam as regras da perspectiva para tra-
                      duzir o volume e a profundidade das formas no espao plano do qua-
                      dro. A profundidade ou terceira dimenso  fingida pelo artista por
                      meio de pontos de fuga e diagonais que aumentam ou diminuem o ta-
                      manho das figuras mais ou menos prximas da base do quadro. Ob-
                      serve tambm que, nas duas obras, o centro geomtrico est localizado
                      na cabea de Cristo, bem no centro geomtrico da composio, apre-
                      sentando uma estrutura simtrica, distribuindo igualmente o peso dos
                      dois lados.




                      < Linha de perspectiva da obra ltima Ceia



                      z Vises diferentes de arte
                         Giotto e Rego Monteiro, nas suas composies com o mesmo tema,
                      no fazem uso da perspectiva tradicional (do Renascimento). Observe
                      nas obras, que cada artista representou o tema de formas diferentes.
                         A obra ltima Ceia de Giotto aproxima-se da idia de representa-
                      o do real de Leonardo, apesar de apresentar uma estrutura formal
                      ainda sem perspectiva, como a conveno religiosa da poca exigia
                      para expressar santidade. Observe como Giotto coloca os apstolos




74   Composio
                                                                                                                        Arte

sentados nos dois lados da mesa, enquanto Rego Monteiro, inspirado em Leonardo, os colo-
cam de um s lado, de frente para o observador. Sem o domnio da perspectiva, Giotto repre-
senta a aurola das figuras, como um circulo sem perspectiva.

                                                            O artista
                                                          Giotto.di Bondone (1267-1337) pintor e ar-
                                                      quiteto florentino, visto como o fundador da tradi-
                                                      o bsica da pintura ocidental, introduz novos
                                                      ideais naturalistas criando um estilo convincen-
                                                      te de espao pictrico. (MARCONDES, 1998)




                                                    < GIOTTO DI BONDONE. ltima Ceia, 1337, afresco da Capela da Famlia
                                                      Scrovegni em Pdua - Itlia (1290  1337).



    Observe que Rego Monteiro artista do modernismo brasileiro, por sua vez, representa, sem a
perspectiva tradicional, a cena. Os pratos so vistos de uma vista superior, enquanto o jarro e o
clice apresentam vista lateral. A mesa "parece"
estar na vertical.
    Rego Monteiro, representa, sem a perspec-
tiva tradicional, a cena. Os pratos so vistos de
uma vista superior, enquanto o jarro e o clice
apresentam vista lateral. A mesa "parece" es-
tar na vertical.


     O artista
    Vicente Rego Monteiro (1899  1970), pintor
 que mostrou seu talento artstico muito cedo.
 Seus trabalhos foram influenciados pelo Cubis-
 mo, por meio de um modo prprio e original.        < REGO MONTEIRO. A Santa Ceia, 1925. leo sobre tela, 70 x 92 cm. Ga-
 (MARCONDES, 1998)                                    leria Metropolitana de Arte, Recife, Pernambuco. Fundao Bienal de So
                                                      Paulo  MEC. Bienal Brasil, sculo XX, 1993, p. 165.




                                  Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?                         75
          Ensino Mdio



                            ATIVIdAdE

           Como foi visto, a ltima Ceia representada por Leonardo, Dali e Rego Monteiro apresentam uma ca-
       racterstica em comum: a simetria.
          Simetria  qualidade de uma figura ou composio que, supondo um eixo vertical que passa por
       seu centro, obtm um equilbrio perfeito por meio da disposio de componentes similares de cada la-
       do do eixo. (MARCONDES, 1998, p. 266)
            Vamos, ento, elaborar uma composio simtrica?
            Organize a turma em grupos e definam um tema que utilize a mesa como figura central.
            Em primeiro lugar, dividam uma folha de papel 50 x 70 cm ao meio, com um eixo ou linha vertical.
           A partir do tema escolhido, elaborem uma composio desenhando as mesmas figuras nos dois
       espaos divididos pela linha que separa a mesa em duas partes iguais. Faam o acabamento com pin-
       tura e colagem.


                                                                            z Magritte e o Surrealismo
                                                                                Na obra A Condio Humana, a realidade
                                                                            e a sua representao misturam-se. Veja como
                                                                            o cavalete se integra com a vista do mar e da
                                                                            praia, que aparece alm da janela.
                                                                                Construa um texto apontando algumas ca-
                                                                            ractersticas do Surrealismo de Magritte.
                                                                                 Leia seu texto para a turma e faa uma
                                                                            sntese com todas as caractersticas destacadas
                                                                            pelo grupo.




                                                                                 O artista
                                                                                 Rene Magritte (1898-1967) tambm admi-
                                                                             ra os realistas. Apesar de ser considerado por
                                                                             muitos como surrealista, o prprio artista reagiu
                                                                             ao ser assim classificado, afirmando fazer uso da
                                                                             pintura com o objetivo de tornar visveis os seus
                                                                             pensamentos.
     < RENE MAGRITTE. A Condio humana, 1935. leo s/ tela, 100 x 81 cm.
       Coleo Simon Spierer, Genebra, Sua.




76     Composio
                                                                                                           Arte



                ATIVIdAdE

    Observe a obra de Magritte, o que voc v neste quadro A Traio das Imagens de Magritte?
    A frase em francs "Ceci n'est pas une pipe", em portugus significa: "Isto no  um cachimbo".
 Se na imagem vemos um cachimbo, por que Magritte escreve abaixo que "Isto no  um cachimbo"?
    Inspirado nas idias de Magritte, faa um trabalho na tcnica do desenho, pintura ou colagem.
    No esquea de guardar seu trabalho para a exposio!




                         < RENE MAGRITTE. A Traio das imagens, 1928-29. leo sobre tela, 62,2 x 81 cm.
                           Los Angeles Country Museum of Arte, Los Angeles, EUA.




z Sonhando de olhos abertos
    Por meio do Surrealismo podemos manifestar livremente todos os
nossos sonhos. Como podemos ver, a marca do Surrealismo  a viso
mgica da realidade, a exaltao da irracionalidade, do imaginrio, e o
mundo dos sonhos. Qual  o seu sonho?
    Martin Luther King, um importante lder do movimento pelos direi-
tos dos negros americanos, por exemplo, lutou para realizar um gran-
de sonho, a conquista da igualdade dos direitos humanos por meio de
aes pacficas. Por suas idias contra os preconceitos, principalmen-
te o racial, Martin foi assassinado em 1968, aos 39 anos. Mas, afinal o
verbo sonhar significa sempre a mesma coisa? Ele tambm tinha um
sonho que expressa o desejo coletivo pela paz e pela igualdade. Va-
mos ler?




                                     Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?        77
       Ensino Mdio


                                                  Eu tenho um sonho
                                                     I have a dream


                                                                               (traduo)
     ... We hold these truths to be self-evident that       ...Acreditamos na verdade auto-evidente de
     Allmen are created equal.                              ...que todos os homens so iguais.



     I have a dream that one day, out in the red            Eu tenho um sonho de que, um dia, l nas
     Hills of Georgia, the sons of fomer slaves             colinas
     And the sons of former slave-owners will be            Avermelhadas da Gergia, os filhos de antigos
     Able to sit down together at the table of brother senhores de escravos podero se sentar
     hood.                                             juntos  mesa da fraternidade.



     I have a dream that one day, even the                  Eu tenho um sonho de que, um dia, at
     State of Mississippi, a state sweltering with          mesmo o Mississipi, um estado abafado
     The heat of oppression, will be transformed            pelo calor da opresso, ser transformado
     Into an I have oasis of freedom and justice.           em osis de liberdade e justia.



     have a dream that my four little children              Eu tenho um sonho de que meus quatro filhinhos
     Wil one day live in a nation where they will           vivero um dia em uma nao
     Not be judged by the color of their skin but           onde no sero julgados pela cor de sua pele
     By their character.                                    mas pelo seu carter.



     A dream today.                                         Hoje, eu tenho um sonho.
     I have a dream that one day, dow in                    Eu tenho o sonho de que um dia, l no Alabama,
                                                            ...garotos negros e garotas negras
                                                            podero dar as mos a garotos brancos e
                                                            garotas brancas como se fossem irmos e ir-
                                                            ms.


                                                            Hoje eu tenho um sonho...
                                                                                         < (DOLABELA, 2003, p.16).




78   Composio
                                                                                                                    Arte


                        dEBATE

      Forme um grupo com aproximadamente 04 alunos.
      Discuta no seu grupo as idias do texto.
      Utilize o dicionrio para pesquisar as palavras desconhecidas.
      Faa uma cpia (reproduo) do texto.
      Recorte palavras ou expresses do texto "I have a dream", coloque-as num saquinho de papel e
  mexa bem para que as palavras se misturem.
      Aleatoriamente, retire as palavras do saquinho e na ordem que elas forem sendo retiradas, estrutu-
  re um poema em ingls. Este poema apresentar uma forma surreal.
      Mostre o poema para seus colegas na forma escrita e falada.


z Sonhos pintados  mo!
   A obra de Salvador Dali mostra os relgios derretendo numa praia sob o calor do sol. Um
deles pende amolecido de um galho de uma rvore e outro atrai uma infestao de formigas.
Todos os dois marcam horas diferentes, sugerindo o retrato de um mundo incerto. Seria um
mundo real ou um mundo de sonhos?




< SALVADOR DALI. A persistncia da memria, 1931. leo sobre tela, 24x33 cm. Museu de Arte Moderna, Nova York.


                                                  Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?    79
        Ensino Mdio



                       ATIVIdAdE

         Voc costuma sonhar? Qual foi o sonho mais estranho que voc j teve? Ou talvez um pesadelo?
          Escolha um objeto estranho que estava presente no seu sonho e desenhe "amolecendo" seus con-
      tornos, como fez Dali;
         Com uso de lpis de cor ou tinta procure criar efeitos de profundidade, deixando partes claras e es-
      curas.
         D um ttulo surrealista para seu trabalho!
          Que tal agora montar uma exposio de arte com todos os trabalhos surrealistas realizados nesta
      unidade? A exposio poder ser feita na escola mesmo. Convide a comunidade para apreciar a expo-
      sio. Receba bem os visitantes e explique tudo o que voc aprendeu.
           Depois de todas as atividades e estudos realizados, ainda se pode afirmar que todos os artistas no
      so pessoas "normais"? O que  ser "normal"? E quando  que algum deixa de ser "normal"? Afinal os
      artistas so loucos sonhadores ou criativos irreverentes? Ou ambas as coisas?



     z Referncias
       BATCHELOR, D. Essa liberdade e essa ordem: a arte na Frana aps a primeira guerra mundial. In:FER,
       B; BATCHELOR, D; WOOD, P. Realismo, Racionalismo, Surrealismo: a arte no entre-guerras. So Pau-
       lo: Cosac & Naify, 1998, p. 3  86.
       BERTELLO, M. A. Palavras em Ao. Minas Gerais: Claranto, 2003.
       BRAGA, A- REGO, L . Tarsila do Amaral. Mestres das Artes no Brasil: So Paulo, Moderna, 1999.
       CABRAL, A. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Nikos Stangos, 1991.
       CHILVERS, I. Dicionrio Oxford de Arte. So Paulo: Martins Fontes, 1996.
       DOLABELLA, F. Pedagogia Empreendedora. So Paulo: Editora de Cultura, 2003.
       FERREIRA G. Cultura Posta em Questo  Vanguarda e subdesenvolvimento. So Paulo. Editora Jos
       Olympio, 2002.
       GRAA PROENA. Histria da Arte. 4 ed. So Paulo: tica Brasil, 1994.
       HELENA, L. Movimentos da Vanguarda Europia. So Paulo: Scipione, 1993.
       MADDOX, C. SALVADOR DALI: 0 Gnio e o Excntrico. Colnia, Alemanha: Taschen,1993.
       MARCONDES, L. F. Dicionrio de Termos Artsticos. Rio de Janeiro: Pinakothe,1998.
       OSTROWER, F. Universos da Arte. Rio de Janeiro. Campos Ltda, 1983.
       ROBERT, A.  Salvador Dali  Coleo Grandes Mestres  tica, 1 edio, 2002.
       STAEL, M. (trad.) O Livro da Arte. So Paulo: Martins Fontes, 1999.
       STRICKLAND, C. in ANDRADE, A. L. de. Arte comentada: da Pr-histria ao ps-moderno. 13 ed. Rio
       de Janeiro: Ediouro, 1999.




80    Composio
                                                                                 Arte



   ANOTAES




               Esses fazedores de arte: loucos sonhadores ou criadores irreverentes?    81
       Ensino Mdio




82   Elementos Formais
                                                                                                                      Arte




                                                                                                      5

                                               A ARTE  PARA TODOS?
                                                                                        <Sonia Maria Furlan Sossai1




                                                            papa  pop, o papa  pop!
                                                            O pop no poupa ningum..."

                                                     < Engenheiros do Hawaii, O Papa  pop - Autor: Humberto Gessinger, Ano:
                                                       1989


                                                    O que  Pop? Popular  pop?
                                                    Arte popular  pop?
                                                    Ou Pop  simplesmente Pop Art?
                                                    Espera a, travou sua lngua?
                                                    Pois , at o trava-lnguas  popular!




3
 Colgio Estadual Douradina - Douradina - PR

                                                                                              A Arte  para todos?             83
       Ensino Mdio

                         z A exploso do Pop
                             A palavra pop vem da abreviatura do termo popular. Por exemplo,
                         atualmente, usa-se o termo em ingls pop music para designar um cer-
                         to tipo de msica popular. Essas msicas, assim como alguns tipos de
                         danas, festas, pinturas, etc, fazem parte do que se costuma identificar
                         como Cultura Popular. Na lngua inglesa a palavra "pop" primeiramen-
                         te designa um som de uma exploso. Que exploso ser essa?
                             Cultura diz respeito ao modo de ser e de viver dos grupos sociais,
                         que coletivamente vo produzindo tudo aquilo que  necessrio para
                         a existncia de um povo, ou seja, a lngua usada, as regras de conv-
                         vio, o gosto, o que se come, o que se bebe, o que se veste, etc.; saber
                         que  elaborado e reelaborado atravs do tempo. Trata-se de conhe-
                         cimentos, tcnicas, valores, hbitos, regras, smbolos, etc. que consti-
                         tuem "... o conjunto da produo humana". (SAVIANI, 1992)


                         z Tudo que  popular  arte?
                             A palavra "popular" significa tudo que  aceito pelo povo ou, ainda,
                         o que  feito pelo e para o povo. Voc j ouviu algum dizer "Aque-
                         le cantor  popular ", isto significa que a maioria das pessoas do povo
                         conhece o cantor. Assim, quando falamos em cultura popular estamos
                         nos referindo a aspectos da cultura que so aceitos ou conhecidos pe-
                         lo povo e que so produzidos por ele prprio ou para ele. A respeito
                         da Cultura Popular, Marilena Chau, indaga: "Seria a cultura do povo
                         ou a cultura para o povo?" (CHAU, 1994)
                             Levando em conta a questo do seu processo produtivo, identifica-
                         mos uma oposio entre duas formas de cultura, uma produzida pe-
                         lo e para o povo e outra pela e para uma elite, ou seja, a classe do-
                         minante. Isso acontece porque nossa sociedade  dividida em classes
                         sociais que ocupam diferentes funes e tm acesso diferenciado aos
                         bens culturais, como a Arte, por exemplo.
                             Opondo-se  "Cultura Popular", a "Cultura Erudita"  mais valori-
                         zada por ser considerada uma cultura mais elaborada e refinada. Essa
                         oposio ocorre porque os grupos sociais dominantes monopolizam e
                         se apoderam dos meios de produo e elaborao do conhecimento
                         para realizar seus interesses prprios.
                             No mbito da cultura popular encontramos elementos que so pro-
                         duzidos coletivamente no cotidiano de um povo e transmitidos oral-
                         mente de gerao para gerao, sem que se saiba quem  o seu au-
                         tor. Esses elementos como o artesanato, a msica sertaneja, as festas, os
                         costumes, as crenas, tambm fazem parte da cultura popular e formam
                         um complexo cultural de uma nao que retrata a alma desse povo.




84   Elementos Formais
                                                                                                                Arte

z Diversidade da Cultura e Arte Popular
    A cultura popular brasileira  ampla e diversificada pela miscigena-
o, que revela justamente a mistura das etnias e das culturas dos po-
vos que constituram a nossa identidade. Sabe aquele ch que sua av
ensinou sua me a fazer quando algum estava doente? Ele faz parte
da cultura popular que geralmente  transmitida oralmente de gerao
para gerao: o folclore.
    O folclore brasileiro valoriza os costumes e crenas de cada regio
do pas. As "Festas Juninas", por exemplo, so festas populares que
acontecem em todo o Brasil, mas so feitas de diferentes maneiras, de-
pendendo dos costumes e das particularidades locais.
    O mesmo acontece com as brincadeiras e cantigas de roda. Voc
lembra de alguma cantiga de roda cantada pelas crianas na sua infn-
cia? Ser que as crianas de hoje cantam as mesmas cantigas? Ou ser
que mudou alguma coisa?
    E sobre Arte Popular, voc ouviu falar?
    Costuma-se chamar de Arte Popular aquela que agrada ao povo, 
feita para ou pelo povo. Mas, de modo geral, essa qualificao de "po-
pular" carrega uma conotao pejorativa como se fosse inferior, de me-
nor qualidade ou menos elaborada. Na verdade "... a burguesia acabou
impondo s outras o seu conceito particular de arte e, do mesmo mo-
do, seu critrio de beleza e o seu padro de gosto". (JUSTINO, 1999)
     De fato, de acordo com Justino, cria-se uma ruptura entre popu-
lar e erudito. Hoje, no entanto, a elite incorpora ao seu padro estti-
co vrios elementos da Arte Popular.
    Quando se pensa em Arte Popular no  raro vir em nossa mem-
ria o artesanato, a dana, a msica, as festas, ou as cenas em miniatu-
ra do Nordeste brasileiro, modeladas em barro, ou, ainda, as Carrancas
colocadas na proa das embarcaes.

                                                                         O Artista:
                                                                       Vitalino Pereira dos Santos, o
                                                                   Mestre Vitalino (1909-1963), Ar-
                                                                   teso, ceramista que ficou co-
                                                                   nhecido por retratar em seus
                                                                   bonecos de barro a cultura e o
                                                                   folclore do povo nordestino.



                                                             < Figura34.15. Retirantes, Mestre Vitalino, p. 249. Refe-
                                                               rncia: PROENA, G .- Histria da Arte. 4 ed. So Pau-
                                                               lo: tica Brasil, 1994.




                                                                                      A Arte  para todos?               85
       Ensino Mdio

                                 As Carrancas colocadas nas proas das embarcaes, so uma forma
                             de Arte Popular bem conhecidas em alguns lugares.
                                 Voc j sabe o que vem a ser uma Carranca?
                                 As Carrancas constituem-se numa das mais belas e enigmticas ma-
                             nifestaes da Arte Popular brasileira. So cabeas enormes, geralmen-
                             te esculpidas em madeira que so colocadas na proa (frente) de em-
                             barcaes, desde o tempo dos Vikings. Entre as vrias verses sobre
                             a sua finalidade, as mais populares so aquelas que afirmam que elas
                             servem para proteger as embarcaes e afastar os maus espritos. No
                             Brasil, elas so muito freqentes nas embarcaes do Rio So Francis-
                             co. Atualmente, so mais utilizadas como elemento de enfeite.




                             < Carrancas




                      ATIVIdAdE

        Vamos fazer uma carranca em miniatura?
        Pesquise a histria das Carrancas em livros na biblioteca de sua escola ou na Internet.
        Observe as diferentes verses e formas de represent-la.
        Crie a sua carranca e faa seu projeto por meio de um desenho.
         Transfira seu projeto de miniatura de carranca para um material como o giz, o sabo, at mesmo o
     lpis.
         Para esculp-la, utilize algum instrumento ponte-agudo, com muito cuidado, observando atentamen-
     te os detalhes.
        No esquea de dar um nome  sua escultura e inventar uma histria sobre "seus poderes".
        Faa uma exposio junto com seus colegas para todos apreciarem seus trabalhos.




86   Elementos Formais
                                                                                                                                  Arte

z O pop no poupa ningum
    E Pop Art, o que significa?
    No  a arte feita pelo povo, mas produzida para o consumo de
massa, como a pop music! Esta Arte nasceu na Inglaterra no incio dos
anos 50, em pleno desenvolvimento da cultura industrial. Pop Art 
uma abreviao do termo em ingls popular art, cuja traduo literal
seria Arte Popular.



z O pai da pop art
    Richard Hamilton  considerado o "pai da pop art". Desde muito
cedo manifestou seu "... entusiasmo por uma arte, em oposio  lon-
ga tradio cultural da Europa". (HONNEF, 2004) Ele pinta, desenha, fotogra-
fa, produz colagens, instalaes e design's.
    Observe a obra abaixo:
                                                                                                       Esta colagem do interior de
                                                                                                   uma casa dos anos de 1950  um
                                                                                                   marco da arte ps-guerra. Nela o
                                                                                                   artista combinou fotografias com
                                                                                                   recortes de revistas para mostrar
                                                                                                   o paraso do consumidor.
                                                                                                       A inscrio POP no imenso
                                                                                                   pirulito  instigante e inovado-
                                                                                                   ra, trata-se da primeira vez que a
                                                                                                   palavra  utilizada para anunciar
                                                                                                   uma nova arte, ou seja, o movi-
                                                                                                   mento da Pop Art, que utilizava
                                                                                                   como fontes de inspirao smbo-
                                                                                                   los da cultura de massa, objetos
                                                                                                   e temas do cotidiano moderno,
                                                                                                   principalmente, ligados  socie-
                                                                                                   dade de consumo e aos meios de
                                                                                                   comunicao. Sanduches, tiras
                                                                                                   de histria em quadrinhos, ann-
                                                                                                   cios, cenas de TV, e fotos de ce-
                                                                                                   lebridades so incorporados di-
                                                                                                   retamente ao trabalho artstico e
< RICHARD HAMILTON. O que exatamente torna os lares de hoje to diferentes, to atraentes, 1956.
  Colagem sobre papel , 26 cm x 125 cm. Kunsthalle, Tbingen, coleo particular.


complementados por meio de diferentes tcnicas, tais como fotografia, pintura, colagem, es-
cultura, serigrafia, etc.. As colagens e reproduo de imagens em srie so caractersticas das
obras da Pop Art. (HONNEF, 2004)

                                                                                                                 A Arte  para todos?    87
           Ensino Mdio

                                              z O papa da pop art
                                                  Andy Warhol  considerado o "papa da pop art". Sua arte  inspira-
                                              da nos smbolos de consumo das massas urbanas: lmpadas eltricas,
                                              enlatados, automveis, sinais de trnsito e, at mesmo, as imagens de
                                              celebridades que, tambm, so consumidas em massa, por meio do ci-
                                              nema, da tv e das revistas. Veja, como exemplo, o trabalho feito a par-
                                              tir de uma fotografia de Elvis Presley, um dos maiores dolos do rock
                                              americano.

                                                      O artista
                                                      Andy Warhol (1928 1987), estudou no Liceu de Schenley onde fre-
                                                 qentou as aulas de arte. A famlia, com base nas poupanas, conseguiu
                                                 pagar-lhe os estudos universitrios para os quais teve que se esforar bas-
                                                 tante, sobretudo na cadeira de Expresso, devido ao seu deficiente conhe-
                                                 cimento do ingls, j que a me nunca tinha deixado de falar checo em fam-
                                                 lia. Por sua vez, nas aulas artsticas, criava problemas, ao no aceitar seguir
                                                 as regras estabelecidas.
     < WARHOL, Foto, Polaroid Self-Portrait. The Andy Warhol Fundation for the Visual Arts, Inc. Referncia: Fundao Bienal de So Paulo. Catlogo da 23 Bienal Inter-
       nacional de Arte de So Paulo  salas especiais. So Paulo, 1996, p. 57.


        O retrato foi um dos temas mais explorados por Andy Wahrol, principalmente de personali-
     dades famosas do cinema e da poltica, a partir de imagens fotogrficas bem conhecidas usadas
     na publicidade, utilizando a tcnica da serigrafia, valorizando detalhes e acrescentando cor.




     < ANDY WARHOL. Elvis I e II, 1964. Painel em serigrafia sobre acrlico sobre tela, 208,3 x 208,3 cm. Art Galery of Ontrio, Toronto, Canad.


         Voc conhece essa tcnica? Aposto que algum da sua sala tem alguma camiseta com uma
     figura estampada! Voc sabia que geralmente elas so feitas a partir da tcnica da serigrafia?

88     Elementos Formais
                                                                                                                        Arte

    A serigrafia  uma tcnica com a qual se pode fazer vrias reprodu-
es sobre papel ou tecido. Utiliza-se uma armao com tela fina, de
seda ou tecido sinttico. A imagem que se quer reproduzir  transferi-
da para a tela por meio de um processo que veda os espaos que de-
vem ficar em branco, deixando passar a tinta onde est a figura ou tex-
to que deve ser reproduzido. A tela  colocada sobre o papel ou tecido
que se deseja estampar e a tinta apropriada  aplicada sobre a tela e
espalhada com uma esptula. Atualmente existem mquinas que facili-
tam esse processo. (MARCONDES, 1998) Se for possvel, sugerimos que faam
uma visita a uma oficina de serigrafia para conhecer melhor o proces-
so.  bem interessante!



                ATIVIdAdE

     Vamos fazer um projeto para uma serigrafia inspirado nas obras da arte Pop?
     Crie uma composio para uma camiseta especial da sua turma. Lembre-se de que a imagem de-
 ve ser caracterstica da turma!
     Transfira o desenho para um estncil prprio para o mimegrafo da sua escola.
    Em seguida, faa uma cpia para cada aluno de sua sala, assim como os seus colegas, cada alu-
 no dever escolher as trs que considerar mais interessantes e pintar como desejar.
     Exponham, observem os trabalhos e faam a eleio da imagem que deve representar a sua sala.
    Se for possvel, podem mandar fazer a camiseta em serigrafia mesmo ou, ento, transferir o dese-
 nho com papel carbono para uma camiseta branca e pintar com tinta prpria para tecido.




                dEBATE

      Nessa obra, Marilyn Monroe  apresentada como
 uma mscara impenetrvel, reproduzida em dez dife-
 rentes combinaes de cores brilhantes e luminosas,
 tambm utilizando a tcnica da serigrafia. Parece que o
 artista quis mostrar que Marilyn  um produto da cultu-
 ra de massa, reproduzido em srie e embalada para o
 pblico como mais um objeto de consumo.
     Voc concorda com Warhol?
     Discuta com sua turma os efeitos da indstria cul-
 tural e da propaganda nos hbitos de consumo dos jo-
 vens.


                                                           < ANDY WARHOL. Turquoise Marilyn,1964. Silk-screen sobre papel,
                                                             91,5 x 191,5 cm. Museum of Modern Art, Nova York.

                                                                                                A Arte  para todos?           89
           Ensino Mdio



                              ATIVIdAdE

           Procure, em revistas, fotos de artistas famosos e selecione aquela que voc considerar mais inte-
       ressante e popular.
             Recorte-a mantendo o formato retangular da folha da revista.
             Faa vrias cpias (xerox) da imagem escolhida e pinte-as.
            Assim como Warhol criou obras com mitos do "star sistem" monte seu painel com fotos do seu ar-
       tista escolhido.
             Montem uma exposio e verifiquem qual  o personagem mais popular nos trabalhos de toda a turma.
             Reflitam sobre as razes que levaram vocs a essa preferncia.



                                                                 De todas as manifestaes artsticas, a fotografia, que tam-
                                                               bm foi muito utilizada na Pop Art, foi a primeira tcnica a se po-
                                                               pularizar na sociedade industrial. A fotografia tornou-se popular
                                                               porque permite registrar pessoas e momentos importantes que,
                                                               antes, s eram possveis por intermdio da pintura e da gravura.
                                                               E de modo mais simples e rpido que as tcnicas de gravura, a
                                                               fotografia permite a reproduo das imagens em srie.
                                                               Uma imagem fotogrfica registra e expressa sentimentos, boas
                                                               ou ms lembranas, e pode mostrar diferentes formas de ver a
                                                               realidade, por meio de diferentes pontos de vista.
                                                               Voc costuma tirar muitas fotografias? Qual a sua temtica fa-
                                                               vorita?
     < Fotos: Icone Audiovisual




                              ATIVIdAdE

             Na sua cidade, existem diferentes lugares e diferentes realidades.
          Faa um passeio pelas redondezas da sua escola, junto com sua professora e sua turma, levando
       uma mquina fotogrfica. O seu "olhar" vai ter muita importncia para o resultado do trabalho, por isso,
       observe as pessoas e as paisagens com muita ateno.
             Cada aluno dever escolher um local, um objeto ou uma cena para fotografar.
             Faam uma "vaquinha" para revelar as fotos.
             Comentem e escrevam legendas com a explicao de cada foto.
             Exponham as fotografias em um mural com o nome do fotgrafo e a legenda.
             A exposio pode ter um nome. Sugesto: Brasil dos meus olhos!



90     Elementos Formais
                                                                                                                                  Arte

z Roy Lichtenstein: Outro papa, outro Pop?
    Alm de Warhol, outros artistas tambm fizeram parte deste movi-
mento artstico. Entre esses, podemos citar Roy Lichtenstein, que cha-
mou a ateno do mundo nos anos de 1960, com sua forma de fazer
arte. Muitos dos quadros de Lichtenstein refletem a influncia e a fas-
cinao do artista pela linguagem e imagem das histrias em quadri-
nhos. Em sua obra procurou valorizar essa tcnica, a fim de criticar a
cultura de massa produzida pela indstria cultural. As obras mais co-
nhecidas de Lichtenstein so seus quadros em cores brilhantes e em ta-
manho grande, retirados de Histrias em Quadrinhos.
    Essa imagem tpica de tiras de quadrinhos com o vento soprando,
cria um forte impacto.




< ROY FOX LICHTENSTEIN. No carro, 1963. Magna sobre tela a 172 x 203,5 cm. Scottish National Gallery of Modern
  Art Edimburgo.


     Lichtenstein empregou em suas obras uma tcnica parecida com o
pontilhismo para simular os pontos reticulados das revistas. Cores pri-
mrias, chapadas e contornadas por um trao negro contribuam para
reproduzir os efeitos das tcnicas industriais. Com essas obras, o artis-
ta pretendia oferecer uma reflexo sobre as linguagens e as formas ar-
tsticas. Seus quadros, desvinculados do contexto de uma histria, so
simplesmente imagens representativas do mundo moderno.




                                                                                                                 A Arte  para todos?    91
       Ensino Mdio




                            < ROY FOX LICHTENSTEIN. M -Maybe, 1965, Magna sobre tela, 152 x 152 cm. Museum Ludwig, Colnia, Alemanha.




                      ATIVIdAdE

        Assim como Lichtenstein, vamos fazer um trabalho inspirado nas histrias em quadrinhos?
         Copie ampliando na escala 1:10, aproximadamente, um quadro retirado de uma Histria em Qua-
     drinhos.
        Em seguida, reforce os contornos do desenho com uma caneta preta.
         O ltimo passo  preencher as figuras com cores chapadas para dar um bom acabamento seme-
     lhante  tcnica de Lichtenstein.
        Faa uma exposio com os trabalhos em murais da sua escola.


                            z Para quem  essa Arte dos Quadrinhos?
                               Os quadrinhos so uma forma de contar fatos e histrias por meio
                            de imagens, utilizando, ao mesmo tempo, desenhos e palavras escritas.
                            A histria que se quer contar  dividida e explicada por meio de qua-
                            dros com desenhos e textos curtos, que se distribuem na pgina um
                            depois do outro, dando seqncia  histria.
92   Elementos Formais
                                                                                           Arte




< Marcelo Galvan Leite

   As Histrias em Quadrinhos tm fascinado diferentes geraes, des-
de o seu surgimento at hoje.  importante lembrar que para a cria-
o de uma Histria em Quadrinhos, muitas vezes, o desenhista pode
assumir diferentes papis no processo de criao ou, ento trabalhar
em equipe, como as modernas editoras. Cria os personagens, escreve
a histria, desenha, cria os dilogos, os efeitos de som e sentimento
(com as onomatopias) e d colorido e acabamento para fascinar dife-
rentes geraes que so adeptas dessa arte.
    importante lembrar que, para entender uma Histria em Quadri-
nhos,  necessrio ler o texto e analisar as imagens, j que muitas in-
formaes so obtidas de acordo com as caractersticas dos persona-
gens, seus gestos, seus movimentos, etc.
   Vrios so os recursos grficos utilizados nas Histrias em Quadri-
nhos: bales para inserir os textos (que expressam dilogos, narrativas
ou pensamentos).




    Observe ao lado algumas onomatopias usadas
para expressar diferentes sons e sentimentos:
    O desenho dos personagens  definido por meio
de linhas mais ou menos espessas e cores mais ou
menos vivas, prprias para indicar seus sentimen-
tos, expresses faciais, movimentos, deslocamen-
tos e aes.




                                                                          A Arte  para todos?    93
       Ensino Mdio

                                Takka Takka demonstra um conhecimento profundo de Lichtenstein
                            sobre o papel que as imagens provocam. Nesse quadro, o artista trans-
                            mite uma impresso inesquecvel da guerra: a ameaadora boca da me-
                            tralhadora em preto e branco por cima das folhas verdes da selva, e su-
                            blinhada pela onomatopia Takka Takka, em vermelho sangue, criando
                            espao para uma invaso do real no mundo da fico. (HONNEF, 2004)
                                Observe que a imagem possui um balo com um texto escrito em
                            ingls. Evidentemente  necessrio um conhecimento da lngua estran-
                            geira para melhor compreenso do texto. Alm disso, observe que o
                            artista usa letras maisculas sobre um fundo amarelo para chamar a
                            ateno dos observadores.
                                Leia o texto buscando compreender seu sentido.
                                Comente com seus colegas sobre a mensagem do texto.




                            < ROY FOX LICHTENSTEIN. Takka Takka, 1962.Magna sobre tela, 173x143 cm. Museum Ludwig, Colnia, Alemanha.



                      ATIVIdAdE

        Selecione um tema: um beijo, uma briga, um encontro...
        Depois, escolha um sentimento que expresse esse tema: amor, medo, susto, dor, ...
        E, finalmente: um som que expresse esse sentimento: Hummm!!!, Uau!, Ops!, Ai!
        Com a onomatopia que representa esse som, faa um trabalho ao "estilo Lichtenstein".
        Pode ser uma pintura ou colagem com papis coloridos.
        Como ttulo, use algo que lembre o tema ou o sentimento que inspirou sua obra.

94   Elementos Formais
                                                                                                                                                        Arte

< Fotos: Icone Audiovisual




                               A tcnica utilizada para impresso de revistas tambm pode ser observada nos cartazes e out-door's.
                              Voc j deve ter visto grandes painis de propagandas que so chamados de "out door"? Voc j olhou um "out door" bem de per-
                              to? Nos Estados Unidos o termo correto para as propagandas que ns conhecemos como "out door" so "billboard".
                              Observando bem de perto, vemos pontos do tamanho de confetes de cor pura por toda tela, que se misturam produzindo os dife-
                              rentes tons e matizes  medida que o observador se distancia, criando a impresso de uma mescla luminosa.




                             z E a colagem? Sabia que nem sempre foi utilizada na arte?
                                                                                                     Como j falamos em fotografia e serigrafia,
                                                                                                 veremos agora um pouco de colagem, que 
                                                                                                 uma tcnica tambm muito utilizada pelos artis-
                                                                                                 tas pop.
                                                                                                      A colagem vem do francs collage. Como o
                                                                                                 prprio nome diz, a colagem  uma tcnica, na
                                                                                                 qual diferentes materiais so colados em uma
                                                                                                 superfcie plana. Esses materiais podem ser pe-
                                                                                                 daos de papel, folhas de rvores, pedaos de
                                                                                                 tecidos e muitos outros.
                                                                                                     Observe essa Colagem criada por Wessel-
                                                                                                 mann na dcada de 1960.
                                                                                                     Pode-se perceber que a fisionomia foi dei-
                                                                                                 xada em branco para evitar qualquer sugesto
                                                                                                 de retrato, pois nessa poca a imagem da nu-
                                                                                                 dez ainda era rara nos meios de comunicao.
                                                                                                 Wesselmann utiliza smbolos erticos e da cultu-
                                                                                                 ra popular da sociedade de consumo para afir-
                                                                                                 mar seu apoio  liberdade sexual.

                             < TOM WESSELMANN. Grande nu americano n 27, 1962. Esmalte e co-
                               lagem sobre madeira a122 cm x 191,4 cm. Mayor Gallery, Londres.


                                                                                                                                     A Arte  para todos?      95
        Ensino Mdio



                         ATIVIdAdE

          Vamos fazer uma colagem?
          Recorte figuras humanas de jornais ou revistas.
          Em seguida, recorte apenas as bocas das pessoas.
         Em uma folha de papel cole-as cobrindo toda a superfcie do papel. Depois contorne as bocas com
      caneta hidrocor preta e preencha todos os espaos em branco.
          D um ttulo ao seu trabalho.


     z Nem tudo  o que parece ser !




          < CLAES OLDENBURG. Hambrguer Gigante, 1962. Lona estampada-
            com enchimento de espuma, 132 x1213 cm. Arte Gallery of Ont-
            rio, Toronto.



         O que voc v nesta obra?
         Por meio da representao de um hambrguer
     em tamanho gigante, Oldenburg pretendia fazer uma
     arte que refletisse a vida cotidiana, chamando a aten-
     o neste caso para o fast-food americano.
         Oldenburg tornou-se conhecido por suas gigan-
     tescas esculturas moles, que rompem com o conceito
     tradicional de escultura como um objeto slido, ela-
     borado com materiais convencionais ou nobres.
         Andy Warhol tambm rompeu com os conceitos
     tradicionais de escultura.

                                                                            < ANDY WARHOL. Brillo, Del Monte and Heinz Boxes, 1964.
                                                                              Serigrafia sobre madeira, 44 x 43 x cm0;33 x 41 x 30 cm;
                                                                              21 x 40 x 26 cm. Coleo particular

96    Elementos Formais
                                                                                                   Arte



                ATIVIdAdE

     Observe e comente com seus colegas sobre a Obra anterior.
     Depois, rena-se em grupo para fazer o projeto de uma escultura pop com embalagens dos produ-
 tos mais consumidos por suas famlias, seguindo as idias de Warhol.
     Tragam de casa embalagens vazias.
     Faam um estudo com as embalagens e montem a sua escultura.
     Gostaram do resultado? Ficou Pop?
     No esquea de dar um ttulo ao seu trabalho!
     Depois mostrem para os alunos da sua escola por meio de uma exposio.

    Para finalizar, lembremos de um trecho da msica O Papa  Pop da Banda Engenheiros do
Hawaii (1989): "O papa  pop, o papa  pop! O pop no poupa ningum".
    Neste trecho da msica destaca o termo Pop que coloca a figura do Papa, na poca, Joo
Paulo II que ocupou 26 anos de papado, como uma pessoa popular, que provou seu carisma
e conquistou popularidade em muitos pases, independente da religio.
    A figura do Papa durante todo o seu pontificado ocupou considervel espao em toda a m-
dia  jornais, revistas, rdio, televiso, internet  comprovando a hiptese da banda e dos ar-
tistas da Pop Art: "O pop no poupa ningum"!!!



z Referncias
   BERTELLO, M. A. Palavras em Ao. Uberlndia: Claranto, 2003.
   CABRAL, . Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro, Nikos Stangos, 1991.
   CHAU, M. Conformismo e Resistncia: aspectos da cultura popular no Brasil. 6 ed. So Paulo: Brasi-
   liense,1994.
   FERREIRA, G. Cultura posta em questo. Vanguarda e subdesenvolvimento. Rio de Janeiro: Editora Jo-
   s Olympio, 2002.
   Fundao Bienal de So Paulo. Catlogo da 23 Bienal Internacional de Arte de So
   Paulo  salas especiais. Sp Paulo, 1996.
   PROENA, Maria das Graas Vieira. Histria da Arte. 4 ed. So Paulo: tica, Brasil, 1994.
   HELENA, Lcia . Movimentos da Vanguarda Europia. So Paulo: Ed. Scipione, 1993.
   HONNEF, K. Andy Warhol: a comercializao da Arte. Colnia, Alemanha: Taschen, 1992.
   HONNEF, K; GROSENICK, U. POP ART. Colnia, Alemanha: Taschen, 2004.
   JUSTINO, M. J. A Admirvel Complexidade da Arte. In: CORDI, et al. Para filosofar. 3 ed. So Paulo:
   Scipione, 1999.
   Mc Carthy, D. Pop Art. So Paulo: Cosac & Naify, 2002.
   MARCONDES, L. F. Dicionrio dos Termos Artsticos. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1998.
   OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. Rio de Janeiro, Campos Ltda, 1983.
   STAEL, M. (trad.) O Livro da Arte. So Paulo: Martins Fontes, 1999.
   STRICKLAND, Carol. Arte comentada: da Pr-histria ao Ps-moderno. 13 ed. Traduo: ngela Lobo
   de Andrade. Rio de Janeiro: Ediouro, 2004.
   SAVIANI, D. Pedagogia Histrico-Crtica: primeiras aproximaes. 3 ed. So Paulo: Cortez, 1992.


                                                                                  A Arte  para todos?    97
       Ensino Mdio




98   Composio
                                                                                              Arte




                                                                                   6

                                                            IMAGINE SOM      <Marcelo Galvan Leite1


                                                               e voc tivesse que escolher en-
                                                              tre escutar o novo cd de um gru-
                                                             po musical que gosta ou ver a
                                                          apresentao ao vivo, o que voc
                                                           escolheria? Com certeza seria a se-
                                                           gunda opo, no ? Todos ns
                                                          apreciamos msica, mas a possibi-
                                                     lidade de ver o artista tocando ou can-
                                                     tando perto de ns  uma experincia
                                                     muito mais rica do que apenas escutar
                                                     o seu disco.
                                                     So cada vez mais comuns formas arts-
                                                     ticas nas quais sons e imagens se mis-
                                                     turam, a televiso, o cinema e os vide-
                                                     oclipes so alguns deles. Essas formas
                                                     artsticas so conhecidas como multi-
                                                     mdia ou meios audiovisuais e so to
                                                     comuns em nossos dias que quase nem
                                                     pensamos nelas. Que tal saber como
                                                     algumas dessas formas se desenvolve-
                                                     ram? Ento, abra bem os olhos e prepa-
                                                     re bem os ouvidos para entender mais
                                                     sobre a antiga unio entre esses dois
                                                     importantes sentidos: viso e audio.
1
 Colgio Estadual Dr. Willie Davids - Maring - PR

                                                                                   Imagine Som        99
      Ensino Mdio

                     z Imagens e sons
                         Voc j percebeu que muitas palavras usadas nas artes visuais exis-
                     tem tambm na msica? Por exemplo: harmonia, tonalidade, composi-
                     o, escala e textura so palavras que existem tanto na pintura, quanto
                     na msica. O timbre, na msica,  chamado de "cor do som", as cores
                     podem ser berrantes... Existe at o rudo branco!
                         A relao entre viso e audio vai alm de palavras e expresses,
                      algo comum aos homens, desde os mais remotos tempos, tanto na
                     mitologia quanto na cincia e na Arte, vejamos em que situaes es-
                     sa unio ocorre.
                         Para escrever ns usamos sinais (letras) que representam os fone-
                     mas (sons), a escrita talvez seja uma das mais importantes formas de
                     unio entre imagens e sons, pois ela modificou totalmente o mundo.
                         Ao contrrio das artes visuais a msica no necessita de um suporte
                     fsico para existir, como uma tela, papel, madeira ou argila, entre ou-
                     tros. O principal suporte da msica  o prprio tempo e por mais bre-
                     ve que seja um som ele sempre tem uma durao.
                         As formas de Arte nas quais esses dois sentidos "viso e audio"
                     so estimulados simultaneamente so aquelas construdas sobre o tem-
                     po, por exemplo em cerimnias religiosas, celebraes, formas artsti-
                     cas que possuem uma narrativa, peas teatrais e mais recentemente no
                     cinema, televiso, videogames, vdeo clipes, etc.




                      < Marcelo Galvan Leite




                     z Do que so feitas as imagens e os sons?
                        Tanto as imagens como os sons so formados por combinaes de on-
                     das, essas ondas so caracterizadas por seu comprimento e freqncia.
                        As luzes so ondas eletromagnticas e os sons so ondas mecnicas.



100 Composio
                                                                                                         Arte

    S percebemos a cor dos objetos devido  luz que os ilumina, os
objetos ao serem iluminados refletem a luz em diferentes freqncias
contidas no espectro eletromagntico. As cores que percebemos fa-
zem parte do espectro chamado de luz visvel, como demonstra o gr-
fico abaixo.



                 4,3 x 1014 Hz      Luz Visvel          7,5 x 1014 HZ




  Radar Rdio    TV   Micro   Infra           Ultra    Raios X    Raios Gama
                      Ondas Vermelha         Violeta

    Certos animais possuem viso mais apurada que a nossa, felinos e
aves de rapina, por exemplo, podem enxergar com muito pouca luz e                Voc j se perguntou por
a cincia imita essa capacidade visual dos animais por meio dos bin-           que a "luz negra", comum
culos infravermelhos, que do ao ser humano viso noturna.                      nas festas, deixam certos
                                                                                brancos fosforescentes?
    Ao contrrio das ondas sonoras, as ondas eletromagnticas no ne-
                                                                                Isso acontece porque elas
cessitam de um meio fsico para se propagar, podendo viajar no v-
                                                                                emitem maior quantida-
cuo do espao. Assim como as luzes, os sons possuem uma faixa de                de de luz ultravioleta, assim
freqncias que escutamos, entre os infra sons e ultra sons, tanto os           materiais fotoluminescen-
sons como as ondas eletromagnticas so medidas em hertz. Para sa-              tes absorvem o ultravioleta
ber mais sobre este assunto leia tambm o Folhas 10.                            e refletem maior quantida-
                                                                                de de luz (branco). O mes-
                                                                                mo ocorre com os sabes
                                                                                em p que fazem a roupa
                                                                                refletir mais luz do que re-
                                                                                almente ela absorve, dan-
    Infra sons                                                    Ultra sons    do a impresso dela estar
                                                                                mais limpa.




                 PESQUISA

    Pesquise em bibliotecas ou na internet como as invenes que usam as ondas eletromagnticas,
 como o rdio, TV, raios X, microondas e radar, foram desenvolvidas.
     Pesquise tambm como alguns animais, como os morcegos, mesmo cegos, conseguem caar su-
 as presas e desviar dos obstculos, ou por qu os olhos das aves de rapina e dos felinos so to sen-
 sveis que enxergam mesmo com pouca luz.
    Em grupo, confeccione cartazes para apresentao do trabalho e exponha nos espaos da escola.




                                                                                           Imagine Som 101
      Ensino Mdio

                     z A relao da mitologia
                       com as imagens e sons

                         Voc sabia que muitos mitos sobre a criao do mundo mostram a
                     relao entre imagens e sons?
                         Destaca-se o trecho do Velho Testamento.
                           = "Deus disse: `Faa-se  luz'!  e a luz se fez". (Gnesis, I, 1-3)

                         O som da voz de Deus (verbo) d origem  luz (imagem) aps a
                     criao do cu e da terra.
                         Alm da Bblia, podemos ver no mito da tribo Arecun, entre o Bra-
                     sil e a Guiana, analisado pelo antroplogo Lvi-Strauss, relaes entre
                     o som e a imagem.
                           = "O arco-ris  uma serpente dgua que  morta pelos pssaros,
                             cortada em pedaos e a sua pele multicolorida repartida entre
                             os animais. Conforme a colorao do fragmento recebido por
                             cada um dos bichos, ele ganha um som de seu grito particular
                             e a cor de seu plo ou da sua plumagem". (Wisnik, 2005)
                         Percebemos nesse texto a relao entre o som produzido por ca-
                     da animal e as cores roubadas da serpente arco-ris, demonstrando co-
                     mo o som e a cor fazem parte da mitologia e do imaginrio de dife-
                     rentes povos.




                                                                              < Marcelo Galvan Leite



                     z Propor-aes
                        Os gregos descobriram a partir da observao do mundo que os ro-
                     deava as propores comuns  natureza.
                        Pitgoras (582-497 a.C.) percebeu a existncia de uma proporo
                     existente nos sons, a "diviso harmnica", depois Euclides (365-300
                     a.C.) chegou por meio da geometria  "proporo urea" que Leonar-
                     do da Vinci chamava de divina proporo.

102 Composio
                                                                                                       Arte

    Com o tempo, esses conhecimentos passaram a ser utilizados em
diferentes formas de Arte, e at em nossos dias isso ainda ocorre na ar-
quitetura, pintura, escultura e,  claro, na msica.




                                                       < Nautilus           < Detalhe da obra Mona Lisa (1503-07)



z Sons que contam uma histria
    Na Grcia, Aristteles (384-322 a.C.) definiu em sua "Potica" a es-
trutura necessria  tragdia teatral. Para isso, organizou seis elemen-
tos essenciais  encenao, entre eles o que considerava o mais impor-
tante era a "melopia", forma de organizao musical criada a fim de
acompanhar a narrativa.
    No teatro indireto, ou seja, sem a presena direta de atores, a msi-
ca tambm desempenhava importante papel. O teatro de sombras Chi-
ns que muitos pesquisadores consideram a origem do cinema, era en-
cenado sempre com a presena de msicos.
    Ao contrrio das imagens, os sons so invisveis, a msica no tem
a capacidade de expressar exatamente determinada imagem como al-
gumas pinturas ou fotos.
    No entanto, a msica pode transmitir certas emoes que lembrem
imagens ou situaes,  o que acontece nas trilhas sonoras do cinema,
que veremos mais adiante.


z Resumo da pera
   A palavra pera vem de "opus" que, em latim, significa "obra". Nas-
cida nas prsperas cidades italianas do Renascimento, definiu sua for-
ma narrativa e dramtica no perodo barroco, por meio do trabalho de
Monteverdi (1567-1643).
   Uma prtica realizada no barroco e vista atualmente como extre-
mamente grotesca, foi a tradio dos castrati. Meninos que mostravam
potencial na Arte de cantar eram escolhidos e castrados, a fim de pre-
servar sua voz aguda e terem a possibilidade de fazer grande sucesso
nas peras. Na poca, ter um castrati na famlia era motivo de status.

                                                                                         Imagine Som 103
      Ensino Mdio

                             Muitos compositores importantes escreveram peras neste perodo
                         como Scarlatti, Handel, Lully entre outros.
                             Mas foi Wagner (1813-1883), um dos compositores que props mais
                         inovaes na pera, buscando a criao da "obra de arte completa", na
                         qual vrias formas de Arte se integravam. As peras, ento, tornaram-se
                         verdadeiras superprodues nas quais a msica, a dana, as artes pls-
                         ticas e o teatro estavam integrados a fim de desenvolver a histria.




            Montoverdi             ilustrao de Arthur Rackham               Richard Wagner
                                            para a pera
                                   "O ouro do Reno" de Wagner

                            Voc j deve ter assistido na televiso a um musical ou a filmes em
                         que a estria  narrada pela msica. Esses filmes so como verses
                         modernas das peras, e foram amplamente produzidos em vrios pa-
                         ses na dcada de 1950.

                               Voc sabia que nos anos 60 e 70 do sculo XX algumas bandas de
                            rock criaram a "pera Rock"? Na Inglaterra, grupos como o The Who e
                            o Queen lanaram discos nos quais a msica contou os conflitos da vi-
                            da dos jovens da poca.
                                  Alguns desses discos transformaram-se em filmes como Tommy
                            (1975) e Quadrophenia (1979), outros foram criados para o teatro e
                            depois lanados no cinema, como Hair (1979) e Jesus Cristo Supers-
                            tar (1970).

                             No estado do Paran, foram montadas diversas peras, a exemplo
                         da obra de Richard O'Brien, Rocky Horror Show apresentada em 1981,
                         no Teatro Guara, com direo de Antonio Carlos Kraide e com a exe-
                         cuo musical da banda de rock Blindagem. Esta pera-rock foi criada
                         inicialmente para um espetculo norte-americano, que tambm se tor-
                         nou filme em 1975.

104 Composio
                                                                                                    Arte



                ATIVIdAdE

     Se vocs fossem montar uma pera-rock falando sobre os problemas e a vida dos jovens, quais seriam
 os principais temas abordados? Que msicas ou grupos de rock seriam inseridos na obra de vocs?
     Vocs podem montar, em grupos, uma pequena cena que retrate um conflito comum aos jovens
 usando uma msica, de um grupo ou cantor brasileiro como a Legio Urbana, Raul Seixas, Cazuza ou
 outros, que tenha sentido na dramatizao e complemente a idia do conflito dramatizado.


z O som no cinema
   Voc j prestou ateno na msica do cinema? Alguns msicos di-
zem que a boa trilha sonora  aquela que no percebemos num filme
que adoramos, justamente porque ela est to integrada  cena que
praticamente passa desapercebida. Voc j prestou ateno em como
certos temas nos fazem lembrar exatamente determinado filme, por
exemplo, quase todo mundo conhece o tema de Guerra nas Estrelas
ou de Misso Impossvel, nesses casos a msica, alm de reforar as ce-
nas,  muito marcante e fica to conhecida quanto os filmes.
   O cinema, oficialmente, foi criado pelos irmos Louis e Auguste Lu-
mire em 1895, no entanto, o desenvolvimento das trilhas sonoras co-
mo conhecemos hoje somente ocorreu depois do advento do som no
cinema, no final dos anos 20.
   Como voc sabe, o cinema nasceu mudo, porm, a msica sempre
esteve presente durante os filmes, pois a participao de um ou mais
msicos era fundamental nas projees e em certos casos existiam or-
questras contratadas para acompanhar o filme. Veja algumas imagens
de filmes bastante antigos:




    Nosferatu de Murnau,                   Chaplin, O Garoto, 1921.           Viagem  Lua, de Georges
    1922, Expressionismo                                                           Mlis  1902
           Alemo.

                                                                                          Imagine Som 105
         Ensino Mdio

                                               Charles Chaplin foi um dos primeiros e mais conhecido diretor a
                                           compor msica para seus filmes. Mas quem primeiro comps msica
                                           como suporte narrativo foi Eisentein (1898-1948) na Rssia, mas suas
                                           idias ficaram restritas ao cinema sovitico.
                                               No ano de 1927, nos Estados Unidos, tudo comea a mudar no
                                           mundo do cinema. Nesse ano foi desenvolvido o Vitaphone, uma m-
                                           quina de projeo por meio da qual o filme era sincronizado a um dis-
      Vaudeville: espetcu-                co de 78 rotaes. The Jazz Singer entrou para a histria como o pri-
    los cmicos feitos por atores          meiro filme sonoro, a partir da o cinema nunca mais seria o mesmo,
    profissionais excludos das            em apenas trs anos quase todas as produes passaram a ser sonori-
    grandes companhias. Mos-               zadas.
    travam pequenas apresen-
                                               Nesse filme, o ator e cantor Al Jonson (1886-1950) vive o papel de
    taes que parodiavam can-
                                           um cantor judeu que queria seguir a carreira artstica, mesmo com a
    es populares adaptando-as
     ao roteiro.
                                           resistncia de sua famlia, apresenta-se pintado de negro como os an-
                                           tigos artistas de Vaudeville.




   < Desenho do layout publicitrio do filme "The Jazz Singer", da Warner.

                                               Com o surgimento do filme sonoro no era mais necessria a pre-
                                           sena de msicos nas projees, diminuindo o custo dos ingressos,
                                           popularizando ainda mais o cinema. O sucesso foi tanto, que nem a
                                           quebra na bolsa de valores de Nova Iorque em 1929, diminuiu as pla-
                                           tias.
                                               Os atores tambm sentiram as mudanas. A necessidade da inter-
                                           pretao fez com que muitos perdessem o emprego, pois possuam
                                           apenas dotes fsicos insuficientes no novo cinema falado. Alm disso,
                                           muitos atores e atrizes nem falavam a lngua dos pases em que traba-
                                           lhavam, o que nacionalizou o cinema em todo o mundo.
                                               As possibilidades expressivas do cinema se ampliaram, os produto-
                                           res perceberam que a msica era um bom negcio.
                                               Pouco tempo depois outra inovao, o Movietone, nele os sons
                                           eram gravados no prprio filme (pelcula) junto s imagens, melhoran-
                                           do muito a sincronia e a qualidade sonora.


106 Composio
                                                                                                                  Arte

z A msica no cinema
    Para Salles (2002), um acontecimento que revolucionou a forma de
realizao das trilhas sonoras foi o surgimento do desenho animado de
Walt Disney, "Fantasia", em 1939.
    Fantasia foi uma experincia inovadora, ousou combinar desenho
animado com msicas de Beethoven, Schubert, Stravinsky, entre ou-
tros. Esse desenho abriu a mente dos produtores sobre a importncia
que a msica poderia ter no resultado final de um filme.
    A partir dos anos 50, o grande nmero de produes cinematogr-
ficas nos EUA, Europa e at do Brasil com a companhia "Vera Cruz",
requeriam diferentes trilhas sonoras, sejam para filmes de gangster, fa-
roeste, comdias, suspense, etc, as trilhas com o tempo foram se espe-
cializando, pois cada tipo de filme requer uma trilha sonora que refli-
ta o roteiro, sejam eles de suspense, drama, ao, aventura, comdia,
entre outros.




                                                                                         < Marcelo Galvan Leite




                 ATIVIdAdE

     Assista a trechos do filme Fantasia, tanto o de 1939 como a verso de 2000. Traga para a esco-
 la gravaes de desenhos animados para observao de como os sons so importantes nessas pro-
 dues.
     Pesquise a trajetria da Vera cruz no Brasil e seus principais filmes e artistas.
     Apresente o resultado para a turma em seminrios para debates.




                                                                                                   Imagine Som 107
      Ensino Mdio



                     PESQUISA

        Voc j prestou ateno na sincronia entre som e imagem dos desenhos animados mais antigos
    como Tom e Jerry ou mesmo os mais novos? Quando puder preste ateno na msica e nos efeitos
    sonoros desses desenhos, eles desempenham importante papel e mostram uma estreita relao en-
    tre som e imagem.




                     ATIVIdAdE

        Dividam-se em equipes e escolham uma cena de algum filme que voc tenha acesso e que conte-
    nha poucos dilogos. Leve para a turma escutar sem as imagens, tente escrever o que acontece na ce-
    na somente por meio do som e depois discutam as anotaes comparando com o original.



                            z Televiso e Televi-sons
                               Com os avanos tecnolgicos do sculo XX, os meios de comunica-
                            o mudaram o cenrio mundial, a televiso talvez seja o meio de co-
                            municao que mais colaborou com elas.
                                Por meio da TV, entramos em contato com o que ocorre em nos-
                                 so mundo globalizado, orientando nossos costumes. A televiso
                                 assume um papel de formao dos sujeitos, dizendo-lhes o que
                                 comer, o que vestir, o que escutar e at o que pensar e muitas
                                  vezes esses telespectadores nem se do conta disso. Pense a res-
                                  peito, voc concorda?
                                     As TV's ao redor do mundo tiveram diferentes influncias. Na
                                   Europa, a televiso, inicialmente, inspirou-se no teatro e na m-
                                       sica de concerto. Nos Estados Unidos, a TV foi influencia-
                                          da pelo cinema e no Brasil o rdio foi muito importante
                                             para a criao de nossa televiso (Medaglia, 2003).
                                                    A tradio e a qualidade brasileira na produ-
                                                   o de novelas, por exemplo, surgiu das radio-
                                                   novelas. Nessas produes era fundamental o
                                                   trabalho dos tcnicos em sonoplastia, que cria-
                                                   vam engenhocas sonoras a fim produzir os sons
                                                   necessrios s cenas narradas pelos dubladores
                                                   e transmitir maior realismo ao ouvinte do rdio
                                                    (Medaglia, 2003).




108 Composio
                                                                                                 Arte



                ATIVIdAdE

    Forme grupos.
    Pesquisem um texto teatral e escolham uma cena que achem interessante.
    Cada membro do grupo far a voz de um personagem da cena escolhida.
    Alguns alunos ficaro responsveis pela sonoplastia e trilha sonora.
    No se esqueam de pesquisar os sons dos objetos necessrios  cena.
     Aps os ensaios, apresentem para os colegas da turma e se possvel, gravem os sons da apresen-
 tao para posterior audio.



    Na televiso, o tratamento sonoro seguiu as idias do cinema, po-
rm, dificilmente so produzidas trilhas sonoras com o mesmo cuida-
do. A velocidade com que a TV precisa produzir imagens para o con-
sumo do pblico  um dos fatores que impossibilita a criao de trilhas
sonoras com o mesmo cuidado artstico do cinema.
    Outro fator econmico  a vinculao de canes populares difun-
didas no rdio, que fazem sucesso na poca em que a novela est no
ar, o que torna possvel a venda de grandes quantidades de CD's com
essas trilhas sonoras amplamente divulgadas nos intervalos comerciais
da prpria emissora e lanadas em verses nacionais e internacionais.
Com isso, as emissoras preenchem os espaos entre as falas dos perso-
nagens e ganham muito dinheiro com a venda de CD's.
    No podemos deixar de comentar os videoclipes como uma impor-
tante forma de unio das imagens e sons.
    Voc acha que os videoclipes so uma forma de arte?
    Os primeiros videoclipes surgiram no incio dos anos 60 do scu-
lo XX, quando a msica "jovem" comeou a ser mais difundida, prin-
cipalmente pelo Rock'n'Roll. Grupos como os Beatles e os Monkees e
compositores como Bob Dylan foram os pioneiros na criao de vde-
os promocionais para a TV. Naquela poca, porm, esses vdeos no
tinham a importncia que tm hoje para a divulgao.
    Com o surgimento da MTV americana, em 1981, e depois de outras
emissoras do mesmo estilo ao redor do mundo, os vdeosclipes passa-
ram a ser mais produzidos e elaborados, fazendo com que as gravado-
ras gastassem mais em suas produes.




                                                                                      Imagine Som 109
      Ensino Mdio

                               Algo curioso acontece nos clipes, existem vdeos que so extrema-
                            mente inovadores e criativos, mesmo quando realizados com poucos
                            recursos e outros totalmente pobres mesmo gastando milhes. Para os
                            vdeosclipes a frase do cineasta Glauber Rocha (1938-1981) "uma idia
                            na cabea e uma cmera na mo" encaixa bem.




                                                                                        < Marcelo Galvan Leite



                     ATIVIdAdE

       Procure uma cena gravada de novela ou de um filme.
        Em grupo, diminua o som da gravao e tente criar efeitos sonoros para a cena, como rudos, chu-
    va, passos e outros.
       Voc pode tambm escolher uma msica para a cena e criar diferentes falas para os persona-
    gens.
       Apresente  turma para anlise e comentrios e depois comparem com o original.



                            z Apenas ouvir ou ver no  suficiente
                                Em 1876, h pouco mais de cem anos, o mundo ficou maravilha-
                            do quando Alexander Graham Bell inventou o telefone. Hoje os ce-
                            lulares no s transmitem a voz humana como tambm fotos ou ima-
                            gens em movimento.
                                Vivemos em um mundo no qual os recursos multimdia esto cada
                            vez mais presentes. Videogames de realidade virtual chegam a simular
                            sons, imagens e at sensaes de tato.
                                A cada ano so inventadas novas formas de reproduo das ima-
                            gens e dos sons, as Tv's so conectadas aos computadores para aces-



110 Composio
                                                                                          Arte

sar a Internet. O cinema continua inovando e criando. O que antes era
possvel apenas em nossa imaginao, como CD's, DVD's e uma srie
de aparatos, trazem novas formas de entretenimento.
    Depois de todas essas discusses, ser que podemos separar as
imagens dos sons ou isso  iluso?


z Referncias
   FONTANA, J. Introduo ao Estudo da Histria Geral. Bauru, SP: Edusc,
   2000.
   MEDAGLIA, J. Msica Impopular. So Paulo: Editora Global, 2003.
   NAPOLITANO, M. Como usar o cinema na sala de aula. So Paulo: Editora
   Contexto, 2003.
   SALLES, F. Imagens Musicais ou Msica Visual. So Paulo: Dissertao de
   mestrado em Comunicao e Semitica da PUC/SP, 2002.
   SOUZA, J. ( Org.). Msica, Cotidiano e Educao. Porto Alegre: Universida-
   de Estadual do Rio Grande do Sul, 2000.
   STEFANI, G. Para Entender a Msica. So Paulo: Editora Globo, 1989.
   TIPLER, P. A. Fsica para Cientistas e Engenheiros, v.1: mecnica, oscila-
   es e ondas, termodinmica/ Paul A. Tipler, Gene Mosca; traduo Ferna-
   do Ribeiro da Silva, Gisele Maria Ribeiro Vieira. Rio de Janeiro: LTC, 2006.
   WISNIK, J. M. O Som e o Sentido. So Paulo: Companhia das Letras, edito-
   ra Schwarcz, 1989.


z Documentos consultados ONLINE
   http://www.mood.com.br/3a04/trilha.asp
   http://www.cinemanet.com.br/trilhas.asp
   http://www.artnet.com.br/pmotta/index.htm
   http://www.tudosobretv.com.br
   http://www.mnemocine.com.br




                                                                                  Imagine Som 111
       Ensino Mdio




112 Elementos Formais
                                                                                             Arte




                                                                                 7

                                                     CORES, CORES...
                                                      E MAIS CORES?
                                                                                < Viviane Paduim1




                                                      um ditado popular que diz:
                                                     " noite todos os gatos so pardos".
                                                     O que isso significa?




1
 Colgio Estadual Natlia Reginato - Curitiba - PR

                                                                    Cores, cores... E mais cores? 113
       Ensino Mdio

                        z Um mundo de cores
                            Para responder a essa pergunta, talvez tenhamos que retroceder al-
                        guns sculos. H uma explicao fsica? Filosfica? Ou seria apenas um
                        dito popular, entre tantos que conhecemos, criado por uma ou mais
                        pessoas em algum lugar do passado?
                            Bom, se todo ditado  considerado sabedoria popular, ento "a voz
                        do povo  a voz de Deus", e nesta histria de gatos, algum deve ter
                        razo...
                            Voc sabe o que  pardo? No? Se pardo fosse uma cor, que cor vo-
                        c acha que seria?
                            Muitos cientistas acreditaram ou acreditam que existem somente
                        trs cores bsicas (vermelho, verde e azul). Ser? E onde fica o branco,
                        o amarelo, o preto, o cinza...?
                            H registros histricos que no sculo XVI e XVII alguns pesquisado-
                        res, como Newton e Descartes, buscavam explicar a existncia das cores.
                        Por exemplo, por que o cu  azul, o gramado e as folhagens so verdes
                        ou os pssaros multicoloridos? Vivemos num mundo de cores, mas voc
                        j parou para pensar por que elas existem e por que as enxergamos? Te-
                        ria uma relao com a luz? O que  luz?
                            "...E das trevas fez-se a luz..." Ento ela  o incio de tudo, da vida.
                        De acordo com a Fsica mo-
                        derna, a luz  uma onda ele-
                        tromagntica, apresentan-
                        do freqncias vibratrias e
                        diferentes comprimentos de
                        ondas.
                            Voc j observou que
                        num dia de sol e chuva ao
                        mesmo tempo, forma-se um
                        arco-ris no cu? Quais as co-
                        res que so possveis identi-
                        ficar?
                            Esse fenmeno  a decom-
                        posio da luz branca (Sol) nas
                        cores que a compem.
                            A chuva, neste caso, atua
                        como um prisma, decom-
                        pondo a luz.




                                                        < Foto: Icone Audiovisual


114 Elementos Formais
                                                                                                                                                  Arte

    Embora este fenmeno tenha




                                                                            < http://www.physik.uni-bayreuth.de/physikstudium/images/prisma.jpg
sido investigado por vrios cien-
tistas, foi o ingls Isaac Newton,
um dos fsicos mais renomados
da histria da humanidade, que
se destacou ao fracionar, por in-
termdio de um prisma, a luz
branca nas cores do espectro
cromtico.




                                                          Quando a luz branca incide sobre a natu-
                                                       reza ou sobre um objeto qualquer, este objeto,
                                                       absorve algumas cores (comprimentos de on-
                                                       da), refletindo as que no absorveu. O com-
                                                       primento de onda que o objeto no absorveu,
                                                       mas refletiu,  a cor que enxergamos.




   "Enxergamos porque (...) durante a evoluo humana, nossos olhos se adaptaram ao sol, de
forma a ficarem mais sensveis aos comprimentos de onda que ele irradia mais intensamente".
(RESNICK, 1979, p. 23)
     Voc concorda com esta hiptese? Por qu?

                                     Partes da estrutura interna do olho:
                                 Crnea: parte branca do olho na qual se localiza a ris.
                                 ris: parte circular colorida do olho na qual est a pupila que recebe
                                 a luz.
                                 Cristalino: lente gelatinosa que focaliza a luz formando imagens na
                                 retina.
                                     Retina:  composta pelos cones e bastonetes.
< Foto: IconeAudiovisual


   No olho humano encontramos clulas denominadas cones e bastonetes. Observe que, na fi-
gura a seguir  representando a parte interna do olho , identificamos tambm as clulas gan-


                                                                            Cores, cores... E mais cores? 115
        Ensino Mdio

                                              glionares. Estas fazem parte da retina e processam impulsos nervosos
                                              vindos dos cones e bastonetes, transmitindo ao crebro as informa-
                                              es necessrias.


                                             Retina
             ris

                                                                                                                        bastonete
                                                                                                                                    cone

                                                                                  Clulas Ganglionres




                                                      Nervo ptico
              Cristalino

    Crnea                 Msculo externo                           Estas formam parte da rede de ligaes da retina processando impulsos nervo-
                                                                     sos vindos dos bastonetes e cones.


                                                                                              < Fonte: adaptado de Gainotti, Modelli, 2002, p. 434,

                                                 A sensibilidade do olho  cor se d por meio de pigmentos sens-
                                             veis  luz, presentes nos cones. Os bastonetes distinguem as diferentes
                                             intensidades de brilho (preto e branco).
                                                 Muitos animais possuem apenas os bastonetes e por isso no en-
                                             xergam a cor. Alguns deles, entretanto, enxergam melhor do que o ho-
                                             mem, como por exemplo a guia (da vem o dito popular "enxergar
                                             com olhos de guia"). Essa ave consegue enxergar uma parte dos raios
                                             infravermelhos, isso lhe permite caar durante a noite, j que um cor-
                                             po emite raios infravermelhos conforme a sua temperatura.


                             dEBATE

         Voc j viu um toureiro provocando um touro na arena? Ele usa aquele enorme leno vermelho pa-
     ra provoc-lo. Ser que so os raios infravermelhos do corpo ou a cor do pano que o excita tanto? Ou
     seria por um outro motivo?

                                                Para entendermos melhor a cor, podemos divid-la em cor-luz e
                                             cor-pigmento. Cor-luz voc j deve saber o que , e a cor-pigmento 
                                             aquela que  percebida por meio de substncias corantes na presen-
                                             a da luz.


116 Elementos Formais
                                                                                                           Arte

   As cores ainda podem ser divididas em primrias/puras (para serem
formadas no precisam de mistura), secundrias (resultado da soma ou
mistura de duas cores primrias), neutras, quentes, frias, complementares,
entre outras.


z Cores primrias e secundrias                                                     Em vrios autores, encon-
                                                                                   tramos como cores prim-
     Cores primrias pigmento           Cores secundrias pigmento                 rias pigmento: o vermelho,
                                                                                   o amarelo e o azul. Esta
                                                                                   classificao no represen-
                    Magenta               Vermelho (amarelo + magenta)             ta todas as cores percep-
                                                                                   tveis ao olho humano. Do
                                                                                   ponto de vista cientfico as
                    Amarelo                    Verde (ciano + amarelo)             cores primrias so as cita-
                                                                                   das ao lado.
                      Ciano                    Azul (ciano + magenta)



                      ATIVIdAdE

       E se misturssemos todas estas cores-pigmento? Que cor formaramos?


   As cores primrias-luz so diferentes das cores primrias-pigmento
e so aplicadas na fotografia, TV, computador, entre outros.
        Cores primrias-luz                Cores secundrias-luz

                  Vermelho                   Magenta (vermelho + azul)

                    Verde                   Amarelo (vermelho + verde)


                     Azul                       Ciano (verde + azul)




                      PESQUISA

       E se somssemos todas essas cores-luz? Que cor resultaria?


   Essas trs cores primrias regem todas as relaes colorsticas, a
elas se reportando as mais variadas correspondncias formais da cor
(OSTROWER, 1983, p. 240).




                                                                             Cores, cores... E mais cores? 117
       Ensino Mdio

                                  E o pardo? Voc j descobriu se  uma cor? E se fosse, onde estaria clas-
                             sificada? Ser que a mistura de vrias cores resultaria em alguma cor espe-
                             cfica?
                                  O branco e o preto podem ser classificados como cores neutras.
                                  E a mistura delas formaria que cores?
                                  Sabemos que o branco  a soma de todas as cores da cor-luz. Lem-
                             bram do prisma e do arco-ris decompondo a luz do sol nas diversas
                             cores?
                                  Na cor-pigmento ela  ausncia de cor.
                                  O preto  a soma de todas as cores da cor-pigmento e a ausncia
                             total de cor na cor-luz. Quando um objeto nos parece preto  porque
                             absorveu todos os raios coloridos da luz (artificial ou do Sol) e no re-
                             fletiu nenhum. E quando parece branco?



                      ATIVIdAdE

        Represente, nas figuras abaixo, os raios absorvidos e/ou refletidos:
                               < Fotos: IconeAudiovisual




                                Este  um dos motivos pelo qual usamos roupas de tons claros no
                             vero (para sentirmos menos calor) e roupas de tons escuros no inver-
                             no (para ficarmos mais aquecidos). Com certeza voc j deve ter ouvi-
                             do falar em tons da moda, que sero usados em roupas em determina-
                             da estao, no  mesmo?
                                Quando acrescentamos o branco e o preto em cores puras, conse-
                             guimos os diversos tons destas cores. Por exemplo:

                              vermelho puro ao branco



                             vermelho puro ao preto



118 Elementos Formais
                                                                                                                                      Arte

z Cores quentes e frias
    Observem as imagens que representam obras do artista Pablo Picasso:




< PABLO PICASSO. Div, 1900. 25x29 cm. Desenho a cores, Museu de Pi-
  casso, Barcelona.




                                                                       < PABLO PICASSO. O velho Judeu, 1903. leo sobre tela 125x92 cm, Mu-
                                                                         seu da Moderna Arte Ocidental, Moscou.




                       dEBATE

     Quais as cores que lhe transmitem a sensao de "quente" ou "frio" ou lhe do a sensao de se
  expandir ou recuar?



    Essa relao de "temperaturas" cromticas tem seu ponto de parti-
da em trs cores do arco-ris: azul, vermelho e amarelo. Delas, o azul
 considerada cor fria, ao passo que o vermelho e o amarelo so con-
sideradas cores quentes e so associadas espontaneamente a calor, fo-
go, sol. O azul  associado ao cu, gelo e frio (OSTROWER, 1983, p. 243).
    As cores quentes e frias assumem posies contrastantes: as cores
quentes avanam, expandindo-se, enquanto que as cores frias recuam,
retraindo-se.



                                                                                                    Cores, cores... E mais cores? 119
         Ensino Mdio

                                     importante sabermos que, dependendo da posio espacial e da
                                 mistura de cada cor, uma cor fria pode tornar-se quente e vice-versa.
                                 Observe este exemplo:




                                    O verde (amarelo + azul), considerado tambm como uma cor fria
                                 ser sempre mais quente ao lado de um azul (pelo componente amare-
                                 lo da mistura) e assim por diante. Segundo Ostrower (1983), cada cor
                                 se distingue dentro de sua prpria gama em tons quentes e frios, avan-
                                 ando ou recuando-se no espao.
                                    E das cores complementares voc j ouviu falar?
                                    Concentre-se na bandeira do Brasil por 25 segundos. Em seguida,
                                 olhe para um espao branco.




                                     O que aconteceu? Que cores voc enxergou? Elas representam as
                                 cores originais ou apenas se aproximam?
                                     Com certeza, voc deve ter achado muito interessante o que ocorreu.
                                 Ento faa uma pesquisa com a ajuda e sugestes do seu professor(a)
                                 a respeito das cores complementares e o efeito visual que elas provo-
                                 cam quando usadas nas pinturas, propagandas ou desenhos.


                                 z As cores no nosso dia-a-dia
                                    Observe atentamente as figuras abaixo:




   < Fotos: Icone Audiovisual.

                                    Qual desses ambientes aparenta ter mais espao e menos espao?


120 Elementos Formais
                                                                                             Arte



                dEBATE

     Voc acha que a cor pode ser usada para provocar certas sensaes no ser humano? Por qu?


    As cores em ambientes de tonalidades escuras parecem mais pe-
sadas, enquanto as de tonalidades claras proporcionaro um ambien-
te mais leve. Tons claros representam profundidade espacial, sensua-
lidade e dinamismo.  aconselhado o uso de tons claros em tetos, em
ambientes internos, em vitrines para proporcionar uma boa reflexo
de luz.
    Observe as figuras abaixo (esquema demonstrativo) dos efeitos ge-
rados pelas diferentes disposies das cores.




   Agora que voc conhece um pouco mais sobre as cores, discuta
com seus colegas e professor(a) sobre as cores usadas em sua sala de
aula e na escola. Alguma alterao seria interessante? Por qu?


                                                                     Cores, cores... E mais cores? 121
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                
                                                                                                                                                                                                                               < MONET, Catedral de Rouen. O Prtico e a torre de Saint-Romain.         < MONET, Catedral de Rouen. Vista frontal. leo sobre tela, 1894. Mu-
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                            Ensino Mdio




                                                                                                                                                                                                                                 leo sobre tela, 1894. Museu d'Orsay, Paris                              seu d'Orsay, Paris




122 Elementos Formais
                        seus colegas e professor(a).
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                ATIVIdAdE




                                                                                                                          anos 1880 e 1890, no movimento denominado Impressionismo.
                                                                                                                                                                                                                               < MONET, Catedral de Rouen. O Prtico e a torre de Saint-Romain. leo   < MONET, Catedral de Rouen. O Prtico e a torre de Saint-Romain.
                                                                                                                                                                                                                                 sobre tela, 1894. Museu de Belas Artes, Boston.                         leo sobre tela, 1894. Museu d'Orsay, Paris




                           Em que momento do dia voc acha que o artista Monet pintou cada obra? Faa uma discusso com
                                                                                                                             As figuras acima, da Catedral de Rouen, representam obras do artista Monet, realizadas entre os
                                                                                                     Arte


     Observe as fotos a seguir:
     Em qual delas voc consegue identificar as cores? Por qu?
     Existiria uma relao com o ditado popular que diz " noite todos os gatos so pardos"? Explique!




< Foto: Icone Audiovisual                            < Foto: Levy Ferreira



    Se o toureiro, no momento de provocar o touro, trocasse a cor do pano vermelho para azul, ele o ir-
     ritaria da mesma maneira? Explique.
    Durante a abordagem feita sobre os cones e bastonetes, vimos que a guia caa sua presa durante
     a noite, pois consegue enxergar uma parte dos raios infravermelhos. Pesquise sobre quais animais
     possuem esse tipo de viso e como os raios infravermelhos podem ser utilizados para o benefcio
     do ser humano.




                                        < Tourada



    Selecione imagens de revistas, propagandas, obras de arte, etc. Escolha aquela que voc conside-
     ra interessante. Use a imagem selecionada e faa duas composies semelhantes em folha tama-
     nho A3. Use sua criatividade e insira elementos novos e/ou modifique a original. Uma composio
     dever conter as cores frias e a outra as cores quentes. Observe o efeito de cada uma. Faa uma
     exposio dos trabalhos.




                                                                             Cores, cores... E mais cores? 123
       Ensino Mdio

                        z Referncias
                          BRASIL. Servio Nacional de Aprendizagem Comercial. Manual do carta-
                          zista. Rio de Janeiro: SENAC/DN, 1982.

                          CALABRIA, Carla Paula Brondi; MARTINS, Raquel Valle. Arte, Histria &
                          Produo, 2. So Paulo: FTD, 1997.

                          DONDIS, A. Donis. Sintaxe da Linguagem Visual. 2 ed. So Paulo: Mar-
                          tins Fontes, 1997.

                          GAINOTTI, A.; MODELLI, A. Biologia para o Ensino Mdio. So Paulo:
                          Scipione, 2002.

                          HADDAD, Denise Akel. A Arte de Fazer Arte. So Paulo: Saraiva, 2002.

                          MESTRES da pintura: Picasso. So Paulo: Abril, 1977.

                          OSTROWER, Fayga. Universos da Arte. 21 ed. Rio de Janeiro: Campus,
                          1983.

                          PEDROSA, Israel. Da Cor  Cor Inexistente. Braslia: UnB, 1982.

                          RESNICK, Robert; EISBERG, Robert. Fsica Quntica. Rio de Janeiro:
                          Campos, 1979.

                          TRIPLER, Paul. Fsica para Cientistas e Engenheiros. Rio de Janeiro: Li-
                          vros Tcnicos e Cientficos, 1995. v. 4.

                          THE COLOR. Red International Books. So Francisco, 1997.



                        z Documentos consultados ONLINE
                          <www.terravista.pt/nazare/1419/toureiro.jpg> Acesso em: 18 out. 2003.
                          <www.guiadobuscador.com.br> Acesso em: 18 out. 2003.
                          <www.cadernofeminino.com.br> Acesso em: 18 out. 2003.
                          <www.fisica.ufc.br/sugestao> Acesso em: 18 out. 2003.




124 Elementos Formais
                                       Arte



   ANOTAES




               Cores, cores... E mais cores? 125
       Ensino Mdio




126 Elementos Formais
                                                                                                     Arte




                                                                                         8
                                                            ARTE: ILUSO OU
                                                                REALIDADE?        <Tania Regina Rossetto1




                                                                    opularmente dizemos e ouvi-
                                                                    mos dizer que "nessa vida tudo
                                                                   iluso". Mas, para concordar
                                                              ou discordar  preciso refletir sobre
                                                              o que significa realidade e iluso. O
                                                            que  ilusrio? O que  real? A arte re-
                                                            presenta a realidade por meio da iluso?
                                                            Ou  a realidade que expressa iluso?




1
 Colgio Estadual Padre Manuel da Nbrega - Umuarama - PR

                                                                               Arte: iluso ou realidade? 127
       Ensino Mdio

                              z Por detrs das cmeras
                                  Provavelmente voc j deve ter assistido ou ouvido algum falar de
                              Matrix, o filme. Matrix, principalmente em razo de seus efeitos espe-
                              ciais,  considerado um marco na histria do cinema.
                                  A saga contida em Matrix  dividida em trs filmes  a "trilogia Ma-
                              trix"  e levanta dvidas cruciais sobre a vida humana: o que vemos 
                              real? E ns, somos reais ou no passamos de uma iluso?
                                  Tudo comea como no livro infantil de Lewis Carroll: Alice no Pa-
                              s das Maravilhas, (seria muito interessante ler o livro). Neo, persona-
                              gem principal do filme Matrix, segue o coelho branco e precisa fazer
                              uma escolha entre a plula vermelha que revela toda a realidade, ou a
                              plula azul que deixa tudo como est. Toda a realidade e toda a iluso
                              so reveladas a partir dessa escolha, e Neo  levado a saber at onde
                               vai a toca do coelho de Alice.
                                   A partir da escolha que faz (saber toda a verdade) Neo passa a ser
                               o "escolhido", uma analogia ao "Messias" que ir salvar a humanida-
                               de do domnio das mquinas, o nico que pode vencer o mal estabe-
                              lecido pelo prprio homem.
                                    Os personagens sobem pelas paredes, pulam de um prdio a ou-
                                    tro, participam de lutas alucinantes, desviam de balas disparadas 
                                      queima roupa, morrem, mas, vencem a prpria morte. Acima de
                                      tudo, o filme deixa claro, a todo o momento, a importncia de
                                       um sentimento do qual as mquinas so desprovidas: o amor.
                                       O filme Matrix apresenta uma histria, contada em uma lingua-
                                        gem contempornea, que nos faz pensar sobre o que  reali-
                                        dade e iluso. Podemos comparar a mensagem do filme com
                                        a Alegoria da Caverna de Plato, filsofo grego do sculo IV
                                         a.C. (428-427 a.C.  348-347 a.C.).
                                       < Matrix, trilogia de Larry e Andy Wachowiski. Foto divulgao, 2003. Reprod. Color 24,7 x 24,5 cm
                                         em papel. In: Revista Isto  n 1753  07/05/2003, p. 80-81 (98 pginas) Reportagem: Refns da
                                         Tecnologia. Darlene Mencione e Lia Vasconcelos, p. 80-85.

       Conhea alguns fragmentos:

        Alegoria da Caverna                                          Visiona tambm ao longo deste muro, homens
        Plato, Repblica, Livro VII, 514-517c                 que transportam toda espcie de objectos, que o
                                                                ultrapassam: estatuetas de homens e animais, de
         (...)
                                                                pedra e de madeira... como  natural, dos que os
         Suponhamos alguns homens numa habitao
                                                                transportam, uns falam, outros seguem calados.
     subterrnea em forma de caverna, com uma en-
                                                                     (...)
     trada aberta para a luz... Esto l dentro desde
     a infncia, algemados de pernas e pescoos...                  Ento, se eles fossem capazes de conversar
     h um caminho ascendente, ao longo do qual se              uns com os outros, no te parece que eles julga-
     construiu um pequeno muro...                               riam estar a nomear objectos reais, quando desig-
                                                                navam o que viam?
        (...)

128 Elementos Formais
                                                                                                          Arte


     (...)                                               contemplar o que h no cu, e o prprio cu, du-
    De qualquer modo  afirmei  pessoas nessas          rante a noite, olhando para a luz das estrelas e da
 condies no pensavam que a realidade fosse            Lua, mais facilmente do que se fosse o Sol e seu
 seno a sombra dos objectos.                            brilho de dia.
     (...)                                                  (...)
     ... o que aconteceria se eles fossem soltos             Finalmente, julgo eu, seria capaz de olhar pa-
 das cadeias e curados da sua ignorncia, a ver          ra o Sol e de o contemplar, no j a sua imagem
 se, regressados  sua natureza, as coisas se pas-       na gua ou em qualquer stio, mas a ele mesmo,
 savam deste modo. Logo que algum soltasse um           no seu lugar.
 deles, e o forasse endireitar-se de repente, a vol-       (...)
 tar o pescoo, a andar e a olhar para a luz, ao fa-         Quando ele se lembrasse da sua primitiva ha-
 zer tudo isso, sentiria dor, e o deslumbramento im-     bitao, e do saber que j possua, dos seus com-
 pedi-lo-ia de fixar os objectos cujas sombras via       panheiros de priso desse tempo, no crs que
 outrora.                                                ele se regozijaria com a mudana e deploraria os
     (...)                                               outros?
      ... se algum o forasse olhar para a prpria         (...)
 luz, doer-lhe-iam os olhos e voltar-se-ia, para bus-        E se lhe fosse necessrio julgar aquelas som-
 car refgio junto aos objectos para os quais podia      bras em competio com os que tinham estado
 olhar, e julgaria ainda que estes eram na verdade       sempre prisioneiros, no perodo em que ainda es-
 mais ntidos do que os que lhes mostravam?              tava ofuscado, antes de adaptar a vista  e o tem-
     (...)                                               po de se habituar no seria pouco  acaso no
     Precisava de se habituar, julgo eu, se quises-      causaria o riso, e no diriam dele que, por ter su-
 se ver o mundo superior. Em primeiro lugar, olha-       bido ao mundo superior, estragara a vista, e que
 ria mais facilmente para as sombras, depois disso,      no valia a pena tentar a ascenso? E a quem ten-
 para as imagens dos homens e dos outros objec-          tasse solt-los e conduz-los at cima, se pudes-
 tos, reflectidas na gua, e, por ltimo, para os pr-   sem agarr-lo e mat-lo.
 prios objectos. A partir de ento seria capaz de           (...)




z Tudo no passa de uma alegoria!
    O que  uma alegoria? O que as alegorias tm a nos dizer? Elas fa-
zem parte de nossas vidas? Veja a "Alegoria da Caverna": a caverna 
o mundo das aparncias em que vivemos e as sombras projetadas no
fundo so as coisas como percebemos. As correntes so nossos pre-
conceitos e opinies, a nossa verdade. O prisioneiro que se liberta e
sai da caverna  o filsofo, a luz do sol  a luz da verdade e o mundo
iluminado  a realidade. O instrumento que liberta o prisioneiro  a fi-
losofia, ou seja, o pensar sobre o prprio pensamento.
    "... nossa vida cotidiana  toda feita de crenas silenciosas, da acei-
tao de coisas e idias que nunca questionamos porque nos parecem
naturais, bvias." (CHAUI, 2004)


                                                                                   Arte: iluso ou realidade? 129
        Ensino Mdio

                                      Quem nos garante que o que vivemos ou acreditamos  a mais pu-
                                  ra realidade? O que julgamos ser o mundo real no pode ser apenas
                                  uma aparncia?


                        dEBATE

        Assista aos filmes da trilogia Matrix e se j assistiu, assista novamente, prestando ateno nas ce-
     nas em que a realidade  contestada.
         O que  a Matrix no filme? E o que pode ser a Matrix em nossa vida?
         Quais relaes que podemos estabelecer entre o filme Matrix e da Alegoria da Caverna?
         Sobre o que Plato est falando na Alegoria da Caverna? Isso tem relao com os dias de hoje?
         Neo foi "o escolhido" entre tantos para lutar contra o mal. Na sua opinio, o que  um escolhido?
     Quais os personagens da histria da humanidade que, na sua opinio, tambm foram "escolhidos"?
     Por qu?
         Discuta essas questes com seus colegas.



                                  z A Stima Arte
                                      A primeira exibio pblica de cinema foi realizada em 28 de de-
                                  zembro de 1895, na cidade de Paris. No passavam de filmes curtinhos,
                                  filmados com cmera parada, em preto e branco e sem som, mas que
                                  causou grande impacto. Os irmos Lumiri, considerados os invento-
                                  res do cinema, pensaram que o "cinematgrafo" no tinha futuro como
                                  espetculo, era um instrumento cientfico que servia apenas para pes-
                                  quisa, reproduzindo o movimento. Mas o que se seguiu no foi exata-
     Voc sabia que ao ser        mente isso, a estranha mquina que gravava movimentos deu incio ao
     projetada a primeira ce-     que conhecemos hoje como "a Stima Arte", ou seja, o cinema.
     na filmada pelos irmos
                                      Apesar de sabermos que no cinema tudo  de
     Lumiri "Chegada de um
                                  mentira, quando assistimos a um filme nosso
     trem  estao" o p-
     blico fugiu aterroriza-
                                  batimento cardaco acelera em certas ce-
     do por aquela locomo-        nas  ficamos com raiva do vilo, tor-
     tiva de "verdade" que, a     cemos pelo mocinho, gritamos de
     partir da tela se precipi-   medo, choramos de emoo  e,
     tava sobre ele? Esse foi     por alguns momentos, acreditamos
     o primeiro filme da his-     que tudo  de verdade. Esse  o
     tria. Os jornais comen-     segredo de tanto sucesso: a iluso,
     taram seu invento como       em que tudo parece real, ou como
     "A mquina de refazer a      diz Bernardet, 1986: "No cinema,
     vida" e de seu efeito co-    fantasia ou no, a realidade se im-
     mo a natureza surpreen-      pe com toda a fora".
     dida em flagrante. (MORN
                                      Os artistas e cientistas bus-
     1997, p. 42)
                                  cam reproduzir a realidade por

130 Elementos Formais
                                                                                                       Arte

meios artificiais h muito tempo. A pintura figurativa e a fotografia po-
dem nos dar essa impresso. A ma e o jarro de flores em uma pin-
tura a leo ou o flagrante de uma foto do nen tomando banho pare-
cem to reais como se fossem verdadeiros. Mas  pintura e  fotografia
falta o movimento, fundamental para reproduzir a realidade. Inventou-
se, ento, uma arte que se apia nas mquinas para tornar possvel re-
produzir o movimento: o cinema. (BERNARDET, 1986)



                 dEBATE

    O cinema  uma arte que reproduz a vida. Voc concorda que o cinema sempre reproduz a vida
 como ela ? Por qu?
     O cinema foi chamado por alguns de "olho mecnico", pois sendo reproduzido por mquinas no
 sofre a interveno humana e pode colocar na tela a prpria realidade. O que voc pensa a esse res-
 peito? A imagem cinematogrfica reproduzida pelas mquinas, no deixa dvidas sobre a realidade, ou
 essa realidade pode ser manipulada? Como?
     Qual foi o filme que voc mais gostou? Esse filme reproduz fielmente a realidade ou cria uma iluso?
 Por qu?




                 ATIVIdAdE

     Se sua escola possuir uma filmadora ou se for possvel emprestar uma, voc e sua turma podem fa-
 zer uma experincia de cinema. Afinal, o cinema  um trabalho de equipe! Precisa de roteiro, direo,
 produo, cenrios, figurinos, alm dos atores e tantos outros detalhes, que  preciso dividir as tarefas
 entre vrios profissionais. Portanto:
     Organize grupos e divida as funes.
     Escolha um tema e elabore o roteiro simples (para 5 ou 10 minutos).
    A partir do roteiro organize a produo: textos, cenrios, figurinos, etc. Escolha os atores e atrizes
 ensaiem bastante e, mos a obra!
     Cuide, com ateno, do enquadramento de cada cena!
    Se precisar refaa a filmagem at que fique do jeito que voc imagina. Depois,  s marcar a exibi-
 o! D at para fazer um "Festival de Cinema".



z A iluso de um sorriso
   Apesar das pinturas no produzirem movimento, elas podem repro-
duzir efeitos que muitas vezes no conseguimos explicar.
   Experimente olhar diretamente para o sorriso de Mona Lisa e ver
que ele no existe. Mas por que isso acontece? Ser que esse sorriso 

                                                                                 Arte: iluso ou realidade? 131
       Ensino Mdio

                        apenas uma iluso criada por Leonardo Da Vinci? Ou foi criado pelas
                        pessoas que a admiraram?
                             Para pintar esse quadro Leonardo Da Vinci fez uso de tcnicas de
                        pintura criadas por ele: o chiaroscuro e o sfumatto. O chiaroscuro ou
                        claro-escuro consiste em produzir efeitos de luz e sombra, unindo uma
                        forma com a outra sem delinear o contorno da figura, produzindo um
                        efeito  maneira de fumaa ou sfumatto. Na Mona Lisa esses dois efei-
                        tos se unem de tal forma que a leveza e a naturalidade alcanadas por
                        essas duas tcnicas nos impressiona. Essa forma embaada do sfumat-
                        to estimula a nossa imaginao e, de acordo com Gombrich (1993, p. 228-
                        229), "a mulher parece viva". Parece olhar para ns, e nos segue com os
                        olhos, toda vez que voltamos a olh-la. Esta pintura tornou-se um mi-
                        to e muitas so as interpretaes de seu enigmtico olhar e sorriso: al-
                        guns acham que zomba de ns, ou expressam uma sombra de tristeza.
                        E dependendo do ponto de vista do observador seu rosto tambm pa-
                        rece mudar. Isso  realidade ou iluso?

                                                                                                        Ao observarmos a
                                                                                                      reproduo da obra
                                                                                                      de Mona Lisa, o qua-
                                                                                                      dro, em razo da sua
                                                                                                      fama, no nos parece
                                                                                                      imenso? Por que te-
                                                                                                      mos essa impresso se,
                                                                                                      na realidade, ele mede
                                                                                                      apenas 77 x 53 cm.?




                        < LEONARDO DA VINCI. Mona Lisa ou La Gioconda, 1503  7. leo s/ madeira de
                          lamo, 77 x 53 cm. Museu do Louvre, Paris.




132 Elementos Formais
                                                                                                                                    Arte



                   ATIVIdAdE

    A Mona Lisa de Leonardo Da Vinci  uma das obras que mais inspirou outras obras. Confira:




< FERNANDO BOTERO. Mona Lisa,1997. leo      < RUBENS GERSHMAN. Lindonia, a Gio-          < MARCEL DUCHAMP. Bigode e Bar-
  s/ tela, 187 x 166 cm. Art Museum of the     conda dos Subrbios, 1966. Museu de Ar-       ba de L.H.O.O.Q, 1941. In: Catlogo
  Americas, Washington D.C. EUA.               te Moderna do Rio de Janeiro. Material:       Sonhando de Olhos Abertos  Dada
                                               espelho, scothilite sobre madeira, 90cm x     e Surrealismo. Coleo Vera e Artu-
                                               90cm. Serigrafia, 50 x 50 cm, 1966.           ro Schwaz do Museu de Israel, Jeru-
                                                                                             salm. De 8 de julho a 29 de agosto,
                                                                                             2004. Museu Oscar Niemeyer. Institu-
                                                                                             to Tomie Ohtake.




                  Enquanto a Mona Lisa de Leonardo Da Vinci, La Gioconda, representa um ideal
              de perfeio renascentista, Lindonia de Gerschman, A Gioconda dos Subrbios,
               uma jovem suburbana. O que significa suburbano? Que jovem  essa e o que ela
              representa do Brasil e da mulher suburbana brasileira? Mona Lisa, na sua opinio,
              pertence a qual grupo social?
                  Compare as trs verses de Mona Lisa. Quais so as diferenas entre a Mona
              Lisa de Da Vinci, de Fernando Botero, de Duchamp e de Gerchman?
                 Em uma folha de papel de tamanho aproximado ao retrato da "Mona Lisa" crie
              uma Mona Lisa que corresponda s caractersticas das jovens da cidade onde vo-
              c mora. Como ela seria? Pense nas jovens que voc conhece ou ouviu falar e em
              como retrat-las em sua criao. Voc pode usar recortes de revistas e fazer uma
              montagem, complementando com desenho e pintura. Escreva um pequeno texto
              sobre as caractersticas de sua Mona Lisa e exponha o trabalho.




                                                                                                  Arte: iluso ou realidade? 133
       Ensino Mdio

                        z Podemos confiar naquilo que vemos?
                           O que voc v nessa imagem?




                                                                                      < In: GOMBRICH, E. H. Arte e Ilu-
                                                                                        so  Um estudo da psicolo-
                                                                                        gia da representao pictrica.
                                                                                        So Paulo: Martins Fontes, 3
                                                                                        ed, 1995, p. 5.


                            Apesar de no ser difcil de distinguir as formas, no podemos en-
                        xergar as duas imagens ao mesmo tempo: ou vemos o pato ou o coe-
                        lho. Os efeitos que conhecemos como iluso de tica so divertidos e
                        curiosos, porm aos nossos olhos so um mistrio a desvendar.
                            O olho humano funciona de uma maneira muito parecida com a de
                        uma mquina fotogrfica, a diferena  que a imagem da cmera foto-
                        grfica  revelada e podemos ter uma imagem permanente do objeto,
                        enquanto que, as imagens captadas pelo olho humano so constante-
                        mente levadas ao crebro onde so interpretadas. Cada imagem capta-
                        da pelo olho humano vem carregada de nossas impresses e pelo que
                        sabemos a respeito do objeto. Conforme as palavras de GOMBRICH
                        (1995, p. 233), no conseguimos separar o ver do saber.


                                                    Uma vez que desvendamos uma imagem
                                                enigmtica fica praticamente impossvel vol-
                                                tar  impresso inicial, quando ainda no ha-
                                                vamos desvendado o mistrio. A imaginao
                                                visual nos possibilita desvendar esse enigma
                                                criado pela iluso ptica, pois no h uma
                                                nica maneira de interpretar o que vemos.
                                                    Mas no  apenas o que sabemos a respei-
                                                to do objeto que influencia nossa percepo.
                                                Certas combinaes de linhas, formas geom-
                                                tricas e sobreposio de cores confundem o
                                                olhar e produzem iluses ticas.
                                                    Observe a figura ao lado:

                                               < JAMES FRASER. A espiral de Fraser, 307cm x 320cm, 1908. New Visual
                                                 Ilusion of Direction. British Joumal of Psycholog.




134 Elementos Formais
                                                                                                              Arte

    O que voc est vendo  realmente uma espiral?
    Por no sabermos nada da figura representada a nossa interpre-
tao pode ser ainda mais difcil do que quando sabemos, como por
exemplo, na figura ambga do pato e do coelho.
    Observando com ateno voc ver que no se trata de uma espi-
ral, mas uma srie de crculos concntricos. Voc pode descobrir a na-
tureza na iluso usando um lpis para seguir as linhas dos crculos. O
fundo xadrez em direo ao centro  que ilude nossa viso nos fazen-
do interpretar a imagem dos crculos concntricos como se fosse uma
espiral.
    A chave para o segredo dessas imagens  deixar de olh-las como
um todo e focarmos os detalhes isoladamente como foi sugerido para
desvendar o sorriso de Mona Lisa, ou seja, deixar de olh-las com uma
viso perifrica e passar a olh-las com uma viso central. A viso cen-
tral nos permite ver os detalhes e a viso perifrica nos permite uma
viso mais ampla do que est  nossa volta.



z Op Art: o movimento que seduz
    As obras da Op Art seduzem nossos olhos pela iluso do movimen-
to. Apesar de representarem imagens fixas, produzem a iluso de mo-
vimento. Observe uma delas:
                                                                      A Op Art surgiu em meados da dcada de
                                                                  1950 e se desenvolveu ao mesmo tempo na
                                                                  Europa e nos Estados Unidos.  uma expres-
                                                                  so que vem do ingls optical art e significa
                                                                  de acordo com Proena, 2001, "arte ptica".
                                                                  Uma obra da Op Art  medida que  observa-
                                                                  da, d a impresso que se altera e as figuras se
                                                                  movimentam formando um conjunto pictri-
                                                                  co. As obras da Op Art so abstratas, formais e
                                                                  extremamente exatas, lidam diretamente com
                                                                  a iluso projetada na estrutura fsica do olho
                                                                  ou no prprio crebro, provocada pela excita-
                                                                  o ou acomodao da retina. Solicita a parti-
                                                                  cipao ativa do observador com a obra, pois
                                                                  ela muda  medida que nos movimentamos:
                                                                  parece se mexer, se multiplicar, se aprofundar
                                                                  e emergir para a superfcie.
< VICTOR VASARELY. In: Catlogo. Exposio 14 Enero  23 Abril,
  2000. Madri: Fundacin Juan March, 2000.

   As obras da Op Art lembram as imagens elaboradas atualmente por intermdio do compu-
tador, por meio de programas que criam as imagens que podem ser reproduzidas na televiso,
no cinema e at mesmo no papel.

                                                                                         Arte: iluso ou realidade? 135
        Ensino Mdio

      Voc sabia que o calei-          "No devemos temer os novos meios que a tcnica nos deu; no po-
    doscpio foi inventado na In-   demos viver seno em nossa poca". Victor Vasarely
    glaterra no ano de 1816? A         Victor Vasarely foi o criador da plstica cintica envolvendo pesqui-
    iluso de ptica produzida      sas e experincias dos fenmenos da percepo ptica.
    por um caleidoscpio  cau-
    sada pelas leis da reflexo
    da luz. Os espelhos formam      z Brincando com a iluso
    ngulos uns em relao aos
    outros, dessa forma reprodu-
                                        Voc j ouviu falar em caleidoscpio?
    zem as reflexes. A associa-
    o de espelhos planos nos          Com simples movimentos nesse objeto, podemos produzir uma in-
    permite obter vrias imagens    finidade de padres de imagens que se modificam simetricamente pe-
    de um mesmo objeto.             la projeo dessas imagens nas paredes dos espelhos. Elas so muito
                                    parecidas com as imagens criadas pela Op Art. Mas como essas ima-
                                    gens se formam?


                         ATIVIdAdE
         Voc pode construir o seu prprio caleidoscpio para saber a resposta.
         Separe o material que vai precisar:
         Pegue trs rguas transparentes, ou trs retngulos de espelho com a mesma medida.
         Um pequeno pedao de papel vegetal.
         Um pequeno pedao de plstico transparente.
         Seis a oito miangas coloridas.
        Papel carto na cor preta ou um outro papel que tenha os dois lados na cor preta, fita adesiva e ca-
     neta hidrogrfica.
         Agora, mo  obra:
         Una as trs rguas com a fita adesiva formando um tubo triangular.
         Feche uma das extremidades com o papel vegetal.
         Coloque as miangas dentro do tubo e prenda o plstico transparente na outra extremidade.
         Encape o tubo triangular com o papel carto, sem cobrir as extremidades;
         Decore o papel carto com as canetas hidrogrficas. E est pronto o seu caleidoscpio.  s olhar
     e girar para obter uma infinidade de combinaes de imagens.


                                       Observe as reflexes da imagem que  reproduzida dentro de um
                                    caleidoscpio:




136 Elementos Formais
                                                                                                             Arte

    O caleidoscpio construdo com trs espelhos planos reflete seis
imagens, essas seis iro refletir doze imagens e essas doze imagens re-
fletem dezoito, e assim sucessivamente. Nesse caso, a reflexo da luz
 regular, pois a superfcie plana do espelho faz com que os raios de
luz, ou seja, a imagem retorne de forma regular aos nossos olhos pos-
sibilitando uma imagem ntida do objeto visualizado. A reflexo da luz
pode ser ainda irregular ou difusa, isto depende da superfcie do ma-
terial no qual os raios da luz incidente sero refletidos. Em superfcies
irregulares a reflexo da luz se espalha irregularmente tornando a ima-
gem opaca.


                        ATIVIdAdE

      Para observar a reflexo da luz como no caleidoscpio voc pode, por exemplo, construir um expe-
  rimento com dois espelhos planos grandes. Coloque os espelhos na vertical, em forma de V, com a su-
  perfcie refletora voltada uma para outra. Fique entre os espelhos o mais prximo possvel. Quantas ima-
  gens voc consegue ver?
     Observe que, ao diminuir o ngulo dos espelhos, podemos obter um nmero maior de reflexes e,
z Espelho, espelho meu...
  ao aumentarmos o ngulo entre esses espelhos, o que acontece?


     Vamos passar atravs do espelho e entrar no mundo de Escher?
                                                                                    O Artista:
                                                                                   Maurits Cornelis Escher nas-
                                                                                   ceu em 1898, em Leeuwar-
                                                                                   den e era o filho mais novo
                                                                                   de um engenheiro hidruli-
                                                                                   co. Era um aluno fraco, muito
                                                                                   bom em desenho, mas eram
                                                                                   desenhos  frente de seu
                                                                                   tempo, no foram aceitos e
                                                                                   Escher reprovou at mes-
                                                                                   mo em Arte. Estudou gravu-
                                                                                   ra e desenhava tudo o que
                                                                                   achava bonito, mas no se
                                                                                   interessava por gente, era t-
                                                                                   mido, dizia ter um grande jar-
                                                                                   dim para manter as pessoas
                                                                                   afastadas. Depois de 1937,
< M. C. ESCHER. Espelho Mgico, 1946. Litografia, 28 cm x 44.5 cm.
                                                                                   passou a se interessar por
                                                                                   estruturas regulares e ma-
                                                                                   temticas, reproduzindo trs
     Escher foi um desenhista, criador de iluses. De acordo com Ernest,           dimenses em superfcies
"... desenho  iluso  sugesto em lugar de realidade". (1991, p. 28)             bidimensionais. Morreu em
                                                                                   1972.
     Em um mundo bidimensional  o papel  pode-se criar um mun-
do tridimensional.

                                                                                 Arte: iluso ou realidade? 137
       Ensino Mdio

                                 bem comum ouvirmos falar em imagem 3D. Mas voc sabe o que
                             uma imagem em 3D? E como  possvel enxergar em 3D?
                                Quando olhamos um objeto bem de perto um olho v com uma
                            pequena diferena em relao  direo do outro, isso  o que nos faz
                            ver a terceira dimenso, ou seja, com profundidade.
                                Podemos reproduzir as trs dimenses (altura, largura e compri-
                            mento) de um objeto qualquer em uma superfcie de duas dimenses
                            (altura, largura)? O desenho pode! Como? Por meio do uso do claro e
                            escuro para dar idia de profundidade e perspectiva. A imagem criada
                            no plano bidimensional pode no ser tridimensional, mas pode pro-
                            duzir essa iluso.
                                Nessa obra de Escher, Espelho Mgico, no se v apenas a reflexo
                            de uma imagem no espelho representada pelo desenho, vemos essas
                            imagens sarem de um plano bidimensional para um plano tridimen-
                            sional. As figuras ganham vida, parecem sair do papel e se multiplicam
                            como nas reflexes da imagem do caleidoscpio.



                      ATIVIdAdE

        Como  representada a realidade na obra de Escher, Espelho Mgico?
        Em que momento a imagem refletida no espelho parece tornar-se uma imagem em 3D?


   z Deu cara ou coroa?
       O que voc v nessa imagem?
       Agora, inverta a posio da folha e responda no-
   vamente:
       O que voc v agora?
       A pintura de Arcimboldo  impressionante. Com-
   posies com frutas, animais e outros objetos for-
   mam figuras grotescas e divertidas, uma verdadeira
   caricatura da vida humana.




                                                          < GIUSEPPE ARCIMBOLDO. O hortelo, 1590. leo em Painel,
                                                            35x24 cm. Museo Civico ala Ponzone, Cremona  Itlia.

138 Elementos Formais
                                                                                                                      Arte

    Veja a extravagncia dessa obra. Um
amontoado de frutas e legumes, que pode-
riam estar em qualquer banca de feira, mas
aqui, quando afastamos um pouco o nos-
so olhar, as frutas e verduras reproduzem a
imagem de um rosto. A fantasia  uma mar-
ca nos trabalhos do artista, realidade e ilu-
so se mesclam nessa obra. Na poca em
que Arcimboldo viveu  no sculo XVI 
era comum usar tal artifcio visual. Alm das
frutas e verduras, Arcimboldo usava em su-
as obras a imagem de panelas, livros, vasos,
flores para formar um retrato humano.




                                                   < GIUSEPPE ARCIMBOLDO. Vero, 1527. leo s/ tela, 76 x 63,5 cm. Museu do
                                                     Louvre, Paris.



                ATIVIdAdE

     De cara com Arcimboldo:
     Divida a sala em grupos de quatro a seis pessoas e construam uma figura  maneira de Arcimboldo.
       Cada grupo precisa escolher e classificar os objetos que iro dar forma ao seu trabalho. Podem ser
 cereais, latas de refrigerante, papis coloridos, retalhos de tecido ou outros materiais que possam ser
 utilizados, o importante  que cada grupo use objetos diferentes para obter vrios efeitos que podem
 ser comparados.
     Exponha os trabalhos para que todos possam admirar.



z Ver ou no ver...
    Somos cegos para aquilo que no conhecemos, nesse ponto  que a iluso nos prega pe-
as e ficamos sem saber sobre o que  real e o que  ilusrio. A arte liberta os olhos dessa ce-
gueira, abrindo a possibilidade de mostrar mundos impossveis criados pelas mos dos artistas.
Alis, na arte tudo  possvel! Toda a realidade pode ser apenas um reflexo no espelho. O re-
flexo do espelho  real? Ou  apenas uma projeo? O que  real nesse caso?
    Podemos concluir que muitas vezes, a Arte no passa de uma iluso que nos permite ver
mais profundamente a realidade em que vivemos. Alm disso, ajuda-nos a criar outra. Mas, ve-
mos que tudo depende de como percebemos o real, e nesse ponto iluso e realidade podem
representar a mesma coisa. Ser possvel, a arte representar a realidade a partir da iluso?


                                                                                        Arte: iluso ou realidade? 139
       Ensino Mdio

                        z Referncias
                          BERNARDET, J. O que  Cinema. 8 ed. So Paulo: Editora Brasiliense,
                          1986.
                          CARRON, W. As Faces da Fsica / Wilson Carron, Osvaldo Guimares. So
                          Paulo: Moderna, 1997.
                          CHAUI, M. Convite  Filosofia. So Paulo: Editora tica, 2004.
                          ERNEST, B. O Espelho Mgico de M. C. Escher. Benedikt Taschen Verlag Gm-
                          bH, Hohenzollerning 53, D-50672 Kin, 1991.
                          GOMBRICH, E. H. A Histria da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan,
                          1993.
                          GOMBRICH, E. H. Arte e Iluso  um estudo da psicologia da representa-
                          o pictrica. So Paulo: Martins Fontes, 3 ed, 1995.
                          MORN, M.; Carrasco, M. El Arte Del siglo XX. Madri: Ediciones Akal,
                          1997.
                          MOSQUERA, J. J. M. Psicologia da Arte. Porto Alegre: Livraria Sulina Edito-
                          ra, 1973.
                          OKUNO, E. Fsica para Cincias Biolgicas e Biomdicas. / Emico Okumo,
                          Iber Luiz Caldas, Cecil Chow. So Paulo: Harpe & Row do Brasil, 1982.
                          PROENA, G. Histria da Arte. 4 ed. So Paulo: tica Brasil, 2001.
                          STANGOS, N. Conceitos da Arte Moderna. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Edi-
                          tor, 1991.
                          STAHEL, M. O Livro da Arte. So Paulo: Martins Fontes, 1999.




                        z Filmes
                          Nome do filme: Matrix  Verso DVD
                          Protagonistas: Kenu Reeves / Laurence Fishburne / Carrie-Anne Moss
                          Direo: The Wachowiski Brothers
                          Produo: Joel Silver
                          Tempo Aprox.: 136 min.


                          Nome do filme: Matrix Reloaded  Verso DVD
                          Protagonistas: Kenu Reeves / Laurence Fishburne/ Carrie-Anne Moss
                          Direo: The Wachowiski Brothers
                          Produo: Joel Silver
                          Tempo Aprox.: 138 min.




140 Elementos Formais
                                                                                                      Arte

  Nome do filme: Matrix Revolution  Verso DVD
  Protagonistas: Kenu Reeves / Laurence Fishburne/ Carrie-Anne Moss
  Direo: The Wachowiski Brothers
  Produo: Joel Silver
  Tempo Aprox.: 129 min.


z Imagens
  Matrix, trilogia de Larry e Andy Wachowiski. Foto divulgao, 2003. Reprod.
  Color 24,7 x 24,5 cm em papel. In: Revista Isto  n 1753  07/05/2003, p.
  80-81 (98 pginas) Reportagem: Refns da Tecnologia. Darlene Mencione e
  Lia Vasconcelos, p. 80-85.
  Leonardo Da Vinci. Mona Lisa ou "La Gioconda", 1503  6. Tmpera e leo
  s/ tela, 77 x 53 cm. Museu do Louvre, Paris. In: STRICKLAND, Carol. Arte
  Comentada. Rio de Janeiro: Ediouro, 1999, p. 35.
  Fernando Botero. Mona Lisa,1978. leo s/ tela, 187 x 166 cm. In:
  Rubens Gershman. Lindonia, a Gioconda dos Subrbios, 1966. Museu de
  Arte Moderna do Rio de Janeiro. Material: espelho, scothilite sobre madeira,
  90cm x 90cm. Serigrafia, 50 x 50 cm, 1966. In:
  Marcel Duchamp (1919-1964): Bigode e Barba de L.H.O.O.Q, 1941.
  In: Catlogo Sonhando de Olhos Abertos  Dada e Surrealismo. Coleo
  Vera e Arturo Schwaz do Museu de Israel, Jerusalm. De 8 de julho a 29 de
  agosto, 2004. Museu Oscar Niemayer. Instituto Tomie Ohtake.
  Pato ou Coelho?
  In: GOMBRICH, E. H. Arte e Iluso  Um estudo da psicologia da represen-
  tao pictrica. So Paulo: Martins Fontes, 3 ed, 1995, p. 5.




                                                                                 Arte: iluso ou realidade? 141
       Ensino Mdio




142 Movimentos e Perodos
                                                                                       Arte




                                                                           9

                                               TEATRO PARA QU?   <Marcelo Cabarro Santos1




                                                      final de contas, para que ser
                                                     que existe o Teatro? Ser que a
                                                     nica funo dele  nos divertir?




1
 Colgio Estadual Frei Beda Maria - Itaperuu - PR

                                                                         Teatro para qu? 143
       Ensino Mdio

                            z O Teatro era ritual e sagrado
                                A arte da representao ou Teatro  algo to antigo quanto a pr-
                            pria humanidade. Os estudiosos sobre o assunto no tem um consen-
                            so a respeito do surgimento do teatro mas podemos apresentar algu-
                            mas idias a respeito disso. A expresso de sentimentos, bem como a
                            comunicao podem ter sido a mola propulsora da inveno do Tea-
                            tro, assim para podermos conhecer e entender um pouco mais sobre
                            a utilidade ou funo do Teatro, faremos uma pequena visita a alguns
                            momentos da histria, verificando as diferentes funes que lhe foram
                            atribudas.
                                Nossos antepassados, conhecidos como "homens pr-histricos",
                            j praticavam ritos em que faziam representaes cnicas com funo
                            mgica e narrativa. Utilizavam-se de elementos musicais, movimentos
                            corporais e pinturas.
                                Desta forma, o Teatro surgiu com o prprio homem, assim como
                            a dana, a msica e a pintura, usadas em seus rituais para a caa, em
                            louvor aos seus deuses e para contar histrias.
                                J nessa poca, utilizava-se o artifcio de fingir ser outro indivduo
                            ou outra pessoa, que vivia outra vida e agia representando aconteci-
                            mentos que faziam parte de seu cotidiano.
                                Segundo Fischer, 2002, p. 45 "A funo decisiva da arte neste per-
                            odo foi a de conferir poder sobre a natureza, sobre os inimigos, sobre
                            os parceiros, sobre a realidade, enfim, poder no sentido de um fortale-
                            cimento da coletividade humana".
                                J tentou imaginar como era a vida de nossos antepassados pr-
                            histricos? Como viviam em sociedade, caavam, criavam seus filhos e
                            enfrentavam os seus medos e angstias?
                                Num ambiente perigoso e desconhecido, abrigando-se em caver-
                            nas, nossos parentes distantes reuniam-se ao redor de uma fogueira,
                            no fim de um dia difcil, contando suas aventuras numa terra hostil. E
                            sabe como , uma histria puxa a outra, e vai surgindo a necessidade
                            de mostrar como se agiu em determinado momento e como tal pessoa
                            ou animal agiu em outro. Pronto! J est caracterizado o fenmeno te-
                            atral, pois o teatro existe quando temos:
                            = Uma pessoa que finja ser algo ou algum: personagem.

                            = Uma histria ou uma ao para ser representada: ao.

                            = Um determinado espao (lugar ocupado durante a ao): espao.

                            = Algum que veja ou assista essa representao: expectador.

                                Porm, nessa poca, ainda no havia a diviso entre atores e espec-
                            tadores, ou seja, todos participavam do ritual e o lugar que faziam era
                            comunitrio, no era chamado de palco ou teatro, formas estas, que
                            permanecem ainda hoje em certas manifestaes populares, rituais, fes-
                            tas, comemoraes, entre outras.




144 Movimentos e Perodos
                                                                                                      Arte



                       ATIVIdAdE

      Podemos fazer a seguinte experincia para experimentar como poderia ser um desses momentos
  primitivos do fazer teatral:
       Rena-se com seus colegas de turma, em uma sala escura, iluminada apenas por velas ou lanternas.
      Sentem-se em crculo e experimentem, um a um, contar uma pequena histria, real ou inventada,
  de preferncia uma aventura, em que haja suspense. Ao contar sua histria fique em p, descreva os
  locais onde tudo acontece, imite os sons e as pessoas, utilizando gestos expressivos e vozes inventa-
  das para cada personagem.
     Converse com seu professor e colegas sobre a atividade, conte o que sentiu enquanto era voc
  quem contava a histria, e quando voc assistia a seus colegas.



z Na Grcia Antiga o Teatro
  j era muito importante
    Nas disciplinas de Histria, Filosofia, Sociologia, entre outras, apren-
demos que foi na Grcia, no sculo VI a.C., considerada o bero do
pensamento ocidental, da filosofia, das Olimpadas, da Democracia e
um "tanto" de outras coisas importantes, que se desenvolveu, tambm,
o Teatro. Pois foi l que aconteceu, pela primeira vez, a diviso entre
atores e espectadores. Assim ficou conhecida at hoje essa forma de
representao.
    Pois bem, o Teatro na Grcia teve um comeo interessante e vo-
c vai ver o porqu. Surgiu em meio a muita festa, dana e msica. Os
gregos acreditavam e louvavam muitos deuses e cada um tinha uma
funo; existia um deus at para o vinho, era o preferido do povo de
l. Chamavam-no de Dionsio, na Grcia Antiga, ou Baco, durante o
Imprio Romano, sendo considerado o inventor dessa bebida. Os seus
seguidores faziam festas e cultos religiosos cantando e danando em
sua homenagem. Conta a his-
tria, que foi em meio a esse
misto de religiosidade e "fes-
ta", que surgiram as primei-
ras encenaes teatrais para
o pblico, na Grcia. Nelas
se contava a histria de Dio-
nsio e suas faanhas com o
vinho.

< Cortejo bacntico. Desenho de A. L. Millin
  (1808), segundo um vaso figurado do Museu
  do Louvre em Paris  Frana

                                                                                        Teatro para qu? 145
       Ensino Mdio

                                A funo determinada do ator surgiu na Grcia, no sculo
                            VI a.C., o primeiro ator de que se tem conhecimento chamava-
                            se Tspis, e possua um talento especial para imitar os outros.
                            Numa das festividades de Dionsio, Tspis subiu em uma car-
                            roa diante do pblico, colocou uma mscara, vestiu uma t-
                            nica e, representando, disse: "Eu sou Dionsio, o deus da Ale-
                            gria", o povo estranhou mas gostou da novidade.
                                Percebendo o interesse do povo pelo Teatro, os gover-
                            nantes passaram a incentivar os que possuam certa habi-
                            lidade para imitar, instituindo e organizando os primeiros
                            concursos teatrais, que viriam a contribuir no desenvolvi-
                            mento de dois gneros teatrais muito importantes na Grcia
                            Antiga e na atualidade: a Tragdia e a Comdia.
       1                        A Tragdia tem origem nos primeiros, e mais srios, mo-
                            mentos do cerimonial religioso das festas dionisacas da An-
                            tiga Grcia e narra, alm de feitos hericos, acontecimen-
                            tos que ressaltam o poder dos deuses sobre o destino dos
                            humanos. A Comdia viria das festividades populares, pro-
                            fanas e descontradas e, em geral, faz crtica social e pol-
                            tica aos costumes da poca. Esses dois gneros deram ori-
                            gem a muitos outros.
                                As representaes teatrais na Grcia Antiga eram com-
                            postas por um coro que narrava e fazia comentrios a res-
                            peito da histria, que era interpretada pelos atores princi-
                            pais (protagonistas), que usavam tnicas e mscaras. Os
                            principais escritores de tragdias foram Eurpedes, autor de
                            Alceste; squilo, autor de Os Persas e Sfocles, autor de di-
                            po Rei e Antgona, texto que voc conhecer, resumida-
       2
                            mente a seguir. Um dos mais importantes autores de com-
                            dias foi Aristfanes, autor de As Nuvens e As Rs.




                                                                 < 1. Mscara de mrmore de uma hero-
                                                                   na da tragdia antiga (Npoles, Museu
                                                                   Nazionale). 2. Mscara de um escra-
                                                                   vo, sculo III a.C. (Milo, Museu Tea-
                                                                   trale alla Scala). 3. Mscara de um jo-
                                                                   vem, encontrada em Samsun, Turquia,
                                                                   sculo III a.C. (Munique, Staatliche An-
                                                                   tikensammlung). 4. Mscara na mo
                                                                   de uma esttua de mrmore, a qual
       3                       4                                   se julga representar Ceres (Paris, Mu-
                                                                   seu do Louvre).


146 Movimentos e Perodos
                                                                                                                   Arte



                     ATIVIdAdE

   Leia este resumo da tragdia grega Antgona, de Sfocles, baseado na obra "As Trs Tragdias
Gregas":
    Personagens:
    Antgona: filha de dipo, sobrinha de Creonte, irm de Polinice (morto) e Ismnia.
    Creonte: rei.
    Hmon: filho de Creonte e noivo de Antgona.
    Ismnia: irm de Antgona.
    Coro: sempre representa o povo, a sociedade.
    Guarda: Mensageiro e cego vidente.
        Numa madrugada, em Tebas, Antgona deixa o palcio para enterrar seu irmo Polinice, filho re-
belde de dipo, morto quando conduzia o ataque de prncipes estrangeiros contra sua cidade. Ele es-
tava desobedecendo a ordem de seu tio Creonte.
    "Antgona convida Ismnia para acompanh-la, mas ela tem medo. Antgona enterra seu irmo e 
presa pelos guardas. Creonte, apesar dos apelos do coro, condena Antgona a ser enterrada viva. H-
mon implora por Antgona, mas no consegue convencer o pai. Depois da premonio de um cego vi-
dente, Creonte se arrepende, mas j  tarde. Hmon ao encontrar a noiva morta, mata-se na frente do
pai. A mulher de Creonte, sabendo da morte do filho, tambm termina com sua vida. Creonte fica sozi-
nho, no desespero de suas culpas".
< (ALMEIDA, Guilherme; VIEIRA, Trajano. Trs tragdias gregas. So Paulo: Perspectiva, 1997).


    Forme grupos e discuta com seus colegas sobre as seguintes questes:
    Voc alguma vez desobedeceu alguma recomendao de seus pais e por isso recebeu algum tipo
de repreenso ou punio? Conte aos seus colegas como foi.
    A respeito do que fez Ismnia, no texto acima, algum amigo ou amiga seu no aceitou fazer algo que
voc sugeriu, por considerar errado ou por medo da repreenso por parte dos pais, como, por exem-
plo, gazear aulas? Como voc reagiu? A amizade ficou abalada ou voc compreendeu a situao? Con-
te como foi.
   Os seus pais so rgidos nas cobranas e punies de atitudes como essa? ou voc se considera
responsvel? Conte uma situao a respeito.
   Cada grupo ir escolher um dos fatos narrados anteriormente para preparar uma pequena cena e
apresent-la aos demais, dramatizando os fatos transformando-os em ao cnica.
    Logo aps as apresentaes retomem as discusses, agora com toda a turma.


    OBS:Muitas outras questes podem ser analisadas a partir do texto, portanto  fundamental a leitu-
ra desse e de outros textos de teatro na ntegra.

                              Dramatizar  utilizar os recursos teatrais de representao para con-
                             tar uma histria, um acontecimento, demonstrar sentimentos, sonhos, de-
                              sejos, etc.

                                                                                                       Teatro para qu? 147
       Ensino Mdio

                            z A relao entre o Teatro
                              medieval e a religiosidade
                                No sculo V d.C., com a expanso da Igreja Crist, o fazer teatral
                            passou a ser considerado um ato de sacrilgio grave por ser uma ativi-
                            dade pag, ou seja, no ter origem crist. Assim, os atores eram vistos
                            com maus olhos pela sociedade e todo cristo batizado deveria renun-
                            ciar a participar ou assistir a qualquer encenao teatral. Porm, mes-
                            mo assim, existiam manifestaes teatrais na Idade Mdia que fugiam
                            do controle da Igreja.
                                Durante muito tempo foi dessa maneira. Contudo, a Igreja, perce-
                            bendo o grande poder de influncia e ateno despertados pelo teatro,
                            comeou a se valer desse recurso durante as celebraes. Nesse caso,
                            o teatro era utilizado para transmitir a doutrina religiosa, os ensinamen-
                            tos da Bblia e o conhecimento da vida dos santos, sendo um recurso
                            muito importante durante a celebrao litrgica.
                                Dessa forma, foram utilizados, a partir do sculo XIV, os Mistrios,
                            Autos, Paixes e Milagres, que eram formas teatrais da poca. Neles eram
                            encenados episdios da Bblia, trechos dos evangelhos ou da vida de
                            santos e peas usadas para atrair a ateno do povo, explicando as
                            doutrinas da f crist. Essas dramatizaes duravam vrios dias, e en-
                            volviam praticamente a cidade toda. Inicialmente, eram representadas
                            dentro da prpria igreja, mas com o aumento do interesse do pblico,
                            tiveram que ser transferidas para frente delas e logo para as praas, em
                            dias de festividades.
                                Podemos perceber, atualmente no Brasil, em muitas cidades, a re-
                            presentao de peas nesse estilo, durante a Semana Santa, como por
                            exemplo: "Paixo de Cristo". Voc j deve ter visto ou participado de
                            uma, no ?


                            z A Comdia Dell'arte, o Teatro de Mscaras
                                No final da Idade Mdia e no Renascimento, o teatro na Europa
                            atingia grandes pblicos e cumpria outras funes alm da religiosa.
                                Devido s mudanas econmicas, polticas e sociais ocorridas na
                            Europa, nos sculos XIV e XV, constituram-se novos centros econmi-
                            cos, sendo que a regio mais beneficiada com esse processo foi a Pe-
                            nnsula Itlica, onde fica a Itlia.
                                Essas mudanas influenciaram o estilo de vida dos italianos e tam-
                            bm o teatro. Surgem as primeiras companhias de atores itinerantes ou
                            mambembes, que se apresentavam de cidade em cidade, em carroas
                            que serviam de palco. Os artistas, no mais presos somente aos temas
                            religiosos impostos pela igreja, passam a buscar inspirao na Com-

148 Movimentos e Perodos
                                                                                                        Arte

dia grega, criando na Itlia e chegando ao apogeu no sculo XVI, uma
forma teatral chamada Comdia dell'arte.
    Na Comdia dell'arte, a habilidade de improvisar e a utilizao da
pantomima mostravam-se mais importantes do que o texto escrito. Os
atores usavam mscaras e interpretavam durante toda a vida os perso-
nagens fixos, seguindo roteiros com os principais acontecimentos da
pea. As falas eram criadas pelos atores durante a encenao. A Co-              Pantomima  a arte
mdia dell'arte tinha como funo divertir o povo, e quando os come-            de expressar-se por gestos,
diantes agradavam, os espectadores retribuam, como vemos hoje em               sem o uso de palavras, uti-
dia com os artistas de rua que recebem seu dinheiro "passando o cha-            lizando-se da expresso fa-
pu" para quem os est assistindo.                                              cial e corporal.
    Inspirando-se em situaes baseadas em amores proibidos, rela-
es de patres com seus empregados e personagens da sociedade da
poca, a Comdia dell'arte espalhou-se pela Europa, tendo como su-
as personagens mais conhecidas as seguintes: Arlequim  criado fofo-
queiro, muito esperto; Doutor  velho falador; Capito  soldado far-
rista, covarde e mentiroso, entre outros.




         < Atores da Comdia Del'arte em ao.



                  ATIVIdAdE

     Que tal utilizarmos algumas tcnicas da Comdia dell'arte, como a improvisao, o uso de msca-
 ras e a pantomima, para criarmos algumas cenas?
     Apresentao exagerada
     Em roda, todos os participantes diro o seu nome. Depois de todos se apresentarem pela primeira
 vez, devem faz-lo acompanhando o nome com os braos.
    Em seguida, a apresentao ser feita utilizando as pernas, deslocando-se no espao, fazendo um
 gesto expressivo, com determinada inteno, dizendo o nome no diminutivo com um gesto contido, di-
 zendo o nome no aumentativo com um gesto mais amplo, etc.
    Cada rodada poder ter um lder, que ir sugerir formas de expresso, organizadamente, at que to-
 dos experimentem a liderana.


                                                                                      Teatro para qu? 149
       Ensino Mdio


                                        Utilizao de Mscaras
                                        Utilizando papis, papelo, cartolina, lpis de cor, elstico ou barbante e
                                    cola, construa uma mscara facial, sem expresso nenhuma, conhecida co-
                                    mo "mscara neutra".
                                        Pea a seu professor que divida a turma em dois grupos. Enquanto um
                                    grupo faz as expresses sem a mscara, o outro observa, e vice-versa. O gru-
                                    po que estar observando far a sugesto de alguns sentimentos para serem
                                    representados pelo grupo que se apresentar, por exemplo: espanto, dio,
                                    ternura, agressividade, etc.
                                        O grupo que estar se apresentando posar parado como "esttua", por
                                    alguns momentos entre um sentimento e outro, para ser observado.
                                        Em seguida, ainda com o mesmo grupo, agora utilizando as mscaras, re-
                                    pita o mesmo exerccio, com os mesmos sentimentos. Depois inverta a ope-
                                    rao para que o outro grupo tambm se apresente.
                                         Em grupo, e com a ajuda do professor, conversem sobre as principais di-
                                    ficuldades de transmitir os sentimentos utilizando a mscara e as principais di-
                                    ficuldades em se compreender o sentimento representado, j que a mscara
                                    impossibilita a leitura da expresso facial, fazendo com que o corpo tenha que
                                    transmiti-los por meio de gestos mais expressivos que o normal.




                                   z Do Tempo de Shakespeare,
                                     O Teatro Elisabetano
     Dramaturgo  quem                 Na Inglaterra, durante o reinado da Rainha Elizabeth I, houve um
     escreve textos de teatro ou   grande desenvolvimento do Teatro, por isso a denominao "Teatro
     peas teatrais.               Elisabetano". Nessa poca tambm surgiram grandes dramaturgos, en-
                                   tre eles Willian Shakespeare. J ouviu esse nome?
                                       Nascido em 1564, na Inglaterra, em Stratford  Avon, Shakespea-
                                   re escreveu cerca de 35 peas e tornou-se, com certeza, um dos maio-
                                   res smbolos do Teatro, pois suas obras fizeram muito sucesso em sua
                                   poca e ainda hoje so encenadas e continuam a emocionar pessoas
                                   em todo o mundo. A est outra das funes que o teatro pode assu-
                                   mir: "emocionar". Ou voc vai dizer que no se emociona ao ver a lin-
                                   da e triste histria dos jovens Romeu e Julieta, um dos textos teatrais
                                   mais conhecidos e representados? Ainda existem outras obras desse
                                   dramaturgo que tambm podem ser encontradas com facilidade, inclu-
                                   sive na biblioteca da sua escola, como Hamlet, Otelo, A megera doma-
                                   da, entre outras.




150 Movimentos e Perodos
                                                                                                     Arte



                ATIVIdAdE

     Que tal experimentarmos ser um dramaturgo?
     Produzindo um texto
      Escolha uma msica que voc conhea a letra ou tenha acesso a ela e a partir dessa msica crie
 um pequeno texto dramatrgico, que tambm pode ser um monlogo (texto para apenas um ator ou
 atriz interpretar). Lembre-se que os dilogos devem ser precedidos do nome da personagem que ir fa-
 lar, para se saber de quem  a vez. Logo no incio do texto, determine onde e quando a cena acontece
 e, se optar em fornecer algumas indicaes sobre os sentimentos, a movimentao ou a forma de falar
 das personagens, coloque-as entre parnteses, como no exemplo:
     Personagem 1  (tmido) Ol como vai?
     Personagem 2  Vou bem e voc (senta-se).
     Personagem 1  Estava morrendo de saudade.
    (opcional) - Escolha alguns colegas ou amigos, distribua as falas e leia o texto, procurando compre-
 end-lo. Decorem as falas, preparem o ambiente (espao) e apresentem aos outros colegas.




z Debatendo Idias,
  O Teatro com funo social e poltica
    Com a expanso do Capitalismo e as desigualdades sociais causa-
das por ele, surge a necessidade de se rediscutir as questes sociais,
conseqentes da Revoluo Industrial, ocorrida no sculo XVIII. Te-
mas como a explorao da mo-de-obra, os baixos salrios e o de-
semprego, entre outras questes, so levantados principalmente pelo
historiador, filsofo e economista alemo Karl Heinrich Marx (1818 
1883), que desenvolveu as principais teorias a esse respeito. Marx es-
creve sobre a explorao que acontece entre as classes sociais.
    Preocupado com essas e muitas outras questes, o alemo Bertolt
Brecht (1898  1956), socilogo e dramaturgo se destacou pela criao
de um novo estilo de fazer teatro, denominado "Teatro pico", que, em
oposio  "Forma Dramtica", engloba a temtica social em suas pe-
as. Para Brecht, a forma dramtica consiste em fazer com que o p-
blico assista s peas de forma a se identificar e aceitar o que nelas 
mostrado, a ponto de pensar ser realidade, criando uma "falsa conscin-
cia", pois na maioria das vezes, so representadas no palco as idias do
grupo que detm o poder econmico.
                                                                                 < Bertolt Brecht




                                                                                         Teatro para qu? 151
        Ensino Mdio

                                         O Teatro pico tem como funo tirar o disfarce do teatro. Para
                                     Brecht, o espectador deve estar todo tempo consciente de que a hist-
                                     ria que se passa no palco  s de "mentirinha propositada". Tirando o
                                     disfarce do teatro, as pessoas podem compreender conscientemente a
                                     mensagem transformadora da sociedade nas obras de Brecht, e assim
                                     ter condies de pensar sobre a transformao da sociedade em que
                                     vivem, no confundindo a fico com a realidade. Segundo Brecht, o
                                     teatro no deve servir para convidar o pblico ao sonho; para isso ele
                                     utiliza os recursos da narrao, ao invs da ao, e raciocnio, ao in-
      Voc participa ou j parti-
                                     vs de emoo.
    cipou de algum tipo de or-
    ganizao estudantil, em sua         Para Bertolt Brecht, o espectador deve agir no teatro de forma cr-
    escola? O Grmio Estu-           tica, ou seja, participando como jurados de um julgamento, em que
    dantil  um tipo de organi-      os atores so testemunhas. A ao deve trazer os fatos de forma cla-
    zao que visa a engajar os      ra, para que o pblico possa realizar seu julgamento de forma cons-
    estudantes na busca de me-       ciente. Usando temas sociais e uma linguagem que possibilite ao p-
    lhorias da educao e das        blico compreender e assimilar sua mensagem, o Teatro pico passa a
    condies da escola, promo-      ser utilizado com a inteno de promover debates de idias, reflexo
    vendo o esporte, a cultura e     social e poltica.
    a arte. Procure se informar a
                                         O pblico no fica mais passivo, apenas "assistindo", mas participa,
    respeito. Promova festivais de
                                     assim como deve tambm participar da transformao de sua socieda-
    msica, teatro, exposies,
    etc. Dessa forma voc ter
                                     de, de forma ativa.
    oportunidade de atuar e mos-         Brecht tambm  autor de peas, como Galileu Galilei, Um Homem
    trar o que voc sabe e pode       um Homem, Os fuzis da senhora Carrar, entre outras.
    fazer pela sua comunidade.

                                     z Funes do teatro nos dias de hoje
                                         O Teatro do Oprimido
                                         Em nosso pas temos tambm vrios problemas sociais que nos
                                     oprimem: distribuio desigual de renda, violncia, corrupo, precon-
                                     ceitos, entre outros. E muitas vezes no nos damos conta de que con-
                                     vivemos e aceitamos isso como se tivesse que ser assim mesmo. Deve-
                                     ramos conhecer melhor as nossas leis, para podermos exercer nossos
                                     direitos e deveres de cidado, interferindo de forma consciente em
                                     nossa realidade. Assim, poderamos contribuir na construo de uma
                                     sociedade justa e igualitria. O Teatro, mais do que nunca, pode con-
                                     tribuir nesse sentido, podendo ser tambm um instrumento social mui-
                                     to eficaz, fazendo-nos pensar melhor sobre a nossa vida.
   < Augusto Boal.                       Nesse sentido, podemos lembrar de um brasileiro que muito pen-
                                     sa a esse respeito: Augusto Boal nasceu em 1931, no Rio de Janeiro, 
                                     diretor de centros de Teatro nesta mesma cidade e tambm em Paris,
                                     alm de autor de vrios livros. Desenvolveu uma tcnica chamada "Tea-
                                     tro do Oprimido" a partir da dcada de 1970, durante o perodo em
                                     que ficou exilado na Europa devido  "Ditadura Militar".


152 Movimentos e Perodos
                                                                                                         Arte

    Boal afirma que todos somos atores, at mesmo os prprios atores!
O Teatro do Oprimido permite o contato direto do pblico com os ato-
res, introduzindo temas sociais para serem discutidos por meio de tc-
nicas, como a do "Teatro Invisvel". Essa tcnica consiste em um grupo
de atores ensaiados, que, a partir de um tema pr-estabelecido, desen-
cadeia uma ao junto aos espectadores, que no sabem que se trata
de uma representao. Dessa forma, faz com que todos participem, in-
voluntariamente, da ao teatral.                                                    Vale a pena acessar
    O Teatro Invisvel acontece em locais pblicos, como praas ou ter-             o Site do Centro de
minais rodovirios e essa prtica tem como funo fazer com que a so-               Teatro do Oprimido
                                                                                    - CTO-Rio que  um
ciedade discuta questes conflitantes, expondo suas crticas, opinies
                                                                                    centro de pesquisa e
e tomando conhecimento de seu poder de transformao. Com isso,
                                                                                    difuso, que desenvolve
Boal pretende mostrar que todas as aes cotidianas do ser humano                   metodologia especfica
acabam sendo uma forma de teatro. Augusto Boal chama o pblico de                   do Teatro do Oprimido.
"Espect-atores", porque no s observam, como tambm participam.                     www.ctorio.org.br



                 ATIVIdAdE

     Que tipo de situao acontece na sua escola que poderia ser questionada e pensada por meio do
 "Teatro Invisvel"? Pense em uma dessas situaes e experimente desenvolver essa tcnica na hora
 do intervalo! Mas, ao contrrio do que prope Boal, como voc est na escola, pea que o professor
 acompanhe a atividade e no esquea de contar depois da representao que era tudo um Teatro!




                 dEBATE

    Chegando at ns, transformado pelo tempo e pela sociedade, o Teatro de hoje  muito diferente
 do que se fazia no passado, assim como suas funes.
       Depois de tudo o que aprendemos, podemos perceber que a funo do Teatro no  apenas diver-
 tir.  emocionar, pensar, questionar, refletir, transformar, entre muitas outras coisas. Voc concorda com
 essa afirmao? Reflita a respeito e converse com seus colegas e professor.




                                                                                          Teatro para qu? 153
       Ensino Mdio

                            z Referncias
                              ALMEIDA, G. ; VIEIRA, T. Trs Tragdias Gregas. So Paulo: Perspecti-
                              va, 1997.

                              BOAL, A. Teatro do Oprimido e outras Poticas Polticas. Rio de Ja-
                              neiro: Civilizao Brasileira, 1975.

                              BOAL, A. Jogos para Atores e No-atores. Rio de Janeiro: Civilizao
                              Brasileira, 2005.

                              BRECHT, B. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
                              1978.

                              CARVALHO, E. Histria e Formao do Ator. So Paulo: Editora tica,
                              1989.

                              Centro de Estudos e Pesquisas em Educao, Cultura e Ao Comunitria.
                              A Arte  de Todos. So Paulo: CENPEC, s/d.

                              FEIST, H. Pequena Viagem pelo Mundo do Teatro. So Paulo: Moder-
                              na, 2005.

                              FISCHER, E. A necessidade da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koo-
                              gan, 2002.

                              FONTANA, J. Introduo ao Estudo da Histria Geral. Bauru So Pau-
                              lo: Edusc, 2000.

                              GIORDANI, M. C. Histria de Roma; Antigidade Clssica II, 8 ed. Pe-
                              trpolis: Vozes, 1985.

                              GIDDENS, A. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.

                              MAGALDI, S. Panorama do Teatro Brasileiro. So Paulo: Global Edito-
                              ra, 2004.

                              MOSS, C. O Cidado na Grcia Antiga. Lisboa: Edies 70, Trad. Ro-
                              sa Carreira, 1993.

                              PALLOTTINI, R. Introduo  Dramaturgia. So Paulo: Editora tica S.A.,
                              1988.

                              PEIXOTO, F. O que  Teatro. So Paulo: Brasiliense, 2006.

                              PAVIS, P. Dicionrio de Teatro. So Paulo: Perspectiva, 2003.

                              SPOLIN, V. Improvisao para o Teatro. So Paulo: Perspectiva, 1987.




154 Movimentos e Perodos
                           Arte



   ANOTAES




               Teatro para qu? 155
       Ensino Mdio




156 Elementos Formais
                                                                                              Arte




                                                                               10
                                                     O SOM NOSSO
                                                      DE CADA DIA           <Marcelo Galvan Leite1


                                                            oc j esteve numa festa na qual
                                                           a polcia foi chamada por causa
                                                         do barulho? Ou j foi incomodado
                                                      pelo vizinho a altas horas da madru-
                                                     gada?  bem possvel que voc j tenha
                                                     passado por uma dessas situaes.
                                                     Por que gostamos de certos sons e
                                                     achamos outros to irritantes? Os sons
                                                     podem curar enfermidades ou mesmo
                                                     prejudicar a sade?
                                                     Convidamos voc a conhecer um pouco
                                                     sobre os sons que nos rodeiam e a Arte
                                                     que os usa como elemento criador.




3
 Colgio Estadual Dr. Willie Davids - Maring - PR

                                                                        O som nosso de cada dia 157
       Ensino Mdio

                        z Conhecedo os sons
                           O som, para existir, necessita de uma fonte sonora. Qualquer coi-
                        sa que produza sons  uma fonte sonora: o trovo, o soar do tnis nu-
                        ma quadra de basquete, nossas pregas (cordas) vocais, instrumentos
                        musicais, etc.




                        < Ilustraes Marcelo Galvan


                            Toda fonte sonora gera vibraes que se propagam pelo ar ou por
                        outros meios, como a gua e os objetos slidos. Nesses meios as vibra-
                        es podem ser modificadas, devido  sua constituio. Uma pessoa
                        surda, por exemplo, pode sentir essas vibraes pela pele. Dizem que
                        Bethoven, um dos maiores compositores de todos os tempos, comps
                        suas principais sinfonias no final de sua vida, completamente surdo.
                            Voc sabia que a rea da fsica que estuda as propriedades das on-
                        das sonoras, eletromagnticas, ondas de rdio, raios X e outras formas
                        de oscilao chama-se oscilatria?
                            O estudo de eventos em que ondas sonoras se manifestam, tem
                        despertado tal interesse que se constituiu numa disciplina chamada
                        acstica, dentro do estudo da rea da oscilatria, na Fsica.
                            Os sons sempre esto ao nosso redor, no trabalho, nas ruas, no cam-
                        po, etc. Podem ser insuportveis, como as goteiras numa noite de ins-
                        nia, ou agradveis, como a msica que nos emociona em um filme.
                            Por que quando colocamos o ouvido numa concha dizemos que es-
                        cutamos o som do mar? Experimente formar uma concha com as mos
                        e coloc-la sobre o ouvido. Voc escutar o mesmo som da concha do
                        mar. Na realidade, o que se ouve so os sons do ambiente externo,
                        que reverberam no interior da caixa de ressonncia, formada por suas
                        mos. Todos os instrumentos acsticos possuem uma caixa de resso-
                        nncia, isto , um local no qual as ondas sonoras so ampliadas, como
                        por exemplo, o corpo do violo, a estrutura do piano, o tubo dos ins-
                        trumentos de sopro, entre outros.

158 Elementos Formais
                                                                                             Arte

    As vibraes possuem determinadas freqncias que podem ser
medidas em Hertz. Um Hertz (hz)  o movimento realizado pela onda
sonora durante o tempo de um segundo, veja na ilustrao.
    As freqncias sonoras, ao chegarem aos nossos ouvidos, encon-
tram a sensvel e resistente membrana do tmpano, para depois pode-
rem ser interpretadas pelo crebro.
    Existe uma faixa de freqncias que o ouvido humano  capaz de
ouvir, elas se situam acima de 20 Hz (infra-sons) e abaixo de 20.000 Hz
(ultra-sons). Os apitos de ces parecem no emitir som para os huma-
nos justamente porque suas freqncias esto acima dos 20.000 Hz.




                   0                                 1
                                                    seg

    Classificamos as freqncias em regulares e irregulares.
    Freqncias regulares possuem uma onda sonora ordenada e cons-
tante, como, por exemplo, as notas de um instrumento musical. A no-
ta L possui 440 hertz, ou seja, se tocarmos em um violo essa nota, a
corda vibrar num movimento de vai e vem a uma velocidade de 440
vezes por segundo. Notas musicais tm freqncias regulares muito r-
pidas.




    Freqncias irregulares no possuem uma onda ordenada e defi-
nida, como uma bola quebrando a vidraa. Esse tipo de som  consi-
derado um rudo, mas, apesar disso, muitas formas musicais necessi-
tam dessas freqncias. Os sons de uma bateria e de uma caixinha de
fsforo, por exemplo, so muito utilizados na msica. Voc sabe di-
zer em quais?




                                                                          O som nosso de cada dia 159
       Ensino Mdio

                                      Ondas regulares e irregulares pertencem ao mesmo fenmeno fsi-
                                   co acstico e so igualmente importantes na msica.
                                      O nvel da intensidade do som, popularmente chamado de volume,
                                    medido em decibis (dp). Quanto maior o nmero de db maior o n-
                                   vel de intensidade (maior o volume), aumentando a amplitude da on-
                                   da sonora, veja abaixo:

                    Sala de aula
                     em prova                       Alunos no
                                                      ptio                   Sensao
          Incio                          Sala                  Sirene do
         audiao                                                 colgio      dolorosa
                                         de aula



                                                                                               Amplitude da
                                                                                                  onda



Volume de-
   cibis  0           20           40         60         80        100     120          140


                                       Existem leis que regularizam as emisses dos sons em regies ha-
                                   bitadas e aparelhos que medem suas intensidades, pois, a partir de
                                   120 Db o ouvido humano pode sofrer danos irreparveis. Porm, nem
                                   sempre essas leis so cumpridas. Um dos grandes problemas das cida-
                                   des  a poluio sonora, que pode trazer grandes prejuzos  sade das
                                   pessoas por meio do estresse ou outros distrbios.
                                       Leia sobre este assunto, tambm, no Folhas 06.


                      PESQUISA

        Voc poder pesquisar com os colegas os seguintes assuntos:
          =
               Como  medido o volume do som? Quem criou e quando surgiu essa medio?
          =
               Qual a velocidade do som em diferentes materiais? Quando o homem conseguiu, com mqui-
               nas, ultrapassar esse limite?
          =
               Como  a legislao brasileira com relao s regras da utilizao do som e suas penalida-
               des?


                                   z Como  a sua paisagem sonora?
                                       Sua cidade  muito barulhenta? O nmero de pessoas falando jun-
                                   tas na sala de aula pode estar prejudicando voc, seus colegas e o tra-
                                   balho dos professores? E sua contribuio sonora  positiva ou negati-
                                   va? Pense a respeito.

160 Elementos Formais
                                                                                             Arte

     A cidade, o trabalho, o campo, enfim, todo ambiente, possui uma
paisagem sonora (soundscape). Esse nome foi dado pelo artista, pes-
quisador e educador canadense Muray Shafer (2003). Para ele, nossos
ouvidos so vulnerveis a uma grande variedade de rudos e nosso
crebro demanda energia selecionando os sons que podem nos pre-
judicar.
    Profissionais de aeroportos e certos metalrgicos, ficam expostos a
mais de 85 decibis durante o trabalho, por isso tm o direito de me-
nor carga horria e de se aposentarem com menos tempo de servio,
por insalubridade.
    Cada comunidade possui seus sons caractersticos, que podem ser
de pssaros ou outros animais, mquinas, instrumentos musicais, sota-
que das regies, etc.
    Quando tiramos frias, por exemplo, podemos descansar tambm
os nossos ouvidos, modificando a paisagem sonora de nosso dia-a-dia.
No  por coincidncia, que em todo o mundo, pessoas em frias pre-
ferem ir onde existam sons naturais, como do mar, de rios, florestas,
campos, etc.  claro que certas pessoas preferem ir a grandes cidades
nas frias, mas, de qualquer forma, a mudana de paisagem sonora j
provoca alteraes na nossa forma de ouvir.




< Ilustraes Marcelo Galvan

   Voc sabia que no  de hoje que a utilizao de sons do cotidia-
no  fonte para a criao na vanguarda da msica? No Brasil, Herme-
to Pascoal e Tom Z so exemplos de msicos que exploram a paisa-
gem sonora usando em suas msicas sons de objetos do dia-a-dia. O
grupo paulista Barbatuques cria msica sonorizando o prprio corpo,
e no Rio de Janeiro existe um grupo de ciclistas e msicos, chamado

                                                                          O som nosso de cada dia 161
       Ensino Mdio

                               Cyclophonica, que desenvolve suas msicas em instrumentos adapta-
                               dos em bicicletas, apresentando-se em ciclovias da cidade e interferin-
                               do nos sons do ambiente.
                                   Outro grupo muito famoso na utilizao de sons e instrumentos
                               musicais no-convencionais  o grupo UAKIT, de Minas Gerais. Seus
                               integrantes confeccionam instrumentos musicais usando materiais di-
                               versos, como tubos de P.V.C, sandlias de borracha, arcos de pua e ou-
                               tros objetos do cotidiano. Vale a pena conferir!



                      ATIVIdAdE

        Utilizando os objetos que vocs tm na sala de aula, dividam-se em equipes e criem uma pequena
     composio musical ou um acompanhamento para uma msica que vocs saibam cantar, explorando
     essas sonoridades do dia-a-dia. Apresentem para a turma e, se for possvel, gravem as composies
     para ouvirem e avaliarem depois.



                              z Quem ouve, seus males espanta!
                                  O som tem um poder que no imaginamos. Voc j escutou aque-
                              le ditado "quem canta seus males espanta"? Parece bvio, mas a m-
                              sica pode ir alm disso. Uma importante forma de terapia que pode
                              ser aliada da medicina, chama-se Musicoterapia, respaldada pelos es-
                              tudos da Neurologia e da Psicologia. Essa forma de tratamento conse-
                              gue bons resultados em pacientes com leses no crebro, crianas au-
                              tistas, stress e no controle de dores crnicas.


                      ATIVIdAdE

         Gravem sons de determinados ambientes: centro da cidade, bosque, clube, local de trabalho, entre
     outros. Aps as gravaes todos apresentaro a seus colegas, que anotaro as caractersticas sono-
     ras, tentando identificar onde foram realizadas as gravaes. Posteriormente, a partir dos lugares identi-
     ficados, criem composies visuais, elaborando desenhos e pinturas desses ambientes.



                              z Isso  msica?
                                   muito complicado definir o que  msica, vrios pensadores j
                              "queimaram a pestana" para isso. Para Shafer, o principal elemento da
                              msica est na inteno de quem a produz. Msica pode ser encarada
                              como uma organizao intencional de sons, realizada de maneiras di-
                              ferentes em cada contexto cultural.
162 Elementos Formais
                                                                                                                                     Arte

    A palavra msica vem do grego mousik e quer dizer "arte das mu-
sas". Na mitologia, as musas eram deusas que simbolizavam as nove
artes da Antigidade Clssica. Filhas de Zeus e de Mnemosine, deusa
da memria, viviam na companhia de Apolo. Na cultura greco-roma-
na, os artistas invocavam a inspirao das musas antes de iniciar um
trabalho artstico.




< NHICOLAS POUSSIN. Apolo e as Musas,1660-69. leo sobre tela, 125 cm   < JAN MIENSE MOLANIER. Famlia fazendo msica, 1630. leo sobre
  x 197 cm, Museu do Prado, Madrid.                                       tela, 83,4 cm x 81 cm, Frans Hals Museum.

    Os dois quadros acima pertencem  Arte Barroca, apresentam ca-                                          Leia mais sobre o pero-
ractersticas em comum, como o domnio da perspectiva, desenho da                                          do Barroco na pgina 274
anatomia humana, alm de terem a msica como tema principal, po-                                           do LDP de Arte.
rm, a maneira que foram pintadas apresenta as diferenas da Arte de
pases catlicos e protestantes.
    O primeiro representa uma cena da mitologia clssica, com deuses
pagos e anjos, ou seja, uma imagem idealizada da msica inspirada
na cultura greco-romana. No segundo, o pintor representa uma ima-
gem mais realista, uma tpica cena do cotidiano de uma famlia, retra-
tando de maneira fiel o rosto das pessoas e demostrando a importn-
cia que a msica tinha na sociedade holandesa.



                       ATIVIdAdE

       Em grupos com os colegas, escolham diferentes compositores e formas musicais para pesquisar.
       Aps a pesquisa, apresentem para a turma trazendo imagens e exemplos musicais.



z A forma invisvel da msica
   Em todos os sons, musicais ou no, sempre existem alguns elemen-
tos constantes. So conhecidos como elementos formais, vamos co-
nhec-los?

                                                                                                        O som nosso de cada dia 163
       Ensino Mdio

                        =   Timbre
                            So as caractersticas prprias de cada voz, objeto ou instrumento.
                         o que nos permite reconhecer a voz de uma pessoa pelo telefone ou
                        interfone, por exemplo.
                            Isso ocorre devido s diferenas fsicas da matria de cada fonte so-
                        nora (objeto, instrumento ou voz). Na msica, o timbre tambm  cha-
                        mado de "cor do som".
                        = Intensidade

                             a fora de um som ou seu volume. Os sons podem ser denomina-
                        dos fracos, mdios ou fortes, em comparao com outros. Na msica,
                        essas variaes de fora dos sons chama-se dinmica e pode transmi-
                        tir maior expressividade. Por exemplo, em um show popular, a pla-
                        tia canta o refro (parte mais conhecida da cano) com maior inten-
                        sidade.
                        = Altura

                            Apesar de no senso comum ser usada como sinnimo de intensi-
                        dade, no tem nada a ver com volume. Em msica, altura  a diferen-
                        a entre os sons musicais. Cada nota musical possui altura definida; e
                        as notas mais conhecidas da escala ocidental so: d, r, mi, f, sol, l,
                        si. Quando assobiamos ou cantamos no chuveiro estamos usando es-
                        sas diferentes alturas, que formam a melodia da msica.
                             importante lembrar que existem instrumentos com alturas indefi-
                        nidas. Quando batemos com um lpis num copo produzimos um som
                        agudo de alta freqncia; se batermos num sof, produzimos um som
                        mais grave, de baixa freqncia.




                                                    Baixa freqncia
                                                      Sons graves




                                                     Alta freqncia
                                                      Sons agudos




164 Elementos Formais
                                                                                                       Arte

=   Densidade
    Quando um grande nmero de sons  produzido ao mesmo tem-
po, dizemos que  um som de grande densidade. Milhares de pessoas
num jogo de futebol produzem um som denso, o nmero de torcedo-
res pode influenciar no resultado do jogo, por isso, o time prefere sem-
pre jogar em seu prprio campo. Na msica, a densidade  conseguida
por intermdio de vrios instrumentos ou vozes executadas simultane-
amente, como em uma orquestra, banda ou um coral.
= Durao

    Os sons e os silncios podem ser curtos, mdios ou longos, sempre
se levando em conta um referencial, pois o que pode ser considera-
do lento atualmente no  o mesmo que era considerado lento h 200
anos, por exemplo. Um msico pode escolher entre sons mais longos
para compor o ritmo de uma cano romntica ou duraes mais rpi-
das em um heavy metal, por exemplo.



                   ATIVIdAdE

       Pegue um elstico de borracha, estique-o bem e pea que um amigo puxe-o repetidamente en-
    quanto voc vai deixando-o mais frouxo. Perceba como o som vai ficando cada vez mais grave. Agora
    comece com o elstico frouxo e v esticando-o cada vez mais.
        Que tal montar uma pequena composio com o som dos elsticos na sala? Mas no esquea de
    fazer muito silncio, pois o som dos elsticos  bastante suave. Se for possvel, grave para ouvir de-
    pois.




z Cidade sonora
    Imagine-se andando pelas ruas da cidade. Voc comea a assobiar
uma melodia (altura) de uma msica que toca no rdio. Ela teima em
ficar em sua cabea. Aos poucos voc comea a escutar numa loja es-
sa mesma cano que vai ficando mais forte (intensidade). Percebe, en-
to, que os seus passos parecem acompanhar o ritmo da msica (du-
rao), por mais que tente no consegue sair dele!
    De repente, o som de uma grande pancada atrai sua ateno. Sire-
nes, pessoas gritando, confuso, diferentes sons (timbres). Felizmen-
te ningum se machucou... Ao caminhar mais um pouco voc v uma
passeata, na qual centenas de pessoas gritam juntas frases de protes-
to (densidade). Logo depois voc encontra sua(seu) namorada(o) e ao
conversarem um pouco ela(ele) canta baixinho, adivinha que msica?




                                                                                 O som nosso de cada dia 165
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

        Dividam-se em equipes e improvisem a partir do texto "Cidade sonora".
        Apresentem para a turma suas cenas sonorizadas e discutam os resultados.




                 < Ilustraes Marcelo Galvan




                      PESQUISA

          Em grupos com os colegas, escolham uma msica para audio em sala de aula; no importa o es-
     tilo para a turma analisar os elementos formais.
        Como  trabalhada a altura dos sons?
        Existem variaes de densidade?
        Quais os instrumentos musicais utilizados?
        As vozes so mais agudas ou mais graves?
        Posteriormente, cada equipe poder apresentar seminrios sobre a trajetria do cantor ou do gru-
     po da msica escolhida.



                                  z E para compor a msica?
                                      As alturas meldicas, as duraes rtmicas, as variaes de timbres,
                                  a densidade harmnica e a intensidade sonora, relacionadas entre si
                                  e tendo como base o tempo, criam infinitas possibilidades para fazer
                                  msica.
166 Elementos Formais
                                                                                                                                       Arte

                                    z Harmonia
                                        Quando diferentes alturas soam simultaneamente geram harmonia.
                                    Em um violo, por exemplo, para se fazer um acorde  preciso tocar
                                    duas ou mais cordas ao mesmo tempo, aumentando a densidade dos
                                    sons.
                                        Os acordes (grupos de sons que soam simultaneamente) podem ser
                                    consonantes ou dissonantes. No primeiro caso, temos a sensao de
                                    repouso e percebemos os sons como agradveis. Na dissonncia, te-
                                    mos a impresso de que os sons no se encaixam perfeitamente, trans-
                                    mitindo tenso.
                                        Muitos tipos de msica usam o recurso da dissonncia, o jazz e a
                                    bossa nova so exemplos, pois ambos possuem elaboradas harmonias
                                    dissonantes. Harmonias dissonantes tambm tm relao com a cultura
                                    e o gosto das pessoas. Um senhor de 60 anos, que viveu sua vida no
                                    campo, ao escutar um Rap pode achar totalmente estranho, ao mesmo
                                    tempo, que para ele, uma moda de viola, tem a harmonia perfeita.
                                        Classificamos os instrumentos de alturas definidas em dois tipos, os
                                    meldicos (nos quais podemos executar uma nota de cada vez), como
                                    alguns tipos de flautas e o saxofone, e os harmnicos, que emitem v-
                                    rias notas simultaneamente, como o piano e o violo. Porm, instru-
                                    mentos harmnicos tambm podem produzir sons meldicos como no
                                    exemplo de um guitarrista solando.


                                    z Melodia
                                         uma seqncia de alturas que pode chegar a nos emocionar. Voc
                                    j no se emocionou escutando uma melodia que lhe fez lembrar de um
                                    acontecimento de sua vida? Para alguns, a melodia  a alma da msica.
                                        As melodias podem ser criadas a partir de escalas, isto , seqn-
                                    cias organizadas de alturas. As primeiras civilizaes que dividiram as
                                    alturas harmnicas e criaram escalas surgiram no Oriente  China, Me-
                                    sopotmia e Egito  e desenvolveram a chamada escala pentatnica,
                                    com 5 notas principais.
                                        A criao de escalas foi um fato decisivo nas transformaes da
                                    msica. Na Grcia, via experimentos e observaes de Pitgoras, per-
                                    cebeu-se que certas regras sonoras so constantes em toda natureza.
Monocrdio de Marloye (1795-1874)




                                    Iniciando os primeiros estudos da acstica com o monocrdio, instru-
                                    mento com o qual calculou as divises harmnicas. Calculou? Olha a
                                    matemtica a de novo!


                                                                                         < fonte:http://www.phys.
                                                                                           uniroma1.it, acessado
                                                                                           dia 07/08/2005

                                                                                                                    O som nosso de cada dia 167
       Ensino Mdio

                            A melodia pode aparecer sozinha ou organizada com outras. Quan-
                        do isso ocorre, chamamos de polifonia e, nesse caso, estamos traba-
                        lhando com a harmonia. Por exemplo, voc j percebeu que o toque
                        dos celulares est se modificando? H algum tempo eles soavam ape-
                        nas uma linha meldica, hoje so cada vez mais comuns os toques po-
                        lifnicos, com mais de uma melodia, intercalando-se ou soando simul-
                        taneamente.


                        z Ritmo
                            O ritmo  algo comum  prpria vida, ele est no bater do corao,
                        quando respiramos ou quando andamos.  formado pela alternncia
                        de sons e silncios.
                            Na maioria das msicas ocidentais o ritmo tem uma pulsao cons-
                        tante, fcil de se perceber,  o momento em que batemos palma ou
                        marcamos com o p um som mais forte. De acordo com a velocidade
                        de execuo de uma msica, seu andamento ser mais rpido ou mais
                        lento. Existem vrios tipos de andamentos. Na msica erudita eles pos-
                        suem nomes vindos do italiano como, largo, lento, andante, modera-
                        to, alegro, presto, entre outros. Esses nomes indicam a velocidade que
                        a msica deve ser executada.
                            De acordo com a durao dos sons e sua acentuao na msica,
                        isto , se so mais fortes ou fracos, determina-se o compasso de uma
                        composio. O compasso divide a msica em grupos de sons com de-
                        terminada durao. A partir do fim da Idade Mdia, cada nota passou
                        a ter um tempo (durao) determinado. A principal medida de tempo
                        chama-se semibreve e  definida pelo compositor ao criar a msica, ho-
                        je usamos o metrnomo, que tem a durao da semibreve definida.
                            As outras notas so "fraes" da semibreve. Fraes? Ns estamos
                        falando de msica ou de matemtica?



                                                               A forma de se medir a du-
                                                             rao das notas musicais cha-
                                                             ma-se Mensuralismo. Foi
                                                             criada no sculo XII por Wal-
                                                             ler Oddington e Franco de Co-
                                                             lnia, que aliado ao mtodo de
                                                             notao das alturas, criado por
                                                             Guido d'Arezzo, possibilitou o
                                                             surgimento da escrita musical,
                                                             usada para registrar nossa m-
                                                             sica.




168 Elementos Formais
                                                                                             Arte

   O compasso de uma msica tem geralmente a mesma durao, so
definidos no incio da partitura com uma frao. Quando o maestro
movimenta suas mos est, entre outras coisas, marcando os compas-
sos musicais. Destacaremos a seguir os mais comuns:



    2
                                                 = Tempo forte
    4




    3                                              = Tempo forte
    4




                                                    = Tempo forte
    4
    4                                                = Meio forte




=   Binrio: compasso caracterstico da marcha, do caminhar; um, dois,
    um, dois, um, dois...
= Ternrio: compasso fcil de se perceber na valsa; um, dois, trs, um,
    dois, trs, um, dois, trs...
= Quaternrio: comum  maioria das msicas populares e cvicas (hi-
    no nacional, por exemplo).  a duplicao do compasso binrio;
    um, dois, trs, quatro, um, dois, trs, quatro...
    Foi durante quase toda a Idade Mdia que a diviso do tempo na
msica ocidental se desenvolveu, no v pensar que isso aconteceu do
dia para a noite, foram centenas e centenas de anos para isso!
    Imagine o mundo sem msica, ele seria diferente? Nossos proble-
mas seriam os mesmos ou maiores? A humanidade teria chegado ao
ponto em que chegou? Perguntas difceis ou impossveis de se respon-
der, o fato  que a msica tem muito de nossa humanidade.
    Fazer e apreciar msica est to presente em todas as culturas, que
no podemos separ-la do ser humano. Parafraseando aquele famoso
ditado "onde h fumaa h fogo" podemos dizer "onde h um ser hu-
mano, existe msica".




                                                                          O som nosso de cada dia 169
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

         Escutem msicas de diferentes compassos e tentem identific-los. Hinos, msicas populares, fol-
     clricas ou eruditas. Posteriormente, acompanhem a pulsao da msica e em certo momento pea a
     um colega que diminua o volume.
        Cada pessoa do grupo dever criar clulas rtmicas sobre a pulsao.




                             z Referncias
                                SHAFER R. M. O Ouvido Pensante. So Paulo: Editora Unesp, 2003.
                                STEFANI, G. Para Entender a Msica. So Paulo: Editora Globo, 1989.
                                WISNICK J. M. O Som e o Sentido. So Paulo: Companhia das Le-
                                tras,1989.
                                DAVIS Y.M ; CURTIS, W. A Msica do Homem. So Paulo : Livraria Mar-
                                tins Fontes Editora LTDA, 1981
                                SQUEFF, E.; WISNIK, J. M. O Nacional e o Popular na Cultura Brasilei-
                                ra. So Paulo: Editora Brasiliense, 1983.




                             z Documentos Consultados ONLINE
                                 http://www.artrenewal.org acessado em 18/05/2005.
                                 http://www.barbatuques.com.br
                                 http://www.humanbeatbox.com
                                 http://www.hermetopascoalealinemorena.com.br
                                 http://www.tomze.com.br
                                 http://www.acustico.org/cyclophonica.htm




170 Elementos Formais
                                  Arte



   ANOTAES




               O som nosso de cada dia 171
       Ensino Mdio




172 Elementos Formais
                                                                                         Arte




                                                                          11
                                                         O JOGO E O
                                                            TEATRO  <Marcelo Cabarro Santos1




                                                     ogo e Teatro. O que uma coisa tem
                                                     a ver com a outra? E o que o Jogo e
                                                     o Teatro tm a ver com a Arte?




1
 Colgio Estadual Frei Beda Maria - Itaperuu - PR

                                                                           O jogo e o teatro 173
       Ensino Mdio

                             z O Jogo no Teatro
                                 O Jogo faz parte de nossa vida e aprendemos a jogar desde cedo, seja
                             bolinha de gude (blica), futebol, jogos eletrnicos ou nas brincadeiras
                             de faz de conta. Quando jogamos, afloram muitos sentimentos, como:
                             prazer, alegria e muitos outros sentimentos bons. Mas podemos experi-
                             mentar tambm dessabores, como a chateao, raiva, entre outros. En-
                             tretanto, iremos nos concentrar nos sentimentos agradveis. Dessa forma
                             tentaremos descobrir o que o Teatro, que tambm  uma atividade que
                             pode ser muito prazerosa e divertida, tem a ver com o Jogo.
                                 Buscando conhecer um pouco mais sobre o Jogo, descobrimos
                             que  uma palavra que vem do latim, jocu, e quer dizer, entre outros
                             significados, atividades fsicas ou mentais organizadas por um sistema
                             de regras, passatempo, brinquedo, divertimento. O Jogo para HUIZIN-
                             GA (1996) e CAILLOIS (1990)  "... uma atividade livre e desobrigada das
                             regras sociais. Os jogadores, crianas ou adultos, jogam por jogar, ou
                             seja, pelo prazer que encontram na prtica ldica." O Jogo tambm 
                             uma forma de organizao social e de trabalho em grupo e pode pro-
                             piciar o envolvimento e a liberdade para a experimentao.
                                 O Jogo  muito utilizado na escola por vrias disciplinas, entre
                             elas, a de Arte e Educao Fsica e existem vrios tipos de jogos, co-
                             mo os jogos motores (correr, pular), intelectuais (xadrez), competiti-
                             vos, cooperativos, entre outros. O Jogo pode propiciar ambientes de-
                             safiadores e estimular o nosso raciocnio e ainda nos ensina a lidar
                             com nosso corpo, com nossas sensaes e emoes.
                                 Dessa forma, tanto o Jogo quanto o Teatro, tm em comum, alguns
                             aspectos como: o fato de obedecer a regras e a possibilidade de poder
                             reconstru-las, a diverso, o prazer, exercitar o corpo (msculos e coorde-
                             nao dos movimentos) e a mente, alm de desenvolver os sentimentos.
                                 Veja o que LOPES (1989) diz sobre Jogo e Teatro: "O Teatro que fao
                             surge do jogo dramtico. Que jogo  esse que no se inclui nas Olim-
                             padas, mas que entre todos  o mais antigo jogo humano? Ele que 
                             a cabea e o corao da Comdia dell'Arte italiana, dos folguedos dra-
                             mticos populares, das correrias dos mamulengos, teatro da represen-
                             tao das guerras e colheitas das tribos africanas e brasileiras? Ele 
                             tudo o que o teatro da simulao, morto e sobrevivo nas casas de mer-
                             cado da arte, no pode alcanar: o jogo dramtico  um exerccio po-
                             tico de e para liberdade".

                      ATIVIdAdE

         De acordo com o autor citado e com o que voc pensa sobre jogar, escreva um pequeno texto so-
     bre o que o Teatro e o Jogo tm em comum, em seguida, procure ler o que escreveram seus colegas
     e leia o seu texto para os demais.

174 Elementos Formais
                                                                                                   Arte

   O Jogo pode envolver vrias pessoas, pois, mesmo que possamos           Monlogo:  um tipo de
jogar sozinhos, por exemplo, arremessos de basquete ou jogando fu-        pea teatral em que a perso-
tebol,  muito interessante jogar em grupo. Em Teatro, podemos jo-        nagem faz um discurso para
gar sozinhos, fazendo um monlogo, porm temos o pblico como             si mesma; o ator ou atriz faz
parceiro.                                                                 sozinho a representao.
   De acordo com o Dicionrio de Teatro de Patrice Pavis, 2003, um
monlogo pode se basear em uma srie de elementos e  classificado
da seguinte forma:
= Monlogo tcnico  a personagem expe acontecimentos passados
   ou que no podem ser representados diretamente para o pblico.
= Monlogo lrico  a personagem expe, em forma de uma confi-
   dncia, suas reflexes ou emoes.
= Monlogo de reflexo ou deciso  a personagem, diante de uma
   situao de deciso ou escolha delicada, expe, para si mesmas, os
   argumentos e contra-argumentos de uma ao.
   Voc, alguma vez, j falou com seu espelho, fazendo uma revela-
o, crtica ou pedindo uma opinio sobre algo importante? De certa
forma voc estava fazendo um monlogo.


z Quem joga?
    Brincar e jogar esto relacionados a uma pr-disposio ao diverti-
mento, que se caracteriza pela inexistncia da obrigatoriedade de par-
ticipao. Mas, para que o jogo seja bem-sucedido  necessrio um
acordo do grupo sobre as regras e objetivos que envolvero a ativida-
de. Para isso,  indispensvel que os jogos tenham:
= Jogadores: pessoas que esto dispostas a brincar, criar e conhe-
    cer.
= Regras: informaes necessrias que os participantes precisam sa-
    ber e respeitar, mas que podem ser adaptadas.
= Tempos e Espaos: determinados e combinados.

    Quando jogamos temos sempre a possibilidade de aprender a ra-
ciocinar, a tomar decises, a colaborar, a lidar com nossos sentimentos
e tambm com os dos outros.
    A prtica teatral, assim como a do jogo, pode permitir o aprimo-
ramento do dilogo, da capacidade de expresso, da espontaneida-
de, da liberdade pessoal, do relacionamento com colegas, professores
e familiares, contribuindo para que nossas relaes com o mundo se
ampliem.




                                                                                 O jogo e o teatro 175
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

         Que tal um jogo que tem como objetivo integrar a turma, desenvolvendo sua capacidade de traba-
     lhar em conjunto e resolver problemas?
        Torce-torce
         Forme uma roda com todos os seus colegas; dem as mos de forma que ningum possa soltar-
     se enquanto durar o jogo.
        Somente um dos participantes soltar uma das mos e conduzir os companheiros, passando por
     sob as mos dos demais.
       Quando o grupo estiver "embolado" e no for mais possvel continuar, o outro participante, com a
     mo solta, dever, sem que os outros percam o vnculo das mos, "libert-los" da confuso.
         Dica: O modo mais fcil de soltar os "ns"  entrar num acordo com seus colegas e fazer com que
     o jogador, com as mos em posio diferente da inicial, d uma volta sobre seu prprio corpo, fazendo
     com que todos aqueles que estiverem  sua esquerda ou direita passem por sob seu brao na mes-
     ma direo em que ele se virar.




                             z Como jogar no teatro?
                                 O Jogo Dramtico
                                 Os jogos de teatro so chamados de Jogos Dramticos e so uma
                             prtica coletiva que rene um grupo de "jogadores" (e no de atores),
                             que improvisam coletivamente de acordo com um tema preestabeleci-
                             do. No existe separao entre ator e espectador e sim uma tentativa
                             de que todos faam parte da execuo de uma atividade cnica.
                                 O jogo dramtico tem como objetivo levar os participantes  com-
                             preenso dos mecanismos que fundamentam o teatro: personagem, ao
                             e espao cnico (este ltimo ser tratado num captulo separadamente).
                             Tambm facilita a liberao corporal, vocal, emotiva e criativa dos par-
                             ticipantes. O jogo de teatro  mais uma prova de que aprender pode
                             ser prazeroso e divertido e que podemos aprender jogando.


                             z Quem sou eu? Quem  voc?
                                A Personagem
                                Segundo o dicionrio de teatro, PAVIS, 2003, personagem : "... pes-
                             soa notvel, eminente, importante; personalidade, pessoa; cada um
                             dos papis que figuram numa pea teatral e que devem ser encarnados
                             por um ator ou uma atriz; figura dramtica". A autora Olga REVERBEL


176 Elementos Formais
                                                                                                                                    Arte

(1996) nos explica melhor: "Personagem  o papel interpretado pelo
ator numa pea. O ator no  a personagem, mas representa-a para o
espectador, assumindo a personalidade, os traos psicolgicos e mo-
rais da pessoa criada pela imaginao do dramaturgo".
    Um ator ou atriz ao preparar ou construir uma personagem para
ser apresentada a um pblico deve faz-lo cuidadosamente. Seus ges-
tos, expresses, aparncia fsica, maneira de andar, sua personalidade
e sua histria devem estar claras para o ator ou atriz que vai represen-
t-la. Na lngua portuguesa podemos nos referir  personagem usan-
do duas formas: "a personagem" ou "o personagem", para ambos os
gneros.
    Uma personagem  constituda de expresses corporais, faciais, ges-
tos e expresses vocais que serviro para revel-la ao pblico. Para que
o ator ou atriz possa construir ou descobrir essas expresses, com fre-
qncia recorre-se aos jogos dramticos.




< Pea: A Aurora da Minha Vida, texto de Naum Alves de Sousa, direo: Gabriel Villela  1997. Com os atores parana-
  enses: Ranieri Gonzales, Jana Mundana, Marino Junior, entre outros  Acervo do Centro Cultural Teatro Guara.




                         ATIVIdAdE

        Como construir uma personagem?
      Vamos experimentar a seguinte atividade: escolha uma histria, fbula, conto, texto de teatro ou fil-
  me em que haja uma personagem, com a qual se identifique, por qualquer motivo e, numa folha  par-
  te, preencha sobre ela a seguinte ficha. Lembre-se que deve preencher a ficha com as informaes da
  personagem.
  =     Nome:
  =     Idade:

                                                                                                                       O jogo e o teatro 177
         Ensino Mdio


     =    Sexo:
     =    Aspecto fsico:
     =    Modo de andar:
     =    Modo de falar:
     =    Situao familiar:
     =    Ambiente em que vive:
     =    Ocupao ou profisso:
     =    Religio:
     =    Estado emocional:
     =    Necessidades e desejos:
     =    O que a impede de realizar seus desejos:
        Leia e discuta com seus colegas sobre as respostas de cada um. Por que escolheu esta persona-
     gem? Voc conhece algum com esse comportamento?




                               z Seu corpo  um instrumento
                                  A expresso corporal
                                  Muitas vezes no damos a ateno adequada ao nosso corpo e es-
                               quecemos que ele necessita de cuidados para que possa continuar a
                               nos servir com eficincia. O alongamento, o aquecimento corporal e o
                               exerccio fsico, sem esquecer de uma correta alimentao, so funda-
                               mentais para todos ns e devem ser levados a srio tambm na prti-
                               ca do Teatro. Atores e atrizes necessitam exercitar constantemente seu
                               corpo, que  seu instrumento de trabalho.




                               < Pea: Corao Dilacerado  2001  Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira.

178 Elementos Formais
                                                                                                                                        Arte

    Existem diversos jogos que podem ser usados para estimular e pro-
porcionar maior conscincia corporal, flexibilidade e agilidade. Desta
forma, os movimentos ou gestos em cena podero tornar-se mais ex-
pressivos e ter maior qualidade.
    A expresso corporal  uma tcnica muito eficiente para sensibi-
lizar os indivduos sobre suas possibilidades motoras (movimentos) e
emotivas (sentimentos), inclusive no que diz respeito  expressivida-
de gestual e facial.
    Todo o nosso corpo pode ser expressivo, mas, para tanto, devemos
ter conscincia de cada parte separadamente, para que o resultado do
conjunto da expressividade corporal seja satisfatrio. Conhea as prin-
cipais possibilidades expressivas do corpo:

a) A expresso gestual
    Antes mesmo de desenvolver a palavra escrita ou falada, o homem
j utilizava gestos para se comunicar e transmitir suas mensagens.
    Em Teatro, gesto  o movimento do ator, que transmite significados
ou mensagens. Todo o corpo pode produzir gestos: tronco, cabea, fa-
ce e membros, porm, os gestos so produzidos, mais comumente, pe-
los braos, mos e dedos.
     Voc j percebeu que quando cumprimentamos algum ou comu-
nicamos algo  distncia utilizamos gestos, como balanar os ombros,
acenar e apontar? Para representar bem uma personagem o ator deve
ter conscincia e domnio de seus gestos, pois em cena tudo o que o
ator faz  observado pelo pblico.

b) A expresso facial




< Pea: Flo em o Palcio dos Urubus  1993  Acervo do Centro Cultural Teatro Guara (Emlio Pitta e Odelair Rodrigues).


                                                                                                                           O jogo e o teatro 179
       Ensino Mdio

                                   o conjunto de expresses fisionmicas produzidas pela face, co-
                              mo caretas, formas de olhar, sorrir, entre outras. Fazemos uma infinida-
                              de de expresses faciais, durante o dia, para transmitir o que estamos
                              sentindo, como dvida, alegria, indiferena, medo, entre outras.
                                  Mas no Teatro, tanto as expresses gestuais, quanto as faciais, de-
                              vem ser transmitidas com exatido ao pblico, para que no haja dis-
                              toro entre o que o ator pensou em transmitir por meio delas, e aqui-
                              lo que o pblico entendeu.
                                  No Teatro existe uma tcnica de expresso, muito utilizada, a m-
                              mica. Ela consiste em comunicar sentimentos ou sensaes sem o uso
                              da palavra, utilizando-se de um conjunto de expresses fisionmicas e
                              gestos corporais.



                      ATIVIdAdE

        Veja estas duas frases, ditas sobre o gesto em Teatro.
        A primeira  do diretor e pesquisador teatral polons, Jerzy Grotowski: "Pelo emprego controlado
     do gesto, o ator transforma o cho em mar, uma mesa em confessionrio, um pedao de ferro em ser
     animado...".(MAGALDI, 2004, p. 108)
         A segunda  de Constantin Stanislavski, diretor e pesquisador russo, autor de diversos livros so-
     bre mtodos de interpretao: "O gesto pelo gesto, sem significado interior, no tem nenhuma funo
     cnica".(STANISLAVSKI, 2001, p. 98)
        Analise cada uma das frases, discutindo em pequenos grupos, com seus colegas e responda:
        Sobre a primeira frase. O que, na sua opinio,  necessrio para que o ator consiga ter "emprego
     controlado do gesto"?
         Na segunda frase, Stanislavski fala sobre "gesto sem significado". Em sua opinio, o autor estaria se
     referindo a que gestos?
        Voc pode apresentar suas concluses para a turma, como se voc fosse um dos dois autores, re-
     presentando e defendendo suas idias.
        Aqui esto alguns exerccios de expresso corporal, facial e gestual que voc pode experimentar
     com seus colegas,  super divertido:
        a) Jogo de imaginao
         Divide-se a turma em quatro equipes, enquanto uma das equipes faz a atividade as outras duas ob-
     servam aquela que se apresenta.
        A partir de msicas escolhidas anteriormente, cada equipe demonstrar atividades esportivas, sem
     o uso de qualquer bola ou equipamento, somente com o uso de seu corpo.
        As modalidades podem ser sugeridas pelo professor ou membros das equipes que observam, po-
     dendo ser: peteca, vlei, surfe, bambol, capoeira, entre outras.
         As equipes que ficaram observando faro o papel de juiz da partida devendo observar o movimen-
     to, a mmica, as expresses faciais e os movimentos dos jogadores.



180 Elementos Formais
                                                                                                                          Arte


   Ao final da apresentao de cada grupo, pode-se discutir entre os grupos para sugerir e corrigir os
 movimentos e expresses faciais.
     b) Completando a imagem
    Uma dupla de jogadores, voluntariamente, vai at a frente e cumprimenta-se, da forma que preferir.
 Enquanto o restante da turma observa.
    "Congela-se" a imagem. Pede-se ao grupo que observa, que diga quais os possveis significados
 que a imagem pode ter. Exemplo:  um encontro de negcios? Patro e empregado?  um acordo?
 Amigos fazendo as pazes? Vrias possibilidades so exploradas.
     Um dos jogadores da dupla sai e o outro fica. Novamente o grupo que observa dir qual o signifi-
 cado da imagem que resta, agora solitria.
     Organizadamente, um a um, quem desejar entrar na imagem, em uma outra posio, dando-lhe um
 outro significado, pode faz-lo. Enquanto o primeiro continua imvel. O grupo far, novamente, a signi-
 ficao da imagem que se formou.
     Dando seqncia ao jogo, o jogador que restava da dupla inicial se retira, entrando outro em seu lu-
 gar, dando outro significado  imagem. Assim, sucessivamente, at que todos que quiserem participar
 tenham sua oportunidade.
     Aps o trmino do jogo, todos conversaro sobre a dinmica de transformaes sucessivas dos
 significados da imagem e sobre a importncia dos gestos na ao teatral.
     *Os jogos aqui utilizados so adaptaes do livro: Jogos para atores e no-atores de Augusto Boal.




z A Expresso Vocal
    A expresso vocal  formada pelas falas
e sons emitidos, numa encenao, por meio
da voz do ator que expressa os sentimentos e
emoes, caracterizando e identificando uma
personagem. A voz humana, alm de ser um
aparelho poderoso de comunicao, funcio-
na como um dos mais completos instrumen-
tos musicais.
    Podemos produzir uma infinidade de sons
com o volume, a altura, o timbre e a entona-
o da voz. Os atores buscam neste recurso
formidvel, que  a expresso vocal, maneiras
de caracterizar suas personagens. A partir do
texto que ser encenado, podem-se encontrar
indicaes sobre a personalidade, o sexo, as
caractersticas fsicas e emocionais da persona-
gem. Da em diante, tudo depende do conhe-            < Pea: Visitando o Sr. Green  2001  Com os atores: Cssio Scapin e
cimento, tcnicas e a criatividade do ator ou           Paulo Autran  Acervo do Centro Cultural Teatro Guara.

atriz que ir interpretar o papel.


                                                                                                      O jogo e o teatro 181
       Ensino Mdio

                           As falas da personagem, se no forem ditas com clareza, podero
                        causar inquietao e o desinteresse do pblico. Por isso,  muito impor-
                        tante uma boa dico, que pode ser melhorada com exerccios vocais.
                        A dico  a arte de pronunciar corretamente os sons das palavras.


                        z Voc sabe como a voz
                           produzida em nosso corpo?
                            A voz  produzida por um conjunto de rgos chamados de "apa-
                        relho fonador", este  formado pela boca, lngua, pregas vocais, larin-
                        ge e faringe. A sua produo inicia-se na laringe, que  uma espcie
                        de tubo no qual esto localizadas as pregas vocais (popularmente cha-
                        madas de cordas vocais), e esto em posio paralela ao solo, quando
                        estamos em p. Ao inspirar as pregas se afastam e o ar entra nos pul-
                        mes. Ao falarmos, as pregas vocais se aproximam, o ar sai dos pul-
                        mes e quando passa pela laringe, produz as vibraes, resultando no
                        som da voz.
                            Os sons da fala so articulados na cavidade da boca, por meio
                        dos movimentos da lngua, lbios e mandbula. Olhe o desenho abai-
                        xo, para entender o quanto  importante e delicado o nosso aparelho
                        fonador.




                                                                           FARINGE

                                                                                              BOCA
                                                                                     LNGUA
                                                             SOM
                                                                             LARINGE
                                                                           PREGAS VOCAIS


                                            AR                     < Ilustrao do aparelho fonador.




                        z Cuide de sua Voz
                            No s os profissionais que utilizam a voz como instrumento de
                        trabalho, como cantores, atores e professores devem cuidar dela. To-
                        dos ns podemos e devemos tomar conta desse delicado instrumento.

182 Elementos Formais
                                                                                                     Arte

Quando estiver falando em pblico, cantando ou participando de uma
representao teatral, procure:
= tomar sempre goles de gua ( temperatura ambiente), antes, du-
   rante e depois de utilizar a voz, para hidratar as pregas vocais;
= quando sentir vontade de pigarrear, inspire pelo nariz, engula a sa-
   liva e solte o ar pelo nariz;
= no fume. O fumo causa irritao na garganta, alm de outros
   males;
= o consumo de bebidas alcolicas provoca inchaos nas pregas vo-
   cais e faz mal  sade;
= pratique aquecimento vocal, antes de utilizar sua voz e desaqueci-
   mento logo depois da atividade;
= caso tenha dvidas ou problemas com a voz procure um Fonoau-
   dilogo, profissional de sade responsvel que saber como aju-
   d-lo.



                 ATIVIdAdE

     Usamos diariamente nossa voz para sussurrar, falar baixo ou gritar. E no Teatro ela  fundamental,
 por isso aqui esto alguns jogos que podem desenvolver a expressividade da sua voz:
    a) A chuva
     Em crculo, utilizando a voz, os movimentos dos braos e do corpo, todos simulam o som da chu-
 va, que se transforma em tempestade e depois em bonana. Fica a critrio dos jogadores quem ir fa-
 zer cada som.
     Aps o jogo converse com seus colegas sobre como usou sua voz e seus gestos e como a parti-
 cipao do grupo foi importante no trabalho.
    b) Histria coletiva
    Formam-se grupos de seis jogadores. Um dos grupos inicia o jogo indo at a frente e se posicio-
 nando lado a lado, de frente para os colegas da turma.
    Os colegas que esto observando devero sugerir um tema qualquer para a histria, como por
 exemplo uma festa, uma loja, uma aventura, uma histria de terror, etc.
    O grupo todo dever contar a mesma histria, sendo que cada um dos jogadores ter direito a falar
 apenas trs palavras de cada vez e o prximo jogador dever estar atento para completar a frase do jo-
 gador anterior dando seqncia  histria.
     Inicia-se pelo primeiro jogador da esquerda seguindo para a direita at novamente voltar ao primei-
 ro e assim sucessivamente. No  permitida a repetio da ltima palavra dita pelo jogador anterior nem
 demorar muito para continuar. Cada grupo no dever ultrapassar trs minutos de apresentao, de-
 vendo criar um final para a histria.
     Este jogo pode ajudar os mais tmidos a se expressar e favorecer o dilogo, o raciocnio rpido, a
 criatividade e a concentrao.



                                                                                       O jogo e o teatro 183
       Ensino Mdio

                        z A Ao




                        < Pea: A Aurora da Minha Vida, texto de Naum Alves de Sousa, direo: Gabriel Villela  1997. Com os atores parana-
                          enses: Ranieri Gonzales, Jana Mundana, Mauricio Vogue, entre outros  Acervo do Centro Cultural Teatro Guara.

                            Ao  a seqncia de fatos e acontecimentos cnicos essencial-
                        mente produzidos em funo do comportamento das personagens. Ela
                         o elemento transformador e dinmico que permite s personagens
                        passar de uma situao para outra. (PAVIS, 2003)
                            Explicando de maneira mais simples: a ao no Teatro  o conjun-
                        to do que as personagens fazem, seja em cena ou fora dela, no decor-
                        rer de uma encenao teatral. A ao est ligada, no teatro dramtico,
                        ao surgimento e  resoluo dos conflitos entre as personagens ou en-
                        tre uma personagem e uma situao. O conflito dramtico  o resultado
                        de um jogo de foras opostas. Ele estimula a relao (os nimos) entre
                        duas ou mais personagens ou entre duas formas de pensar, e a busca
                        pela resoluo dos conflitos gera a ao.


                        z As Formas de Ao
                           Falar, andar, sentar, rir e chorar so algumas das aes de uma per-
                        sonagem, numa encenao teatral. A ao pode se apresentar sob di-
                        versas formas, vamos conhecer algumas delas:
                        = Ao ascendente/ao descendente: na ao ascendente a seqn-
                           cia dos fatos se d mais intensa e rapidamente quanto mais nos
                           aproximamos de um acontecimento importante da pea, chamado
                           de clmax. Logo aps o clmax, a ao  descendente.
                        = Ao representada/ao narrada: a ao, quando feita ao pblico
                           por meio da expresso do ator,  representada. A ao  narrada
                           quando  contada por uma das personagens ou por um narrador.

184 Elementos Formais
                                                                                                                            Arte

=    Ao interior/ao exterior: ao interior trata-se dos pensamentos
     e emoes que motivam a personagem a agir. A ao exterior apa-
     rece na expresso corporal, gestual e vocal da personagem, ou se-
     ja, o que a personagem faz. A ao interior pode motivar a ao
     exterior.


z Improvisao?
    Voc j teve que improvisar em algum mo-
mento da sua vida? Voc chega na sala de au-
la e um colega lembra que voc ter que apre-
sentar um trabalho para os outros alunos, mas
voc no teve tempo de se preparar. Como
voc conhece e estudou o assunto, poder im-
provisar sua apresentao. (Porm nesse caso
seria bom mesmo ter preparado a apresenta-
o, no ?).
    No Teatro, improvisao  mais do que is-
so;  interpretar algo imprevisto, que no foi
preparado anteriormente,  representar algo
inventado no momento da ao. Trata-se de
uma atividade dramtica que pode estimular
o desenvolvimento da espontaneidade, libe-
rao corporal, criatividade e imaginao. Po-
de ser espontnea ou preparada, falada ou em
mmica. A improvisao pode ser espontnea,
quando  criada durante a ao.  prepara-
da quando prevista anteriormente por meio de
um roteiro, com indicaes da seqncia das
                                                       < Pea: Operrio Patro  2001  Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira
aes a serem executadas durante a improvi-              (Mauro Zanatta e Richard Rebelo).
sao.



                   ATIVIdAdE

       Existem muito jogos de improvisao, experimente alguns:
       a) Quem  quem?
        Divide-se a turma em grupos de cinco jogadores. Enquanto um grupo faz a atividade, o restante da
    turma observa.
        Cada um dos jogadores do primeiro grupo escolher uma personagem com aes cotidianas para
    entrar em cena, mas no comunicar a ningum.
       Um dos jogadores comear o jogo, indo at a frente e far a atividade referente  sua personagem,
    como, por exemplo, uma criana brincando ou um homem lendo jornal.


                                                                                                        O jogo e o teatro 185
       Ensino Mdio


        Sentindo-se  vontade, um de cada vez entrar em cena, interagindo com os demais, porm, com
     sua personagem e suas aes cotidianas.
         Quando o grupo perceber que a improvisao j no prende a ateno do grupo que observa, de-
     ve-se criar um final para a cena. O grupo que observava far em seguida o mesmo jogo. Converse so-
     bre as principais dificuldades de execuo.
        Lembre-se de que as improvisaes podem ter ou no falas.
        b) Jogo das personagens
         Utilizando a ficha preenchida, da atividade: "como construir uma personagem", feita anteriormente,
     forme grupos de quatro personagens, por meio de sorteio.
        Caracterize as personagens, improvisando roupas, maquiagem e demais acessrios.
        Crie com seu grupo uma cena, a partir de uma situao qualquer, por exemplo: encontro, festa, fila
     de nibus, viagem, escola, danceteria, etc.
        Organize um roteiro com a seqncia das aes, em at cinco minutos. Estabeleam uma ordem
     de apresentaes. Cada apresentao deve ter entre cinco a oito minutos.



                              z Jogando e aprendendo: uma coisa
                                tem a ver com a outra!
                                  Os grupos teatrais, amadores ou profissionais, em geral, utilizam- se
                              de muitos jogos de improvisao e expresso durante o perodo dos
                              ensaios, na construo das personagens. Por meio dos jogos pode-se
                              aprender mais sobre as personagens, sobre os outros e ns mesmos.
                                  Por meio dos jogos podemos experimentar a sensao de criar um
                              mundo diferente e nos permitir ser quem no somos. Mesmo que se-
                              ja por pouco tempo, quando estamos jogando ou improvisando, po-
                              demos experimentar, participar e superar limites corporais, verbais ou
                              desafios, o que ser fundamental para aprendermos a viver e nos rela-
                              cionar com o mundo e com as pessoas.


                              z Referncias
                                 ARAUJO, V. C. de. O Jogo no Contexto da Educao Psicomotora.
                                 So Paulo: Cortez Editora, 1992.
                                 BRAIT, B. A Personagem. So Paulo: Editora tica, 2004.
                                 BRECHT, B. Estudos sobre Teatro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira,
                                 1978.
                                 CARVALHO, E. Histria e Formao do Ator. So Paulo: Editora tica,
                                 1989.
                                 CASTRO, S. V. de. Anatomia Fundamental. So Paulo: Makron, 1985.
                                 Centro de Estudos e Pesquisas em Educao, Cultura e Ao Comunitria.


186 Elementos Formais
                                                                                            Arte

A Arte  de Todos. So Paulo: CENPEC, s/d.
CAILLOIS, R. Os jogos e os Homens: a mscara e a vertigem. Lisboa: Cotovia, 1990.
GONZLES, F. J.; FENSTERSEIFER, Paulo Evaldo. Dicionrio Crtico de Educao Fsica. Iju: Ed.
Uniju, 2005.
HUIZINGA, J. Homo ludens: o jogo como elemento de cultura. 4 Ed. So Paulo: Perspectiva, 1996.
LOPES, J. Pega Teatro. Campinas: Papirus, 1989.
MAGALDI, S. Iniciao ao Teatro. So Paulo: Editora tica, 2004.
PALLOTTINI, R. Introduo  Dramaturgia. So Paulo: Editora tica, 1988.
PAVIS, P. Dicionrio de Teatro. So Paulo: Perspectiva, 2003.
PEIXOTO, F. O Que  Teatro. So Paulo: Brasiliense, 2006.
PINHO, Silvia M. R. Fundamentos de Fonoaudiologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 1998.
QUINTEIRO, E A. Esttica da Voz: uma voz para o ator. So Paulo: Sumus Editorial, 1989.
REVERBEL, O. Jogos Teatrais na Escola. So Paulo: Editora Scipione, 1996.
SPOLIN, V. Improvisao para o Teatro. So Paulo: Perspectiva, 2005.
STANISLAVSKI, C. Manual do Ator. So Paulo: Martins Fontes, 2001.




             ANOTAES




                                                                               O jogo e o teatro 187
       Ensino Mdio




188 Elementos Formais
                                                                                                                 Arte




                                                                                                12
                                                          NO PEITO DOS
                                                  DESAFINADOS TAMBM
                                                     BATE UM CORAO                                         Tom Jobim

                                                                         < Viviane Paduim1 e Carlos Alberto de Paula2




                                                                    uando voc est cantando num vi-
                                                                    deok, apesar de todo o seu esfor-
                                                                      o, sua nota no  das melhores.
                                                                      Ser que o tal aparelho "vive se
                                                               enganando" ou voc  mesmo um de-
                                                               safinado?




1
 Colgio Estadual Natlia Reginato - Curitiba - PR
2
 Colgio Estadual Lysimaco Ferreira da Costa - Curitiba - PR

                                                               No peito dos desafinados tambm bate um corao 189
       Ensino Mdio


                         z O som e os sentidos
                             Quando voc estava no tero de sua me j sentia, por meio das
                         pulsaes do corao dela, o ritmo de um corao. Ritmo lembra msi-
                         ca, no  mesmo? Mas, afinal, o que  msica? Como ela surgiu? Quais
                         elementos so necessrios para fazer msica? Apenas o som puro ou
                         qualquer som j seria msica? O que  som?
                             O som est presente constantemente em nossas vidas. Em todos os lu-
                         gares ouvimos sons, identificados ou no. Muitas vezes so agradveis,
                         outras vezes fortes, fracos, estridentes, repetitivos ou irritantes. Eles pro-
                         vm de uma fonte sonora, como por exemplo, um motor de caminho,
                         um pssaro ou pessoas gritando na torcida do seu time preferido (falando
                         nisso, na sua opinio, qual  a torcida mais "barulhenta"?). Essa fonte so-
                         nora gera vibraes que so levadas por meio do ar ou de outro meio de
                         conduo, como a gua e a prpria terra, na forma de ondas sonoras at
                         nossos ouvidos, atingindo a membrana do tmpano, provocando diversas
                         reaes no nosso corpo e nos permitindo ouvir e identificar esses sons.
                             S para lembrar, as ondas sonoras so a forma de propagao de
                         energia sem ocorrer o transporte do meio de propagao: a energia
                         passa, mas o meio fica.
                             Para entender melhor todo esse processo, observe atentamente o
                         funcionamento do nosso aparelho auditivo.
                             Partes do ouvido humano:
                                                                                 Ouvido mdio
                                                                Ouvido externo                     Ouvido interno

                                                                                     Martelo                        Nervo auditivo

                                                                     Osso Temporal        Canal Semicircular


                                                                                                                         Estribo
                        Pavilho auditivo
                                                                                                                            Janela oval

                                                                                                                             Cclea



                                       Canal auditivo externo       Tmpano                                                 Trompa de Eustqueo

                                                                                      Lenticular
                                                                          Bigorna

                                                                                                           < Aparelho auditivo

                            As ondas sonoras, quando chegam aos nossos ouvidos, so dirigi-
                        das pelo canal auditivo at uma membrana, semelhante a uma fina fo-
                        lha de papel, s que bem resistente, chamada tmpano.  ele que entra
                        em vibrao, mesmo quando as variaes de presso das ondas sono-
                        ras so pequenas.

190 Elementos Formais
                                                                                            Arte

    As vibraes chegam at um pequeno osso chamado martelo, que
aciona outro osso, a bigorna, o qual finalmente faz vibrar um outro os-
so denominado estribo. Nessa seqncia as vibraes so amplificadas.
Assim, podemos perceber o quanto o mundo  sonoro, identificando
sons de intensidade muito baixa.
    Enfim, as vibraes amplificadas chegam ao ouvido interno, tam-
bm chamado de cclea com forma de caracol. Esta parte (cclea)  re-
vestida por minsculos plos e no seu interior encontramos um lquido
que auxilia na propagao do som. As ondas sonoras, ento, atravs
dos plos em vibrao, estimulam as clulas nervosas que, por meio
do nervo auditivo, enviam os sinais ao crebro. Que complexo o nos-
so aparelho auditivo, no  mesmo?
    Mas, e este som que o nosso ouvido capta, como podemos defin-lo?
    Podemos definir som como um fenmeno acstico que consiste na
propagao de ondas sonoras produzidas por uma matria fsica que
com alguma forma de movimento, ocasiona uma vibrao deste obje-
to. (Experimente! Ache um objeto prximo a voc e o faa vibrar.)
    O som tem algumas caractersticas prprias e por meio da mani-
pulao e organizao delas (com os conhecimentos de Fsica, Acsti-
ca, Matemtica, Msica e Esttica) podemos apreciar msicas, toc-las,
cant-las debaixo do chuveiro ou no videok.
    Essas caractersticas so elementos formadores do som:
    Timbre:  um elemento que varia de acordo com o material do qual
 feito o objeto sonoro. Imagine que na sua sala de aula as carteiras
so feitas de diferentes materiais (alm da madeira), como ferro, pls-
tico, cristal... Se voc bater com o lpis em cada uma dessas carteiras,
o som ser o mesmo? Por qu?
    Quando falamos pelo telefone ou interfone com nosso melhor ami-
go ou parentes de convivncia diria, por que somos reconhecidos pe-
la voz, mesmo sem dizer o nosso nome?
    Altura: os movimentos sonoros produzem diferentes freqncias de
ondas sonoras que determinam a distribuio desses sons no espao
(altura do som). Dependendo da posio dessas ondas sonoras, o som
estar localizado em cima (sons altos  agudos) ou em baixo (sons bai-
xos  graves).
    A organizao e distribuio dos sons no espao estabelecem a me-
lodia da msica.
    Pense agora em crianas falando, cantando ou gritando... Voc con-
seguiria distinguir quais vozes so de meninos ou de meninas? Com
certeza voc perceberia que elas possuem a mesma altura vocal, todas
tm voz "fina" (aguda). J se fossem adultos, identificaramos que os
homens tm voz "grossa" (grave) e as mulheres, na sua maioria, tm
voz mais "fina" (aguda) do que as dos homens.



                                                 No peito dos desafinados tambm bate um corao 191
       Ensino Mdio

                           Observe o exemplo:




                                                                                                                                   Fundamental
                                                           Harmnico

                                                                       Harmnico

                                                                                   Harmnico

                                                                                               Harmnico


                                                                                                           Harmnico




                                                                                                                       Harmnico
                             16
                             15
                             14
                                    13
                                         12
                                         11
                                              10
                                                   9
                                                       8
                              G




                              G




                              G




                              G
                              C




                              D
                              C




                              D
                              C




                              D
                              C




                              D
                              C
                              B




                              B




                              B




                              B
                              A




                              A




                              A




                              A
                              E




                              E




                              E




                              E
                              F




                              F




                              F




                              F
                                B




                                                               B
                        z Por que as ondas correspondentes para cada
                          nota do piano so diferentes?
                            As oscilaes das vibraes so denominadas freqncia e a sua uni-
                        dade de medida  o Hertz. O nosso tmpano percebe e vibra quando a
                        onda sonora tem de 20 a 20.000 Hz, os sons abaixo de 20 Hz (infra-sons)
                        e os acima de 20.000 Hz (ultra-sons) ns no conseguimos ouvir. Voc j
                        percebeu que os apitos para chamar alguns animais como ces ou golfi-
                        nhos, ns no conseguimos ouvir mas os animais ouvem?
                            Intensidade: depende da fora utilizada para se bater num objeto ou
                        instrumento musical (bateria, xilofone, pratos, teclas de um piano...).
                        Essa batida pode ser forte, mdia ou fraca. A intensidade tambm  de-
                        terminada pela quantidade de ar que utilizamos para fazer um instru-
                        mento de sopro "tocar" ou quando cantamos uma msica. Quando sua
                        me ou os vizinhos reclamam que o seu som est muito alto, est cor-
                        reto? Ou o correto seria "o seu som est muito intenso"? A intensidade
                        do som  medida pela unidade denominada "1 Bel" (homenagem ao
                        cientista A. Graham Bell, inventor do telefone). Voc j ouviu falar do
                        submltiplo dessa unidade? 1 deciBel = 1dB = 0,1 Bel.
                            Ao som com menor intensidade que conseguimos escutar foi atri-
                        budo o valor zero deciBel (0 dB) e o som mais intenso que ouvimos,
                        sem sentir dor, corresponde ao valor de 120 dB. Voc sabia que exis-
                        tem leis que indicam o valor mximo de deciBis numa boate ou fbri-
                        ca, por exemplo? E que muitas pessoas acabam apresentando proble-
                        mas de audio porque estes limites no so respeitados?
                            Densidade: relaciona-se  quantidade de sons emitidos ao mesmo
                        tempo, determinando a massa sonora. A variao de poucos ou muitos




192 Elementos Formais
                                                                                              Arte

sons sendo executados simultaneamente  um importante fator para a
apreciao e a composio da msica. A densidade  uma caractersti-
ca do som muito explorada na msica do sculo XX e hoje em dia. Para
uma torcida ser a mais "barulhenta"  preciso que os torcedores toquem
seus instrumentos e gritem o mais forte (intensidade) possvel e que ha-
ja muitos instrumentos e vozes (densidade). Na msica vocal, o msico,
ao compor, escreve diferentemente quando sua msica  para ser canta-
da s por uma voz ou para ser cantada por um grande coral, da mesma
forma a percepo do espectador  muito diferente em cada caso.
    Durao: todas as nossas aes so regidas pelo fator tempo, da
mesma maneira, o tempo pode comandar a organizao e o efeito das
estruturas sonoras. A durao e existncia ou no da matria sonora
influencia na diferena dos sons em longos e curtos. A organizao da
durao dos sons  o principal fator de estruturao do ritmo da m-
sica.
    Qualquer um desses elementos formadores do som, podem ser o
que a mquina de videok identifica na nossa voz, atribuindo-nos no-
tas boas ou ruins.
    Voc imagina qual dessas cinco caractersticas  responsvel pe-
la sua nota? No se preocupe, pois ainda vamos conversar sobre ou-
tras qualidades da msica que poderiam determinar a pontuao no
videok.
    A partir desses elementos formais do som (durao, timbre, inten-
sidade, altura e densidade), o ser humano, historicamente, foi organi-
zando a msica que conhecemos.
    No mundo ocidental ela  estruturada por trs formas de organiza-
o que constituem a composio da msica so eles:
    1. Melodia: sons ou notas sucessivas, apresentando uma organiza-
o rtmica com sentido musical.  tambm entendida como a voz em
movimento, como os instrumentos meldicos (flauta, saxofone) que
executam uma nota de cada vez.
    2. Harmonia: sons ou notas musicais que soam simultaneamente de
forma combinada, com elementos diferentes que produzem uma sen-
sao agradvel e de prazer.  a arte ou a cincia dos acordes (juno
de trs ou mais notas, tons) e de sua relao mtua.


    Trs ou mais instrumentos meldicos, tocados ao mesmo tempo, po-
 dem produzir um som harmnico (harmonia). Ao mesmo tempo um instru-
 mento harmnico (piano, violo) quando tocados por uma nota de cada vez
 podem produzir uma melodia, como nos solos de guitarra.




                                                   No peito dos desafinados tambm bate um corao 193
       Ensino Mdio

                            Apesar da msica ser to antiga quanto a humanidade, encontra-
                        mos poucos dados sobre sua histria, devido  dificuldade de se re-
                        gistrar a msica no passado. A execuo musical "ao vivo" dura ape-
                        nas o momento de sua apresentao, por isso no existem registros
                        sonoros de msicas anteriores  inveno do fongrafo, no final do
                        sculo XIX.
                            Outra forma de sabermos como era no passado,  por meio da par-
                        titura musical, que  a escrita da msica. A escrita musical como a co-
                        nhecemos inicia-se com a notao musical chamada Neumas (Idade
                        Mdia) e no sculo XVI passa a existir como a conhecemos hoje.

                           Neumas:




                           Partitura musical atual:




                            Conhecemos alguma coisa sobre a msica na Idade Mdia e na An-
                        tigidade devido  Arqueologia (instrumentos, vasos, murais, pinturas,
                        esculturas...) e aos textos escritos em diversas lnguas, os quais conti-
                        nham comentrios sobre a msica da poca.
                            Lembra quando falamos que no incio da vida, no tero de nos-
                        sa me, j percebamos o ritmo do corao dela? Depois, quando be-
                        bs, j nos movimentvamos balanando ao ritmo das canes de ni-
                        nar, no  mesmo?

194 Elementos Formais
                                                                                             Arte

    O ser humano quando comeou a viver em grupo tambm se mani-
festava por meio do movimento corporal (dana), embalado pelo ritmo
de instrumentos musicais, nos momentos de manifestao de suas cren-
as e para organizar-se nas disputas com outros grupos pela sua sobre-
vivncia. Voc notou que at hoje em dia, nos cultos e ritos religiosos,
a msica est sempre presente? Nas foras militares, a msica tambm
faz parte dos diversos momentos oficiais e comemorativos. Por exem-
plo: o ritmo da marcha orienta a ordem dos passos da tropa, por meio
do tempo forte-fraco, forte-fraco, forte-fraco... sucessivamente. Estamos
falando de ritmo desde o incio, mas o que ele  exatamente?
    3. Ritmo:  o ordenamento do tempo da msica e abrange o som ou
o silncio, o elemento regulador do ritmo  a pulsao. Quando ou-
vimos uma msica, a marcao do pulso surge naturalmente. Quan-
tas vezes voc j "se pegou" movimentando os ps, a cabea, baten-
do as mos ou mexendo o corpo ao ouvir seu grupo ou cantor(a)
predileto(a)? Na verdade, o pulso  o corao da msica, e esse cora-
o tem um ritmo. No Folhas 10, tambm so abordados estes aspec-
tos do som, leia ou releia.


z Um jeito diferente de fazer msica
    Durante toda histria, conceitos de sons musicais foram sofrendo
alteraes.
    No Ocidente, sculo XVIII, na msica conhecida como erudita (m-
sica ocidental de tradio escrita), eram utilizados sons como a voz hu-
mana e instrumentos musicais, organizados a partir de princpios ma-
temticos e acsticos que perduram at hoje em dia como a referncia
de quando ouvimos e apreciamos uma msica.
    Os instrumentos de percusso, sopro ou cordas nem sempre foram
utilizados na msica. Por toda a Idade Mdia, a msica oficial (da Igre-
ja Catlica) era s cantada (canto gregoriano). A partir do sculo X, no
Ocidente, a populao comeou a utilizar instrumentos influenciados
pela cultura muulmana, que usava instrumentos de corda e percus-
so. O sculo XVIII foi o apogeu dos instrumentos musicais, com as
grandes orquestras, chegando a no ter voz ou coral nas composies
de Bach, Mozart, Beethoven e muitos outros desse perodo.
    Esses instrumentos eram construdos e executavam a msica den-
tro dos padres clssicos (msica tonal), no sendo permitido nenhum
som que fosse diferente desses parmetros.
    No sculo XX houve um grande interesse em incorporar  msica
objetos sonoros e mais instrumentos de percusso.
    J imaginou uma msica criada com sons produzidos por garrafas,
ferramentas, o esfregar da roupa, portas se abrindo ou algum suspi-
rando?

                                                  No peito dos desafinados tambm bate um corao 195
         Ensino Mdio

                                  O brasileiro Hermeto Pascoal faz exatamente isso em suas compo-
                              sies. Alm de instrumentos clssicos, utiliza materiais e recursos inu-
                              sitados.
                                  Reflita sobre as poticas palavras de Hermeto:
                                  "Quando eu era menino, vivamos perto de uma rea alagada. To-
                              do povo vinha pegar gua com potes de plstico, vasilhas de estanho
   < Hermeto Pascoal.
                              e cobre e tudo fazia som. Para mim, era msica. As rs cantavam, as
                              mulheres esfregavam as roupas, os vaqueiros chamavam o gado. Era a
                              minha msica."




                        dEBATE

           Voc acha que realmente  possvel aproveitar sons da natureza ou objetos para compor msicas?
      J chegou a ver, mesmo entre seus colegas, algum criando sons com o prprio corpo ou com mate-
      riais diferenciados? Discutam em equipes.



                                  Um grupo ingls chamado Stomp produz os mais diversos sons
                              e ritmos usando vassouras, baldes, lates de lixo, talheres, panela...
                              Alm da apresentao de suas msicas tambm utilizam-se de muito
                              humor e criatividade. No Brasil, existe o grupo mineiro Uakti, que tra-
                              balha com canos de P.V.C., bambu, cana, gua, borracha, entre outros.




                                                   < Grupo STOMP.




                                           < Grupo UAKTI.


196 Elementos Formais
                                                                                                        Arte



                 ATIVIdAdE

    Que tal, em grupos, vocs combinarem de trazer objetos e a partir deles criarem sons, ritmos e apre-
 sentar para a turma?
    Vai ser muito divertido e criativo!
      Depois das apresentaes vocs podero discutir se  possvel encontrar notas musicais e cons-
 truir uma escala por meio de um destes objetos em vibrao.
 a) Voc j ouviu falar da poca em que as novelas eram transmitidas pelo rdio? Naquele tempo, para
    produzir efeitos de uma tempestade, por exemplo, profissionais (chamados sonoplastas) utilizavam
    placas de alumnio para o trovo e arroz deslizando dentro de um cano para representar as gotas de
    chuva. Batendo duas metades de um coco, produziam o som de galope de um cavalo. Agora, em
    grupo, criem uma histria, selecionem objetos sonoros, e como se estivessem numa novela de r-
    dio, apresentem para seus colegas.
 b) Em duplas, vocs tambm podero criar instrumentos musicais com materiais reciclveis. Primeira-
    mente, faam uma pesquisa e peam auxlio para o(a) professor(a), depois, criem os instrumentos,
    dando-lhes nomes. Apresentem para a turma o que vocs criaram.
 c) Em grupos de 05 a 06 alunos, a partir dos instrumentos criados, pensem em uma apresentao em
    que eles possam ser tocados ou mesmo numa composio musical.
 d) Desafio: Qual o limite de som que o ouvido humano suporta?
 e) Que tal vocs combinarem de cantar num karaok ou videok e testarem sua voz e o "tal apare-
    lho"? Depois, abram uma discusso a respeito de qual(is) elemento(s) sonoro(s) vocs consideram
    responsvel(eis) pela pontuao.



    Em pesquisa na Internet, verificou-se que o mercado, no que diz                Sobre o aparelho fonador
respeito ao karaok, est investindo em novos equipamentos, em que,              e cuidados com a voz, ve-
                                                                                 ja o captulo 11 de Teatro,
para obter boas notas, no  preciso gritar, basta cantar bem.
                                                                                 p. 182-83.
    Os karaoks convencionais avaliam apenas a intensidade, isto ,
boas pontuaes seriam conseguidas "no grito". Ser?
    Essa nova tecnologia desenvolvida em aparelhos de karaoks per-
mitiria uma pontuao um pouco mais justa, pois avaliaria a afinao
(altura), ritmo e tambm a intensidade da voz.
    Ento, no se sinta um simples desafinado, um "pobre mortal"
quando resolver cantar numa rodada de karaok ou mesmo debaixo
do chuveiro. No h nada que um bom estudo e exerccios vocais no
resolva, seja na intensidade da voz (ganhar nota "no grito") ou com um
professor de canto (caso voc queira ser profissional). E lembre-se: no
peito dos desafinados tambm bate um corao!




                                                     No peito dos desafinados tambm bate um corao 197
       Ensino Mdio

                          z Referncias
                            COLL, C; TEBEROSKY, A. Aprendendo arte. So Paulo: tica, 2000.
                            GUALTER, J. B.; MAIALI, A. C. Fsica. So Paulo: Saraiva, 1997.
                            MXIMO, A.; ALVARENGA, B. Fsica: de olho no mundo do trabalho. So
                            Paulo: Scipione, 2003.
                            WISNIK, J. M. O Som e o Sentido. 2 ed. So Paulo: Cia. das Letras,
                            2004.
                            SANTOS. M. . dos. Biologia educacional. So Paulo: tica, 2005.
                            SCHAFER, R. M. O Ouvido Pensante. So Paulo: FEU, 1991.




                          z Documentos consultados ONLINE
                            http://www.theparamount.com/season/images/stomp-2.jpg
                            http://www.philipglass.com/images/album/normal/111.jpg
                            http://www.geocities.com/SunsetStrip/Palladium/2270/pasc.jpg




                      ANOTAES




198 Elementos Formais
                                                          Arte



   ANOTAES




               No peito dos desafinados tambm bate um corao 199
       Ensino Mdio




200 Elementos Formais
                                                                                                 Arte




                                                                                  13

                                              ACERTANDO O PASSO
                                                     <Marcelo Cabarro Santos1 e Marcelo Galvan Leite2




                                                           ual a relao entre msica e
                                                           dana? Qualquer movimento
                                                           que fazemos  dana? Pode-
                                                           mos danar qualquer msica?




1
 Colgio Estadual Frei Beda Maria - Itaperuu - PR
2
 Colgio Estadual Dr. Willie Davids - Maring - PR


                                                                                 Acertando o Passo 201
       Ensino Mdio

                           Quando voc est nervoso, no acaba sentindo uma vontade de se
                        mexer para aliviar a tenso? Por que ser que algumas vezes sentimos
                        vontade de mexer o corpo quando ouvimos uma msica? "O corpo es-
                        tremece, as pernas desobedecem, inconscientemente a gente dana...",
                        voc conhece esse trecho da msica do grupo Araketu? A msica real-
                        mente nos d vontade de danar?
                           Realmente o ser humano, muitas vezes, sente a necessidade de se
                        expressar por meio dos gestos, movimentos, ritmos e pulsaes.
                           Danando podemos descobrir quem somos, o que podemos, onde
                        estamos, com quem estamos...  tambm por meio da dana que po-
                        demos aprender a nos relacionar com o mundo, com os outros e com
                        ns mesmos.




                                 < Bal: Dana da Meia Lua  1988, Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira.



                        z Danando na Histria
                            Voc j deve ter ouvido frases, como: "dana da chuva", "quem no
                        dana, segura a criana", "o velho danou", "quem dana seus males
                        espanta", entre outras. Esses termos mostram como a dana faz par-
                        te da nossa vida at em ditados populares. O que voc acha que cada
                        um deles significa?

202 Elementos Formais
                                                                                                  Arte

     Pois bem, podemos perceber que a dana se faz presente em nos-
so vocabulrio e na maioria das sociedades, estando sempre relaciona-
da com sentimentos e situaes sociais.
     Normalmente as pessoas danam em festas, bailes, casamentos e
comemoraes, entretanto, existem muitas sociedades nas quais se
dana em rituais fnebres ou tristes, como em velrios.
     Desde os primrdios da humanidade o ser humano sentiu a neces-
sidade de se manifestar pela dana e foi em seus rituais e celebraes
que comeou a utilizar movimentos corporais para atrair a caa, con-
seguir alimentos, pedir proteo divina, entre outras situaes.
     Acredita-se que nessa poca no se danava apenas para se diver-
tir, como fazemos atualmente em discotecas, shows ou em casa, sozi-
nhos, mas para atrair sorte e proteo. Portanto, a dana tinha um ca-
rter mgico e religioso.
     No perodo greco-romano existia uma preocupao com o ideal de
perfeio e harmonia entre o corpo e o esprito, e isso se refletia na dan-
a. No perodo da Idade Mdia, a dana era muito utilizada pelos cam-
poneses nos rituais e celebraes relacionados s colheitas, porm, do
ponto de vista religioso (judaico-cristo) o corpo humano era visto como
objeto de pecado e degradao, e a dana relacionada a rituais pagos.
     O bal surgiu no perodo da Renascena italiana e foi levado 
Frana por Catarina de Medicis e da em diante se espalhou por todo
o mundo e foi sofrendo inmeras transformaes.
     A dana moderna apareceu no incio do sculo XX, sendo que seus
precursores procuravam maneiras mais livres e pessoais de expressar
idias por meio da dana.


                dEBATE

     Em grupos de seis pessoas, discuta com seus colegas sobre as seguintes questes:
         Voc prefere danar ou ver as pessoas danando (assistir)?
         Qual o estilo de dana que voc mais gosta?
         Qual o estilo de dana que voc menos aprecia?
          Agora, para toda a turma, cada grupo far uma exposio das respostas de cada pergunta e se
 discutir sobre as danas que obtiveram o maior nmero de opinies positivas ou negativas.


z Os elementos da dana
      Sem movimento no existe dana, por isso, o corpo  funda-
mental para que exista a dana, mas no  s isso. Para danar preci-
samos de um lugar, ou seja, um espao. Podemos danar em um pal-
co, numa sala de aula, na quadra de esportes ou em outros lugares.
                                                                                   Acertando o Passo 203
       Ensino Mdio

                            No so apenas os bailarinos e danarinos profissionais que po-
                        dem danar, qualquer um de ns pode. Podemos usar uma msica, ou
                        danar em silncio, porm, a dana precisa de um tempo ou ritmo pa-
                        ra acontecer.




                        < Bal: O Segundo Sopro  1999  Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira.

                           Em resumo, para que a dana acontea  preciso que existam trs
                        elementos formais:
                           1) O movimento corporal   o corpo que se movimenta, no exis-
                        te dana sem um corpo em movimento. Pode-se perceber nos movi-
                        mentos expressivos do corpo, a necessidade natural que o ser humano
                        tem de expr seus sentimentos e pensamentos, de forma organizada
                        ou no.
                           Podemos expressar sentimentos sem dizer nenhuma palavra, usan-
                        do apenas movimentos. Na dana, na ginstica, nas lutas marciais, en-
                        fim, de diversas maneiras, usamos o nosso corpo para manifestar, ex-
                        pandir nossas emoes.
                           Nosso corpo pode produzir diversos tipos de movimento, entre eles:
                             = Movimentos involuntrios  so reflexos que ocorrem de for-
                               ma inconsciente e que no controlamos, como engolir a saliva,
                               piscar os olhos ou o pulsar do corao.
204 Elementos Formais
                                                                                                           Arte

        =   Movimentos automticos  so movimentos j assimilados pelo
            corpo, como andar, respirar e andar de bicicleta.
        =   Movimentos voluntrios  feitos por que se deseja, se tem von-
            tade, como levantar as mos ou chutar.
        =   Movimentos artsticos expressivos  so os movimentos inten-
            cionais, feitos para expressar emoes e sentimentos.  esse ti-
            po de movimento que a dana utiliza.

    2) O Espao  O corpo em movimento utiliza o espao de forma ex-
pressiva e o espao influencia no movimento. O espao  onde a dan-
a est acontecendo, podendo ser pequeno, grande, circular, retangu-
lar, de madeira, cimento, entre outros.  um elemento fundamental na
dana, pois  nele que o corpo realiza seus movimentos. Um espao
pode ser adequado ou no  determinada dana. Por exemplo, o bal
ou a dana entre casais so danas que requerem espaos especficos,
no entanto, nas atuais danceterias podemos danar "espremidos" que
no vai haver problema! O espao da dana  definido pelas diferen-
as culturais, temporais ou de geraes.
    Assim como o desenhista, antes de iniciar o seu trabalho deve es-
tudar o espao do papel, a fim de organizar as linhas que formaro a
imagem pensada, o coregrafo tambm deve pensar no espao ao seu
redor, s que usando o corpo humano como ferramenta expressiva.




< Bal: Viva Rossini  1996  Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira. (pginas 205 e 206).

                                                                                              Acertando o Passo 205
       Ensino Mdio

                        Alguns dos aspectos a serem pensados na criao em dana so:

                               =   Formao inicial: toda dana tem uma posio inicial que os
                                   danarinos devem assumir antes de comear a danar.
                               =   Nveis altos, mdios e baixos: de modo geral so movimen-
                                   tos possveis do corpo utilizando os espaos acima da ca-
                                   bea, na altura da cintura ou abaixo dela.
                               =   Salto e queda: o salto ou pulo  usado em muitas danas,
                                   basta pensarmos em algumas coreografias da moda. O
                                   salto pode ser dado com ambos os ps, em diversas di-
                                   rees, com um p s, partindo-se da posio agacha-
                                   do, de p, etc. Alm disso, dependendo da forma como
                                   o salto  feito ele pode proporcionar quedas diferentes:
                                   com os dois ps, caindo e rolando no cho, abaixando o
                                   corpo, etc. O importante  saber que os saltos e quedas
                                   em uma dana no so por acaso, eles tm uma inteno
                                   e, dependendo dela, sero trabalhados pelos danarinos
                                   de formas diferentes.
                               =   Direo: o movimento pode ser feito para diversas dire-
                                   es no espao: frente, trs, diagonal, esquerda, direita,
                                   etc. Essas direes so determinadas pelo espao e tipo
                                   de dana.
                               =   Rotao:  o giro, pode ser feito pelo corpo todo, por uma
                                   parte do corpo, em duplas, etc.
                               =   Deslocamento: pode ser feito de diferentes formas em uma
                                   dana. Saltando, andando, correndo, sendo carregado, se
                                   arrastando, girando, entre outras. Esses deslocamentos
                                   podem se dar por meio de "caminhos" retos ou curvos, e
                                   serem feitos individual ou coletivamente.




206 Elementos Formais
                                                                                                    Arte



                ATIVIdAdE

    Vamos experimentar as possibilidades e dificuldades oferecidas pelo es-
 pao na dana.
      Escolha uma seqncia de vrias msicas, de diversos ritmos e algum pa-
 ra ir trocando as msicas.
     Usando giz branco, desenhe no cho da sala ou no ptio vrias formas ge-
 omtricas em tamanho grande, como quadrados, retngulos, crculos, tringu-
 los, entre outras.
     Forme grupos de cinco colegas.
    Cada grupo se posicionar dentro de uma das formas geomtricas, dese-
 nhadas no cho e, ao som do ritmo das msicas, voc se movimentar, ca-
 minhando dentro do espao delimitado da forma geomtrica, sem se chocar
 com os demais colegas de grupo e sem sair do espao marcado.
     Aps algum tempo troquem de forma geomtrica e experimente novamen-              Dica: experi-
 te esse novo espao.                                                            mente tambm dan-
                                                                                 ar em duplas ou
     Converse com seus colegas sobre as dificuldades e vantagens de se mo-
                                                                                 trios, dentro das for-
 ver dentro do espao de cada forma geomtrica.
                                                                                 mas geomtricas.

    3) O Tempo  Todo movimento expressivo tem um
ritmo e se d de acordo com organizaes temporais.
Por isso, outro elemento essencial na dana  o tempo.
Assim como na msica, a dana  uma Arte que ocorre
em determinado tempo. Por exemplo, a necessidade de
coordenao e sincronia num casal de danarinos  fun-
damental para a dana ser bem-sucedida o mesmo ocor-
re na sincronia de apresentaes com vrios danarinos,
e essa sincronia  determinada pelo tempo que duram
os movimentos.
    Ao contrrio das artes visuais, como uma pintura, por
exemplo, que depois de feita pode ser apreciada e retoma-
da quantas vezes for necessrio ou desejado, a dana existe
durante a sua execuo, isto , perde-se no tempo. Se for
registrada em filmes, por exemplo, deixa de ser uma dan-
                                                                                                       Cultural Teatro Guaira (Bailarinos Jair Moraes




a ao vivo. Portanto, dizemos que a dana  organizada no
                                                                                                     < Bal: O Quebra-Nozes  1980  Acervo




tempo, existindo apenas enquanto  danada.
    J falamos da grande relao existente entre a msi-
ca e a dana e de como no decorrer da histria das so-
ciedades uma influenciou a outra refletindo situaes
                                                                                                       e Vnia Kesikowsky)




sociais ou culturais de uma poca. Por exemplo, mu-
danas rtmicas das msicas ocasionaram mudanas nos
movimentos da dana, assim como mudanas nas con-
cepes de movimento acarretaram transformaes nas
msicas.

                                                                                  Acertando o Passo 207
       Ensino Mdio

                        z A coreografia na dana
                            A coreografia  a arte de compr os movimentos e os passos de
                        uma dana. A palavra coreografia vem do grego Khoros, que quer di-
                        zer dana, e Grapho, que quer dizer escrita. Uma coreografia  a com-
                        posio de uma seqncia de movimentos de uma dana, como por
                        exemplo, o movimento dos ps, dos braos e o deslocamento dos dan-
                        arinos nas diversas direes. Muitas danas tm uma coreografia pr-
                        pria, como o tango, a quadrilha e o bal, por exemplo.




                        < Bal: Dana da Meia Lua  1988  Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira.


                           A pessoa que cria a seqncia dos movimentos e passos de uma
                        dana  chamada de coregrafo, podendo tambm dirig-la, ensaian-
                        do os danarinos. A palavra coreografia tambm pode ser usada pa-
                        ra designar a representao grfica (escrita) dos movimentos de uma
                        dana.
                            Porm, podemos improvisar danando. Quando voc vai a uma
                        danceteria, voc geralmente dana ao ritmo da msica, improvisando
                        os movimentos ou passos, criando uma dana improvisada, sem que
                        haja uma coreografia pr-definida.

208 Elementos Formais
                                                                                                   Arte



                ATIVIdAdE

     Experimente elaborar uma coreografia e transmit-la graficamente aos demais colegas.
 =   Formem grupos de quatro colegas e cada grupo criar uma seqncia de quatro movimentos rpi-
     dos com os braos.
 =   Crie uma forma de registrar graficamente essa seqncia, em uma folha de papel. Pode ser em for-
     ma de desenhos esquemticos, como por exemplo, se o brao direito sobe, desenhe uma seta in-
     dicando o brao e a direo que dever se mover, etc, ou de qualquer outra forma que o grupo ache
     eficiente para transformar movimentos em sinais grficos.
 =   Agora troque as seqncias de movimentos entre os grupos e cada um procurar executar a seqn-
     cia, de acordo com sua interpretao.
 =   O ritmo para a interpretao das coreografias pode ser sugerido por meio de palmas que os demais
     colegas faro para acompanhar os movimentos de cada grupo.



z A msica determina a dana?
    A partir dos grandes descobrimentos e do conseqente contato e
miscigenao entre as culturas africana, indgena e europia, novas
manifestaes culturais foram surgindo. Esse "sincretismo" pode ser
visto na culinria, na religio, na lngua, na msica e,  claro, nas dan-
as, principalmente das Amricas.
    Por exemplo, os espanhis assimilaram o costume da contradana
francesa da corte de Luis XIV. Essa dana se misturou a ritmos e msi-
cas dos escravos, dando vida a novas danas na regio do Caribe como
a rumba, o mambo, o merengue e o ch-ch-ch, por exemplo.
    O nosso samba tambm surgiu da mistura de uma dana africana,
a "umbigada", com seus batuques caractersticos e dos cantos das mo-
dinhas portuguesas.
    Por falar nisso, voc j percebeu que muitas danas definem tam-
bm o nome das msicas que so usadas na sua execuo? O Tango,
a valsa, o fandango, a tarantela ou o frevo so ao mesmo tempo dan-
as e tipos de msicas, outro exemplo que nos mostra como a dana
e msica so inseparveis.

    A Tarantela, uma dana venenosa (ou quase!)
    A tarantela  uma dana folclrica tpica da Itlia cujo nome vem de
uma lenda. Conta-se que no sculo XIV, na Europa, na regio da It-
lia, havia muitas aranhas denominadas Tarntulas. Sua picada causava
febre alta e delrio e os doentes acabavam pulando e danando at a
exausto, na tentativa de expulsar completamente de seu corpo o mal
produzido pelo veneno da aranha.

                                                                                    Acertando o Passo 209
       Ensino Mdio




                                              < A dana da tarantela.


                            Diz a lenda que para o doente sobreviver a esta picada teria que
                        danar ao ritmo da msica Tarantela, surgindo assim, a dana de mes-
                        mo nome. Com o passar dos anos, essa dana tornou-se tradicional em
                        diversas festas italianas.
                             A tarantela  executada em pares, marcada por andamentos rpi-
                        dos. Hoje, sabe-se que a tarntula europia no  absolutamente vene-
                        nosa, seu veneno  suficiente apenas para a paralisao de pequenos
                        insetos que lhe serviro de alimento. Sua picada causa apenas febre na
                        vtima. Ser que essa histria toda era s um pretexto para se danar?


                            A tarntula
                            Seu nome cientfico  Lycosa tarantula, seu Filo: Arthropoda, Clas-
                        se: Arachnida, Ordem: Araneae e Famlia: Lycosidae. As aranhas ta-
                        rntulas so pouco agressivas. No Brasil, existem cerca de 100 esp-
                        cies, sendo conhecida tambm como aranha de grama ou jardim. So
                        facilmente encontradas em gramados, em jardins, no campo, prximo
                        aos riachos e at mesmo nas residncias. Essa espcie de aranha no
                        faz teia.




                        < Aranha Tarntula.


210 Elementos Formais
                                                                                      Arte

    A picada  dolorida, mas, normalmente, no evolui para casos mais
graves. Em algumas pessoas pode ocorrer necrose local, porm no
h necessidade de aplicao de soro antiaracndeo. Na dvida, cole-
te a aranha e leve ao hospital ou posto de sade mais prximo de sua
casa.

    O Frevo, Fervendo
    O frevo  a dana e a msica tpica do carnaval de rua e de salo
de Recife em Pernambuco. Ele  essencialmente rtmico, de coreogra-
fia individual e andamento rpido, isto , velocidade de execuo ace-
lerada. Os danarinos de frevo so chamados de passistas e se vestem
com fantasias coloridas, agitando pequenos guarda-chuvas usados pa-
ra ajudar os danarinos a se equilibrar e para tornar o efeito da dan-
a mais bonito.
    Acredita-se que o frevo possui elementos de vrias danas como a
marcha, polca ou maxixe, ou ento que ele foi influenciado pela capo-
eira. Existem muitos tipos de frevo, a maioria deles no  cantando e
sua msica  executada somente por instrumentos musicais de sopro
e percusso como os surdos, que formam a orquestra do frevo conhe-
cida como Fanfarra.




< Frevo.



z A animada dana dos animais
   No so apenas os seres humanos que danam, vrias espcies de
animais utilizam movimentos corporais definidos. Estas danas, geral-

                                                                         Acertando o Passo 211
       Ensino Mdio

                            mente realizadas pelo macho da espcie, tm a funo de demonstrar
                            os atributos do pretendente para que a fmea escolha o seu parcei-
                            ro. Em alguns casos, existem aves que montam arenas para a apresen-
                            tao das danas, chamadas de "dana do acasalamento" ou "danas
                            nupciais".
                                Essas danas instintivas dos animais, no entanto, no possuem uma
                            importante caracterstica da dana humana, a socializao e a inten-
                            o esttica. Para ns, a dana  uma rica forma de integrao social e
                             por meio dela que podemos transmitir e identificar significados com
                            o nosso corpo, muitas vezes difceis de se transmitir apenas com pa-
                            lavras.
                                No decorrer dos tempos, essas danas instintivas se tornaram fonte
                            de inspirao para diferentes culturas. Na Coria do Sul, por exemplo,
                            existe uma dana folclrica que surgiu da imitao da dana nupcial
                            dos "Grous de crista vermelha", uma espcie de gara que h centenas
                            de anos migra para a regio.
                                Na realidade, a observao do movimento dos animais  uma ca-
                            racterstica da cultura e filosofia oriental (taosmo). O milenar Tai-chi-
                            chuan, por exemplo, combina artes marciais, dana e medicina e seus
                            movimentos so inspirados na movimentao de animais de vida lon-
                            ga e que fazem movimentos mais lentos, como a gara e a tartaruga.
                            O Kung fu de carter mais marcial, buscou seus movimentos nos ani-
                            mais mais velozes como tigre, serpente, gafanhoto, guia, macaco e o
                            mitolgico drago.




                      ATIVIdAdE

        Dividam-se em equipes de cinco pessoas e criem duas seqncias de trs movimentos baseados
     em animais, podem ser animais domsticos, ou selvagens.
       A primeira seqncia baseando-se em movimentos de animais mais lentos e a segunda em movi-
     mentos de animais mais rpidos e agitados.
        Escolha uma msica para acompanhar cada uma das seqncias de movimentos.
        Apresentem para que a turma reconhea quais animais esto sendo "imitados".



                            z Kung Fu no  dana, mas parece
                                A palavra Kung Fu, no Ocidente, pode ser traduzida como "Maes-
                            tria", "Habilidade e eficincia" ou "Domnio alcanado com o tempo".
                            Mas no Oriente a palavra Kung Fu no  utilizada para designar a arte
                            marcial, prefere-se o uso de dois outros termos.


212 Elementos Formais
                                                                                      Arte

      =     "Wu Shu"  Wu = guerra e Shu = arte
      =     "Kuo Shu"  Kuo = Nacional e Shu = arte




                                Kung Fu.
< Kung Fu

     muito grande a quantidade de estilos existentes no Kung Fu. Es-
tima-se que s na cidade de Hong Kong existam cerca de 360 estilos.
Isso  devido  imensa populao da China e  grande antigidade
do Kung Fu. Os primeiros estilos foram criados pelos cls (famlias) e
mantido em segredo por meio das geraes.
     Era muito comum que ao herdar um determinado estilo, um mem-
bro dessa famlia acrescentasse alguns movimentos por sua prpria
conta, e o estilo original sofria diversas modificaes de gerao pa-
ra gerao.
    O Kung-fu  uma luta, sua inteno  a defesa e o ataque em mo-
mentos de perigo. Mas, qual a sua relao com a dana? Na verda-
de, nesse caso, o controle e conhecimento corporal, a atividade indi-
vidual ou grupal, a utilizao do espao, a durao dos movimentos
e a inspirao em movimentos da natureza podem ser elementos que
aproximam essa luta de uma dana. Outra forma de luta que  conhe-
cida tambm como dana  a capoeira. Nela, alm dos elementos cita-
dos em relao ao Kung-fu, temos a utilizao de msica para acom-
panhar os danarinos-lutadores, o que refora ainda mais sua relao
com a dana.


z Danar e treinar fazem bem, mas tm diferena!
   Quem pensa que  s praticando esportes que exercitamos nosso
corpo, esqueceu que a dana  uma tima maneira de manter a forma
e a sade mental e fsica. Muitas academias vm adotando vrios rit-
mos e danas, misturados aos exerccios fsicos para tornar os treinos
mais prazerosos.


                                                                         Acertando o Passo 213
       Ensino Mdio

                                 Os treinos esportivos tm como objetivo trabalhar os msculos e
                             ajudar o praticante a vencer seus limites, buscando aperfeioar suas
                             marcas, tendo na maior parte do tempo o objetivo de vencer, seja seu
                             oponente ou suas prprias limitaes.
                                 Porm,  importante ressaltar que ao se tratar da dana, qualquer
                             pessoa pode praticar, mesmo os gordinhos, magrinhos, altos, baixi-
                             nhos ou portadores de necessidades especiais.  claro que uma boa
                             elasticidade em alguns casos ou um pouco de fora fsica em outros s
                             colaboram na execuo de alguns tipos de movimentos, mas o essen-
                             cial, como dissemos acima,  que o movimento seja expressivo e mos-
                             tre a maneira como um povo, um grupo ou uma pessoa v e interpre-
                             ta o mundo, seus sonhos, seus medos, enfim, a vida...


                      ATIVIdAdE

         Em grupos de cinco pessoas, escolha uma msica, de preferncia instrumental, e organize uma co-
     reografia de at trs minutos de durao. Procure no utilizar nenhum movimento de danas j conhe-
     cidas de todos, como por exemplo, as danas da moda. Os movimentos podem ser de execuo sim-
     ples.
         Pense em quais sentimentos essa msica possa estar representando e por meio da coreografia,
     tente transmiti-los ao pblico.
        Se quiser pode estabelecer a roupa (figurino) que o grupo usar.
        Afaste as carteiras, para que exista um espao maior para a execuo das danas.
        Cada grupo far a sua apresentao e quando todos os grupos se apresentarem, converse com os
     demais grupos sobre os sentimentos que cada equipe quis transmitir, sobre as principais dificuldades
     de execuo e se houve entendimento por parte do pblico.



                                 Realmente a msica nos convida a danar? Msica e dana so par-
                             ceiras inseparveis ou no? As msicas e danas brasileiras como o fre-
                             vo e o samba so bastante conhecidas e populares. Mas a Arte brasilei-
                             ra no se limita apenas a msicas e danas. Podemos danar qualquer
                             msica? O que mais podemos conhecer da arte brasileira?




214 Elementos Formais
                                                                                    Arte

z Referncias
  CAMINADA, E. Histria da Dana: evoluo cultural. Rio de Janeiro:
  Sprint, 1999.
  FRISCH, K. von. Ns e a Vida. Porto Alegre: Ed. Globo, 1975.
  GARAUDY, R. Danar a Vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
  GONZLES, F. J.; FENSTERSEIFER, P. E. Dicionrio crtico de Educa-
  o Fsica. Iju: Ed. Uniju, 2005.
  LABAN, R. Domnio do Movimento. So Paulo: Summus, 1978.
  RUPPERT, E. E.; BARNES, R. D. Zoologia dos Invertebrados. So Pau-
  lo: Roca, 1996.
  STORER, T. I. et. Alii. Zoologia geral. So Paulo: Nacional, 1986.
  OSSONA, P. A Educao pela Dana. So Paulo: Summus, 1988.




               ANOTAES




                                                                       Acertando o Passo 215
       Ensino Mdio




216 Movimentos e Perodos
                                                                                                        Arte




                                                                                          14
                                           ARTE BRASILEIRA: UMA
                                         ILUSTRE DESCONHECIDA                         <Tania Regina Rossetto1




                                                                    uando falamos em arte logo nos
                                                                    vem  mente a imagem da Mona
                                                                    Lisa (1503-07) ou da ltima Ceia
                                                                    (1495-98), de Leonardo Da Vinci
                                                            ou a Vnus, deusa da beleza, do Nasci-
                                                            mento de Vnus (1485), de Botticelli, ou
                                                            as obras de outros "Grandes Mestres".
                                                            Por qu? Por que apenas esses artistas
                                                            conhecidos mundialmente so admira-
                                                            dos?
                                                            Por que pouco se fala dos artistas brasi-
                                                            leiros e de sua arte e, quando se men-
                                                            ciona Arte brasileira, muita gente se
                                                            pergunta: "Afinal, existe uma Arte Bra-
                                                            sileira?"




1
 Colgio Estadual Padre Manuel da Nbrega - Umuarama - PR

                                                                    Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 217
         Ensino Mdio

                                        z Que pas  esse?
                                            Quando passeamos pelas ruas de nossa cidade, dificilmente pen-
                                        samos na origem dos nomes das lojas nos letreiros. Qual  a origem
                                        destes nomes?
                                            E as marcas de roupas e tnis que usamos? So nacionais ou inter-
                                        nacionais? Por que preferimos usar as marcas importadas? Por que pre-
                                        ferimos "aquele" tnis famoso e original, vindo de outro pas, quando
                                        aqueles fabricados no Brasil tm a mesma qualidade?
                                            Essa preferncia por coisas estrangeiras se reflete tambm na forma
                                        como os jovens se cumprimentam. Quais expresses os jovens usam
                                        no dia-a-dia?
                                            Converse com seus amigos, preste ateno ao nome deles ou mes-
                                        mo ao seu. Provavelmente voc encontrar muitos nomes estrangei-
                                        ros, difceis de falar e mais complicados ainda de escrever. Mas, por
                                        qu acontece isso?


                                        z Independncia ou Morte: o grito Ipiranga
                                            Todos ns j ouvimos a expresso: "Independncia ou morte!" e vi-
                                        mos nos livros de Histria a obra de Pedro Amrico que registra o "Se-
                                        te de Setembro de 1822", data em que se comemora o Dia Nacional da
                                        Independncia do Brasil, do jugo de Portugal.
                                            Observe essa obra.




   < PEDRO AMRICO. Independncia ou Morte, 1888. leo sobre tela, 760 x 415 cm, Museu Paulista, So Paulo.



218 Movimentos e Perodos
                                                                                                                                        Arte

    Esse quadro retrata realmente o que aconteceu?
    D. Pedro I est no centro, empunhando uma espada direcionada
para o alto em um gesto herico e, provavelmente, gritando a clebre
frase: "Independncia ou Morte!". Na sua opinio, um grito pode pro-
clamar a independncia de um pas ou essa independncia depende
de outros fatores? E quais fatores seriam esses?
    A autonomia de um pas se constri constantemente, e  necess-
rio que as pessoas se sintam livres para criar sua prpria cultura. No
se domina um pas apenas pela invaso do seu territrio, porm, prin-
cipalmente, pela incorporao de repertrios culturais e sociais es-
trangeiros e a secundarizao da cultura nacional. O quadro Indepen-
dncia ou Morte, nesse caso,  exemplar, pois  uma pintura no estilo
Neoclssico importado pela Misso Artstica Francesa, que chegou no
Brasil em 1816.


z A Misso Artstica Francesa
    Mas, afinal, o que  uma misso? Qual a diferena entre "misso im-
possvel", "misso de paz", "misso de vida"?
    Entre outras coisas foi responsvel pela organizao da Academia
Imperial de Belas Artes, em 1816, no Rio de Janeiro, onde se ensinava
uma arte com referenciais europeus, traduzidos em um estilo denomi-
nado de Neoclssico.
    Mas, o que  Neoclssico?
    Como o prprio nome j diz: "neo"  novo e "clssico" se refere s
obras da Antigidade Clssica e s obras renascentistas que passam a
ser tomadas como modelo pelos artistas da Misso Francesa e da Aca-
demia Imperial de Belas Artes. Os artistas neoclssicos seguiam rgidos
princpios no desenho, no uso das cores e na escolha dos temas que,
em geral, eram histricos, mitolgicos e religiosos. Jean-Baptiste De-
bret  um dos artistas mais importantes da Misso Artstica Francesa.
    Observe uma de suas obras:
                                                                                            O artista
                                                                                           Jean-Baptiste Debret nasceu na Frana em
                                                                                           1768 e morreu em 1848. Sua obra mais impor-
                                                                                           tante foi um livro de aquarelas e desenhos intitu-
                                                                                           lado "Viagem Pitoresca e Histrica ao Brasil", que
                                                                                           mostra a vida diria do homem brasileiro  o ne-
                                                                                           gro, o ndio e o branco  do sculo XIX.




< JEAN BAPTISTA DEBRET. Negra tatuada vendendo caju, 1827. aquarela s/ papel, 15,5 x 21
  cm. Museu da Chcara do cu, Rio de Janeiro.

                                                                                          Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 219
         Ensino Mdio

                                          Debret, em vrias de suas aquarelas, registra a presena macia do
                                       negro realizando diferentes atividades na cidade do Rio de Janeiro. As
                                       cores na obra Negra tatuada vendendo caju so mais intensas no te-
                                       ma central, enquanto que no restante da obra, utiliza cores mais sua-
                                       ves, diludas ou esmaecidas. Sua aquarela tem um horizonte e monta-
                                       nhas em suaves azuis e amarelos. Porm, a negra que est vendendo
                                       cajus,  representada com cores mais fortes e intensas.


                                       z A Arte Brasileira em busca de independncia
                                           Observe, novamente, a obra Independncia ou Morte.
                                           A interpretao de Pedro Amrico deixa evidente a forte influncia
                                       da cultura europia, que o Brasil assimilou e imitou e que  firmado
                                       pela Academia Imperial de Belas Artes.
                                           Os artistas da Academia Imperial de belas Artes tambm foram in-
                                       fluenciados pelo Romantismo, que  um movimento artstico que valo-
                                       rizava a individualidade ou o que resulta da experincia de cada um,
                                       seus sentimentos. Os romnticos, opondo-se ao Neoclassicismo, abri-
                                       ram as portas para a valorizao dos mitos, por exemplo, do bom sel-
                                       vagem, das tradies nacionais. O Romantismo tem como marco his-
                                       trico o ano de 1836, quando foi publicada a obra Suspiros Poticos e
                                       Saudades, de Domingos Jos Gonalves de Magalhes.

                          dEBATE

                                                                            Observe a obra Iracema:
                                                                            Voc j ouviu falar dessa personagem?
                                                                            Iracema, na verdade,  a personagem de um
                                                                        romance do escritor brasileiro Jos de Alencar. Ira-
                                                                        cema representa o novo mundo e o seu amado
                                                                        Martim, outro personagem do mesmo romance, 
                                                                        a imagem do conquistador europeu.
                                                                            Observe a espada, envolta em ramos de flores,
                                                                        cravada na areia da praia na tela de Jos Maria de
                                                                        Medeiros. O que ela pode significar?
    < JOS MARIA DE MEDEIROS. Iracema, 1881. leo sobre tela, 168,3 x      Podemos estabelecer alguma relao entre a
      255,0 cm. Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro.          espada de Dom Pedro I, na obra Independncia
                                                                        ou Morte! de Pedro Amrico e a espada na obra
                                                                        de Medeiros?
        Fora do pas os referenciais da Arte Clssica j estavam h um bom tempo sendo substitudos por
     novos ideais. E a nossa arte, estava em busca de novos caminhos ou aceitava passivamente os mol-
     des acadmicos?



220 Movimentos e Perodos
                                                                                                     Arte

z Por uma Vanguarda Nacional
    O que  uma vanguarda?
    Essa palavra, talvez, faa-nos lembrar outras como: retaguarda, flan-
co guarda. Esses termos tm conotao militar e esto relacionados a
estratgias de defesa. Voc sabe o que significam?
    Entre os movimentos de vanguarda europia que influenciaram a
                                                                               Voc sabia que a primei-
vanguarda brasileira podemos destacar o Futurismo, o Cubismo, o Da-         ra exposio de pintura no-
dasmo e o Surrealismo. Tnhamos recm sado de uma Primeira Guer-          acadmica no Brasil, que
ra Mundial (1914  1918) e estvamos sob a ameaa de uma Segunda            despertou a fria dos jorna-
Guerra. Esse perodo histrico levou a humanidade a viver cada dia          listas e da sociedade paulis-
como se fosse o ltimo. So considerados "anos loucos".                     ta da poca, foi realizada por
    Alguns artistas brasileiros, apesar de buscarem o rompimento com        uma mulher: Anita Malfati, re-
um modelo vindo da Europa, aceitaram a linguagem dos vanguardis-            cm-chegada de seus estu-
tas europeus para sintonizar o pas com o resto do mundo, buscando          dos na Europa? Ao expor o
ao mesmo tempo uma arte que fosse nova e que tivesse a marca bra-           seu aprendizado ao pblico
                                                                            no mostrou uma Arte aca-
sileira.
                                                                            dmica "grandiosa", mas sim
                                                                            o seu encantamento com
                                                                            uma nova Arte: o Expressio-
z Independncia e Arte                                                      nismo, uma Arte disforme e
                                                                            carregada de emoo. Ani-
  O grito da Semana de 1922                                                 ta Malfati sofreu duras crti-
                                                                            cas ao seu trabalho entre elas
   O Modernismo no Brasil teve incio com a Semana de Arte Moder-           a do jovem jornalista, Montei-
na, no Teatro Municipal de So Paulo, aberta dia 11 de fevereiro de         ro Lobato que feriu profunda-
                                                                            mente a artista ao escrever
1922. Mas, por que o ano de 1922?
                                                                            um artigo sobre a sua exposi-
    o ano do centenrio da Independncia do Brasil, cem anos se            o. Entre suas palavras, Lo-
passaram do "Grito do Ipiranga", portanto, j era tempo de questio-         bato afirmou que Anita fazia
narmos se o pas estava mesmo livre e se toda a populao participa-        parte de uma espcie de ar-
va de uma sociedade realmente democrtica. Da Semana de Arte Mo-            tistas que v anormalmente a
derna de 1922, uma iniciativa dos artistas e intelectuais participantes,    natureza, verdadeiro furncu-
nasceu a conscincia de uma arte Nacional. Os participantes da Sema-        lo da cultura, estrela caden-
na foram:                                                                   te que brilha apenas  luz dos
                                                                            escndalos caindo no esque-
   Na Pintura: Anita Malfati, Ferrignac, J. F. de Almeida Prado, Jhon
                                                                            cimento e ainda, se amarrar-
Graz, Martins Ribeiro, Vicente do Rego Monteiro, Zina Aita.
                                                                            mos uma brocha na calda de
   Na Msica: Guiomar Novais, Heitor Villa-Lobos.                           um burro teremos os mes-
   Na Escultura: Victor Brecheret, W. Haarberg.                             mos resultados. Na verdade,
   Na Arquitetura: Antnio Moya, Georg Przyembel.                           a sua Arte, considerada "de-
                                                                            formada", exibia uma rebeldia
   Na Literatura: Menotti Del Picchia, Mrio de Andrade, Oswald de          no aceita, era uma Arte con-
Andrade, Manoel Bandeira e Cassiano Ricardo.                                tra o mundo das aparncias.
                                                                            Anita Malfati acabou tornan-
                                                                            do-se uma das precursoras
                                                                            da Arte Moderna Brasileira.


                                                           Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 221
       Ensino Mdio

                               A Boba  uma das obras dessa famosa exposio. Observe:




                                        < ANITA MALFATTI. A Boba, 1917. leo s/ tela 61 x 51 cm. Mu-
                                          seu de Arte Contempornea USP, SP. In: Arte Moderna Brasi-
                                          leira  Uma Seleo da Coleo de Roberto Marinho. Maro /
                                          Abril, 1994, p. 25.


                                Por que essa obra, juntamente com outras da mesma exposio,
                            despertou to grande fria na sociedade paulista da poca?
                                As manifestaes artsticas da Semana de 22 aconteceram em meio
                            a vaias e crticas de jornais que se mostraram contra o evento, foram
                            chamados de loucos e construtores de uma Arte sem equilbrio. Na sua
                            opinio, qual foi a inteno desses artistas?
                                A partir dessa Semana, de verdadeiras afrontas ao estilo de Arte res-
                            peitado na poca, surgem vrios grupos a favor dessa Arte nova que
                            se firmam por meio de alguns manifestos.


                            z Manifesto Arte
                               Na sua opinio, qual foi a inteno desses artistas?
                               Os manifestos foram importantes para firmar a Arte Moderna no
                            Brasil, pois serviram como veculo de divulgao das novas idias ex-
                            postas na Semana de 1922. Entre estes manifestos podemos destacar o
                            Manifesto Pau-Brasil, escrito por Oswald de Andrade, em 1924; o Mo-
                            vimento Verde - Amarelismo escrito por Cassiano, Menotti Del Picchia,
                            Cndido Motta Filho e Plnio Salgado, em 1926 e o Manifesto de Antro-
                            pofagia tambm escrito por Oswald de Andrade, em 1928.
                               Os manifestos deixavam uma pergunta no ar: Que pas  esse? O
                            Brasil  brasileiro? A nossa Arte , de fato, nacional?

222 Movimentos e Perodos
                                                                                                                                                                                                                        Arte

   Conhea fragmentos do Manifesto Pau-Brasil:
     "A poesia existe nos fatos. Os casebres de aafro e de ocre da Favela, sob o azul cabralino, so
 fatos estticos".
      (...)
      A poesia para os poetas. Alegria dos que no sabem e descobrem.
      (...)
     A lngua sem arcasmos, sem erudio. Natural e neolgica. A contribuio milionria de todos os
 erros. Como falamos. Como somos.
      (...)
     A poesia Pau-Brasil  uma sala de jantar domingueira, com passarinhos cantando na mata resumi-
 da das gaiolas, um sujeito magro compondo uma valsa para flauta e a Maricota lendo o jornal. No jor-
 nal anda todo o presente.
      Nenhuma forma para a contempornea expresso do mundo. Ver com olhos livres."




                     ATIVIdAdE

                                                                                                                                                                 Observe a obra de Tarsila do Amaral, da sua fase de-
                                                                                                                                                              nominada de Pau-Brasil.
                                                    < TARSILA DO AMARAL.Vendedor de frutas, 1925. leo sobre tela 190 x 180 cm. Museu de Arte de So Paulo,




                                                                                                                                                                  O tema dessa obra  o Brasil? Um vendedor de frutas
                                                                                                                                                              retrata o nosso pas?
                                                                                                                                                                   Nessa fase, Tarsila exalta a natureza tropical, sua flo-
                                                                                                                                                              ra e fauna, a figura do negro e do caboclo. Retrata as ci-
                                                                                                                                                              dades brasileiras por meio da combinao das tonalida-
                                                                                                                                                              des azuis e rosas e do uso de elementos geomtricos 
                                                                                                                                                              maneira cubista. Essa cena lembra alguma cidade brasi-
                                                                                                                                                              leira?
                                                                                                                                                                  Destaque os elementos que lembram uma paisagem
                                                                                                                                                              tropical.
                                                      Assis Chateubriand, So Paulo.




                                                                                                                                                                 Quais as crticas existentes no Manifesto Pau-Brasil
                                                                                                                                                              em relao  Arte respeitada na poca?
                                                                                                                                                                 Quais relaes podem ser estabelecidas entre a obra
                                                                                                                                                              Vendedor de Frutas, de Tarsila, e o Manifesto Pau-Brasil,
                                                                                                                                                              de Oswald de Andrade? Essa obra corresponde s ex-
                                                                                                                                                              pectativas nacionalistas?

 A artista
Tarsila do Amaral nasceu em Capivari, So Paulo, em 1886 e morreu em 1973. No participou da
Semana de Arte Moderna, mas  a maior artista do modernismo brasileiro. Por ter nascido em fa-
zenda do interior paulista, pintou muitas paisagens, figuras e plantas tropicais. Era ao mesmo tem-
 po moderna e brasileira.


                                                                                                                                                                                Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 223
       Ensino Mdio

                            z O Movimento Antropofgico
                                O que  antropofagia? E do Movimento Antropofgico, voc j ou-
                            viu falar? Este Movimento  iniciado em 1928 com o Manifesto Antro-
                            pofgico de Oswald de Andrade, no qual ironicamente ele se refere a
                            um episdio da histria do Brasil: o naufrgio do navio em que via-
                            java o bispo portugus Sardinha que, aps a sua morte, foi devorado
                            por ndios antropfagos. O movimento, nessa perspectiva, instaura a
                            "deglutio" de ideais e conceitos pr-formados pelos europeus, apro-
                            veitando-se do que h de bom e descartando o que no  de interes-
                            se nacional. Aceitavam uma Arte Europia, desde que fosse devorada,
                            digerida e transformada em produto nacional.
                                    Leia alguns fragmentos do Manifesto Antropofgico:


                                         "S a antropofagia nos une. Socialmente. Economi-
                                      camente. Filosoficamente".
                                         nica lei do mundo. Expresso mascarada de to-
                                      dos os individualismos, de todos os coletivismos. De
                                      todas as religies. De todos os tratados de paz.
                                           Tupy or not tupy, that is the question.
                                           (...)
                                          A nossa independncia ainda no foi proclamada.
                                      Frase tpica de D. Joo VI:  Meu filho, pe essa coroa
                                      na tua cabea, antes que algum aventureiro o faa!
                                           (...)
                                          Contra as sublimaes antagnicas. Trazidas nas
                                      caravelas. Contra a verdade dos povos missionrios,
                                      definida pela sagacidade de um antropfago, o Viscon-
                                      de de Cairu:   mentira muitas vezes repetida.
                                         Mas no foram cruzados que vieram. Foram fugiti-
                                      vos de uma civilizao que estamos comendo, porque
                                      somos fortes e vingativos como o Jabuti.
                                           (...)
                                            Antes dos portugueses descobrirem o Brasil, o Bra-
                                      sil tinha descoberto a felicidade.
                                           (...)

                                      < A alegria  aprova dos nove." O "Manifesto Antropofgico" Revista de Antropofa-
                                        gia n 1, em maio de 1928, apud ALAMBERT (2000, p. 75)




224 Movimentos e Perodos
                                                                                                                                    Arte

   Observe a obra O Abaporu  palavra que significa em tupi, "aque-
le que come"  de Tarsila do Amaral que inspirou o Movimento An-
tropofgico.

                                                                            O que mais chama a ateno nessa obra?
                                                                            Por que parece to estranha uma figura
                                                                        com a cabea to pequena em relao ao ta-
                                                                        manho do corpo e dos ps?
                                                                            Essa artista rompe com a representao
                                                                        da figura humana de acordo com o cnone
                                                                        clssico?
                                                                            Por que na opinio de Oswald de Andrade
                                                                        "s a antropofagia nos une"?
                                                                            Quais as conseqncias do conselho de
                                                                        D. Joo VI, contido nos trechos do Manifes-
                                                                        to Antropofgico, a seu filho D. Pedro para o
                                                                        Brasil?




< TARSILA DO AMARAL. Abaporu, 1928. leo s/ tela, 85 x 73 cm. Coleo
  particular.In: BEUTTENMLLER, Alberto. Prancha 5.


                                                                            Observe a obra de Gustavo Rosa, uma re-
                                                                        leitura do Abaporu, de Tarsila do Amaral.



                                                                         O artista
                                                                        Gustavo Rosa nasceu em 1946 em So Paulo. Dono de uma
                                                                        pintura ldica, irnica e ao mesmo tempo lcida, Rosa  uma
                                                                        das figuras mais conhecidas das artes visuais brasileira. Artista
                                                                        grfico, gravador e desenhista conquista pela simplicidade dos
                                                                        traos e pela originalidade.



                                                                            Para muitas pessoas releitura  sinnimo
                                                                        de cpia, no entanto, um artista s faz uma re-
                                                                        leitura quando aborda um mesmo tema, pin-
                                                                        tando-o  sua maneira ou ao seu estilo.  o
                                                                        caso do Abaporu, obra de Tarsila interpre-
                                                                        tada por Gustavo Rosa e transformada em
                                                                        Abadogu.
< GUSTAVO ROSA. Abadogu. leo sobre tela, 60 x 50 cm.


                                                                                     Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 225
       Ensino Mdio

                                  Observe novamente a obra Abaporu, de Tarsila do Amaral. Essa
                              obra teve um significado importante na constituio da Arte Moderna
                              Brasileira. Aquele que come, digere, transforma as influncias do mo-
                              delo de arte Moderna Europia e descarta o que no interessava.
                                  Descreva as figuras e o fundo das duas obras. Destaque semelhan-
                              as e diferenas. Quais elementos foram extrados e quais foram acres-
                              centados?
                                  Quais as cores predominantes no Abaporu e no Abadogu? Essas co-
                              res indicam o lugar onde esto essas figuras?
                                  O Abadogu  representado de acordo com padro de beleza vi-
                              gente? Quais as diferenas entre a representao da figura humana no
                              Abaporu e no Abadogu?
                                  Na sua opinio, qual o propsito dessa releitura de Gustavo Rosa?
                                  Abaporu significa em tupi "aquele que come". O que os artistas na
                              dcada de 1920 precisaram digerir?
                                  O que precisa ser transformado e digerido em nossa arte e em nos-
                              sa cultura tendo em vista os aspectos abordados em relao  busca de
                              nossa identidade cultural?



                      ATIVIdAdE

       Escreva um manifesto declarando seus direitos, desejos, crticas e ideais para o pas em que vive-
     mos.
          A partir dos questionamentos em relao ao padro de arte vigente e do modelo de sociedade bra-
     sileira, em grupo, elabore uma releitura do Abaporu de Tarsila usando como suporte um papel mais en-
     corpado. Misture as tcnicas, ou seja, recorte, cole, pinte e monte,  sua maneira e ao seu estilo, uma
     nova figura que sintetize na atualidade "aquele que come".
        Ateno! Para que seu manifesto se torne realmente uma declarao pblica leia-o para seus cole-
     gas. Exponha os trabalhos produzidos.



                              z O Brasil  brasileiro?
                                  Como  constitudo o povo brasileiro? Indgenas? Afros-descenden-
                              tes? Europeus? Orientais?
                                  O grande nmero de imigrantes que o Brasil recebeu foi um dos
                              fatores que acarretou toda essa diversidade cultural existente no pa-
                              s hoje. A imigrao para o Brasil foi significativa durante o perodo de
                              ps-guerra em razo do crescimento da economia do caf e do desen-
                              volvimento da indstria brasileira que sustentavam o pas. Muitos imi-



226 Movimentos e Perodos
                                                                                                                                                Arte

grantes europeus foram atrados, uns em busca de riquezas, outros fu-
gindo dos horrores da Primeira Guerra Mundial. Tanto as reas rurais,
quanto a urbana prometiam grandes possibilidades, principalmente, a
cidade de So Paulo que recebeu toda essa diversidade tnica que resul-
tou em uma riqueza cultural que se expressa por intermdio das artes.
   Observe a obra Operrios, de Tarsila do Amaral.




< TARSILA DO AMARAL. Operrios, 1931. leo s/ tela, 120 x 205 cm. Coleo Palcio de Vero do Governo do Estado de So Paulo, Campos do Jordo. In:
  BEUTTENMLLER, Prancha 6.




   Voc sabia que existe um museu na cidade de So Paulo chamado Museu da Imigrao? Pois
 ele existe desde 1993 e tem um compromisso com as novas geraes guardando em si contri-
 buies histricas e culturais para os que queiram, possam conhecer suas origens. O Memorial do
 Imigrante possui registros de hospedagem, Listas de Bordo dos navios que traziam os imigran-
 tes, documentos pessoais, fotografias, livros e revistas que retratam a vinda dos imigrantes para o
 Brasil. Existem vrias salas de exposio: a So Paulo antiga, a Sala da Navegao, Ambientes da
 Hospedaria. A exposio "Com o suor de seu rosto" que mostra o trabalho imigrante na cidade e
 a exposio "Ouro Negro" que conta a histria do caf.




                                                                                           Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 227
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

        Para Apreciar
        Observe a obra de Tarsila do Amaral e descreva os povos representados.
         Em que ambiente e de que forma essas pessoas foram retratadas? O que essa imagem diz da rea-
     lidade dessas pessoas?
         Observe as pessoas colocadas uma ao lado da outra, representadas como uma "multido". A artis-
     ta destaca as singularidades de cada etnia nesta "multido"?
         Essas pessoas parecem viver em harmonia? Existe preconceito racial em nosso pas? J presen-
     ciou esse tipo de preconceito? Como as pessoas reagem? E voc?
        Qual reflexo pode ser feita da disposio, no formato de pirmide, das figuras humanas?
        Destaque os sons que voc imagina existir na obra.
        D voz s pessoas representadas na obra e registre as suas "falas".
        Quais relaes podemos estabelecer entre a obra de Tarsila e a sociedade em que vivemos?


        Para Fazer
        Dividir a sala em grupos.
        Cada grupo ter dez minutos para improvisar uma encenao baseada na obra Operrios.
        Primeiramente, todos os grupos devem apresentar sua proposta.
        Em seguida, enfatizando o "burburinho da multido", realizar uma nica apresentao na qual todos
     os grupos repetiro os gestos que j haviam apresentado anteriormente.




                             z Um pas rico em estilos
                                    Voc j deve ter ouvido a expresso: "Esse cara tem estilo!"
                                    E voc, tem um estilo? Como voc descreveria o seu jeito de ser?
                                    Estilo pessoal  a mesma coisa que estilo em arte?

                                 Na arte, um estilo pode marcar uma poca como, por exemplo, o
                             Neoclssico e o Romntico no Brasil do sculo XIX. Pode ainda cor-
                             responder  forma singular de um artista compor com as linhas, os tra-
                             os, as cores, para representar artisticamente. O estilo  uma marca
                             pessoal.
                                 Na sua viso o "grito de independncia artstica da Semana de
                             1922" foi o primeiro passo na tentativa dos modernistas de criar um es-
                             tilo? Criar uma arte com contedo e forma nacional?


228 Movimentos e Perodos
                                                                                                        Arte

z A busca por uma forma
  e um contedo nacional
   A Semana de Arte Moderna do Brasil deu origem a uma verdadeira
exploso de estilos e de artistas vinculados a essa nova idia de arte.
Uma arte que retratasse as cores, a cultura, os temas e a vida do pas.
Dentre muitos, destacamos dois artistas que retrataram a alma do povo
brasileiro, cada um em seu estilo: Cndido Portinari e Alfredo Volpi.
   Portinari, voltado aos problemas sociais do pas, pintou quadros so-
bre a fome, a seca, a pobreza, o trabalho e as injustias. Observe sua
obra Os Retirantes:

                                                                     O Artista
                                                                    Cndido Portinari nasceu em Brods-
                                                                    qui, So Paulo em 1903 e morreu
                                                                    intoxicado pela tinta que usava para
                                                                    pintar suas obras em 1962. Alm de
                                                                    ser o primeiro artista a ser premiado
                                                                    fora do Brasil  o mais conhecido pin-
                                                                    tor modernista no exterior. Aos nove
                                                                    anos quando ajudou pintar o teto da
                                                                    igreja de sua cidade deu incio a sua
                                                                    carreira de pintor, ganhou aos dezes-
                                                                    seis anos uma bolsa para estudar na
                                                                    Escola de Belas Artes do Rio de Ja-
                                                                    neiro e o prmio de bolsa de viagem
                                                                     para a Europa.




                                                                   < CNDIDO PORTINARI, Os Retirantes, 1944.
                                                                     Painel leo sobre Tela, 190 x 180 cm. Mu-
                                                                     seu de Arte de So Paulo. Assis Chateu-
                                                                     briand, So Paulo.



    Seu estilo inconfundvel traz em si uma pintura inspirada no cubis-
mo de Picasso, mas extremamente brasileira, com temas e motivos que
retratam nossa realidade, como por exemplo, o quadro Os Retirantes
no qual retrata a seca do Nordeste do pas.
    "O pintor social acredita ser o arauto do povo, o mensageiro de
seus sentimentos.  aquele que deseja a paz, a justia e a liberdade. 
aquele que acredita que os homens podem participar dos prazeres do
universo." (Cndido Portinari)


                                                          Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 229
        Ensino Mdio

                                         Portinari aprendeu a pintar em Academias de Arte, primeiro no Rio
                                     de Janeiro e depois na Europa. Ainda na Europa, decidiu pintar a sua
                                     terra e a sua gente, firmando em sua obra o que disse Tolstoi:

                                             "Para ser universal, comece por falar de sua prpria aldeia".

                                       Alfredo Volpi foi outro artista que retratou em sua obra o imaginrio
                                     popular, a simplicidade do povo brasileiro, suas festas e suas crenas.
                                       Observe uma das suas obras:




     O Artista
    Alfredo Volpi nasceu em Lu-
    ca, Itlia em 1896 e mor-
    reu em 1988. Filho de imi-
    grantes chegou ao Brasil por
    volta dos dois anos de idade     < ALFREDO VOLPI, Mastro com Bandeirinhas, 1965 . Tmpera s/ tela. In: Exposio Alfredo Volpi: Mltiplas Faces. Pro-
    e adotou o novo pas como          jeto Arte SESC. Alfredo Volpi: Um Percurso Visual, p. 11.
    sua ptria. Comeou sua vida
    nas artes como pintor de fri-        De todos os artistas mencionados at agora, Volpi foi o nico que
    sos, flores e painis usados    no estudou em academia, aprendeu a pintar sozinho, um autodidata
    como pintura decorativa nas      que desenvolveu um estilo prprio. Produzia sua prpria tinta e suas
    paredes das casas. Passou a      telas. Foi o pintor que melhor retratou a simplicidade e as singularida-
    pintar quadros, que construa    des do povo brasileiro, a fachada das casas e as bandeirinhas que per-
    artesanalmente, montava o        manecem no imaginrio popular.
    quadro de madeira, esticava
    o tecido e produzia a prpria        Na sua opinio, tanto Portinari na obra Os Retirantes, quanto Volpi
    tinta. Sua pintura passou da     na obra Bandeira com Rosa e Verde retratam o Brasil?
    representao figurativa at a       Qual a diferena entre um artista que estudou em uma Academia e
     mais pura abstrao.            um pintor autodidata? Em sua cidade, existem pintores autodidatas?




230 Movimentos e Perodos
                                                                                                       Arte



                 ATIVIdAdE

    Vamos saber mais sobre os caminhos da Arte no Brasil?
     Divida a sala em dois grupos. Um grupo para as obras realizadas antes da Semana de 1922 e ou-
 tro para as obras de Arte Moderna, realizadas depois da Semana de 1922.
    Cada grupo observar atentamente as obras que lhe foram designadas, registrando no caderno to-
 das as suas caractersticas e peculiaridades: tema retratado, poca em que foi realizada, a disposio
 das figuras, as cores, as formas, as linhas, alm de outras informaes que queiram anotar. O que elas
 tm em comum?
    Apresente o levantamento das caractersticas das obras feito pelo grupo e discutam:
    A arte realizada antes da Semana de 1922  diferente da realizada depois? Por qu? No se esque-
 am de comparar todos os dados que foram levantados pelos dois grupos.
    Com qual estilo de Arte cada um se identificou? Por qu?
     Na sua opinio, qual desses estilos d visibilidade ao Brasil, um pas com caractersticas to singu-
 lares?



z Uma Arte (inter) nacional
    Poucas pessoas sabem da importncia de Anita Malfati, Tarsila do
Amaral, Volpi ou de Portinari. Exemplo disso  o roubo, encomenda-
do por estrangeiros, de algumas obras de Portinari. Os ladres brasi-
leiros, desconhecendo o valor das obras e do artista, deixaram-nas em
um canto qualquer, sem nenhum cuidado. Alis, a mulher de um dos
ladres disse que chegou a colocar uma das obras na parede, mas, de-
pois retirou, pois, na sua opinio, era "muito feia" e no "combinava"
com o sof.
    Mas, depois das reflexes estabelecidas, na sua opinio, o papel da
arte  combinar com o sof?
    Por que os estrangeiros reconhecem o valor da Arte Brasileira en-
quanto ns nem ao menos conhecemos os artistas que, por meio de
sua arte, se tornaram universais?
    Aps essa incurso na Semana de Arte Moderna de 1922 e dos fru-
tos que geraram, podemos dizer que existe uma Arte Brasileira? Por
qu?




                                                                 Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 231
       Ensino Mdio

                            z Referncias

                              ALAMBERT, F. A Semana de 22. So Paulo: Scipione, 2000.

                              BEUTTENMLLER, A. Viagem pela Arte Brasileira. So Paulo: Aquaria-
                              na, 2002.

                              BOSI, A. Histria Concisa da Literatura Brasileira. So Paulo: Cultrix,
                              2004.

                              BRITO, M. da S. Histria do Modernismo Brasileiro. Antecedentes
                              da Semana de Arte Moderna. 6 ed. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira,
                              1997.

                              FARACO. C. E.; MOURA, Francisco Marto de. Literatura Brasileira. So
                              Paulo: tica S.A., 1988.

                              MANGUE, M. D. Arte Brasileira para Crianas. So Paulo: Martins Fontes,
                              1988.

                              PROENA, M. das G. V. Histria da Arte. 4 ed. So Paulo: tica, Bra-
                              sil, 1994.

                              REZENDE, N. A Semana de Arte Moderna. So Paulo: tica, 2000.

                              TELLES, G. M. Vanguardas Europias e Modernismo Brasileiro. Ed.
                              Vozes: Rio de Janeiro, 1999.

                              VICENTINO, C.; DORIGO, G. Histria do Brasil. So Paulo: Scipione,
                              1997.

                              ZILIO, C. A Querela do Brasil. Rio de Janeiro: Edio Funarte, 1982.

                              Projeto Arte Brasileira. Modernismo. Local: FUNARTE, Ministrio da Cultu-
                              ra, 1986.

                              Exposio Alfredo Volpi: Mltiplas Faces. Local: Projeto Arte SESC. Al-
                              fredo Volpi: Um Percurso Visual.




232 Movimentos e Perodos
                                                   Arte



   ANOTAES




               Arte Brasileira: uma ilustre desconhecida 233
       Ensino Mdio




234 Movimentos e Perodos
                                                                                                       Arte




                                                                                         15
                                            ARTE DO PARAN
                                        OU ARTE NO PARAN?                           <Maysa Nara Eisenbach1




                                                              "Santo de casa no faz milagre!"
                                                              Voc concorda? E artista de casa?

                                                                    uando se trata de arte,  comum
                                                                     lembrar de Leonardo Da Vinci,
                                                                     Van Gogh, Salvador Dali... Mas
                                                                    e Erbo Stenzel? Lange de Morre-
                                                                        tes? Carmen Carini? Voc j
                                                                        ouviu falar?




1
 Colgio Estadual Campos Sales - Campina Grande do Sul - PR

                                                                           Arte do Paran ou Arte no Paran 235
        Ensino Mdio

                                             Entre os sculos XVI e XIX, os viajantes que passaram pela regio
                                         que hoje se chama Paran registraram suas impresses em forma de pin-
                                         tura, porque, nesse perodo, ainda no existia a fotografia por aqui.
                                             O primeiro pintor a fixar morada no Paran foi Guilherme Frederico
                                         Virmond. Chegando aqui em 1833, o alemo Virmond  que era poliglo-
                                         ta, estudioso de zoologia e msica e desenhista de charges  foi o pri-
                                         meiro a retratar a "gente paranaense". So dele, tambm, as mais antigas
                                         charges que por aqui apareceram. (Revista Referncia em Planejamento, Vol. 3, n. 12, p.20)
                                             A primeira escola de arte do Paran, a Escola de Artes e Indstrias,
                                         foi criada pelo artista portugus Mariano de Lima em 1886. Apesar de
                                         no ter sobrevivido por muito tempo, esta escola foi muito importante
                                         para o desenvolvimento da Arte Paranaense, pois revelou artistas co-
                                         mo Zaco Paran e Joo Turin, que so reconhecidos at hoje.
                                             O pintor Alfredo Andersen teve grande importncia na formao de
                                         diversos artistas que freqentavam seu atelier. O prprio Alfredo An-
                                         dersen foi considerado, posteriormente, "o pai da pintura paranaense",
                                         tanto por sua obra artstica quanto por suas propostas educativas.



                                         z Alfredo Andersen: o mais paranaense
                                           entre os noruegueses




     < ALFREDO ANDERSEN, Queimada ou Lavadeiras. leo sobre tela. 91,5 X 153 cm. Acervo do Palcio Iguau, s/data (provvel do Incio do Sculo XX).

236 Movimentos e Perodos
                                                                                                                             Arte

 O artista
Alfredo Andersen nasceu em Kristiansand na Noruega, em 03 de novembro de 1860. Ningum sabe ao certo como se deu sua for-
mao artstica, o que se sabe  que em 1879, foi transferido para a Dinamarca e, em 1891, iniciou uma longa volta ao mundo. Nes-
ta viagem, possivelmente tenha estado no Mxico e posteriormente no Brasil. Depois, retornando ao Velho Mundo, conheceu quase
todos os pases europeus, indo visitar ainda a frica e a ndia.
Ao retornar  Amrica, com destino em Buenos Aires, houve um acidente de navio e este acabou por descer em Paranagu.
Alfredo Andersen apaixonou-se de tal forma pelo Paran, que aqui se casou com dona Anna Oliveira, indo viver em Curitiba em 1903,
e, quando em 1927 foi convidado pelo governo noruegus para retornar  sua terra e lecionar na Escola de Belas Artes de Oslo, re-
cusou o convite, pois j se sentia um brasileiro.
Aqui montou cursos de artes nos quais formou diversas geraes de importantes artistas paranaenses, destacando-se entre eles Lan-
ge de Morretes.
Alfredo Andersen veio a falecer dia 08 de agosto de 1935, vtima de uma broncopneumonia, mas sua obra pode at hoje ser apre-
ciada no Museu Alfredo Andersen, em Curitiba.




z Paranismo, um movimento paranaense
    Voc  paranista?
    Se voc est relacionando o termo "paranista" ao time de futebol
conhecido como "Paran Clube", voc est enganado, no  de espor-
te que estamos falando, mas de um movimento pouco conhecido, mas
muito importante.
     "Paranista  aquele que em terras do Paran lavrou um campo, vadeou
 uma floresta, lanou uma ponte, construiu uma mquina, dirigiu uma fbri-
 ca, comps uma estrofe, pintou um quadro, esculpiu uma esttua, redigiu
 uma lei liberal, praticou a bondade, iluminou um crebro, evitou uma injusti-
 a, educou um sentimento, reformou um perverso, escreveu um livro, plan-
 tou uma rvore". (MARTINS, Romrio in: Trindade e Andreazza, 2001, pg 91)

    O Paranismo foi um movimento regionalista ocorrido entre as d-
cadas de 1920 e 1940, conduzido por um grupo de intelectuais que
procurava cultuar e divulgar a histria e as tradies do Paran, in-
centivando a construo de uma identidade regional, impregnada pe-
la crena no progresso e no desenvolvimento social que foram carac-
tersticos na Primeira Repblica.
    Apesar desta busca pelas razes paranaenses, o Movimento Paranis-
ta acolhia tambm emissores que no estavam ligados  terra pelo nas-
cimento, mas que eram defensores do processo de Emancipao do
Estado, como o mineiro Cruz Machado e o paulista Carneiro de Cam-
pos.
    O Movimento Paranista contou com a participao de vrios litera-
tos como Romrio Martins, Euclides Bandeira, Dario Vellozo e Rodri-
go Jnior.

                                                                                        Arte do Paran ou Arte no Paran 237
       Ensino Mdio

       Na rea das Artes Visuais, envolveu reconhecidos artistas do Estado, como Joo Turin, Ghelfi
   e Lange de Morretes. Sua produo envolveu vrios projetos: luminrias, bancos de praas, in-
   dumentrias, ilustraes, colunas, fachadas, jazigos, residncias, esculturas, relevos, murais e at
   caladas, todas representando a Araucria, a pinha e o pinho, enfim, smbolos do Paran.
       Nem todas as obras projetadas foram executadas, parte por falta de arquitetos que aderis-
   sem ao movimento, parte por falta de vontade poltica dos governantes da poca.
       Entretanto, as pinhas confeccionadas como mosaicos que podem ser vistas at hoje no cal-
   amento da Rua XV de Novembro, no centro de Curitiba, tornaram-se "... um cone ou logoti-
   po da cidade..." (ARAJO, 1994, p. 06)
       Historicamente, o termo Paranismo tem origem no Tropeirismo, para designar os habitan-
   tes da regio, ainda antes da criao da provncia do Paran em 1853. Segundo Romrio Mar-
   tins, historiador e grande estruturador do Movimento Paranista:

         "O vocbulo "Paranista" foi proferido pela primeira vez em 1906, por Domingos Nascimento, aps
     viagem ao Norte do Paran, onde notava que ningum nos chamava de "paranaenses" e sim de "para-
     nistas". Em 1927, portanto, 21 anos depois, Romrio Martins retoma o termo, cujo sentido, porm ul-
     trapassa o nativismo para ganhar uma conotao filosfica, existencial, esttica, poltica, social e eco-
     nmica..." (ARAJO, 1994, pag. 06)


       A primeira representao plstica Paranista foi feita por Joo Turin em 1923, num baixo re-
   levo para a sepultura de Andr de Barros. Foram executados tambm os projetos do Salo Pa-
   ranaense, na antiga sede do Clube Curitibano; a Casa Leinig, na Rua Jos Loureiro; e o prprio
   atelier do artista, na Rua Sete de Setembro, todos j demolidos. "Quer dizer, Curitiba no foi ca-
   paz de preservar sua memria sequer um sculo". (ARAJO, 1994, pag. 06)
       De Lange de Morretes, restam as citadas caladas, em petit pav, utilizando a representao
   geomtrica de pinhas e pinhes, executada pela Prefeitura de Curitiba.
       O Paranismo perdurou at os anos 1940, quando, no governo centralizador de Getlio Var-
   gas, o regionalismo j no era bem visto pelo governo, mesmo assim, podemos considerar que
   o sentimento Paranista permanece vivo em cada pessoa, mesmo sem ter conhecimento desse
   movimento cultural.

        "Regionalismo: doutrina poltica e social que favorece interesses regionais".(Houaiss, 2001)
          Regio pode ser compreendida como uma construo histrica (...),  a conscincia social de um
     espao fsico e suas relaes ideolgicas e pode ser tambm um espao de disputas de poder. "Es-
     ta ideologia elaborada, portanto, a partir do substrato regional, com um fim especfico, constitui uma di-
     menso do Regionalismo, que se manifesta como conscincia regional". (CASTRO, 1992, p.36)




    z Lange de Morretes e as caladas de Curitiba
       Voc j viu os pinhes representados nas caladas da Rua XV de Novembro em Curitiba?



238 Movimentos e Perodos
                                                                                                                            Arte



                             ATIVIdAdE

     Observe o trabalho de geometri-
 zao do pinho que Lange de Mor-
 retes (1892-1954) fez para as cala-
 das do centro de Curitiba. Veja como
 ele conseguiu por meio da estilizao
 a representao do pinho que aca-
 bou se tornando um smbolo do Pa-
 ran.
     Agora  sua vez. Escolha um ele-
 mento que represente a arquitetura, a
 fauna ou a flora de sua cidade, enfim,
 algo que a simbolize.
     Faa um desenho simples des-
                                      < LANGE DE MORRETES. Abstrao do Pinho na Calada de Curitiba. Foto: Icone Audiovisual.
 te smbolo e com o auxlio de rgua,
 compasso e esquadros, simplifique-o.
    Faa uma composio repetindo a figura simplificada. Represente-a de vrios tamanhos e se quiser,
 sobreponha uma representao  outra. Pinte com cores que se relacionem  temtica escolhida.


 O Artista
Lange de Morretes (1892  1954) alm de artista foi tambm cientista e procurou a perfeio
em ambas as profisses. Tornou-se internacionalmente conhecido em Malacologia (ramo da zoo-
logia que estuda os moluscos).
No ramo das artes, tinha preferncia pelo gnero paisagstico no qual fazia as representaes com
caractersticas ao mesmo tempo realistas e impressionistas. Alm disso, manteve, at 1935, uma
escola de desenho e pintura, onde tiveram incio o escultor Erbo Stenzel, os pintores Arthur Nisio,
Kurt Beiger, Augusto Comte, Waldemar Rosa e Oswald Lopes (pintor e escultor), entre outros.
Mais tarde, por divergncias polticas com Manoel Ribas, transfere-se para So Paulo, retornando
ao Paran somente em 1946, aps a morte do mesmo, quando, com a ajuda de Bento Munhoz da
Rocha, consegue colocao no Museu Paranaense e assim d prosseguimento s suas pesquisas.
Em suas ltimas obras transparece, porm, um grande pessimismo, que revela o estado depressi-
vo que se encontrava o artista no final de sua vida. (Referncia, Vol. 3, n 12, pag. 25)
 curiosa uma histria do artista, contada por Constantino Viaro, que certo dia, teria surpreendido os
amigos afirmando: "Vou morrer no dia tal e gostaria de ser enterrado em Morretes, em p, olhando
para o Marumbi". Ningum levou o caso a srio, mas ele, para surpresa de todos, inexplicavelmen-
te, morreu no dia marcado. As pessoas que o viram prever a morte chegaram a pensar em suicdio,
mas depois essa hiptese foi descartada, ficando somente o mistrio. (VIARO, 1996, pag.86)
Falecido, ento, a 20 de janeiro de 1954, a famlia satisfez seu ltimo desejo, enterrando-o em
p, dentro de duas manilhas de cimento, com o rosto voltado para o Pico do Marumbi. (Refern-
cia, Vol. 3, n 12, p. 25)




                                                                                              Arte do Paran ou Arte no Paran 239
       Ensino Mdio

                                 z Joo Turin
                                     Este artista ficou reconhecido por meio de seu estilo "animalista",
                                 do qual h vrias obras expostas em espaos pblicos, como o Tigre
                                 Esmagando a Cobra, Luar do Serto e tambm bustos e esttuas.
                                     Alm de esculturas, Turin tambm se dedicou  pintura, segundo
                                 ele, sem a inteno de competir com os pintores.




              O Artista
             Joo Turin (1878  1949) foi um menino de origens humildes. Sua fa-
             mlia, de imigrantes italianos, desembarcou em Paranagu em 1877.
             Um ano depois, nasceu Joo Turin.
             Mais tarde, a famlia transferiu-se para o "friozinho" de Curitiba, on-
             de desde cedo, Joo Turin exerceu vrios ofcios: ferreiro, marcenei-
             ro, entalhador, escultor. Certa vez, disse: "a misria, a fome e o frio
             me puseram em m situao que, se no fora o amparo de Za-
             co Paran (colega na Escola de Artes e Indstrias), (...) auxi-
             liando-me e comprando-me um sobretudo, certamente eu te-
             ria morrido de fome" [pois comprando um sobretudo, no lhe
             sobraria dinheiro para comprar alimentos]. (Referncia, Vol. 3, n
             12, pag. 29)

             Apesar de sua vida um tanto quanto difcil, freqentou em
             Curitiba a Escola de Belas Artes e Indstrias do Paran e
             o Seminrio Episcopal. Mais tarde, foi para a Europa onde
             executou as obras: Exlio, Piet (1912) e Tiradentes (1922),
             recebendo boas referncias da imprensa francesa.
             Chegou a trabalhar em um jornal (Le Martin) e como vo-
             luntrio no Hospital 50 da Cruz Vermelha, no perodo da
             1 Guerra Mundial.
                                                                                          < Foto: Icone Audiovisual.




                                 < JOO Turin. Dante Alighieri.
                                   Escultura em gesso. 0,940 x
                                   0,280 x 0,410 m. Acervo: Casa
                                   Joo Turin.




240 Movimentos e Perodos
                                                                                            Arte

   Observe este homem, representado por Joo Turin. Como voc o
descreveria?
   O que parece estar pensando? Que livro ele segura?
   Esta escultura representa um grande artista italiano. Quem foi ele?
   Sua obra mais importante chama-se A Divina Comdia, e  dividida
em trs partes: Cu, Purgatrio e Inferno, nas quais Dante conta que
sob a companhia de Virglio (poeta grego), visitou a cada um destes
lugares, sob a proteo de sua eterna amada Beatriz.
    interessante destacar que Dante Alighieri de Joo Turin  inspi-
rado nas gravuras de Gustave Dor que ilustram o livro A Divina Co-
mdia.
   Voc j ouviu a expresso "Inferno de Dante"?



z Dante Alighieri e a Divina Comdia
    Dante Alighieri nasceu em Florena, em maio de 1265. Embora te-
nha amado e servido  ptria florentina em vrias reas, como na guer-
ra, no gabinete, na poltica e na poesia, em 1302  condenado e exi-
lado renunciando ao seu perdo. Por esse motivo amaldioou sua
Florena, situando-a em seu livro no fundo do Inferno.
    Em 1289, apaixonou-se por Beatriz, que mais tarde, aos 24 anos
morre, esposa de outro homem. Tal era a tristeza incontrolvel de Dan-
te que os amigos pensaram que morreria de tanto sofrer.
    Apesar disso, casou-se com Gemma di Manetto Donati e com ela
teve trs filhos. "De qualquer modo, resultou o maior adltero espiri-
tual da histria da poesia: a esposa e os filhos sequer so menciona-
dos em sua obra". (DONATO, 1981)
    Dante faleceu em 14 de setembro de 1321 deixando as seguintes
obras: Vita Nuova, Convvio, De Vulgari Eloquentia, Monarchia, Qua-
estio de Aqua et Terra, Epstolas e A Comdia, que s mais tarde, aps
1555, Giovani Boccatio adicionou ao nome um adjetivo que a obra re-
almente merecia: Divina, Divina Comdia!



z Um pedao do inferno
    Boa parte da imaginao crist que temos hoje do cu, do inferno e
do purgatrio nos  trazida por interpretaes da Divina Comdia. Sua
obra  to importante que o Papa Bento XV (Papa entre 1914 e 1922)
chegou a apont-la como uma espcie de Quinto Evangelho (os "ou-
tros" quatro so Mateus, Marcos, Lucas e Joo).



                                                                Arte do Paran ou Arte no Paran 241
       Ensino Mdio

                               Observe ento, este trecho da Divina Comdia em que Dante nar-
                            ra o "... terceiro giro do Crculo stimo, no qual se encontram os vio-
                            lentos contra Deus, a arte e a natureza, continuamente fustigados por
                            uma chuva de fogo".


                                         7   Para deixar patente o que ocorria,
                                             explico que chegamos a uma landa
                                             em que nenhuma planta ou flor crescia. (...)


                                         13 Estendia-se a areia espessa e brava,
                                             semelhante  do inspito deserto
                                             que, a p, Cato outrora prelustrava.


                                         16  vingana de Deus, quanto, decerto,
                                             sers temida pelos que ora lendo
                                             vo tudo o que ali vi, de olhar desperto!


                                         19 Eram almas desnudas, que, gemendo,
                                             vrios grupos formavam tristemente,
                                             como a norma diversa obedecendo. (...)


                                         25 A que gira  no nmero crescida
                                             mais que as outras, que imveis, no tormento,
                                             gritam bem mais, a lngua desprendida.


                                         28 Sobre o deserto desabava lento
                                             um temporal de lminas ardentes,
                                             tal no alto a neve, quando para o vento. (...)


                                         37 - assim caa ali o fogo o horror;
                                             e a areia ardia, tal a isca fulgura
                                             sob o fuzil, dobrando-lhes a dor.
                                                    (DONATO, 1981, pag. 221 e 222)




                                Claro que para se ter uma compreenso mais profunda da dimen-
                            so da Divina Comdia no basta ler alguns destes versos,  impor-
                            tante conhecer a obra completa, mas estas estrofes podem servir para
                            ativar nossa imaginao e para que se compreenda porque Joo Turin
                            resolveu representar seu autor.

242 Movimentos e Perodos
                                                                                                                               Arte



                    ATIVIdAdE

     Voc deve ter percebido que o texto de Dante Alighieri  potico, e divide suas estrofes sempre em
 trs versos rimados. A linguagem tambm  bem diferente da usual, j que o livro foi escrito por volta
 de 1300.
     Transforme a citao do texto de Dante em prosa. Compare os dois textos. Voc precisou fazer mui-
 tas modificaes? Por que foram necessrias?
    E voc, como imagina o inferno? Semelhante a este trecho que Dante descreve? Sim ou No? Por
 qu?
      Nos perodos Renascentista e Barroco, voc encontrar vrias obras representando o inferno, que
 tal pesquisar?




z Guido Viaro: pintura e a preocupao social
    Viaro adorava retratar as paisagens do Paran. No incio de seu tra-
balho, sua linguagem era praticamente impressionista, porm, mais
tarde em razo da "paixo por ser gente, seu gosto de conversar com
as pessoas simples dos arrabaldes da cidade, da favela, os operrios
que sobrevivem na periferia da cidade, o agricultor, a lavadeira, o po-
vo", tornou-se mais expressionista, demonstrando assim sua preocu-
pao social com a humanidade. (Referncia, Vol. 3, n 12, p.107 e 161)
    Como artista e professor, experimentou diversas tcnicas: escultu-
ra, monotipia, zincogravura, gua-forte, ponta-seca, mas o desenho e
a pintura a leo foram sempre as suas grandes paixes. Foi desta for-
ma que representou o aspecto social em cenas da vida urbana e rural,
sempre com grande inquietao tanto em relao  temtica, quanto 
composio e tcnica.


 O Artista
Guido Viaro (1897  1971) nasceu na Itlia, mas escolheu a cidade de Curitiba no Paran para viver, por este motivo  tido como
um artista paranaense. Alm de pintor, foi tambm educador, lecionando arte para crianas e mais tarde na Escola De Msica e Be-
las Artes do Paran  EMBAP, o que resultou na criao do Centro Juvenil de Artes Plsticas, em Curitiba.
Devido  sua paixo pela arte, Guido sentia muita vontade de viajar, j que assim teria a oportunidade de conhecer a arte produzida
por vrias culturas. Certa vez, quando saiu de casa a pedido de sua me, para comprar carne, encontrou um piloto de corridas que o
convidou para ir junto com ele para Paris: "e l se foi com o novo amigo para a terra que tanto desejava conhecer. Ficou trs meses
em Paris. Passou fome. Fez trabalhos alternativos, mas conheceu o grande e importante movimento artstico francs da poca. Trs
meses depois, voltou para casa com o pacote de carne que a me tinha encomendado". (Referncia, Vol. 3, n 12, p.38)




                                                                                         Arte do Paran ou Arte no Paran 243
        Ensino Mdio

     Guido Viaro chegou ao Paran de passagem, para observar e retratar as belezas locais. Mas, em Curitiba, quando viu passar pela
    rua XV o grande amor de sua vida  Yolanda  mudou de idia e ficou por aqui at o fim de sua vida.
    Em sua primeira exposio em Curitiba, era evidente a influncia da Arte Moderna, nova para os conceitos da poca que s admi-
    tiam o figurativismo acadmico. Desta forma sua exposio no teve boa repercusso. Revoltado com seu insucesso, Guido fez uma
    nova exposio na qual mostrou quadros figurativos de pinheiros e aquarelas bem suaves, dentro do gosto da poca. Esta exposio
    foi um sucesso total, tanto que todos os trabalhos foram vendidos. Indignado, publicou um artigo no jornal O Dia, "criticando a sua
    prpria pintura, dizendo que aquilo no era arte, arte sim, eram os trabalhos que mostrara anteriormente. Devido  sua prpria crtica,
    alguns vieram devolver os quadros comprados". (Referncia, Vol. 3, n 12, p.:67 e 68)
    Este "ato de rebeldia" foi importantssimo para o rompimento da Arte Paranaense com o passado e aceitao de uma linguagem ar-
    tstica mais contempornea. Nesta direo, criou tambm a primeira Escolinha de Arte no Brasil, pois julgava que as crianas absor-
    veriam melhor sua inteno artstica. "A escolinha no tinha por objetivo fazer artistas, mas, sim, criar o gosto pela Arte mediante o co-
    nhecimento mais amplo de todo o processo criativo". (VIARO, 1996, p. 68 e 69)
    Em 1970, quando morreu sua amada esposa Yolanda, Guido Viaro definhou, no por doena, mas por tristeza, e "meses depois,
    veio a falecer, deixando a clara convico de que, neste mundo e neste sculo, ainda existe gente sensvel que morre de amor". (VIA-
    RO, 1996, p.186)




                          ATIVIdAdE

                                                                               Observe a tela de Guido Viaro. Que tipo de pai-
                                                                            sagem ele est representando rural ou urbana?
                                                                                 Como  este local?
                                                                               O que voc sente observando esta paisa-
                                                                            gem? Tristeza, alegria, solido...
                                                                               Ela lembra algum lugar que voc conhece?
                                                                            Qual? Como so as pessoas que vivem neste lu-
                                                                            gar? Elas parecem felizes ou tristes?
                                                                                Depois de refletir sobre esta obra, o que vo-
                                                                            c acha que o autor quis retratar a? Ser que
                                                                            somente uma paisagem ou tem uma mensagem
                                                                            por detrs da obra? Qual?




     < GUIDO VIARO. Paisagem n 2. leo sobre Tela. 60 X 70 cm. 1971
        Museu Oscar Niemeyer, Curitiba Paran.




244 Movimentos e Perodos
                                                                                                               Arte

z Zaco Paran
    A obra-prima de Zaco Paran  a escultura O Semeador, localizada
na Praa Eufrsio Corra, em Curitiba-PR, por este motivo, tambm co-
nhecida como "Praa do Semeador". Esta  "considerada uma das mais
belas esculturas do sul do pas. Obra vigorosa  extraordinria por sua
fora contida e a profunda compreenso das razes da alma do povo".
Entretanto, mesmo estando ao lado da Cmara Municipal de Curitiba 
onde se concentra grande parte do poder poltico da capital paranaen-
se, permanece esquecida, escondida entre as rvores e habitada pelas
mariposas. (Referncia, Vol. 3, n 12, pg 29)

                                       O Artista
                                       Jan Zack (1884  1961) era polons e ainda criana veio residir no Brasil.
                                       Em gratido  terra que o acolheu, naturalizou-se brasileiro adotando o nome
                                       de Joo Zaco Paran.
                                       De origem humilde, vendia suas prprias esculturas na estao de Restinga
                                       Seca, que se localizava no municpio de Porto Amazonas  PR (foi desativada
                                       em 1914). O banqueiro Sr. Solheid ficou maravilhado com suas obras e con-
                                       venceu seus pais a deixarem o menino Zac passar a residir em Curitiba, para
                                       que completasse seus estudos.
                                       Estudou ento na escola Mariano de Lima. Depois, com bolsa de estudos ce-
                                       dida pelo Governo do Estado, aperfeioou-se na Escola de Belas Artes do Rio
                                       de Janeiro e posteriormente em Bruxelas, e na Itlia, na Escola Superior de
                                       Belas Artes.




                                                                      ATIVIdAdE

                                                      Observe com ateno o personagem repre-
                                                   sentado na obra O Semeador:
                                                      Na sua opinio, qual  mensagem que passa a
                                                   escultura de Zaco Paran?
                                                      Como smbolo do Paran, O Semeador signifi-
         < Foto: Icone Audiovisual




                                                   ca mais do que algum que cultiva a terra. O que
                                                   mais representa o ato de "semear"?




                                              < JOO ZACO PARAN. O Semeador,
                                                escultura. Curitiba.


                                                                          Arte do Paran ou Arte no Paran 245
         Ensino Mdio

                                         z O Pr-Modernismo Paranaense
                                             Foi a literatura paranaense a primeira a demonstrar, j na dcada de
                                         1920, sinais de modernismo. A msica e as artes plsticas mantiveram-
                                         se mais conservadoras, afinal, Curitiba, nesta poca no fazia parte dos
                                         "centros urbanos" brasileiros, onde ocorriam a maior parte das novida-
                                         des artsticas, era uma capital muito tranqila e conservadora. "Como
                                         refletir os dramas e neuroses de uma civilizao tecnolgica em meio
                                         a tanta paz"? (Referncia, Vol. 3, n 12, p. 32)
                                             Observe as imagens abaixo, e veja a diferena de Curitiba naquela
                                         poca e hoje em dia.




                                                                                                                     < Fotos: Icone Audiovisual.
     < GUIDO VIARO, Minha Rua. leo sobre Tela, 60x70 cm. Curitiba.   < Foto: Rua Angelo Sampaio - em 2006.


                                             Duas dcadas depois, em 1940, Curitiba j est num novo ritmo de
                                         vida, mais agitado e urbano. Nesta poca, trs artistas da nova gerao
                                         vo dar um salto definitivo na Arte Paranaense: Poty Lazzarotto nas Ar-
                                         tes Plsticas, Dalton Trevisan, e Adalto Arajo, na Literatura. A temti-
                                         ca era profundamente social, tirada do cotidiano, deixava transparecer
                                         a angstia de sua poca, o que  evidente principalmente em Dalton
                                         Trevisan.
                                              tambm nesta poca que surge a revista O Joaquim de grande im-
                                         portncia para o cenrio cultural paranaense.



                                         z O Joaquim independente
                                             A edio n 01 de O Joaquim foi lanada em abril de 1946. Uma de
                                         suas caractersticas mais marcantes  a sua independncia, tanto filos-
                                         fica quanto econmica, j que quem a financiava era Dalton Trevisan.


246 Movimentos e Perodos
                                                                                                                                           Arte

    Como a revista no seguia padres, era "livre" para expor suas idias
que propunham uma ruptura com a hipocrisia do passado.  revista ca-
bia proliferar idias que enterrassem os mitos ultrapassados de mode-
los acadmicos de Arte e matar os monstros consagrados, atualizan-
do a Arte Paranaense com o seu tempo.
    Alm da participao dos mais representativos crticos paranaen-
ses, como Temstocles Linhares e Wilson Martins, O Joaquim contou
com textos de Dalton Trevisan (proprietrio), a ilustrao de Poty
Lazzarotto, Guido Viaro, Euro Brando, Esmeraldo Brasi Jr., e




                                                                                                                                  isual.
ainda com as contribuies de Erasmo Pilotto (diretor), Cassia-




                                                                                                                              udiov
no Ricardo e Srgio Millet e Antonio P. Wagner (gerente).




                                                                                                                          one A
    Infelizmente, na atualidade, a revista O Joaquim no 




                                                                                                                        oto: Ic
mais publicada, porm podemos encontrar suas edies para




                                                                                                                      <F
consulta local na Biblioteca Pblica do Paran. Vale a pena conferir.




                   ATIVIdAdE

    Que tal montar uma revista sobre arte em sua sala? Renam-se em grupos e tragam textos comen-
 tando sobre eventos culturais e sobre a arte de sua regio. Podem ser crticas elaboradas por vocs
 mesmos ou por outros autores, bem como propaganda de eventos que ainda esto por acontecer.
     Certamente tambm h na turma pessoas que gostem de desenhar. Eles podem ser os ilustrado-
 res da revista que se for feita em preto e branco pode ser facilmente multiplicada na forma de fotocpias
 para os colegas de toda a escola.
     Como exemplo, observe a entrevista de Poty Lazzarotto a Erasmo Piloto:

             "Falta-nos "importao". Parece que nos contentamos sempre com a "prata da casa" sem nos preocupar-
            mos em saber se ela  mesmo boa. Alm disso, os capites do atual selecionado cultural paranaense teimam
            em confundir conservantismo com tradio. Acredito que tradio  uma coisa que nos ajuda a caminhar 
            frente e no a adorao e a repetio do que j foi feito.
            Se a obra de algum no presta no precisa da propaganda dos amigos para ficar. Assim, em vez de banque-
            tes e homenagens sem expresso, gastemos dinheiro... voc entende.
            No creio que mandar vir de fora diminua o valor de outros artistas, ou diminua nossa cidade. Os mineiros
            apesar de possurem Ouro-Preto, os Aleijadinho, levaram para l os Niemeyer, os Portinari, etc., sem esquecer
            os seus prprios artistas, como Ceschiatti, como prmio de viagem  Europa". (Referncia, Vol. 3, n 12, p. 41)



     Sobre o que trata a entrevista? Destaque seu tema.
   Observe que o tema diz respeito ao cenrio artstico paranaense, objetivo da revista O Joaquim. Da
 mesma forma, para escrever um texto  necessrio ter clara qual a temtica de sua revista.
     E agora, que tal escrever um texto sobre arte para a revista da turma?


                                                                                          Arte do Paran ou Arte no Paran 247
       Ensino Mdio

                            z Poty e os murais
                               Atualmente, a maioria dos murais encontrados em Curitiba so de
                            autoria de Poty. Sua obra, de carter expressionista, demonstra realis-
                            mo social, o nativismo paranaense e ainda faz aluso ao fantstico.




                                   < POTY LAZAROTTO. Essa gente de Curitiba,1995, mural em Curitiba.




                                   O Artista
                                   Napolen Potyguara Lazzarotto (1924  1998), ou Poty, como  mais co-
                                   nhecido,  tido como o maior criador artstico paranaense de sua gerao,
                                   tendo obras expostas em vrios locais do Brasil. Foi ilustrador e muralista,
                                   com a produo mais vasta at hoje concebida por um artista paranaense.
                                   Seu primeiro mural surgiu graas ao artista Erbo Stenzel, que sugeriu ao en-
                                   to governador paranaense Bento Munhoz da Rocha, a participao de Poty
                                   nos trabalhos a serem realizados na Praa 19 de Dezembro, em Curitiba-PR,
                                   em comemorao ao Primeiro Centenrio do Paran, em 1953.
                                   A partir da, foi o artista preferido pelo Poder Pblico na produo de murais.
                                   O turista, que desembarca no Aeroporto Internacional Afonso Pena, em So
                                   Jos dos Pinhais, j se depara com os murais O Eterno Sonho (1981) so-
                                   bre a Histria da Aviao e Aeroporto: A Porta para o Mundo (1996). Se for
                                   ao Teatro Guara em Curitiba, encontrar outro na fachada do prdio sobre a
                                   Histria do Teatro, e mais um chamado Cortina Corta-Fogo, na Boca do Pal-
                                   co, no auditrio "Bento Munhoz da Rocha".
                                   A obra de Poty no se encontra somente em Curitiba, pode ser vista em So
                                   Jos dos Pinhais, na Lapa (Parque dos Tropeiros), em Maring e at mesmo
                                   no Rio de Janeiro, em Copacabana.




248 Movimentos e Perodos
                                                                                                         Arte

z Essa Gente de Curitiba
    Se voc mora em Curitiba, ou na regio metropolitana, fica fcil identificar as representa-
es de Poty referentes aos pontos tursticos da cidade. Se voc no mora, a vai uma dica:
    A representao da Igreja da Ordem, que hoje funciona como Museu de Arte Sacra, e tam-
bm  sua frente, est um bebedouro para animais, ambos localizados no Largo da Ordem.
    Continuando, aparecer uma segunda igreja. Esta  a Catedral Baslica Menor de Nossa Se-
nhora da Luz de Curitiba, localizada na Praa Tiradentes.
    Alm dos pontos tursticos citados, que outras figuras voc v nesta obra? Na sua opinio,
o que significam?
    No mural Essa Gente de Curitiba esto representadas diferentes pocas da Histria do Para-
n. Quais podem ser identificadas?
    A Catedral possui sinos que tocam de hora em hora. Observe, os relgios representados no
mural. Que horas cada um deles est marcando? Quais seriam os motivos que levaram o artis-
ta a marcar estes horrios? Qual sua opinio?
    Agora, observe as linhas utilizadas. Esse tipo de linha, com bastante movimento e expressi-
vidade  caracterstico nas obras de Poty. Voc prefere este tipo de linhas numa representao,
ou linhas mais suaves, quase diludas, como nas obras mais acadmicas?
    Se voc quer saber mais e ainda ver fotos deste e de outros pontos tursticos de Curitiba,
pode consultar o site: <http://www.curitiba-parana.com>, acesso em 20/10/2005.




                 ATIVIdAdE

    A linha pode expressar sentimentos? Faa o teste:
     Pense numa situao que lhe provoque raiva. Concentre-se neste sentimento e escreva: raiva.
     Pense em algo que o deixe muito triste, pequeno, angustiado. Concentre-se neste sentimento e es-
 creva: tristeza.
     Compare as duas folhas escritas. A letra saiu igual?
     Agora responda: a linha pode expressar sentimentos?
    Com base na obra de Poty, faa com sua turma, uma composio monocromtica, para represen-
     tar pontos importantes e a histria de sua cidade.
     Cada um deve fazer a sua lista com fatos e locais mais importantes do local, depois, renam as lis-
 tas de toda a turma, observando os pontos mais citados.
     Em grupos, elejam os aspectos e figuras que melhor representam estes pontos. Faam rascunhos
 das figuras escolhidas, experimentando diversos tipos linhas: forte, fraca, segmentada, mais grossa,
 mais fina, regular, irregular, com tipos de lpis, pincis e canetas diferentes, etc. Testem tudo o que vo-
 cs puderem.
     Elejam o tipo de linha que melhor represente a atmosfera de sua cidade e com elas elaborem pai-
 nis que a representem.



                                                                          Arte do Paran ou Arte no Paran 249
                  Ensino Mdio

                                    z Erbo Stenzel e os monumentos que a maioria
                                      conhece e a minoria sabe quem criou




                                                                                                                                            < Foto: Icone Audiovisual
                                    < ERBO STENZEL. O Monumento  Justia e o Estado do Paran sem Medo do Futuro. Esculturas em Granito,
                                      Praa 19 de Dezembro  Curitiba  Paran.

                                          Foi por meio do convite do Governador Bento Munhoz da Rocha
                                      Neto que em 1952 Stenzel concebeu o projeto do conhecido "Ho-
                                      mem Nu", exposto atualmente na Praa 19 de Dezembro (ou Praa
                                      do Homem Nu), em Curitiba. Esta esttua, de um homem dando um
                                     passo a frente, representa O Estado do Paran Sem Medo do Futuro.
                                       dele tambm o painel em granito em baixo relevo representando
                                       o desenvolvimento scio-econmico do Paran, o obelisco e mulher
                                       nua, que simboliza a justia.
                                          O Monumento  Justia foi projetado para ficar em frente do
                                      Tribunal de Justia, mas por motivo desconhecido acabou ficando
                                       anos atrs do Palcio Iguau para depois ser transferido para a pra-
                                       a. Infelizmente, muitas pessoas compreenderam que o Monumen-
                                       to  Justia (mulher nua) e O Estado do Paran Sem Medo do Futu-
                                       ro (homem nu) foram concebidos para ficar no mesmo lugar e que a
                                    mulher foi feita visivelmente menor do que o homem porque Stenzel
                                    queria representar a mulher como um ser inferior. Interpretao total-
                                    mente equivocada, j que os projetos foram feitos para locais diferen-
                                    tes e com motivos diferentes. A se v a necessidade de se conhecer a
                                    histria da obra antes de emitir pr-julgamentos.
                                  O Artista
           sual




                                 Erbo Stenzel nasceu em Curitiba em 1911. Atravs de uma bolsa de estudos subsidiada por Manoel
       one Audiovi




                                 Ribas, estudou escultura na Escola Nacional de Belas Artes no Rio de Janeiro, onde, mais tarde, foi as-
                                 sistente de Zaco Paran. Tambm foi professor da EMBAP onde por falta de espao fsico, acabou le-
     < Foto: Ic




                                    cionando em vez de escultura, Anatomia Fsica.
                                          Apesar de ter feito obras de suma importncia para o Estado, Erbo Stenzel morreu pobre e es-
                                             quecido em um asilo no ano de 1980.

250 Movimentos e Perodos
                                                                                                      Arte

z "Pr-julgados do Salo Paranaense
  de Belas Artes"
   Na sua opinio  estranho jogar quadros no cho? Ento veja:


      "De fundamental importncia, como fator de ruptura com a longa tradio do objetivismo visual no
 Paran, foi o protesto que se verificou no XIV Salo Paranaense de 1957, por parte de um grupo de ar-
 tistas inconformados com as decises do jri (...). Paul Garfunkel ficou to exasperado que minutos
 aps a inaugurao oficial da mostra  ocorrida a 19 de dezembro  rasgou em pblico a Meno Hon-
 rosa que lhe fora concedida". (Referncia, v. 32, n 12, p. 46)


    Bem, este foi s o comeo. No dia seguinte, vrios artistas que tinham
seus trabalhos expostos no Salo Paranaense se dirigiram ao local e os ar-
rancaram das paredes. A fria era tanta, que os guardas do Salo no fo-
ram suficientes para contornar a situao, ento chamaram outros funcio-
nrios, mas j era tarde, os quadros j estavam jogados no cho.
    No fosse isso o suficiente, alguns artistas como Paul Garfunkel
(Meno Honrosa), Fernando Velloso, Loio Prcio e Thomaz Walters-
teiner (Meno Honrosa) retiraram suas obras do Salo e as expuseram
no saguo da Biblioteca, com o seguinte "ttulo": "Pr-julgados do Sa-
lo Paranaense de Belas Artes".
    O impacto foi to grande, que chamou a ateno das pessoas que
passavam na rua, que lotaram as dependncias da exposio.
    Depois, Loio Prcio publicou seu Manifesto Modernista, no Dirio
do Paran:

      "Este XIV Salo Paranaense de Belas Artes anulou, por completo, todos os
 esforos despendidos pelos artistas e crticos conscientes nos sales ante-
 riores. Assaltado por uma quadrilha de velhos imbecis, que fizeram da pintura
 um remdio para as suas enxaquecas e um artifcio a mais para obter dinheiro
 fcil, no representa em absoluto a Arte Paranaense.  um Salo de antiqu-
 rios e, como se no bastasse, de antiqurios desonestos. Jamais entenderam
 e jamais entendero, esses fsseis, o que seja arte. Por isto no Ano da Graa
 de Mil Novecentos e Cinqenta e Sete, depois da bomba atmica e do satli-
 te artificial, continuam perpetuando uma pinturinha que j era ruim e desones-
 ta no sculo passado.
      Poderia perguntar-lhes por que ao invs de cadilaques, no preferem
 carroas? Entretanto, s o fato de esses falsos artistas fazerem m pintura
 no chega a irritar-nos. Pelo contrrio, diverte-nos. Mas como pintores pro-
 fissionais, que tentamos fazer da pintura uma atividade digna, consciente e
 honesta, revolta-nos assistir ao espetculo da burrice oficializada, ao show
 da ignorncia presunosa diplomada e reconhecida oficialmente". (Referncia,
 Vol. 3, n 12, p. 47)


                                                                          Arte do Paran ou Arte no Paran 251
       Ensino Mdio

                                No final de todo este rebolio, a cobertura da imprensa deu ao fa-
                            to repercusso nacional, e com isto, inaugurou-se oficialmente o Mo-
                            dernismo no Paran.
                                E voc, em sinal de protesto, tambm teria coragem de jogar no
                            cho um quadro fixado numa parede, em uma exposio de Arte?



                            z O mosaico de Franco Giglio




                                                    < FRANCO GIGLIO. Descobrimento do Brasil. Painel em
                                                      Mosaico. Edifcio Cabral  Curitiba  Paran.

                             O Artista
                            De origem italiana, Franco Giglio (1937  1982) foi mais um artista estrangeiro considerado para-
                            naense pela contribuio artstica que concebeu a nosso Estado.
                            Sua pintura, no incio,  mais polmica e social. Depois, viaja  Itlia e em seu retorno  Curitiba,
                            traz na bagagem "uma obra mais refinada e interiorizada, que nem por isto deixa de ter uma pro-
                            funda ligao com a plstica sul-brasileira. Diante de sua pintura, ficamos em dvida se o suporte
                            que adota  a tela ou o prprio tempo". (Referncia, Vol. 3, n 12, p.49)
                            Em sua histria, acabou por abolir o pincel. Sua obra se serve ento do grafismo, quase digital,
                            usando palitos de fsforo, cotonetes ou qualquer outro instrumento para se expressar. Foi tambm
                            ceramista e mosaicista, tornando-se um dos principais artistas do cenrio nacional.




                                                 ATIVIdAdE

                                  E voc, como representaria o "descobrimento do Brasil"?
                                 Utilizaria uma linguagem acadmica ou moderna? Qual voc acha que fi-
                             caria melhor?
                                E se sua obra ficasse exposta no centro de uma grande metrpole. A for-
                             ma de representar seria a mesma do que uma obra a ser colocada na pare-
                             de de um museu? Por qu?
                                 Faa um projeto de um mural a ser executado com a tcnica do mo-
                             saico utilizando um papel quadriculado. Exponham os projetos e elejam os
                             mais interessantes. Mas no esqueam: o mais importante do trabalho  a
                             discusso de idias.




252 Movimentos e Perodos
                                                                                                                               Arte

z Dulce Osinski
                                             A artista
                                              Dulce nasceu em Irati  PR, em 1962. Formada em Pintura e Licenciatura em de-
                                             senho pela Escola de Msica e Belas Artes do Paran em 1983, em sua ps-gradua-
                                             o fez estgio em gravura na Academia de Belas Artes de Cracvia  Polnia en-
                                             tre 1985 e 1987 e curso de aperfeioamento em arte-educao na Universidade do
                                             Tennessee em Chattanooga  USA em 1995.
                                             Em sua trajetria, fez cerca de vinte exposies individuais e est prxima das cem
                                             exposies coletivas, tendo recebido dezesseis premiaes, entre elas na VIII Mos-
                                             tra do Desenho Brasileiro. Curitiba, PR, em 1989, no "Museu de Arte Contempor-
                                             nea do Paran". 47 Salo Paranaense. Curitiba, PR, 1990 e o Prmio Aquisio do
                                             "Museu de Arte Contempornea do Paran". 47 Salo Paranaense. Curitiba, PR,
< DULCE OSINSKI. O Segundo Guardio dos      em 1994.
  Anjos. leo s/ Tela 100 X 100 cm, 1990.
                                             Entre os Acervos Institucionais que possuem obras da autora, destacam-se Austra-
  Acervo do Museu de Arte Contempornea do
  Paran. Curitiba.                          lian Nacional Gallery. Camberra, Austrlia; Biblioteca Pblica do Paran. Curitiba, PR;
                                             Universidade Federal do Paran, Curitiba, PR e State Museum in Majdanek. Majda-
                                             nek, Polnia.
                                             Atualmente  mestre doutoranda em Educao pela UFPR, onde atua como docente.


                       ATIVIdAdE

       Para Apreciar
       Observe a imagem. Que animal Dulce Osinski parece ter retratado?
       Como voc imagina um guardio dos anjos?
       Na sua opinio, "guardio" parece estar no cu, onde costumamos imaginar os anjos? Por qu?
      Observe que os plos prximos  cabea do animal esto ouriados. Quando um animal fica com
  estes plos ouriados, o que isto significa?
      Descreva as cores que Dulce utiliza nesta pintura. Esta combinao cromtica lembra paz ou inquie-
  tao? E o gesto expressivo e as pinceladas com que ela pinta, o que transmitem?



z Carmen Carini e a expresso
  da sociedade atual
   Segundo a Carmen Carini, seu desenho "no  muito digestivo",
por este motivo no costuma atrair interesse para a sua aquisio.
   Essa afirmativa se d pela preocupao social que a artista revela
em suas obras, que com grande expressividade demonstram a realida-
de cotidiana de forma bastante dura. Observando seus trabalhos per-
cebe-se a dor da realidade de pessoas desesperanadas pela vida.



                                                                                        Arte do Paran ou Arte no Paran 253
        Ensino Mdio

                                         Alm da expressividade da obra de Carmen Carini, pode ser tam-
                                      bm observado grande domnio tcnico em suas obras, seja em dese-
                                      nho ou em gravura.
                                         Segundo o crtico de arte Ennio Marques Ferreira "Carmen  uma
                                      atenta e sensvel cronista social, talvez uma das primeiras a gravar no
                                      papel a imagem spera do homem engolido pela cidade".
     A artista
    Nascida em Rio das Antas, SC, Carmen Carini viveu no Paran
    desde os 04 anos de idade, primeiro em Campo Mouro, mais
    tarde em Curitiba, quando estudou na EMBAP fazendo o curso
    de Pintura e de Licenciatura em Desenho.
    Foi l que executou seu primeiro mural como trabalho de fina-
    lizao de curso; na seqncia, inicia sua produo artstica e
    desde ento sua obra chama a ateno de artistas, crticos de
    Arte e do pblico em geral.
    Participou de vrias exposies coletivas e individuais destacan-
    do-se: 34 Salo Paranaense, 1 Mostra de Desenhos Brasilei-
    ros, Paranaenses Expem na Sua, 4 Arte Sul Amrica, Sute
    Vollard  Picasso  Uma Interpretao Paranaense, Destrama.
                                                                         < CARMEN CARINI. Riscar o Risco, 1999. Grafito e pastel seco sobre o pa-
    Tambm recebeu prmios como o 5 Salo de Arte do Iguau e
                                                                           pel kraft, 153 x 180 cm. Curitiba.
    o 1 prmio do V Salo Phillip Morris de Gravura.
    Segundo Carmen Carini sua produo artstica primeiramente
    est voltada para atingir as pessoas pelo sensvel, independen-
    te do olhar erudito. Talvez tenha sido por isto que na dcada de
    1980, Carmen chegou a veicular sua obra nos painis dos ni-
    bus, mas por sua grande expresso social foi solicitada restringir
    este tipo de exposio, j que neste perodo o Brasil estava aca-
    bando de sair da represso da Ditadura Militar.



                         ATIVIdAdE

          Observe a obra acima. O que voc v?
          Que expresso voc percebe neles?
          Observe a frase contida na base da obra. Quem foi Judas? O que ele fez?
         Segundo a artista, esta obra nasceu ao tentar expressar a ameaa de contgios graves que podem
     atingir a humanidade. Qual a relao que pode ser feita entre a frase "de amor o beijo de Judas" e uma
     doena contagiosa?
        Quais so as doenas contagiosas que voc conhece? Quais suas formas de contgio? Que rea-
     o estas doenas causam s pessoas que as adquirem?
         Observe como so representadas as costelas dos personagens. O que voc acha que este entre-
     lace pode significar?
          Que relao voc acha que existe entre o ttulo da obra e o seu tema?

254 Movimentos e Perodos
                                                                                                     Arte


                PESQUISA

     Seguindo a temtica comum da artista Carmen Carini, escolha um aspecto social da humanidade
 que o incomode e que possa ser representado com figuras humanas.
     Pesquise estes personagens tentando representar a sua expresso. Como eles andariam pelas ru-
 as, ou se comportariam nos nibus lotados?
     Procure pensar em deformaes que reforcem sua expresso. Ser que a cor que mais acentua a
 expresso do personagem  a cor da pele ou pode ser substituda por outra?
     Passe seus esboos para o papel Kraft e pode comear a trabalhar. Abuse nos contornos, nas ha-
 churas e nas linhas que possam demonstrar maior expressividade em sua composio.
     No se esquea, explorar a tcnica de lpis de cor, giz de cera e grafite  muito importante. No
 basta criatividade para se ter um bom resultado, a tcnica e o treino e principalmente o olhar sensvel
 devem ser levados em considerao, afinal, h quem diga que "Arte  10% inspirao e 90% transpira-
 o". E ns concordamos!


z Referncias
  ARAJO, A. "Paranismo" um movimento precursor do ps-modernismo. Gazeta do Povo,
  Curitiba, caderno 30 de outubro de 1994, p. 06
  ALIGHIERI, D. A Divina Comdia. Traduo, prefcio e notas prvias de Hernani Donato; ilustraes
  de Gustavo Dor. So Paulo: Abril Cultural, 1981.
  CASTRO, I. E. de. O Mito da Necessidade: discurso e prtica do regionalismo nordestino.SP: Edito-
  ra Bertrand Brasil S.  1992.
  CAVALCANTI, E. A. Curitiba Ganha Restauro do Painel da Praa 19 de Dezembro. Em < http://
  curitiba.org.br/digitando/cultura/?canal=18&noti=1486> acesso em 05/11/05.
  MORRETES, F. L. de. A estilizao dos Smbolos do Paran: traado geomtrico do pinho.
  Boletim da Comisso Paranaense de Folclore. Curitiba; v.2, n 2, p. 47, 1976.
  TRINDADE, E. M. de C.; ANDREAZZA, Maria Luiza. Cultura e Educao no Paran. Curitiba: SE-
  ED, 2001.
  VIARO, C. B. Guido Viaro. Curitiba: Champagnat, 1996.
  Restinga Seca, em <http://www.estacoesferroviarias.com.br/pr-cur-pgro/restingaseca.htm> acesso
  em 18/10/2005.
  LAZZAROTTO, P. Essa Gente de Curitiba. Ilustrao, 1995. disponvel em <http://www.pr.gov.br/se-
  ec/poty/ilustra01.html> acesso em 18/12/05.
  O painelista Poty Lazzarotto deixa seu ltimo trabalho: um mosaico em <http://mosaicosdobra-
  sil.tripod.com/id28.html> acesso em 18/10/2005.
  Franco Giglio em <www.francogiglio.com.br> acesso em 18/10/2005
  Guia Geogrfico de Curitiba em < http://www.curitiba-parana.com/> acesso em 20/10/2005.
  Exposio Indita de Calderari no Solar do Rosrio. Em: <http://www.paranashop.com.br/colu-
  nas/colunas.php?id=837> acesso em 20/10/2005.
  Papa Bento XV. Em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Papa_Bento_XV> acesso em 07/12/2005.
  Evanglios Cannicos. Em <http://pt.wikipedia.org/wiki/Evangelhos> acesso em 07/12/2005.

                                                                       Arte do Paran ou Arte no Paran 255
       Ensino Mdio




256 Movimentos e Perodos
                                                                                           Arte




                                                                              16

                                                                     MSICA E
                                                                     MSICAS
                                                                               <Marcelo Galvan1




                                                        esliga este rdio menino! Isto no 
                                                        msica,  barulho!
                                                       - Ah, t! E o que voc ouve ento,
                                                     aquelas msicas que parecem do tempo
                                                     do arco da velha...

                                                     "Arco da velha"? Que tempo  este? Afi-
                                                     nal, desde quando se faz msica?




3
 Colgio Estadual Dr. Willie Davids - Maring - PR

                                                                             Msica e msicas 257
       Ensino Mdio

                            z Quem no gosta de msica?
                                Para pensar e conhecer um pouco sobre a histria da msica e co-
                            mo essa arte se desenvolveu, comearemos citando um trecho da le-
                            tra de um samba de 1940 de Dorival Caymmi, "... quem no gosta de
                            samba bom sujeito no ,  ruim da cabea ou doente do p".
                                E por falar em samba, quem j no viu uma rodinha de samba? Vo-
                            c lembra que instrumentos so usados nelas? Normalmente um violo,
                            um cavaquinho, um pandeiro e at a famosa caixinha de fsforos!
                                Para fazer sons vale de tudo! De pianos de cauda a buzinas de ca-
                            minho, h um bom tempo o ser humano busca no seu corpo e  sua
                            volta elementos que fazem sons para criar sua msica. Vamos ver um
                            pouquinho dessa histria!




                            < Ilustraes Marcelo Galvan Leite




                            z Pr-histria: a pr-escola da msica
                                Nossos antepassados sempre utilizavam os sons no seu cotidiano,
                            provavelmente faziam isso mesmo antes de terem a capacidade de fa-
                            lar. Acreditavam que os sons eram um elo entre o mundo real (visvel)
                            e o mundo sobrenatural (invisvel), isto , um elo entre os homens e
                            os deuses.




                                    < Ilustraes Marcelo Galvan Leite


258 Movimentos e Perodos
                                                                                                           Arte

   A partir do Neoltico, quando os homens passaram de caadores                   Fandango Paranaense:
nmades a agricultores fixos, comearam tambm a perceber as altera-
                                                                                  Conjunto de danas, denomi-
es que ocorriam no mundo ao seu redor, como as mudanas das es-
                                                                                  nadas "marcas", acompanha-
taes do ano, as fases da lua, e  claro, os sons. Alis, acredita-se que        das de violas, rabeca, adufo ou
os primeiros vocbulos com significado surgiram por meio de imitao              pandeiro, batidas de tamanco e
de sons da natureza.                                                              versos cantados. Inicialmente o
   Nessa perspectiva, os primeiros "msicos" podem ser identificados              fandango era danado em ci-
na figura do feiticeiro que, a partir dos sons e da dana, buscava atingir        ma do arroz para descasc-lo.
o mundo dos espritos e prever bons ou maus pressgios para a tribo.              Assim fazia-se o trabalho em
                                                                                  forma de mutiro e em corte-
   Alm disso, os sons tambm passaram a ser um importante elemen-
                                                                                  sia o dono da colheita organi-
to potencializador do trabalho coletivo. Esses sons coletivos, produzi-
                                                                                  zava o Fandango.
dos antes de batalhas ou em obras que demandavam a fora de vrios
braos, foram importantes para nosso desenvolvimento. (FISCHER, 1987)
   Canes folclricas de trabalho existem at hoje. Como exemplos
temos a cantoria das lavadeiras de roupas pelos rios do Brasil ou o
canto dos colhedores negros de algodo nos EUA, que acabou contri-
buindo para o surgimento de estilos musicais como o Blues, e conse-
qentemente, o Jazz.




< Ilustraes Marcelo Galvan Leite




                          ATIVIdAdE

       Em sua opinio, os hinos das torcidas de futebol ou os "gritos de guerra" de uma equipe esportiva
   se assemelham a esses rituais primitivos de coletividade? Em que sentido?




                                                                                       Msica e msicas 259
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

        Escolha uma msica que voc aprecie.
        Coloque-a para tocar na sala.
        Um grupo, escolhido anteriormente, dever marcar a pulsao da msica no prprio corpo.
        Gradativamente algum diminuir o volume da msica enquanto o grupo continuar marcando a pul-
     sao.
        Um aluno por vez improvisar novos ritmos sobre o pulso marcado.
        A atividade poder ser gravada para posterior audio da turma e comentrios.



                             z Classificao das msicas
                                Podemos classificar as msicas de muitas formas, uma delas  divi-
                             dindo-as em trs modalidades:
                                a) Msica instrumental, que como o nome diz,  executada apenas
                             por instrumentos musicais.
                                b) Msica vocal, tambm chamada de "a capella" devido  sua am-
                             pla utilizao pela igreja,  executada apenas por vozes.
                                c) Msica mista  a que estamos mais acostumados a escutar. Nelas
                             so utilizados instrumentos e vozes.
                                As msicas que voc mais gosta e costuma ouvir so instrumentais,
                             vocais a capela ou mistas?


                             z Ferramentas sonoras
                                 Os instrumentos musicais tambm acompanham o homem h mi-
                             lhares de anos. Na Pr-histria, acredita-se que os primeiros instrumen-
                             tos eram, em sua maioria, de percusso.
                                 No final da Pr-histria, diferentes povos criaram instrumentos com
                             notas musicais definidas e, para isso, os chineses usaram flautas. Na
                             Mesopotmia h registros de "liras" h 3.000 a.C. e no Egito, o grande
                             nmero de registros visuais demonstra que a msica instrumental de-
                             sempenhava importante papel poltico, religioso e militar. A msica co-
                             mea, ento, a se definir de forma semelhante a que conhecemos ho-
                             je em dia.
                                 No Ocidente, no sculo V a.C., o filsofo e matemtico grego
                             Pitgoras percebeu que se esticarmos uma corda e a tocarmos, ela so-
                             ar uma nota "fundamental", um D, por exemplo. Se prendermos a
                             mesma corda na metade do seu comprimento, tambm teremos um
                             D, porm mais agudo.
260 Movimentos e Perodos
                                                                                                            Arte

    Pitgoras tambm notou que se mudarmos o lugar em que a cor-
da  pressionada obteremos as notas musicais da escala ocidental; d,
r, mi, f, sol, l, si.
                (A)                   (B)
                                                       5/6   4/5   3/4 2/3            1/2




    A) Ao tocarmos a corda esticada teremos a nota fundamental, nela
existem as outras notas, que no percebemos.
    B) Se prendemos a corda ao meio teremos a mesma nota solta s
que mais aguda.
    C) Mudando os lugares onde a corda  pressionada teremos as ou-
tras notas.
    Essas caractersticas matemticas e harmnicas dos sons foram des-
cobertas por meio de um instrumento chamado "monocrdio".

      Abertura da caixa Ponte mvel                                           Marca no             % em 7
                                       Corda de                              meio da caixa
       de ressonncia                   Tripa                                                      partes




                                                               Elstico
                                            Caixa de
                                             sapato                                          Palitos de
    Escala                                                                                    fsforo
   Calibrada

       < Monocrdio de Pitgoras

   Para saber mais sobre o monocrdio veja o Folhas 20.


                      ATIVIdAdE

     Vamos fazer um monocrdio.
      simples, envolva uma caixa de sapato com um cordo de elstico. A caixa vai funcionar como uma
 caixa de ressonncia, ampliando os sons para que fiquem mais fortes.
     Na parte de baixo marque a metade do comprimento.
     Divida o comprimento em sete partes, como na ilustrao acima e tente escutar, prendendo o els-
 tico nas marcas, as notas da escala musical.
     Criem uma composio musical com os seus monocrdios e apresentem para a turma.


                                                                                             Msica e msicas 261
       Ensino Mdio

                                 Para os seguidores de Pitgoras todas as coisas do universo se ori-
                             ginavam dos nmeros. Por isso, relacionaram tambm a escala musical
                             com a astronomia, criando a idia da "msica das esferas", na qual ca-
                             da nota musical corresponderia a um dos sete astros por eles conheci-
                             dos: Lua, Sol, Vnus, Mercrio, Marte, Jpiter e Saturno. Conseqente-
                             mente, todos os planetas criariam uma msica que refletiria a prpria
                             ordem csmica. Essas idias perduraram no Ocidente at o fim da Ida-
                             de Mdia.
                                 "Com os pitagricos, o pensamento humano realizou um passo de-
                             cisivo: o mundo deixou de ser dominado por obscuras e indecifrveis
                             foras, tornando-se nmero, que expressa ordem, racionalidade e ver-
                             dade". (REALE e ANTISERI, 2003)
                                 A organizao das notas musicais possibilitou a criao das escalas
                             musicais ou dos "modos". Para os gregos, esses modos eram capazes
                             de transmitir diferentes "estados de esprito", virilidade, sensualidade,
                             xtase e outros. Chamavam esses significados culturais de Ethos.
                                 Ainda na Grcia, a msica estava sempre ligada  dana e  poesia
                             e praticamente nunca se apresentavam separadas. O ritmo das palavras
                             da poesia tinha estreita relao com o ritmo da msica e da dana, e
                             todas eram usadas na educao e na formao moral dos jovens.
                                 A msica era de extrema importncia no mundo antigo, uma for-
                             ma de socializao rica, dotada de significados e usada com diferen-
                             tes objetivos. Quase todos os povos criaram escalas musicais, estas,
                             por motivos culturais, foram organizadas de diferentes formas. Chine-
                             ses, rabes, africanos entre outros, desenvolveram escalas diferentes
                             das nossas.



                      ATIVIdAdE

        Formem grupos e procurem uma poesia que gostem.
        Escolham tambm uma msica e tentem encaixar o texto potico na melodia dessa msica. Tenham
     pacincia, pois geralmente as palavras no encaixam facilmente. Para que isso ocorra, ser necessrio
     cantar certas slabas com maior ou menor durao.
         Vocs tambm podem escolher poesias mais longas, e criar com elas um RAP, ou mesmo apresen-
     tar um Rap que algum da sala tenha escrito.
        Por falar nisso, voc sabia que a palavra Rap  a abreviao de Rhythm and Poetry ou Ritmo e
     Poesia?




262 Movimentos e Perodos
                                                                                                          Arte




                                                     < Ilustraes Marcelo Galvan Leite




                 ATIVIdAdE

     Procure e traga de casa cd's de msicas de diferentes regies do mundo para ouvir na sala de aula.
    Durante a audio fiquem de olhos fechados, tentando identificar os lugares nos quais essas msi-
 cas foram produzidas.
    Depois de analisadas e discutidas, busquem expressar suas impresses sobre essas msicas por
 meio de poemas, desenhos ou textos.




z Os novos horizontes da msica do Ocidente
    As bases estruturantes da msica ocidental como conhecemos hoje
comearam a se formar na igreja catlica da Idade Mdia, entre os s-
culos VII e XV d.C. Isso ocorreu porque na igreja a msica era uma im-
portante disciplina de estudo e fazia parte dos rituais religiosos.
    Aproximadamente no sculo VI d.C, surge o canto gregoriano ou
"cantocho". Ele mantinha caractersticas da msica antiga, pois, alm
de usar os modos gregos era "mondica", isto , uma msica com uma
nica melodia, repetida em unssono por todas as vozes.
    Paralelamente, a nobreza e o povo, na figura dos trovadores, conti-
nuou a realizar sua msica folclrica profana, que levou esse nome por
no ser religiosa. Essa msica, livre das regras da igreja, acabou geran-
do o princpio da polifonia, que corresponde a msicas que apresentam
melodias diferentes tocadas simultaneamente, por exemplo, enquanto
as vozes cantam uma melodia, os instrumentos executam outra.
    A msica da igreja, durante os sculos seguintes passa a sofrer in-
fluncia dessa msica profana, realizando Corais Polifnicos e utilizan-
do instrumentos como o rgo. Os instrumentos de percusso, no en-
tanto, continuaram banidos da igreja por lembrarem os rituais pagos.



                                                                                          Msica e msicas 263
       Ensino Mdio

                            z A,B,C da Msica
                                Os gregos e os chineses j haviam criado formas de notao musi-
                            cal, mas que no se fixaram nem se universalizaram.
                                As partituras musicais como conhecemos hoje tambm comearam
                            a nascer nos mosteiros da idade mdia. Primeiramente surgem os Neu-
                            mas, smbolos usados para indicar vagamente a altura das notas que
                            deveriam ser cantadas.
                                No sc XI d.C, o monge catlico Guido d'Arezzo criou a pauta de
                            cinco linhas, na qual definiu as alturas das notas e os nomes de cada
                            uma, tirando-as das frases iniciais de um hino a So Joo Batista. Nas-
                            ciam, assim, os nomes das notas musicais que conhecemos: d,r, mi,
                            f, sol, l e si.




                            z Renascimento musical
                                A maneira como o homem via o mundo se modificou no pensa-
                            mento europeu do Renascimento, aproximadamente (1500-1600). O
                            homem passou a ser o centro das atenes, ao contrrio da alta Ida-
                            de Mdia, na qual o poder da igreja pregava Deus como o centro do
                            mundo.
                                Alm disso, outros acontecimentos ajudaram nessa mudana, co-
                            mo as descobertas martimas da Europa que ampliaram o espao geo-
                            grfico conhecido, a reforma protestante iniciada por Lutero em 1517
                            na Alemanha, que props novas possibilidades para o cristianismo e
                            a inveno dos tipos mveis por Gutenberg, em 1454, que ampliou o
                            acesso das pessoas ao conhecimento. Todas essas mudanas acabaram
                            contribuindo, em maior ou menor grau, para o desenvolvimento mu-
                            sical ocidental.




264 Movimentos e Perodos
                                                                                                                         Arte




                                                      < LEONARDO DA VINCI. A ltima Ceia, 1495-8. Tmpera sobre emboo, 460x880
                                                        cm; refeitrio do mosteiro de Santa Maria delle Grazie, Milo

                                                          A pintura e a msica refletiram essas mudan-
                                                      as. A ampliao do espao sonoro coincidiu
                                                      com o desenvolvimento da perspectiva na pintu-
                                                      ra. A msica, aos poucos, desenvolveu-se crian-
                                                      do modificaes no cantocho plano e monof-
                                                      nico, evoluindo para uma msica de diferentes
< Iluminura Medieval, ano 1000, Anunciao aos pas-
                                                      alturas (tonalidades). Essas mudanas retrataram
  tores, pintura, Biblioteca de Munique.              o racionalismo de uma poca em transformao
                                                      (MEDAGLIA p. 56 2003).




z Instrumentos sonoros
    Nesse perodo, tambm ocorreram pesquisas para a criao de novos instrumentos musi-
cais. Surgiram os primeiros fabricantes de instrumentos, hoje chamados de luthiers, que fabri-
cavam instrumentos que acabaram por originar nos violinos, alm de violas de roda e instru-
mentos de metais como a sacabuxa, entre outros.




                                                                                                     Msica e msicas 265
       Ensino Mdio

                               Com isso, os compositores comearam a escrever msicas apenas
                            para instrumentos, que at ento serviam somente para acompanhar
                            as vozes.


                            z Barroco musical
                                Na msica, o barroco ocorre entre os anos de 1600  1750. Nesse
                            perodo os instrumentos continuam a se aprimorar e o mais clebre lu-
                            thier dessa poca foi Antonio Stradivari (1644-1737) que fabricou apro-
                            ximadamente 1100 instrumentos, entre violinos, violoncelos e outros.
                            Hoje existem cerca de 600 exemplares desse luthier catalogados. O va-
                            lor de um "Stradivarius", como so conhecidos, atinge mais de 5 mi-
                            lhes de euros, por isso esses instrumentos so alvo de roubos e est-
                            rias incrveis. Muitos desses instrumentos possuem nomes, entre eles o
                            "Messias" e o "Troppo Rosso".
                                Existe um filme canadense de 1998 muito interessante, que narra a
                            trajetria de um velho instrumento musical e chama-se "O Violino Ver-
                            melho". Vale a pena conferir!
                                Foi no barroco que a pera comeou a definir sua estrutura e o sur-
                            gimento das aberturas (trecho inicial da pera executado s pela or-
                            questra), acabou valorizando a msica instrumental, que definitiva-
                            mente se libertar do domnio da voz no classicismo.
                                Outro nome importante desse perodo foi o do alemo Johann Se-
                            bastian Bach (1685  1750), que alm de compr obras geniais, como
                            "Tocata e Fuga" e "Jesus Alegria dos Homens", props novas formas de
                            organizao e de afinao dos instrumentos.
                                No barroco ocorre, tambm, a construo de grandes teatros para
                            apresentaes de concertos musicais e torna-se hbito a cobrana de
                            ingressos de uma burguesia vida por msica, fato que inaugurou o
                            mercado musical.
                                Essas inovaes culminariam no perodo do Classicismo, da msi-
                            ca Ocidental, no qual Mozart e Beethoven foram os nomes mais repre-
                            sentativos.




                            < Johann Sebastian Bach   < Retrato pstumo de Mozart   < Ludwig van Beethoven.
                              Elias Haussman  1748     Barbara Kraft  1819.          Carl Jger - s/d.

266 Movimentos e Perodos
                                                                                                           Arte

z "A msica comea onde acabam as palavras"
    Essa frase do escritor romntico E. Hoffmann (1776  1822) refle-
te uma caracterstica da msica do Classicismo, perodo que ocorreu
aproximadamente entre 1750 e 1827.
    Voc j notou que nas sinfonias existem momentos em que os m-
sicos param de tocar?  que elas so formadas por diferentes movimen-
tos, que so as diversas partes da composio. No  aconselhvel bater
palmas nesses intervalos, pois isso pode desconcentrar os msicos.
    Assim como numa redao, em uma sinfonia existe um comeo um
meio e um fim, por meio dos quais o compositor realiza o seu "discur-
so musical". O principal modelo desse discurso  a "forma sonata", de-       < Ilustraes Marcelo Galvan Leite

finida no Classicismo.
    Nela existe um tema principal que ser, muitas vezes, esquecido e
relembrado. Isso ocorre a partir do passeio musical do tema pelas di-
ferentes tonalidades, criando-se assim momentos de tenses e de rela-
xamentos. Finalmente, volta-se ao tema principal de maneira mais di-
nmica e o compositor conclui o seu discurso.
    No Classicismo, a msica instrumental foi muito valorizada e os msi-
cos buscaram libertar sua Arte de qualquer relao com um texto, seja ele
potico, mitolgico ou filosfico.

                                                                               Voc sabia que o tempo de
z Os ltimos Romnticos                                                       udio de um CD  aproxima-
                                                                              damente 74 minutos, porque
   As principais caractersticas da msica romntica (1827  1911) fo-        esse  o tempo de durao
ram a liberdade de criao e o nacionalismo, este ltimo, intensificado            .
                                                                              da 9a Sinfonia de Beetho-
na Europa depois das guerras contra Napoleo.                                 ven?

   O italiano Giuseppe Verdi (1813  1901) deu nova vida s peras
e influenciado por ele, o brasileiro Carlos Gomes fez sucesso na Eu-
ropa com a pera "O Guarani", titulo homnimo do livro de Jos de
Alencar.
   O Romantismo com certeza  o perodo da msica erudita em que
um grande nmero de msicos ficaram conhecidos: Tchaikovsky,
Brahms, Liszt, Wagner e Chopin, entre outros.



                PESQUISA

    Em grupos pesquisem biografias e obras de diferentes msicos eruditos e apresentem seminrios
 para a turma.
    No se esquea de trazer gravaes de obras para ilustrar as apresentaes e, se possvel, ima-
 gens da poca em que esses msicos viveram.

                                                                                     Msica e msicas 267
       Ensino Mdio

                            z A nova msica do sculo passado
                                No incio do sculo XX d.C o mundo passava por grandes confli-
                            tos. A teoria da psicanlise de Freud influenciava as artes, as revolu-
                            es e conflitos polticos criavam tenses sociais que culminariam em
                            duas guerras mundiais e, nesse contexto turbulento, os msicos do Ro-
                            mantismo davam sinais de querer se libertar das formas estabelecidas
                            pelos clssicos.
                                Debussy (1862  1918), influenciado pela pintura impressionista,
                            busca uma msica que possa transmitir imagens ao ouvinte. Em 1905,
                            compe "La Mer" (O Mar), obra na qual usa de forma inovadora o tim-
                            bre dos instrumentos e harmonias dissonantes para demonstrar, por
                            meio dos sons, a impresso do mar e seus movimentos.
                                Em 1913, o compositor russo Igor Stravinsky apresentou "Sagrao
                            da primavera". Os sons que usa simultaneamente (harmonia) e a ma-
                            neira como explora os instrumentos chocou a platia parisiense. Du-
                            rante sua carreira, criou elaboradas formas rtmicas e harmnicas e a
                            estranheza inicial de suas obras foi esquecida com o tempo pelo p-
                            blico e pela crtica, que acabou consagrando Stravinsky como grande
                            msico do sculo XX.
                                No Brasil, no podemos deixar de destacar Heitor Villa-Lobos (1887-
                            1959), representante da msica na Semana de Arte Moderna de 1922,
                            que viajou pelo interior do pas pesquisando o folclore musical brasi-
                            leiro e uniu o chorinho e a obra de Bach na composio "Bachianas
                            Brasileiras". Foi o msico erudito de maior destaque fora e dentro do
                            Brasil.




                            < Debussy (1862 - 1918).
                                                        < Villa-Lobos.          < Shenberg.

                               Arnold Shemberg (1874-1951), foi outro msico do sculo XX que
                            inovou criando novas formas de composio. Ele inventou o sistema
                            dodecafnico, que consiste em se utilizar as doze notas da escala cro-
                            mtica (tons e semitons), fazendo com que nenhuma nota tenha mais
                            importncia do que a outra. Mesmo parecendo uma msica estranha
                            aos ouvidos desacostumados, ela marcou profundamente o sculo XX.
                               Outro nome que buscou inovar as possibilidades expressivas do som
                             o americano John Cage (1912  1992) que durante dcadas utilizou na
                            msica rudos, silncios e sons aleatrios, isto , sons escolhidos no mo-
                            mento da execuo e que no haviam sido pensados anteriormente.

268 Movimentos e Perodos
                                                                                      Arte

                    Semitons




             D R R F Sol L Si D

                 Tons (notas)


    Com a evoluo da eletrnica e dos sintetizadores, Stockhausen
prope uma msica totalmente mecnica, sem interveno de msi-
cos e monta na Alemanha o primeiro estdio de msica eletrnica em
1950, que dar origem  msica eletroacstica.
    Todos os avanos tecnolgicos, como o surgimento do sintetizador,
instrumento eletrnico que pode imitar os mais variados timbres, alm
do "sampler" e dos inmeros efeitos possveis na musica eletrnica pe-
los atuais DJ's do  nossa poca uma variedade imensa de possibili-
dades sonoras.

    Trovadores do sculo XXI
    Com a ampliao dos meios de comunicao e de reproduo so-
nora, a msica se populariza, passando das restritas salas de concerto
para a casa das pessoas. A "msica mista" e popular passa a ser a mais
produzida e apreciada.
    O acesso das pessoas aos instrumentos e o ensino musical nas es-
colas se intensificam. A msica do povo, ignorada pela burguesia na
Europa at o fim do sculo XIV, passa a ser consumida por trabalha-
dores remunerados.
    Alm disso, nas Amricas, o encontro das culturas dos negros, n-
dios e brancos criou um campo frtil para o sincretismo cultural de su-
as msicas e danas.
    Nos anos 60 do sculo XX, os jovens comeam a se interessar pe-
lo Oriente. Grupos como os Beatles, Led Zepplin e msicos como Ra-
vi Shankar ajudam a popularizao da msica indiana e oriental, mis-
turando-as no caldeiro cultural de nosso tempo.
    O aprimoramento tecnolgico possibilitou a existncia de apresen-
taes para milhares de pessoas, coisa que no era possvel antes dos
anos 70 do sculo XX abrindo um campo de trabalho para milhares
de pessoas.
    O Jazz transforma-se utilizando inovaes da msica erudita mo-
derna, a msica eletrnica se desenvolveu nos computadores pessoais e
nas mesas e efeitos dos DJ's. Cada vez mais a msica se renova e se
modifica.



                                                                          Msica e msicas 269
       Ensino Mdio



                      ATIVIdAdE

        Tragam de casa cd's ou fitas com msicas apreciadas por vocs ou por seus pais na juventude.
        Depois de escutar as msicas, discutam sobre suas semelhanas e diferenas.




                               < The King Carter Jazzing Orquestra-Robert Runyon, 1921.


                                Dizem que a msica pode acalmar os mais ferozes animais, talvez
                            ela faa mais do que isso, tranqiliza e provoca, h milnios, as feras
                            que existem dentro dos homens.



                            z Referncias
                                ANDRADE, M. de. Breve Histria da Msica.
                                ALALEONA, D. Histria da Msica. So Paulo: Ricordi Brasileira,1966.
                                FISCHER, E. A Necessidade da Arte. Rio de Janeiro: Guanabara Koo-
                                gan, 2002.
                                MEDAGLIA, J. Msica Impopular. So Paulo: Editora Global, 2003.
                                MONTANARI, V. Histria da Msica  da idade da pedra  idade do
                                rock. So Paulo: Editora tica, 1993.
                                PINTO, I. C. Folclore: aspectos gerais. Curitiba: IBPEX, 2005.
                                REALE, G. e ANTISERI, D. Histria da Filosofia vol.1. So Paulo: Paulus
                                ed., 2003.




270 Movimentos e Perodos
                                                                                      Arte

  SOUZA, J. (Org.). Msica, Cotidiano e Educao. Porto Alegre: Univer-
  sidade Estadual do Rio Grande do Sul, 2000.
  STEFANI, G. Para Entender a Msica. So Paulo: Editora Globo, 1989.
  WISNIK, J. M. O Som e o Sentido. So Paulo: Companhia das Letras 
  editora Schwarcz, 1989.


z Documentos consultados ONLINE
  http://musicaclassica.folha.com.br/cds/80/contexto.htm
  http://www.musicadomundo.com.br
  http://www.musicexpress.com.br
  http://www.musicaclassica.folha.com.br/cds/80/contexto.htm
  http://www.ybytucatu.com.br/bayaka/programa.php
  http://www.terrasonora.com.br




                                                                          Msica e msicas 271
       Ensino Mdio




272 Movimentos e Perodos
                                                                                                           Arte




                                                                                              17

                                                                   UMA LUZ NA
                                                              HISTRIA DA ARTE           <Maysa Nara Eisenbach1

                                                                  e voc fosse pintar uma paisagem, de
                                                                  que cor voc pintaria o cu? As rvores?
                                                                O sol?
                                                                Para a maioria das pessoas o sol  sempre
                                                              amarelo, a lua  branca, a terra, os troncos
                                                        e galhos das rvores marrons, as folhas verdes e o
                                                        cu azul. Por que as pessoas pintam assim?
                                                        Voc tambm pintaria uma rvore com o caule
                                                        marrom? As cores dos elementos paisagsticos so
                                                        sempre estas?
                                                        Como, ento, entender o uso de cores em obras
                                                        como esta e tantas outras que se diferenciam do
                                                        senso comum?




                                          < ANDR DERAIN. A Ponte de
                                            Westminster, 1906. leo sobre
                                            Tela, 81x100 cm. Museu de
                                            Orsay, Paris.




1
 Colgio Estadual Campos Sales - Campina Grande do Sul - PR

                                                                                     Uma luz na histria da Arte 273
       Ensino Mdio

                                  A grande maioria das pessoas considera que uma boa pintura tem o
                              mesmo estilo de uso da cor de La Tour, pintor do perodo Barroco que
                              pintou a obra Madalena Arrependida apresentada  frente.
                                  Porm, mais tarde, alguns artistas romperam esta maneira de usar a
                              cor que muitos como La Tour utilizaram. Os crticos, com inteno pe-
                              jorativa, chegaram a chamar estes artistas "transgressores" de feras, im-
                              pressionistas e outras definies. Estes crticos tinham razo, ou tam-
                              bm so vlidas obras artsticas que trabalham a cor sem considerar
                              padres preestabelecidos?


                              z Barroco (sculo XVII)  a luz
                                como elemento de tenso
                                 Barroco  o nome dado a um dos perodos da histria da Arte cujas
                              obras so mais ornamentadas. No incio, este nome era utilizado com
                              sentido pejorativo, justamente pelo exagero que havia na decorao,
                              porm, este movimento tinha alm da funo artstica, a de revigorar os
                              princpios doutrinrios da Igreja Catlica aps a Reforma Protestante.
                                 A Reforma Protestante, a ttulo de informao, ocorreu no sculo
                              XVI com o intuito de reformar a Igreja Catlica, buscando uma condu-
                              ta mais correta e a mudana da vida no Clero. Seu resultado foi a divi-
                              so entre Igrejas Catlicas e outras conhecidas como Protestantes, sen-
                              do destacada a Luterana.

         "A arquitetura no sculo XVII realizou-se principalmente nos palcios e nas igrejas. A Igreja Catlica
     queria proclamar o triunfo de sua f e, por isso, realizou obras que impressionam pelo seu esplendor.
     Na Itlia, por exemplo, a Praa de So Pedro (1657  1666), projetada por Bernini, a igreja SantAgnes
     (1653-1657) por Borromini, e a Igreja Santa Maria della Pace (1656  1657), por Pietro da Cortona ilus-
     tram de modo significativo essa vitria da Igreja Catlica. Por outro lado, governantes como Lus XIV da
     Frana, que se consideravam reis por direito divino, tambm desejaram palcios que demonstrassem
     poder e riqueza". (PROENA, 2000, p. 108)

                                  Alm da Frana, com Lus XIV, outras monarquias da Europa Oci-
                              dental viviam sob um sistema poltico denominado Absolutismo. Nes-
                              ta forma de governo, o poder era totalmente concentrado na mo de
                              um s indivduo ou de um grupo de indivduos, e para este poder no
                              existiam limites. "A maquinaria constitucional, quando existente, est
                              sempre e a todo o momento  merc da vontade individual do gover-
                              nante, que a pode alterar sem consulta ou aprovao de qualquer r-
                              go pblico". (MIRADOR, 1987, p. 13)
                                  Em busca de bases ideolgicas que conferissem legitimidade ao po-
                              der absoluto, os monarcas faziam derivar diretamente de Deus sua au-
                              toridade sobre os homens e sobre as coisas includas nos limites de
                              seus domnios. O direito divino concedia ao governante o poder tem-
                              poral, enquanto o espiritual cabia  igreja. (MIRADOR,1987, pg. 13)

274 Movimentos e Perodos
                                                                                                                 Arte

    Foi neste clima governamental que o Barroco revelou artistas
admirados at a atualidade, como Rembrandt, Velazquez, Cara-
vaggio, Tintoretto, Rubens, Van Dyck, Hals, entre outros.
    As principais caractersticas do perodo Barroco ocorriam em
torno do predomnio das emoes sobre o racionalismo (carac-
terstico da Renascena, perodo que antecedeu o Barroco). A
disposio dos personagens nos quadros normalmente se d de
forma diagonal (inclinada), o que traz uma espcie de inquie-
tao visual (movimento). Outra caracterstica se d na ilumina-
o, que ocorre com o contraste de claro-escuro que acentua o
sentimento exprimido pela obra. Os tons de luz e sombra, que
do a iluso de tridimensionalidade na obra, so obtidos pelo
uso do branco e do preto respectivamente, conforme pode ser
observado no quadro de La Tour.
     O Artista Georges de La Tour foi um importante pintor do Barroco
Francs. Ele buscou inspirao no pintor italiano Caravaggio para con-
seguir a representao de claro-escuro nos seus quadros. A grande
diferena dele para os outros pintores,  que na maioria dos quadros,
a iluminao parece vir de fora do ambiente da tela, enquanto isto, La
Tour faz a representao da fonte de luz, como a vela refletida no espe-
                                                                           < LA TOUR. Madalena Arrependida, 1638 
lho que pode ser observada no quadro Madalena Arrependida.                   43. leo sobre tela. Museu Metropolitano
                                                                             de Arte, Nova Iorque.



                 ATIVIdAdE
     Voc consegue perceber a diagonalidade que aparece na composio de La Tour? No? Ento, co-
 mece observando as partes da obra que esto iluminadas pela vela. Quais so elas? Se fosse para tra-
 ar uma linha reta, passando pelo mesmo local da luz, por onde ela passaria? E agora, conseguiu per-
 ceber a diagonalidade?
     E o espelho... Por que LaTour o pintou? Se fosse s pela iluminao, apenas a vela bastaria. Ento
 por que representar um espelho de to requintada moldura? Para que serve um espelho na realidade?
 E na obra, qual o significado dele?
     No colo de Madalena, h a ossada de um crnio. Qual o significado do desenho de uma caveira?
 Por que ela est ali?
     Observe tambm que Madalena est olhando para trs. O que ser que ela est olhando? Qual a
 impresso que voc tem?
     Voc conhece a histria de Madalena? Do qu ela se arrepende?
     Qual o clima que o artista consegue transmitir com o quadro?
     Houve um crtico de arte que chegou a dizer que neste quadro "uma vela conquistou uma noite enor-
 me". O que ser que este crtico quis dizer com esta frase?
     Esta tcnica de representao de luz e sombra apareceu em todos os perodos que se sucede-
 ram depois, at que, em 1826, surge a fotografia, o que faz com que os artistas repensem as tcnicas
 de representao artstica, j que a inteno da pintura como representao visual da realidade passa
 a perder sua funo.

                                                                                Uma luz na histria da Arte 275
        Ensino Mdio



                          ATIVIdAdE

         Pesquise e escolha uma obra de um dos principais artistas do Barroco. Se puder, traga uma repro-
     duo (pode ser em livro, revista,...) para ser analisada em sala. No esquea de contar de quem  a
     obra e qual o seu nome, pois isto pode ajudar na sua anlise. Se no conseguir a reproduo, descre-
     va-a. Ser que sua descrio  suficientemente boa para que algum reconhea a imagem por meio
     dela?
          Faa uma breve pesquisa sobre o Barroco no Brasil. Descubra em que poca ocorreu, quais suas
     principais caractersticas e seus principais artistas. Observe que as obras dos artistas do Barroco Brasi-
     leiro so normalmente relacionadas  religio catlica. E voc, j entrou em alguma Igreja Catlica? Viu
     alguma obra semelhante s do Barroco em alguma igreja? Qual foi sua interpretao desta obra? Ela
     mudou aps esta pesquisa? Em qu?
        Mais tarde, no sculo XIX, estes princpios de representao utilizados no Barroco se romperam e
     os artistas comearam a pensar em diferentes maneiras de se representar a natureza, principalmente
     observando a luz.



                                      z Luz: a energia para ver
                                          Para que ns enxerguemos,  estritamente necessria a luz. Quer
                                      saber por qu?
                                          Na verdade, tudo o que enxergamos  luz. Ningum enxerga o ob-
                                      jeto em si, porm a luz que este objeto  capaz de refletir, pois seu
                                      material funciona como uma espcie de espelho que fica o tempo to-
     Existem vrios animais que       do refletindo a luz que incide sobre ele. Ento, o que enxergamos  a
    vem comprimentos de on-          luz que o objeto refletiu, a no ser,  claro, que o objeto seja uma fon-
    da diferentes dos homens.         te de luz, como o Sol ou o fogo.
    Um exemplo disso so as               A luz  uma onda eletromagntica que se propaga em linha reta
    abelhas, capazes de enxer-        com movimentos ondulantes. Sua velocidade de propagao no vcuo
    gar os raios ultravioletas, que    de aproximadamente 298.000 km/s. Voc sabe qual  a maior velo-
    o homem no percebe visu-         cidade que um carro de Frmula 1 atinge? Ento compare e imagine o
    almente. Os raios ultravioletas
                                      quanto a luz  rpida.
    so os raios de luz cujo com-
    primento de onda  inferior a         J que a luz  uma forma de onda, ento, podemos estud-la usan-
    400x10-9 m.                       do comprimentos de onda. O comprimento de onda visvel a olho hu-
                                      mano nu, tem suas medidas entre 360 e 780 nanmetros. Para cal-
    As abelhas, por exemplo, en-
                                      cularmos o valor do nanmetro, devemos multiplicar 1 metro por
    xergam apenas as cores: ul-
                                      0,000000001, o que d: 0,000000001m. Desta forma, os comprimen-
    tra-violeta, azul, amarelo e
    verde-azulado. (<http://ter-      tos de onda da luz que podemos ver  calculado da seguinte maneira:
    ra.com.br/curiosidades/mun-       360m X 0,000000001= 0,000000360 m, que pode ser representado em
    donat/mundonat_06.htm>            notao cientfica por 360 X 10-9.
    acesso em 23/11/2004).



276 Movimentos e Perodos
                                                                                                  Arte

     O comprimento de onda  determinado
  quando medida a onda de uma crista a outra                                      < EISENBACH,
  ou de um vale a outro, sendo crista a parte                                       Maysa Nara.
  mais alta, e vale a mais baixa da onda.                                           Comprimento de
                                                               Comprimento          Onda. Ilustrao
                                                                 de onda            Grfica, 2005.




z Refrao da luz
    A palavra refrao significa o desvio de direo que os raios lumi-
nosos sofrem quando atravessam sucessivamente dois ou mais meios
de densidade diferentes.
    Foi por meio da refrao da luz atravs de um prisma (a luz atraves-
sou o ar  meio 1 e o prisma  meio 2), que o cientista Isaac Newton
provou que a luz branca tinha todos os comprimentos de onda e que,
quando ela se decompunha atravs do prisma, apresentava as cores
do arco-ris. Isto, porque na verdade, o arco-ris  formado por got-
culas de gua que decompem a luz. Para provar tal fato, Newton uti-
lizou dois prismas, demonstrando que o primeiro decompunha a luz
branca em todas as cores do arco-ris, enquanto o segundo, por sua
vez, somava todas as cores do arco-ris resultando na cor branca. Por
isso se diz que "a soma de todas as cores resulta na cor branca".




< EISENBACH, Maysa Nara. Prisma. Ilustrao Grfica, 2005.




   Agora que voc j leu sobre a luz,  hora de se aprofundar na cor
propriamente dita. Sendo assim, observe sobre as misturas de cores:

z Cores primrias e secundrias
    Chamamos de cores primrias as cores capazes de gerar outras co-
res, ou seja, as cores que quando misturadas so capazes de resultar
em novas cores. J as secundrias, so as cores geradas pela mistura
das primrias. A soma de cores secundrias de uma mescla jamais re-
sulta nas cores primrias da mesma, pois as cores primrias so cores
puras.
                                                                       Uma luz na histria da Arte 277
       Ensino Mdio

                             z Mescla aditiva de cor  a luz que se soma
                                 A mescla (ou mistura) aditiva de cor recebe este nome porque tra-
                             ta da soma da luz colorida, e no da matria propriamente dita (j que
                             esta absorve, diminuindo a luz). Tudo o que enxergamos  luz, e quan-
                             to mais luz, mais prximos do branco chegamos. Ento, quando mis-
                             turamos luzes coloridas, deixamos o local mais claro, ou seja, estamos
                             somando cor, por isto a palavra aditiva.


                                                                     Para Saber
                                                                     Vermelho + azul = magenta
                                                                     Vermelho + verde = amarelo
                                                                     Verde + azul = ciano
                                                                      Vermelho + verde + azul = branco.



                                Lembre-se que isto acontece apenas se somarmos luz. Se somar-
                             mos pigmento, no sero estas as resultantes. Por isso, alguns au-
                             tores chamam as cores da mescla aditiva de cor luz conforme cita o
                             Folhas 7.
                                O arco-ris se forma tambm por estas cores. Perceba que entre uma
                             e outra est o resultado da soma acima, pois  a mistura das duas.
                                Observe:

                              vermelho - Magenta - Lils - azul - ciano - verde - Amarelo - Laranjado - Vermelho




                      PESQUISA

        Quando voc observar um arco-ris, preste ateno na formao das cores, sua intensidade, e co-
     mo ocorre a passagem de uma cor  outra. Voc notar que no so faixas com cores inteiras, chapa-
     das e separadas como no desenho animado, mas que estas cores vo passando gradativamente de
     uma cor  outra, formando uma imensido de tonalidades entre elas, que so as cores que somos ca-
     pazes de perceber.



                             z Mescla subtrativa de cores:
                               a tinta absorvendo luz
                               A mescla subtrativa, por sua vez, se d quando misturamos pig-
                             mentos, por exemplo: tinta.  por isso que as cores utilizadas na mes-

278 Movimentos e Perodos
                                                                                                     Arte

cla subtrativa so tratadas por alguns autores como cor pigmento. Diz-
se mescla subtrativa porque a matria, em geral, tem a propriedade
de absorver comprimentos de onda. Sendo assim, quando misturamos
matrias de cores diferentes, cada cor da mistura absorver determina-
do comprimento de onda, diminuindo assim a quantidade da luz refle-
tida por ela e o que chegar em nossos olhos ser uma menor quanti-
dade de luz.  o mesmo processo matemtico, subtrao  a operao
que diminui.

                                     Para saber
                                     Magenta + amarelo = vermelho
                                     Magenta + ciano = azul
                                     Amarelo + ciano = verde
                                     Amarelo + ciano + magenta = preto



   Agora, compare estas cores com as do cartucho colorido de uma
impressora. Se voc limpar o cartucho num papel higinico branco,
perceber que o papel, na primeira vez, ficar sujo de vrias cores, in-
clusive de preto, pois a constante impresso suja o cartucho colorido.
Se voc na segunda vez (j com o cartucho limpo) apenas der uma
"batidinha" no papel, notar que aparecero as trs cores primrias da
mescla subtrativa. Agora, para saber como a impressora chega a cada
uma das cores,  s comparar com os exemplos acima.


z Como as pessoas enxergam as cores?
   Na verdade, as pessoas enxergam a luz que os objetos refletiram,
e que, portanto, no foram absorvidos pelos objetos, conforme exem-
plos abaixo:


                                   Observe que, neste caso, o papel no ab-
                               sorve luz, portanto reflete vermelho, azul e ver-
                               de. No esquea que somando os trs compri-
                               mentos, temos como resultante o branco.


                                 J o amarelo  enxergado desta forma por-
                             que absorve o azul, porm reflete as ondas verde
                             e vermelha. Somando estas duas ondas enxerga-
                             mos o amarelo.




                                                                               Uma luz na histria da Arte 279
       Ensino Mdio




                                                        Enquanto isto, o ciano resulta da absoro do
                                                     vermelho pelo pigmento, que reflete azul e verde,
                                                     que somados resultam em ciano.



                                                          O magenta, por sua vez, absorve o verde, mas re-
                                                     flete o vermelho e o azul que juntos resultam na cor
                                                     magenta que  aquela que percebemos.

                                                         O verde ocorre quando temos ciano e amarelo.
                                                     O amarelo absorve o azul, o ciano absorve o verme-
                                                     lho, restando apenas o comprimento de onda verde
                                                     para ser enxergado.



                                                          O azul ocorre da mescla subtrativa do ciano e do
                                                     magenta. O ciano absorve o vermelho, o magenta
                                                     absorve o verde, restando apenas o azul para ser re-
                                                     fletido.



                                                         O vermelho resulta da mescla subtrativa do ma-
                                                     genta com o amarelo. O amarelo absorve o azul e o
                                                     magenta absorve o verde, restando apenas o verme-
                                                     lho para ser refletido.



                                                         O preto ocorre quando so misturadas as trs co-
                                                     res primrias da mescla subtrativa. O ciano absorve
                                                     o vermelho, o amarelo absorve o azul e o magenta
                                                     absorve o verde, no refletindo assim nenhum com-
                                                     primento de onda. Quando no h luz, o resultado 
                                                     o preto, por isso se diz que preto no  cor, mas au-
                                                     sncia de luz.




                            z Cor Complementar
                               Olhe fixamente a figura na pgina seguinte. Fixe o olhar no centro
                            do tringulo, depois, desvie o olhar para uma parede branca. O que
                            voc v?
                               Voc deve ter visto uma espcie de vulto brilhante da imagem, com
                            a mesma forma, porm com outras cores. Como isto acontece? As co-

280 Movimentos e Perodos
                                                                                                     Arte

res novas so as cores complementares das cores do desenho original.
Se voc observar os exemplos anteriores, perceber que as cores com-
plementares so as mesmas cores absorvidas pelo pigmento.
    Como a cor absorvida pelo pigmento  a cor que "no enxergamos"
nele, esta cor recebe o nome de complementar. Ento, a cor comple-
mentar  sempre a que falta para completar as trs cores primrias da
mescla aditiva. Desta forma, para saber qual  a cor complementar,  s
observar nos exemplos anteriores a cor que o pigmento est absorven-
do. Por exemplo, no caso do tringulo amarelo, a cor complementar 
o azul, j que o amarelo  a soma da luz verde com a luz vermelha.




   < EISENBACH, Maysa Nara. Cor
     Complementar. Ilustrao Grfi-
     ca, 2005.




                      ATIVIdAdE

    Voc  capaz de dizer as diferenas entre as cores primrias e cores secundrias na mescla aditiva
 e na mescla subtrativa? Ento destaque-as.
    Tente reproduzir a lpis as cores de sua sala de aula. No precisa desenhar, somente representar as
 cores. Quais as ondas refletidas e quais as ondas absorvidas para que cada cor seja percebida?
     Em um quadrado de 10 X 10 cm, faa o desenho de uma paisagem; depois tire uma fotocpia ou
 reproduza manualmente seu desenho. Pinte a paisagem original com as cores de sua preferncia. Em
 seguida, pinte a fotocpia com as cores complementares das utilizadas na pintura original  procure fa-
 zer isso imaginando, sem olhar os exemplos citados anteriormente.


   Veja o Livro Didtico Pblico de Fsica, no Folhas Reflexo e
Refrao.



                                                                             Uma luz na histria da Arte 281
       Ensino Mdio

                                 z Impressionismo
        O Artista                   O Impressionismo foi um movimento artstico ocorrido durante a
                                 segunda metade do sculo XIX e foi uma verdadeira revoluo tcnica
         Claude       Monet
                                 na Arte. Os impressionistas se preocupavam em utilizar a cor e a luz
    (1840  1926), pintor
                                 e diluir (ou seja, retirar) o contorno, comumente vistos nas represen-
    que nasceu em Paris,
                                 taes, j que na realidade, o contorno no existe. Um grande exem-
    iniciou sua carreira co-
                                 plo desta dissoluo e da representao do espao aparece no quadro
    mo artista comercial e
                                 O Rio de Claude Monet. Observe que nele os contornos esto dissolvi-
    caricaturista, depois,
                                 dos, ento, como percebemos sua forma, se no h linhas?
    passou por anos de
    pobreza, chegando a
    trocar seus utenslios
    por tinta, porm, com
    a primeira exposio
    impressionista seu su-
    cesso se estabeleceu,
    tanto que depois disso
    ele construiu um ate-
    lier onde cabiam telas
    imensas.
         Em 1890, Monet,
    como outros impressio-
    nistas, pintou um mes-
    mo tema sob diferentes
    condies de luz, inclu-
    sive em estaes dife-
    rentes para demonstrar
    o quanto as condies
    do tempo modificam
    a cor das paisagens.
    (STRICKLAND, 2004, p. 102)   < CLAUDE MONET. O Rio, 1868. 0,81x1,0 m. leo sobre Tela, Instituto de Arte de Chicago (Coleo Potter Palmer).


                                    Os principais artistas do Impressionismo foram: Cassat, Degas, Ma-
                                 net, Monet, Morrisot, Pissarro, Renoir e Sisley e seus principais gne-
                                 ros de pintura eram as paisagens ao ar livre, como a beira do mar, ru-
                                 as e cafs.
                                    Como vimos anteriormente na tela de La Tour (barroca), o sombre-
                                 amento era feito com cores sbrias, com mistura de preto para conse-
                                 guir o efeito de sombra e volume na obra.
                                    J no Impressionismo, para conseguir o efeito de volume e a som-
                                 bra no era utilizado o preto, mas a cor complementar. Observe que
                                 em O Rio o artista no utiliza o preto, mas outras cores para conseguir
                                 o aspecto de sombra e conseqentemente de volume.



282 Movimentos e Perodos
                                                                                                     Arte

    Outra diferena entre o Barroco e o Impressionismo era o ambien-
te de trabalho. No Barroco (e demais artes acadmicas) os artistas cos-
tumavam pintar dentro de seus atelis, utilizando-se preferencialmente
da luz artificial, enquanto os impressionistas pintavam ao ar livre, pa-
ra conseguir expressar com exatido os efeitos da luz sobre a nature-
za e os objetos.



                   ATIVIdAdE

        Em uma folha de papel (sem linhas), faa duas vezes o formato da laranja e
    pinte ambos de laranjado de forma suave. Procure sombrear e dar volume na
    primeira laranja. Utilize o lpis preto para sombrear.
       Observe o resultado da sombra e do volume.
       Agora, sombreie a segunda laranja com o lpis de cor ciano. Procure fazer
    com os mesmos movimentos e posio de incidncia de luz.
       - Qual conseguiu representar melhor o volume?
       - Na sua opinio, qual a representao mais natural?




z Atributos (ou qualidades) da Cor
=   Luminosidade:  a quantidade de luz incidente e assim refletida
    pela cor.
= Saturao:  a pureza da cor. Quanto mais pura (primria) for a
    cor, maior seu grau de saturao. Inversamente, quanto menos pu-
    ra, menor o grau de saturao.
= Contraste:  a diferena de cores que muitas vezes faz com que
    elas sejam mais bem percebidas. Normalmente, entre as primrias
    e suas complementares ocorre um excelente contraste.
= Tonalidade:  o atributo que especifica a cor. Por exemplo: azul
     uma cor, mas existem diversos tipos de azul: marinho, Royal, ce-
    leste,...
    Essa diferena  justamente a tonalidade, que  proporcionada pe-
lo uso de pigmentos de cor diferente, por exemplo, podemos ver es-
te azul, porm se misturarmos um pouco de pigmento magenta a ele,
ele pode ficar com uma tonalidade diferente, mesmo assim, no dei-
xar de ser azul.




                                                                               Uma luz na histria da Arte 283
        Ensino Mdio



                            ATIVIdAdE

          Teste os atributos da cor com o controle remoto de sua televiso.
          O que ocorre quando voc mexe na saturao?
          E na luminosidade?
          Por que o excesso de luminosidade na TV faz com que a imagem parea desbotada?

                                          Os fauvistas, conhecidos como "feras", adoravam usar cores satura-
                                       das em suas obras. Observe:



                                       z Fauvismo (ou fovismo) (1904-1908)
                                            "O Fovismo no  tudo,  apenas o comeo de tudo" (Matisse)

         O Artista
          Vindo de uma famlia abastada, Matisse
    (1869  1954) trabalhou em um escritrio de
    advocacia e acabou adoecendo. Foi em seu
    perodo de recuperao que resolveu se dis-
    trair com uma caixa de tintas que sua me lhe
    havia presenteado. Gostou tanto que da em
    diante resolveu se dedicar  pintura, mudan-
    do-se para Paris para estudar a arte.
         Neste perodo, visitava constantemente
    o Museu do Louvre (um dos principais mu-
    seus de Arte do mundo). Com seu amigo
    Czanne (impressionista) aprende que a cor
     capaz de construir volumes, e que as di-
    versas tonalidades precisam encontrar equi-
    lbrio em um quadro.
       Para Matisse, a figura feminina era co-
    mo uma arquitetura simples e perfeita. (STRI-
    CKLAND, 2004, p. 134)


   < HENRI MATISSE . Natureza Morta com Peixes vermelhos, 1911.
     leo sobre Tela, Museum of Modern Art, Nova Iorque.

                                          O Fauvismo foi um movimento francs cujas principais caractersti-
                                       cas foram o uso de cores saturadas, fortes e explosivas. As formas e a
                                       perspectiva eram distorcidas e normalmente no utilizavam sombrea-
                                       mento, preferindo cores chapadas, ou seja, com pinturas sem detalhes,
                                       sem gradao de cor.
284 Movimentos e Perodos
                                                                                                       Arte

     A crtica da poca ficou to horrorizada quando se deparou com a
fora visual de suas representaes, que os chamou de "Feras" (fauve),
e  da que vem o nome deste grupo. Os crticos chegavam a dizer que
o Fauvismo era um estilo de "loucura rematado", "universo de feira",
"(...) criana brincando com tinta", e por ltimo, os expectadores che-
garam a ter crises de risos ao ver seus quadros. (STRICKLAND, 1999, p. 130)
     Seus principais artistas foram: Derain, Vlaminck, Dufy, Rouault, Bra-
que e Matisse. O texto abaixo traz informaes sobre Matisse, que  o
mais conhecido artista do fauvismo.




                 PESQUISA

     No quadro de Matisse, o sombreamento perde sua funo. Novamente, a inteno no  de retra-
 tar algo tal qual  visto na natureza, mas fazer uma representao da vida.
    Pesquise nas artes, o significado do gnero artstico conhecido como natureza morta. Descubra o
 que , observe exemplos.
     Qual a sua opinio sobre o motivo que levou Matisse a chamar sua obra de Natureza Morta com
 Peixes Vermelhos? O que  chamado de "Natureza Morta" nesta obra, e por que que ele a chamou
 assim?




                 ATIVIdAdE
     A principal caracterstica do Fauvismo era o uso de cores saturadas. As tintas eram utilizadas direto
 do tubo na tela, sem utilizar mistura em palhetas.
     Crie uma composio com as caractersticas de cor e de deformao da perspectiva comum no
 Fauvismo.
     Depois da sua composio terminada, monte uma exposio junto aos seus colegas. Observe co-
 mo cada um deles se expressou por meio da cor, qual foi a opo de deformao, com quais os traba-
 lhos que voc mais se identificou.
     Faam crticas construtivas uns sobre os trabalhos dos outros. Fazer e ouvir as opinies incentiva a
 criatividade. Bom trabalho!
     Agora que voc aprendeu mais sobre as cores e as diferentes maneiras de serem utilizadas e ex-
 pressadas, tanto na Arte j reconhecida historicamente, como nos seus trabalhos, certamente est ob-
 servando mais a natureza e tudo que est  sua volta. Por que, ento, a maioria das pessoas continua
 pintando o sol de amarelo, a lua de branco, a terra e os troncos e galhos das rvores de marrom, as fo-
 lhas de verde e o cu de azul?




                                                                               Uma luz na histria da Arte 285
       Ensino Mdio

                            z Referncias
                              BOSI, A. Reflexes sobre a Arte. So Paulo: tica, 1991.
                              KITSON, M. O Mundo da Arte  Enciclopdia das Artes Plsticas em To-
                              dos os Tempos  Arte Barroca. RJ: Editora Expresso e Cultura, 1966.
                              LYNTON, N. O Mundo da Arte  Enciclopdia das Artes Plsticas em To-
                              dos os Tempos  Arte Moderna  Arte Barroca. RJ: Editora Expresso e Cul-
                              tura, 1966.
                              MESQUITA FILHO, A, A Natureza da Cor e o Princpio da Superposi-
                              o. em < http//www.ecientificocultural.comECC2artigospolar03.htm.htm>
                              acesso em 11/08/2004.
                              PROENA, G. Histria da Arte. 2 ed. SP: tica, 2000.
                              PIZZO, E. Matisse. Coleo de Arte. RJ: Editora Globo, 1997.
                              STRICKLAND, C. Arte Comentada: da Pr-histria ao Ps-moderno. 13
                              ed. Traduo: ngela Lobo de Andrade. RJ: Ediouro, 2004.
                              Claude Monet. Em <http://www.historiadaarte.com.br/monet.html#img>
                              acesso em 18/12/05.
                              Enciclopdia Mirador Internacional. SP-RJ: Encyclopaedia Britannica
                              do Brasil Publicaes Ltda, 1997.
                              <http://www.terra.com.br/curiosidades/mundonat/mundonat_06.htm>
                              acesso em 23/11/2004.




                      ANOTAES




286 Movimentos e Perodos
                                     Arte



   ANOTAES




               Uma luz na histria da Arte 287
      Ensino Mdio




288 Composio
                                                                                        Arte




                                                                          18

                                  AFASTEM AS CARTEIRAS,
                                       O TEATRO CHEGOU
                                                                   <Marcelo Cabarro Santos1




                                                     ugar de Teatro  s no teatro?




1
 Colgio Estadual Frei Beda Maria - Itaperuu - PR

                                                       Afastem as carteiras, o Teatro chegou 289
      Ensino Mdio

                         Quando voc quer fazer Teatro na escola, onde acaba tendo que
                     apresentar a pea? Existe um teatro ou um auditrio na sua escola ou
                     em sua cidade? Quando no tem, acaba optando entre a sala de au-
                     la, o ptio ou a quadra de esportes? No  mesmo fcil encontrar um
                     lugar para fazer teatro no ? Afinal de contas, onde  mesmo o lugar
                     do Teatro?
                         O Teatro j esteve em vrios lugares ao longo de sua histria e sem-
                     pre acabou se adaptando aos mais diversos ambientes. Em alguns ca-
                     sos, lugares planejados, construdos ou adaptados especialmente para
                     ele (o prdio de teatro) e em outros casos, lugares feitos para outros
                     fins, acabaram acolhendo o Teatro, como ruas, praas, igrejas, carro-
                     as, escolas entre outros.
                         Podemos perceber, ao longo da histria, inclusive, uma diviso de
                     espaos entre os espectadores de Teatro. Essa separao ocorre, prin-
                     cipalmente, a partir da classe social a qual pertence determinada par-
                     cela do pblico.
                         A escolha de um espao para a representao pode interferir no re-
                     sultado de uma pea teatral, alterando a relao entre os atores e es-
                     pectadores, pois determinar onde a ao acontecer (onde os ato-
                     res estaro) e de onde o pblico ver ou participar na representao.
                     Alm disso, a distncia entre os atores e o pblico pode influenciar na
                     forma como eles se expressaro vocal e corporalmente. Por exemplo,
                     se a representao acontecer ao ar livre os atores tero que falar mais
                     alto e redimensionar os gestos, enfatizar a expresso facial, entre ou-
                     tros aspectos, como acontece, em geral, nas representaes em qua-
                     dras de esporte.


                     z Reconhecendo o espao
                         O Espao Cnico
                         Existe uma grande variedade de definies para o espao no Tea-
                     tro, entre as mais importantes podemos encontrar:
                         Espao Cnico: "(...)  o espao do palco onde evoluem os atores,
                     quer eles se restrinjam ao espao propriamente dito da rea cnica,
                     quer evoluam no meio do pblico", (Pavis, 2003). Ou seja, o lugar on-
                     de acontece a ao.
                         Espao Dramtico:  o espao do qual o texto fala, um lugar que o
                     pblico deve construir pela imaginao.
                         Espao Cenogrfico: local no qual acontece a relao entre atores e
                     pblico durante a representao.
                         Um espao, mesmo vazio, pode ser definido por meio das pessoas
                     que o ocupam e pelo que elas esto fazendo (expresses corporais,
                     gestuais e faciais) e sua ao. Veja como:


290 Composio
                                                                                                       Arte



                ATIVIdAdE

    Fazendo o jogo a seguir voc perceber a importncia que tm os atores numa representao e co-
 mo o espao pode ser caracterizado pelas suas atitudes.
    Onde
    Formam-se equipes de seis jogadores, enquanto uma equipe faz o jogo o restante da turma observa.
     Um dos jogadores da primeira equipe vai a frente e mostra, a partir de gestos e movimentos, um lu-
 gar onde possa estar naquele momento, como por exemplo: numa construo assentando tijolos ou na
 cozinha, lavando louas.
     O primeiro jogador da equipe que est a frente, compreendendo onde est acontecendo a ao,
 dever tomar parte dela, interagindo com o jogador que iniciou o jogo e com o "onde" (lugar) propos-
 to por ele.
    Assim sucessivamente, os que se sentirem  vontade tomaro parte na ao, at que os seis inte-
 grantes estejam nela. Deve-se criar um final para a cena.
    Uma outra equipe far o mesmo jogo, mudando o "onde" (lugar) e assim sucessivamente, at que
 todas as equipes tenham a oportunidade de o fazer.
     Regra: no se pode descrever o "onde" (lugar) por meio de palavras, somente por gestos, porm os
 jogadores podem se expressar vocalmente.
   Discuta com todos os colegas sobre as suas dificuldades em caracterizar o lugar da ao e se real-
 mente conseguiram transmitir, apenas pelos seus gestos e movimentos, o local onde era feita a ao.

    Como percebemos no jogo proposto, o espao pode ser caracteri-
zado simplesmente pelo trabalho do ator, porm existem outros ele-
mentos que podem somar-se, na representao, para complement-la,
ajudando na caracterizao do espao: cenografia, iluminao, sono-
plastia, entre outros. Veremos logo a seguir algumas caractersticas da
cenografia.

z A Cenografia
   A cenografia existe desde de a Grcia Antiga, e em cada poca te-
ve significados diferentes, dependendo da proposta de cada pea re-
presentada. A cenografia  a arte de construir cenrios para represen-
taes. O termo "Cenrio" tem origem no termo em francs, "dcor",
que quer dizer pintura, ornamentao e embelezamento. Atualmente,
os cenrios no servem apenas para ornamentao ou embelezamen-
to da ao, mas refere-se a tudo que  usado para ambient-la e ca-
racteriz-la.

     Cengrafo  aquele que cria, projeta e supervisiona, de acordo com o
 esprito da obra, a realizao e montagem de todos os espaos necess-
 rios  cena.


                                                                  Afastem as carteiras, o Teatro chegou 291
         Ensino Mdio

                                              Na Grcia Antiga a cenografia era fixa e tinha poucos elementos e
                                          servia para ornamentao da cena. Na Idade Mdia servia principal-
                                          mente  religiosidade, representando lugares como o cu, a terra ou
                                          o inferno. Durante o Renascimento, criaram-se os cenrios em trs di-
                                          menses, com altura, largura e profundidade, que eram pintados em
                                          painis mostrando paisagens urbanas ou do campo, utilizando-se da
                                          tcnica da perspectiva  representao em um suporte plano, de obje-
                                          tos e paisagens, tais como se apresentam  vista.
                                              Por volta do sculo XIX d.C, surge o Naturalismo (reproduo exa-
                                          ta da realidade, tal qual ela se apresenta, sem idealizaes) e com ele 
                                          abolido o uso dos painis pintados, passando-se a compr a cena com
                                          a introduo de objetos reais como: (cortinas, escadas, mesas, cadei-
                                          ras, tapetes, lustres, livros) e tudo mais quanto seja necessrio para re-
                                          criar no palco um efeito mais verdadeiro e de maior realidade, inclusi-
                                          ve alterando o modo como os atores representavam seus papis. Veja
                                          esta frase: " preciso que o lugar do pano de boca seja uma quarta pa-
                                          rede transparente para o pblico, opaca para o ator". (Jean Jullien, apud. ROUBINE,
                                          1982, pg. 28), querendo dizer que os atores deveriam desconsiderar a pre-
                                          sena dos espectadores.




   < pera: Tosca  1989, direo Marcelo Machioro  Crdito da foto: Gustavo Hrtel  Acervo do Centro Cultural Teatro Guaira.

292 Composio
                                                                                                    Arte

   Dessa forma, o espectador passou a se comportar como mero ob-
servador, determinando uma atitude de passividade frente  represen-
tao, pois fica esttico, sentado na mesma posio, do comeo ao fim
da representao.
   Esta forma de conceber a cenografia e a relao entre atores e es-
pectadores se altera a partir do sculo XX, impulsionada principalmen-
te pelas pesquisas do polons Jerzy Grotowski, que voc conhecer
mais  frente, neste texto.


z Uma viso mais moderna
   Veja o que diz um terico, sobre o cenrio "... o cenrio, como o
concebemos hoje, deve ser til, eficaz e funcional.  mais uma ferra-
menta do que uma imagem, um instrumento e no um ornamento". (Ba-
blet, 1960, apud PAVIS, 2004)
     A cenografia no deve existir separadamente do conjunto da repre-
sentao, deve se integrar a todos os outros elementos que a constituem
(personagens e ao). Por isso, deve-se pens-la de forma que venha
a contribuir no resultado da representao, portanto, ela deve ser til,
funcional e dinmica, ou seja, poder ser usada para o fim que se dese-
ja, sem que ela atrapalhe a ao nem se destaque mais do que os outros
elementos da representao. Porm, no existem apenas cenrios cons-
trudos, eles podem ser muito variados. Conhea alguns deles:
= Cenrio Construdo: feitos ou construdos para se adaptarem aos es-
     paos j existentes.
= Cenrio Verbal:  demonstrado pelas falas das personagens, no se
     utilizam de meios visuais.
= Cenrio Simultneo: diferentes cenrios que ficam visveis o tempo
     todo da representao. Como voc perceber, quando falarmos lo-
     go mais, do Teatro Medieval.
= Cenrio Sonoro: sugere a ambientao da pea por meio de sons.

= Cenrio Realista: so cenrios que reproduzem a realidade com
     exatido, ou seja, devem ser o mais parecido possvel com os luga-
     res descritos pelo texto.



                         ATIVIdAdE

       Para perceber e experimentar um dos tipos de cenrio, faa a seguinte experincia:
       Paisagem sonora
     Voc j esteve numa floresta? Discuta com seus colegas sobre os possveis sons encontrados no
  mato ou numa floresta, por exemplo: barulho do vento entre as folhas das rvores, estalos de galhos


                                                                    Afastem as carteiras, o Teatro chegou 293
      Ensino Mdio


    ao serem pisados, sons da gua de riachos e pssaros (coruja, bem-te-vi), insetos (grilo, abelha, be-
    souro), outros animais (lobo, esquilo, sapo, chocalho de cobra). Entre outros possveis sons citados pe-
    lo grupo.
       Em seguida, dividam os sons entre todo o grupo, de acordo com a preferncia de cada um.
         Todos permanecero sentados em crculo, no cho ou em cadeiras. Apaga-se total ou parcialmen-
    te as luzes da sala ou todos ficam de olhos fechados e ento deve-se iniciar a produo dos sons, uti-
    lizando-se os recursos vocais e corporais disponveis.
       Como se fosse uma orquestra, os sons vo sendo introduzidos em alguns momentos, mas no o
    tempo todo, devendo-se tomar cuidado em ambientar o cenrio sonoro de uma floresta.
       Logo aps a experincia, discuta com seus colegas sobre as seguintes questes: Qual dos tipos de
    cenrio foi utilizado na experincia? Conseguiram imaginar o lugar sugerido, por intermdio dos sons?
       Outras paisagens sonoras podem ser criadas, como: cidades, fbricas, fazenda, entre outras.

                                 E para aqueles que pensam que o Teatro sempre foi feito nos tea-
                             tros, em palcos, com luzes, cortinas, msicas e tudo mais, vale a pena
                             conhecer um pouco sobre a evoluo dos espaos teatrais e perceber
                             que o lugar para fazer Teatro pode ser o mais variado possvel.


                             z O espao do Teatro
                                 Nem sempre o Teatro acontece num palco, apesar de que  inevi-
                             tvel associarmos uma coisa  outra. Por esta razo a preferncia por
                             se utilizar a expresso "espao cnico". Atualmente, o limite de opes
                             quanto ao uso do espao cnico est na criatividade de quem far uso
                             dele. O uso do espao, assim como as construes de teatros (edifcios
                             teatrais) evoluram com o passar do tempo, e essas transformaes afe-
                             taram as relaes entre atores e espectadores.
                                 Podemos observar as evolues no uso do espao cnico a partir
                             da Grcia Antiga, onde as primeiras representaes teatrais eram ao ar
                             livre, durante as festividades religiosas em homenagem aos seus deu-
                             ses. Com a organizao dessas festividades em forma de festivais, as re-
                             presentaes foram destinadas a espaos reservados para elas. Os tea-
                             tros construdos eram de madeira e somente a partir do sculo V a.C,
                              que passaram a ser construdos de pedra.
                                 Esses teatros eram em formato circular e aberto, geralmente cons-
                             trudos nas encostas de colinas, aproveitando a prpria geografia do
                             terreno o que diminuiria as despesas na construo e favoreceria o uso
                             da acstica proporcionada pelo local. O pblico permanecia na parte
                             do terreno em declive (descida) e os atores na parte de baixo. Veja na
                             imagem da pgina seguinte um exemplo de espao grego.




294 Composio
                                                                                                               Arte




     < Teatro de Epidauro - Sculo IV a.C construdo por Policleto, o jovem.


    Nos teatros gregos no havia divises para o pblico em classes so-
ciais, fato que se dava com o Teatro Romano, no qual os melhores lu-
gares eram ocupados por alguns poucos privilegiados. Enquanto para
os gregos o teatro era um lugar de reunio da comunidade; os teatros
romanos eram construes fechadas, que serviam para dar diverso a
um grande pblico.  em Roma que se utilizam pela primeira vez as
cortinas que separam o palco da platia antes do incio das peas.
    Durante a Idade Mdia no foram construdos teatros. Como o tea-
tro oficial era o religioso, as representaes ou eram feitas dentro das
igrejas ou em frente a elas, utilizando a prpria entrada como cenrio.
Outras vezes utilizava-se as praas pblicas, onde as peas eram repre-
sentadas em palcos chamados estrados que eram espaos mais largos,
utilizando-se de cenrios simultneos, ou seja, diferentes cenrios que
ficavam visveis durante toda a representao. Um porto servia para
sugerir uma cidade, uma elevao representava uma montanha. "No
canto esquerdo do estrado, uma enorme boca de drago servia para a
passagem dos demnios e a ida para o inferno dos pecadores. (...) na
parte direita, acima do cho, situava-se o paraso..." (MAGALDI, 2004)




     < Ilustrao de Cenrio Medieval.


                                                                               Afastem as carteiras, o Teatro chegou 295
      Ensino Mdio

                        Essas representaes duravam dias e tinham uma grande participa-
                     o popular, envolvendo tambm um grande nmero de atores. Isso
                     nos mostra que desde essa poca o Teatro j era uma atividade coleti-
                     va e que dependia da unio e do trabalho de muitas pessoas.


                     z O Teatro Elisabetano
                         Os ingleses, durante o reinado da Rainha Elizabeth I, criaram um tipo
                     de construo arredondada, com uma abertura no teto, que ficou sen-
                     do chamado de Teatro Elisabetano e foi considerado um grande avano
                     para a poca. Possua grandes balces, junto s paredes, onde ficavam
                     os nobres. O pblico pobre permanecia em p, na parte descoberta da
                     construo. Este tipo de prdio, na poca, ambientava as peas escritas
                     e dirigidas pelo grande dramaturgo Willian Shakespeare.
                         Percebe-se que existia nesse perodo uma clara distribuio do es-
                     pao cnico, a partir do grupo social ao qual o pblico pertencia. Para
                     podermos compreender por que isso acontecia no passado e aconte-
                     ce muitas vezes tambm no presente, buscaremos explicao na teo-
                     ria de um famoso socilogo alemo chamado Karl Marx (1818  1883)
                     sobre classes sociais. Segundo ele, uma classe  um grupo de pessoas
                     que tem uma relao em comum com os meios de produo, ou seja, a
                     maneira como se sustentam, seu trabalho.




                     < Teatro Elisabetano.


296 Composio
                                                                                              Arte

     Antes do avano da Indstria, os meios de produo eram: a terra,
os utenslios da lavoura e os animais no campo. E nesse perodo exis-
tiam dois grupos sociais principais:
= os aristocratas, a nobreza e o clero (que possuam a terra);

= os servos e os camponeses livres (que trabalhavam nas terras).

    Na sociedade de hoje os meios de produo so outros: fbricas,
mquinas, escritrios e a riqueza (dinheiro) para compr-los. Existindo
tambm duas classes sociais principais:
= os capitalistas ou industriais que detm os meios de produo;

= classe operria, que ganha a vida vendendo o seu trabalho para os
    capitalistas.
    Como a entrada  cobrada, o Teatro passa a ser freqentado em
sua maioria por quem tem dinheiro para pag-lo. O Teatro passa a ser
considerado uma Arte dedicada a sbios e eruditos. Para atender s ne-
cessidades desse pblico pagante, ou seja, separ-lo do povo em ge-
ral, desenvolveu-se a partir do Renascimento, principalmente na Itlia,
um novo modelo de prdio teatral. Esse tipo de estrutura cnica passa
a ser chamada de Palco Italiano.
    Com a introduo do palco italiano passa a existir tambm uma sepa-
rao mais definida entre palco (lugar cnico) e platia (espectadores).
    Os palcos italianos tambm passam a ser muito utilizados, por pos-
sibilitarem a execuo dos mais variados recursos de iluso e truques
cnicos. O palco torna-se uma "caixinha de mgicas". A cenografia ti-
nha a inteno de maravilhar o espectador.




 < Palco Italiano.




                                                              Afastem as carteiras, o Teatro chegou 297
      Ensino Mdio

                        Eles so os mais tradicionais e comuns que existem atualmente,
                     basta pensar no modelo de espao dos auditrios e teatros tradicionais
                     que voc conhece. Os palcos italianos se espalharam pelo mundo to-
                     do, inclusive no Brasil. Temos em Curitiba, capital do Paran, a influ-
                     ncia desse modelo de palco, na construo do Teatro Guaira, um dos
                     smbolos do teatro paranaense.

                          Ainda hoje, mas principalmente na dcada de 50, ao ir ao teatro, tinha-
                      se como costume o uso obrigatrio pelos espectadores de "traje" especfi-
                      co, que servia para ostentao da classe social a qual pertenciam. Para os
                      homens, terno e gravata e vestido longo para as mulheres.



                     z O teatro pobre, no  pobre
                         A partir do final da dcada de 1950, o polons Jerzy Grotowski
                     (1933  1999) comea as suas pesquisas sobre o trabalho do ator, em
                     seu teatro laboratrio em Wroclaw, na Polnia, que acabam conduzin-
                     do a uma revoluo da tradio cenogrfica no acidente.
                         Segundo ele, o Teatro deve agir diretamente sobre alguns indivdu-
                     os, para isso, deve-se diminuir as distncias entre atores e espectado-
                     res. A esse processo chamou de "proximidade de organismos vivos".
                     Nele, as trocas de olhares dos atores e espectadores, a respirao, a
                     transpirao tero participao ativa durante a representao.
                         Grotowski renuncia  diviso entre dois espaos, reservados e se-
                     parados por um limite impenetrvel (palco e platia). Como seu obje-
                     tivo  a pesquisa e verificao de hipteses sobre a atuao do ator, a
                     apresentao serve para o experimento. Para isso, Grotowski descon-
                     sidera o nmero de espectadores, mas no sua presena. Ele tem pre-
                     ferncia por espaos menores (60 espectadores).
                         Essa forma teatral  denominada de Teatro Pobre, por Grotowski
                     porque recusa a ajuda de qualquer recurso de maquinaria ou tecno-
                     logia, que no esteja sob o controle do ator. Para Grotowski, o Teatro
                     Contemporneo  muito rico, rico em defeitos, fato que se d pela im-
                     portncia demasiada que os espectadores do a outros elementos da
                     pea. Para ele, o essencial no Teatro  a presena fsica do ator diante
                     do espectador, o Teatro existe mesmo sem cenrios (construdos), fi-
                     gurinos, msica, maquiagem e at sem texto.
                         Para esse tipo de representao, necessita-se somente de um espa-
                     o nu (vazio), que possa ser organizado. Dessa forma o Teatro pode
                     ser feito em qualquer lugar: um galpo, uma quadra, ao ar livre, numa
                     sala de aula ou exatamente onde voc est. O espao cnico volta a
                     ser flexvel e transformvel de uma montagem para outra.




298 Composio
                                                                                                    Arte

z Outros tipos de palco
   Arena
   Neste tipo de espao, os espectadores so dispostos em torno da
rea de atuao (parte escura do desenho), como num estdio de fu-
tebol, muito utilizado atualmente, podendo ser: circular, semicircular,
3/4 de crculo, quadrado, entre outros.
       CIRCULAR               SEMICIRCULAR             3/4 DE CRCULO                QUADRADO




   Tablado
   Trata-se de algumas tbuas sobre dois suportes. Pode ficar entre 1m
a 1,5 m de altura.  um tipo de palco, utilizado na maioria das vezes,
nu. Surgiu no sculo XVII, com os artistas de feira.

   Teatro de Rua
   Quando se utiliza locais exteriores s construes tradicionais, o Teatro
 chamado de "Teatro de Rua", como por exemplo as ruas, praas, mer-
cados, terminais rodovirios, entre outros. Esse tipo de representao atrai
geralmente muitos espectadores, pois vai ao encontro do pblico, que ge-
ralmente no freqenta os "teatros tradicionais".



                ATIVIdAdE

     Projeto Cenogrfico, analisando o texto.
      Em grupos de seis colegas, escolha qualquer texto de sua preferncia, sendo ele dramatrgico (es-
 crito para ser representado).
     De posse do texto, faa junto com seus colegas de grupo uma leitura atenciosa, realizando uma
 anlise literria para compreenso: quem  o autor? (pesquise sobre sua biografia), qual  o tema do
 texto? (de que fala), qual  o gnero? (Comdia, Drama, Tragdia, etc), em que poca foi escrito? (em
 que contexto histrico foi produzido), em que poca a ao (histria) se passa? Quem so as perso-
 nagens? Quais so os lugares sugeridos pelo texto, para a ao? Entre outros questionamentos, que
 possam ser feitos.




                                                                  Afastem as carteiras, o Teatro chegou 299
      Ensino Mdio


       Lembre-se que acima de tudo, este texto nos diz algo. O que esse texto quer dizer, nos dias de hoje?
    Qual seria a sua mensagem para a nossa realidade? Que tipo de vocabulrio  utilizado? Ele precisaria ser
    adaptado para os nossos dias? O que o texto retrata ou o que significa?
        De acordo com o que foi descoberto e discutido sobre o texto, decida com seus colegas de gru-
    po que tipo de espao cnico seria o mais adequado para a montagem deste texto? O texto sofreria
    adaptaes de tempo (poca) e espao (lugar)? Que tipo de relao os atores tero com os especta-
    dores? Que tipo de cenografia seria mais adequada a este tipo de encenao (realista, painel de fundo
    pintado, palco nu, entre outros)? Que materiais sero utilizados (madeira, metal, plstico, etc), onde fi-
    caro os espectadores?
       Faa uma descrio detalhada do espao escolhido pelo grupo, por meio de um desenho (projeto).
    Ou se preferir, crie uma maquete desse espao.
       Se o grupo quiser seguir em frente com o projeto, execute-o, podendo se valer dos integrantes que
    tenham habilidades com marcenaria e construo.
       Escolha um local alternativo, se quiser, para utilizar o cenrio, como por exemplo: ptio, parque, sa-
    guo, escadaria ou outro de sua preferncia. Depois de pronto execute nele cenas (ensaiadas ou im-
    provisadas) do texto escolhido, no local que determinou com a turma.
       A anlise literria e a pesquisa so fundamentais para que o resultado do projeto seja satisfatrio.


      Depois de conhecermos um pouco sobre o Teatro e o seu espao, voc ainda pensa que
   lugar de Teatro  s dentro de um teatro?



   z Referncias:
      BOAL, Augusto. Jogos para Atores e No-atores. Rio de Janeiro: Civilizao Brasileira, 2005.
      CARVALHO, Enio. Histria e Formao do Ator. So Paulo: Editora tica, 1989.
      Centro de Estudos e Pesquisas em Educao, Cultura e Ao Comunitria. A Arte  de Todos. So
      Paulo: CENPEC.
      FARACO, C. A. Portugus: Lngua e cultura, ensino mdio. Curitiba: Base Editora, 2003.
      GIDDENS, Anthony. Sociologia. Porto Alegre: Artmed, 2005.
      MAGALDI, Sbato. Iniciao ao Teatro. So Paulo: Editora tica, 2004.
      MANTOVANI, Anna. Cenografia. So Paulo: Editora tica, 1989.
      PAVIS, Patrice. Dicionrio de Teatro. So Paulo: Perspectiva, 2003.
      ROUBINE, Jean-Jacques. A Linguagem da Encenao Teatral (1880-1980). Rio de Janeiro: Zahar
      Editores,1982.
      SPOLIN, Viola. Improvisao para o Teatro. So Paulo: Perspectiva, 2005.
      STANISLAVSKI, Constantin. Manual do Ator. So Paulo: Martins Fontes, 2001.




300 Composio
                                               Arte



   ANOTAES




               Afastem as carteiras, o Teatro chegou 301
      Ensino Mdio




302 Composio
                                                                                                          Arte




                                                                                      19

                                               QUEM NO DANA,
                                                        DANA!
                                                                           <Sonia Maria Furlan Sossai1




                                                 "Baila comigo, como se baila na tribo
                                                 Baila comigo, l no meu esconderijo..."

                                                           < Rita Lee - CD Baila Comigo- Faixa 10, EML.




                                                    oc baila na Tribo?
                                                    Qual a sua Tribo?




1
 Colgio Estadual Douradina - Douradina - PR

                                                                           Quem no dana, dana! 303
         Ensino Mdio

                                         z As diferentes tribos
                                             Costumamos identificar o termo tribo como povos antigos ou co-
                                         munidades indgenas. Desde as naes antigas, a palavra tribo refere-
                                         se s divises de povos que formam grupos numerosos de pessoas que
                                         partilham as mesmas idias.
                                             No mundo contemporneo  essa aldeia global  podemos dizer
                                         que as pessoas se organizam em tribos urbanas: street dance, hip-hop,
                                         ax, pagode, samba, msica sertaneja, punks, hippies, etc.
                                             Desde os tempos mais remotos, nas tribos mais primitivas, a dan-
                                         a faz parte dos rituais que expressam emoes e sentimentos profun-
                                         dos da alma humana.
                                             Voc concorda com essa afirmao? O que teria levado os povos no
                                         passado a utilizar a dana em suas manifestaes?


                           ATIVIdAdE

          Antes de iniciarmos essa unidade vamos ver o que cada aluno da sala pensa sobre dana.
         Oua com ateno a msica citada e reflita sobre as diferentes formas de dana que voc conhe-
     ce, use a sua imaginao e a sua memria.
          Em seguida, cada aluno continuar a frase: DANAR PARA MIM ....
        Depois, discuta sobre o tema com seus colegas e seu(a) professor(a) e sobre seus pontos de vista
     acerca das questes:  bom danar? Como? Com quem? Que tipo de msica? Quando? Onde?
          Voc j assistiu a uma apresentao de dana? Qual? Gostou? Por qu?


                                                                                           Conversando com
                                                                                       seus colegas da sa-
                                                                                       la voc vai perceber
                                                                                       que existem diferentes
                                                                                       opinies sobre a dan-
                                                                                       a. De todo modo, ain-
                                                                                       da que possam existir
                                                                                       pessoas que no gos-
                                                                                       tam de danar, a maio-
                                                                                       ria dana em alguma
                                                                                       ocasio da sua vida:
                                                                                       em festas tradicionais
                                                                                       como as Festas Juni-
                                                                                       nas, em comemoraes
                                                                                       como os casamentos,
                                                                                       em bailes e dancete-
   < Bailarina Isabelle Krauze da Silva. Foto: Levy Ferreira                           rias, em espaos cultu-
                                                                                       rais, etc.
304 Composio
                                                                                                     Arte

    Voc j observou que ningum
consegue ficar parado quando ou-
ve uma msica da qual gosta? Mui-
tas vezes nem percebemos, mas ao
ouvirmos uma msica nosso corpo
executa alguns movimentos, que
so, normalmente, provocados pe-
lo ritmo.
    Por que isto acontece?
    Que motivo leva as pessoas a
danar?
    A linguagem corporal de uma
pessoa  formada desde o seu nas-
cimento, por meio das cantigas de
ninar, das brincadeiras infantis, das < Foto: Levy Ferreira
danas populares, etc, e, ao longo de nossa histria, vai se transfor-       Martha Graham (1894
mando a partir do convvio social, e dos meios de comunicao.             1991)  considerada uma
medida que nos integramos em determinados grupos, passamos a co-            das mais importantes e in-
nhecer diferentes tipos de dana e escolher o que gostamos e o que          fluentes artistas do mundo.
queremos ouvir.                                                             Danarina, coregrafa e pro-
                                                                            fessora, ela integrou um pe-
    Mas o que ser que nos leva a gostar ou escolher determinado tipo       queno grupo de artistas do
de dana? Os movimentos que conseguimos executar com nosso corpo,           sculo XX que rompeu mol-
a facilidade de aprender e danar "essa" ou "aquela" coreografia e o        des tradicionais e criou novas
meio no qual vivemos so fatores que influenciam muito o nosso gosto.       formas de expresso, desa-
As msicas que estamos acostumados a ouvir, as tradies familiares e       fiando antigos modos de per-
a mdia tambm interferem diretamente nas nossas preferncias.              cepo do movimento.
    A dana  uma forma de linguagem corporal que permite diferentes
possibilidades e combinaes de movimentos, e pode trazer inme-             Laban (18791958) dan-
ros benefcios, tais como: alvio das tenses do dia-a-dia, relaxamento,    arino que dedicou sua vi-
unio e relacionamento com pessoas queridas, e, em todos os casos, o        da ao estudo do movimento
prazer proporcionado pelo movimento fsico do corpo. Na dana, mui-         humano, resgatando os atos
tas vezes sem perceber, vamos fazendo movimentos que, progressiva-          espontneos na dana. Sua
mente, vo se ordenando no espao e no tempo para expressar nos-            proposta de dana no con-
sos sentimentos do momento: alegria, prazer, gratido, respeito, temor,     sidera apenas a graciosida-
angstia, tristeza, etc. Como manifestao da cultura corporal, a dan-      de, beleza das linhas e leveza
a remonta do perodo Prhistrico, pois vrios registros encontrados      dos movimentos, mas a liber-
na forma de inscries rupestres que retratavam situaes do cotidia-       dade que possibilita ao ho-
no dos homens.                                                              mem se expor por meio dos
                                                                            seus movimentos com seu
                                                                            prprio corpo.
z A dana como expresso de sentimentos
   No incio do sculo XX, uma danarina chamada Isadora Duncan
fez uma revoluo no mundo da dana, dizendo que a dana existia
para que cada um de ns pudesse comunicar sentimentos por meio de
movimentos. Para ela, a dana era um modo de expresso interior.


                                                                           Quem no dana, dana! 305
      Ensino Mdio

                                 Outros danarinos, em vrias partes do mundo, como Martha Graham
                              (EUA) e Rudolf Laban (Alemanha) tambm partilhavam dessas idias
                              que ainda permanecem em algumas concepes de dana at hoje.

                          ngela Isadora Duncan (18781927), bailarina e coregrafa,  considerada a pioneira da dana mo-
                          derna. Inicialmente, danava para expressar sua liberdade, porm, com o passar do tempo, a danari-
                          na passou a encontrar na dana uma forma de manter-se emocionalmente equilibrada, pois viveu ter-
                          rveis acontecimentos na sua vida: seus filhos morreram afogados e seu marido se enforcou. O mundo
                          perdeu essa maravilhosa bailarina num trgico acidente em Nice, Frana. Morreu estrangulada, quando
                          o seu longo cachecol se enrolou numa das rodas do carro.
       < Isadora Duncan




                     ATIVIdAdE

       Traga de casa um lenol de casal ou solteiro (quanto mais colorido melhor).
       Em dupla, escolham e tragam para a escola a msica que mais os emociona.
       Utilizando o lenol, criem movimentos de dana e apresentem os movimentos criados pela dupla
    para os colegas da sala.
       Selecionem os movimentos que vocs consideram mais expressivos e montem uma coreografia.
       Ensaiem bastante e apresentem para os alunos da escola.
       Essa dana vai ficar um show!


                              z Meu corpo, minha dana!
                                  A dana est associada s possibilidades de movimento do cor-
                              po. Quando danamos temos possibilidade de entender o nosso cor-
                              po, pois cada dana nos permite express-la de uma maneira dife-
                              rente. Apreciando a dana, podemos aprender mais sobre as pessoas
                              e sobre o mundo em que vivemos. Observe, por exemplo, um desfi-
                              le de escola de samba. Note as diferentes maneiras de cada compo-
                              nente da escola sambar. Uns sambam com os ps, outros com o cor-
                              po e todos com a alma, levando em conta o enredo que  encenado,
                              que articula a msica, as fantasias e as alegorias com a dana, nes-
                              se caso, o samba.

                                  O samba  uma dana de origem africana, que no Brasil adquiriu caractersticas prprias.
                                  Possui um ritmo forte marcado por instrumentos musicais que valorizam a sua vitalidade. Exis-
                                  tem vrios tipos de samba: samba-cano, samba-choro, samba de breque, samba de gafiei-
                                  ra, samba de morro, samba carnavalesco, etc.


                                  < Desfile Carnaval Escola de Samba Gavies da Fiel, So Paulo 2003.



306 Composio
                                                                                                                 Arte



                 PESQUISA

    Forme grupos de at 5 pessoas.
      Faa uma pesquisa sobre os vrios tipos de samba existentes, (pode ser feito um sorteio para a escolha do
 tipo de samba), fazendo uma anlise do contedo histrico, poltico, social e econmico em que se constitui.
    Apresente sua pesquisa em forma de seminrio aos seus colegas da sala.
    Se possvel, tragam um exemplo do samba pesquisado para a turma ouvir.


z No importa onde, eu quero danar!
    Para acontecer a dana precisamos de um espao, um lugar, que
pode ser um palco, o salo de um clube ou de uma danceteria, uma
academia, ou mesmo uma rua.
    O espao para a dana pode ser pequeno ou grande, circular ou
quadrado, desde que possibilite os movimentos dos danarinos. O es-
pao  um elemento essencial para a dana, deve ser estudado e ana-
lisado para definir o tipo de coreografia a ser elaborada.
    Voc j assistiu a alguma apresentao de dana? Em que lugar?
    Que mensagem as danas queriam nos transmitir?
    Muitas danas possuem uma formao ou posio inicial, isto , os
danarinos comeam sua movimentao a partir de uma posio, de
acordo com a coreografia previamente elaborada, e esta formao po-
de ir se modificando de acordo com o desenvolvimento da dana.


                 ATIVIdAdE

    Observe a obra de Matisse, um pintor que usou a dana como
 um dos temas para seus quadros.
    O que esta obra representa?
     Qual  a formao dessa dana apresentada na obra de Ma-
 tisse?
    Descreva como voc percebe o espao representado na obra
 a Dana (primeira verso).
                                                                         < HENRI MATISSE, Dana (primeira verso),
    Que outro tipo de formao de dana voc conhece?                      1909. leo s/ tela, 640x423cm. MoMa,
                                                                           Nova Iorque.
      Apresente seu trabalho para sua professora e seus colegas da sa-
 la, compare as respostas de seus amigos com a sua resposta. Todos
 pensam da mesma maneira? Discuta com seus colegas as diferentes formas de cada um analisar a obra.
    Vamos afastar as carteiras e fazer a formao da obra de Matisse?
    Essa formao pode ser transformada? Sem soltar as mos dos colegas da sala, tente outra formao.


                                                                                      Quem no dana, dana! 307
      Ensino Mdio

                     z Gneros da dana
                         As danas podem ser classificadas a partir de muitos critrios. Depen-
                     dendo de quem faz a dana e para quem a faz, entre outros aspectos,
                     podemos classific-la nos seguintes gneros: de espetculo, tnicas, fol-
                     clricas, salo e criadas pela indstria cultural. (TAVARES, 2004)


                     z Dana de espetculo
                          Hoje tem espetculo? Tem sim senhor!




                     < Cecconello Grupo de Dana. Bailarinas: Isabelle Krauze da Silva, Priscila Pontes, Rafaela Milito, Bruna Fernandes e
                       Mariana Costa. Coreografia de Viviane Cecconello. Foto: Levy Ferreira.

                         As danas de espetculo so aquelas executadas por profissionais, na
                     qual muitas pessoas vo apreciar os danarinos e sua performance.
                         Voc j viu alguma apresentao de dana no teatro ou na televi-
                     so?
                         Na dana artstica ou de espetculo  possvel utilizar vrios recur-
                     sos que enriquecem ainda mais a apresentao, tais como, trapzios,
                     cenrios e efeitos especiais. Um exemplo de uma dana de espetcu-
                     lo  o Jazz, que surgiu nos Estados Unidos, possui razes populares e
                      considerada uma forma de expresso pessoal criada e sustentada pe-
                     lo improviso, que enfatiza o sentido rtmico do movimento e  aces-
                     svel ao pblico.
                         Outro estilo de dana de espetculo  o bal que, em termos gerais,
                      uma dana que conta uma histria. Com seus movimentos, os baila-
                     rinos vo narrando os acontecimentos desta histria, tendo como base
                     a msica, que normalmente  composta para reforar as idias do en-


308 Composio
                                                                                                   Arte

redo ou argumento. Ao observarmos os bailarinos, ficamos fascinados
com a leveza de seus movimentos. A maioria dos bals constitui-se no
conjunto de vrias artes: dana, msica, arte visual (cenografia, figuri-
no) e tambm o Teatro.




       < Foto: Ana Maria Diacpulos Silva  bailarina Camila Diacpulos Silva.


   Degas foi um pintor que produziu muitas obras retratando bailari-
nas e cenas do bal clssico. Chamamos de bal clssico um espet-
culo que teve suas origens no Renascimento, nas cortes francesas, no
qual o pblico contemplava o que se desenvolvia no palco, que de-
veria ser um espao grande, porque era executado por muitos dana-
rinos.
   No bal clssico, em geral, evita-se que o pblico perceba o esforo
corporal realizado pelos bailarinos, assim a figura do danarino torna-
se etrea e idealizada, parecendo imaginria ou irreal. Os gestos que,
por necessidade do argumento, precisem ser manifestados com gran-

                                                                                 Quem no dana, dana! 309
        Ensino Mdio

                                       de energia ou fora, realizam-se, de forma geral, com os braos, j que
                                       na dana acadmica os braos possuem maior liberdade expressiva do
                                       que as pernas. (OSSONA, 1988)
                                          Observe o quadro de Degas, "O Ensaio", no qual o artista oportu-
                                       niza ao espectador a observao dos ensaios de uma dana clssica,
                                       mostrando aspectos como a graciosidade, flexibilidade e beleza dos
                                       movimentos das bailarinas, tpicos da dana clssica.




   < EDGAR DEGAS (1834  1917). O ensaio, 1877, 68x103 cm; leo sobre Tela, Galeria de Arte Glasgow.

          O artista
      Edgar Degas (1834  1917) pintor francs reconhecido como o grande mestre das figuras em movi-
    mento.
        So inmeros os desenhos, rascunhos e esboos que ele fazia ao vivo, para depois realizar em seu
    estdio a verso definitiva, na qual captava, com genialidade, a expresso do movimento das pessoas.
        Muitos de seus trabalhos chegaram at ns inacabados, mas mesmo assim so apreciados no mun-
    do todo.


                                       z Dana tnica
                                          Minha dana, minha origem
                                          Chamamos de dana tnica a dana que retrata a cultura de um
                                       povo, suas crenas, seus costumes, sua vida. Entre as danas tnicas

310 Composio
                                                                                                                   Arte

                         que podemos encontrar no Brasil, destacamos
                         as danas indgenas. Voc j viu alguma? Os
                         povos indgenas brasileiros tm uma dana em
                         comum? Por qu?
                             Ao contrrio do que muitos acham, as po-
                         pulaes indgenas que habitam o territ-
                         rio brasileiro possuem caractersticas culturais
                         prprias. Podemos observar diferenas quan-
                         to ao tipo fsico,  lngua que falam, aos ritu-
                         ais que praticam, aos seus costumes e tambm
                          sua dana.
                             As danas indgenas se realizam em dife-
                         rentes situaes, normalmente com intenes
                         ritualsticas. Na regio do rio Uaps, que se lo-
                         caliza na fronteira do Brasil com a Colmbia,
                         encontram-se muitas tribos: Arapaso, Bar,
                         Barasana, Desana, Karapan, Kubeo, Makuna,
                         Karapan, Siriano, entre outras. Dentre os ri-
                         tuais praticados por esses povos, existe o ri-
                         tual dos caxiris praticado em ocasies sociais
                         pelos ndios e seus vizinhos, tanto para come-
                         morar diversas situaes como para agrade- < Foto: Levi Ferreira.
                         cer pela ajuda na abertura de uma roa ou na
                         construo de uma casa nova. Tambm  usada para marcar a nomea-
                         o de uma criana, em um casamento, na etapa final do ritual de ini-
                         ciao dos meninos ou somente por divertimento e reforo dos laos
                         sociais.
< Foto: Levi Ferreira.




                                                                                                 Quem no dana, dana! 311
      Ensino Mdio

                                Nesse ritual, ocorre a dana e o consumo de uma bebida chama-
                            da caxiri (espcie de cerveja). Os convidados so os principais dana-
                            rinos, e em troca de suas danas, os anfitries lhes oferecem grandes
                            quantidades do caxiri preparado pelas mulheres.
                                Paramentados com cocares de penas e outros adornos, os indge-
                            nas danam a noite inteira em volta do recipiente de caxiri (cuja forma
                             semelhante a uma canoa), que constitui o foco central da celebrao.
                             uma questo de honra que todo o caxiri seja consumido antes dos
                            visitantes partirem pela manh.
                                Nessas ocasies existem duas formas de dana. Em uma delas, a
                            mais lenta, os homens se dispem em uma linha entrecruzada por mu-
                            lheres. Na outra, mais informal e com ritmo mais acelerado, a forma-
                            o  diferente, pois cada ndio dana sozinho, tocando algumas flau-
                            tas e competindo com os outros para atrair a parceira de sua escolha.


                     PESQUISA

       Existem grupos de dana tnica na sua regio?
       Eles apresentam danas de qual etnia?
       Voc j assistiu a uma apresentao de dana tnica? Qual?
       O que essas danas representam culturalmente?




                     ATIVIdAdE

       Os alunos da sala devero dividir-se em dois grupos.
       Um dos grupos ficar responsvel por criar uma msica, batendo nas carteiras e usando sons cor-
    porais, para o ritual dos caxiris.
       O outro dever fazer a formao da dana mais lenta, na qual os homens se dispem em uma li-
    nha entrecruzada por mulheres.
       Dancem alguns minutos e depois troquem de funo: quem era msico passa a ser danarino e vi-
    ce-versa!


                            z Dana folclrica
                               Por ele eu ponho minha mo no fogo
                               Voc j ouviu esse ditado popular? E o p no fogo, voc colocaria?
                               Todos os pases tm algum tipo de dana folclrica, que faz parte
                            da tradio de cada povo e  transmitida de gerao para gerao, sem
                            que se saiba quem a inventou. Podemos citar, como exemplo, a dan-

312 Composio
                                                                                                    Arte

a italiana da tarantela, que  muito conhecida no mundo todo. Voc
j viu alguma apresentao dessa dana? Veja mais informaes no Fo-
lhas 13 - Acertando o passo.




          < Apresentao dana folclrica. Alunos do Colgio Estadual Douradina

    A riqueza da dana existente nas vrias regies do Brasil tem origem
na prpria histria do pas, devido  contribuio das diversas culturas
dos povos que migraram para c: portugueses, africanos, espanhis, ale-
mes, poloneses, japoneses entre outros, alm dos povos indgenas que
j habitavam a terra. As danas folclricas realizadas nas diferentes regi-
es do Brasil originaram-se da miscigenao tnica dos povos que com-
pem o nosso pas, possibitam como fator a integrao cultural em ce-
lebraes e eventos, geralmente associados a ocasies especficas e a
determinados grupos de pessoas. "Danas Folclricas propriamente di-
tas tm sua origem em cerimnias de ritos tradicionais pertencentes a
um estado popular". (OSSONA, 1988) Portanto, podemos dizer, que muitas das
danas folclricas se originaram de danas tnicas.
    O Brasil possui um repertrio variado de danas folclricas, que
acontecem em todas regies do Brasil, porm com maior incidncia
em lugares do interior ou do litoral, nas festas, colheitas, datas impor-
tantes e comemoraes religiosas. O frevo e o maracatu so danas
folclricas do nordeste brasileiro. Tm origem nas festas religiosas e
populares, nas quais as msicas eram tocadas por bandas militares e
fanfarras nas ruas. No frevo, a sombrinha  um dos adereos da dan-
a, ajudando ainda mais o movimento dos danarinos.
    Atualmente, algumas danas folclricas so executadas no perodo
do carnaval, e, com isso, so bastante divulgadas pelos meios de co-
municao, tornando-se mais conhecidas por todo o Brasil.
    Embora as danas folclricas sejam preservadas pela repetio, ain-
da que mantenham os passos bsicos e a msica original, sofrem mu-
danas com o tempo e o lugar. Um exemplo, que mostra essa transfor-
mao decorrente do contexto no qual  danada e que faz parte de
uma das grandes manifestaes folclricas existentes em todas as re-
gies do Brasil  a quadrilha, apresentada em festas Juninas.

                                                                                  Quem no dana, dana! 313
         Ensino Mdio

                                                                                  As Festas Juninas tm sua origem em ritu-
                                                                              ais pagos de povos antigos que cultuavam a
                                                                              terra para a semeadura e a colheita ou em ho-
                                                                              menagem ao sol e  natureza. Vrias transfor-
                                                                              maes aconteceram nas Festas Juninas, crian-
                                                                              do caractersticas marcantes de cada regio nas
                                                                              roupas, nas comidas, nas danas, nos costu-
                                                                              mes. No  em todo lugar do Brasil que, por
                                                                              exemplo, costuma-se passar descalo na "bra-
                                                                              sa viva" das fogueiras! Como forma de expres-
                                                                              sar a f no Brasil, as Festas Juninas so reali-
   < Quadrilha realizada no Colgio Estadual Douradina  alunos Ensino Mdio. zadas em homenagem aos santos: So Pedro,
                                                                              So Paulo, Santo Antnio e So Joo. O local
                                          da festa, em geral um espao ao ar livre,  decorado com bandeirinhas
                                          de papel colorido, come-se pipoca, amendoim, doces de milho, bata-
                                          ta-doce, etc. e, tradicionalmente, as msicas das quadrilhas so tocadas
                                          por uma sanfona. Como  a quadrilha da sua regio? Como  a vesti-
                                          menta de seus participantes?


                           ATIVIdAdE

           Vamos organizar uma quadrilha na sua sala.
          Primeiro faa uma pesquisa na biblioteca e com seus pais e avs. Recrie os passos e as coreogra-
     fias a serem executadas.
           Um aluno da sala deve narrar ou cantar a quadrilha.
           Escolha seu par e ensaie at ficar no ponto!
           Combine com seus colegas o estilo de roupa que vo usar.
           Apresentem para os alunos da escola. Vai ser muito legal!



                                  z Dana de salo
                                                            Concede-me essa dana?
                                     Durante o reinado de Lus XIV, o entusiasmo dos danarinos come-
                                  ou a esmorecer devido ao rgido cerimonial da corte e ao fastio em
                                  executar sempre as mesmas danas, gerando a necessidade de alguma
                                  mudana que trouxesse um novo interesse a esta atividade da vida dos
                                  palcios. (OSSONA, 1988)
                                     Com o passar do tempo, a dana de salo vai se transformando e
                                  adquirindo caractersticas prprias. Os danarinos organizam-se con-
                                  forme sua posio social e a coreografia reflete o modo de vida da aris-
   < Foto: Levy Ferreira          tocracia da poca, por meio de passos diferenciados, seqenciados e
                                  muita elegncia.

314 Composio
                                                                                                      Arte

    No sculo XVIII, a dana de salo minueto era muito importante. O
nome minueto vem do francs menu (pequeno), pois essa dana pos-
sui passos curtos. Era uma dana considerada difcil e a maioria das
pessoas tinha medo de se arriscar a dan-la sem ensaiar antes. Aps
sua execuo, os danarinos eram muito aplaudidos pelas pessoas que
estavam no baile, por isso, o bom danarino devia estar atento a cer-
tos procedimentos bsicos, seguindo algumas regras.
    A primeira regra bsica  que os danarinos entrem na pista com
cuidado, respeitem quem j est danando e procurem no esbarrar
nem interromper a evoluo de outros pares. O mesmo cuidado  im-
portante quando for necessrio atravessar o salo, o que, alis, deve
ser to evitado quanto permanecer parado na rea onde se dana.




                                                                        < AUGUSTE RENOIR, La Bal au
                                                                          Moulin de la Galette, 1876,
                                                                          leo sobre Tela, 1,31x1,75 m.
                                                                          Museu do Louvre, Paris.


                                     As danarinas devem sorrir constantemente, olhar com
                                  languidez e ficar sempre imponentes e os cavalheiros de-
                                  vem ter um cuidado especial com suas damas, sendo aten-
                                  ciosos na forma de convid-las para danar e no modo co-
                                  mo iniciam sua dana, devem procurar perceber se sua
                                  parceira tem condies de lhe acompanhar.
                                     Finalmente, lembrar-se, que o principal motivo para se
                                  danar num baile  o prazer.
                                     Vrias danas de salo foram popularizadas, como exem-
                                  plo de danas de salo mais atuais temos o Tango, a Valsa,
                                  a Salsa, o Merengue, a Rumba, o Samba, o Bolero, etc.
                                     O Tango  uma dana que teve origem nos bairros pobres
                                  da Argentina e durante mais de 100 anos foi considerada in-
< Dana de salo: Tango.          decorosa para os sales de dana. (CARROL & BROWN, 1994)

                                                                        Quem no dana, dana! 315
      Ensino Mdio



                     ATIVIdAdE

       Vamos assistir ao filme Perfume de Mulher para observar como se dana o Tango?
        Aps o filme, faa um debate na sala destacando a opinio de cada um sobre a dana apresentada
    no filme.
        Voc acha que o ator dana bem o Tango? Qual  o grau de dificuldade que esta dana representa
    para voc?
       A que concluso a maioria dos alunos chegaram?
       Todos podem danar Tango? Analise que emoes esta dana pode manifestar para quem dana
    e para quem observa.
         Atualmente, os casais que danam Tango se apresentam com os rostos bem colados realizando
    passos extremamente sensuais. No Tango Europeu, que segue o estilo idealizado na Frana, o cava-
    lheiro apenas conduz a dama pelo salo, seguindo a marcao da msica, quase que marchando, com
    muitos movimentos de cabea para os lados. (TAVARES, 2004)


                                Voc j foi em algum casamento em que na festa, um dos momen-
                            tos mais esperados  a famosa Valsa dos Noivos?
                                A Valsa surgiu nas regies campestres da Europa, sendo conside-
                            rada uma das primeiras danas de salo. Tornou-se popular por volta
                            de 1780, poca em que a dana deveria ser bastante elegante.
                                J no Brasil, a Valsa obteve importncia fundamental na vida mu-
                            sical urbana, tanto como msica de dana nos sales aristocrticos,
                            quanto como msica cantada popularmente pelos seresteiros e que,
                            posteriormente, foram denominadas serenatas.
                                Voc j viu algum fazer uma serenata?
                                A serenata era considerada uma espcie de declarao que os ho-
                            mens faziam para as mulheres que queriam conquistar.



                 ATIVIdAdE

      Dividam-se em equipes e pensem em que msica vocs iriam apresentar sob a janela de um gran-
   de amor. Seria uma msica lenta? Um pagode? Um Rap? Como seria a letra dessa msica? Conver-
   sem sobre o assunto e cantem um trecho dessa msica para a turma.
      Como voc danaria esta msica? Voc se identifica com qual ritmo? Por qu?




316 Composio
                                                                                                             Arte



                  ATIVIdAdE

     Organizem a sala em grupos de 5 elementos.
     A partir dos seguintes critrios: (histria, constituio cultural, evoluo, trajes) cada grupo dever fa-
 zer uma pesquisa sobre uma dana de salo de sua preferncia: Valsa, Salsa, Bolero, Tango, Rumba,
 Merengue (pode fazer a escolha da dana por sorteio).
    Aps a pesquisa realizada, cada grupo dever expor em forma de seminrio o que aprendeu sobre a
 dana.
      importante que todos apresentem o trabalho e tragam exemplos para serem ouvidos e danados,
 se possvel, como era na origem e como  atualmente.



z Danas promovidas pela Indstria Cultural
                        Vrios ritmos, vrios estilos...
    Como tudo na vida se transfor-
ma, a dana tambm passa por es-
se processo de transformao. As
novas tecnologias fizeram com que
as apresentaes de dana e msi-
ca ganhassem um espao alternati-
vo: o cinema, a televiso, o rdio, a
internet, os aparelhos de som e v-
deo.
    Assistir a uma dana pela tele-
viso  diferente de v-la ao vivo
no seu espao real, pois, a falta de
contato direto com os danarinos
altera nossas sensaes, aes e re-
aes diante do espetculo.
    As danas promovidas pela in- < Funk  Foto: Levi Ferreira.
dstria cultural so aquelas conhecidas como danas de massa, aque-
las que fazem parte das "paradas de sucesso" e so difundidas pela m-
dia e consumidas pela populao.
    Os meios de comunicao, ao veicular os diferentes tipos de dana,
fazem com que possamos conhecer danas de vrias partes do mundo:
desde os desfiles de carnaval, com suas belas fantasias e coreografias
at as tradicionais companhias de bal existentes no mundo.




                                                                                      Quem no dana, dana! 317
      Ensino Mdio

                                 Sendo assim, existe a possibilidade de que as msicas e danas se-
                             jam usadas tanto para o esclarecimento como para o bloqueio do sen-
                             so crtico e conseqente manipulao de seus espectadores. Podemos
                             observar que muitas vezes algumas das danas criadas e divulgadas
                             pela Indstria Cultural no possuem qualidade nas letras das msicas
                             e fazem movimentos de grande apelo sexual, vulgarizando o corpo e,
                             conseqentemente, o(a) danarino(a).
                                 Existem algumas danas consideradas como "cultura de massa",
                             que surgem em decorrncia do sucesso das msicas, que acabam sen-
                             do consideradas mais importantes. A dana  uma conseqncia natu-
                             ral tanto do ritmo da msica como do seu sucesso, que acaba atraindo
                             os jovens, sem lev-los  compreenso do que a letra da msica diz ou
                             o que significam os movimentos executados nas coreografias.
                                 Essas danas vm e vo embora, de acordo com os interesses comer-
                             ciais das gravadoras e meios de comunicao, como  o caso, atualmen-
                             te, de alguns grupos de funk, do rock pesado, da ax-music e das ban-
                             das de pagode.
                                   preciso que tenhamos contato com todo tipo de dana existen-
                             te, porm temos que saber distingir as danas que so promovidas
                             pela Indstria Cultural, que tem por finalidade apenas o consumo e o
                             lucro.
                                 A populao, muitas vezes, alienada pela Indstria Cultural, no
                             consegue perceber que est consumindo um produto que desvalori-
                             za nossa cultura. Tambm devemos estar atentos para no nos tornar-
                             mos vtimas do modismo, temos ento que superar e transformar uma
                             viso superficial da dana em uma viso mais crtica, ao invs de ser-
                             mos "engolidos" por ela.


                     ATIVIdAdE

       Em seu caderno responda s questes abaixo:
       Na sua opinio, quais so os pontos positivos e os pontos negativos das danas promovidas pela In-
    dstria Cultural?
         Voc poderia citar uma msica ou uma dana que atualmente est na mdia e que na sua opinio con-
    tribui para o enriquecimento da cultura brasileira? Por qu?
        Do seu ponto de vista, identifique quais so as danas exibidas pela mdia de interesse da Indstria
    Cultural.
       Aps as respostas, cada aluno manifesta sua opinio para os colegas da sala.




318 Composio
                                                                                                              Arte

z Danando os Problemas Sociais
    "Que aconteceria se, em vez de apenas construirmos nossa vida, ti-
vssemos a loucura ou sabedoria de dan-la?" (GARAUDY, 1980)
    No fim da dcada de 1970, na Alemanha, a danarina e coregrafa
Pina Bausch, que nasceu no dia 27 de julho de 1940, em Solingen, in-
troduziu uma nova viso de dana no mundo ocidental, na qual procu-
rou mostrar a vida das pessoas, sua percepo corporal e os problemas
do ser humano contemporneo. Para ela, a dana possui contedos
histricos, sociais e polticos que so expressos pelo movimento do
corpo, ou seja, danando podemos tratar, por exemplo, de problemas
sociais do nosso pas.
    Com a dana, podemos manifestar nossa opinio, por meio de mo-
vimentos corporais, fazendo com que os espectadores "enxerguem"
uma realidade aparentemente "invisvel".
    Um bom exemplo so as msicas de Gabriel Pensador, (1974), can-
tor e compositor brasileiro que elabora letras de cunho social e polti-
co, com um grande senso de humor. Gabriel trabalha com uma verten-
te do rap, que faz parte, em sua origem, do movimento Hip hop, um
movimento scio-cultural criado em Nova Iorque nos finais dos anos
60 do sculo XX, que se espalhou depois pelo mundo inteiro. O Hip
hop nasceu nas ruas como forma de manifestao e protesto pela desi-
gualdade, discriminao racial, pobreza, preconceitos, violncia, etc.
    Leia um trecho de uma msica de Gabriel:


                               Dana do Desempregado
                           ...Essa  a dana do desempregado
                   Quem ainda no danou t na hora de aprender
                             A nova dana do desempregado
                          Amanh o danarino pode ser voc...

        < Gabriel Pensador - Dana do Desempregado. Sony Music - Quebra-Cabea, Faixa 07,
          CD, BMG.




                                                                                            Quem no dana, dana! 319
      Ensino Mdio



                     ATIVIdAdE

       Leia a letra de Gabriel Pensador ou se possvel oua a msica.
        Organize em sua sala um "debate" sobre a msica `Dana dos Desempregados', seguindo o se-
    guinte roteiro:
       De que dana trata essa msica?
       Na sua famlia algum j "danou" a dana do desemprego?
       Essa "dana" retratada na msica de Gabriel existe somente no Brasil?
       Pesquise em jornais e revistas quantas pessoas atualmente "esto danando essa dana"?
       Apresente o resultado para os colegas da sala.
       Indique algumas solues que ajudariam a diminuir o desemprego no Brasil.
       Depois do debate, que tal criar uma coreografia para essa dana e execut-la com a turma toda?
       Para que tudo saia perfeito,  preciso ouvir a msica com muita ateno, observando a letra, o rit-
    mo, a melodia.
       Escolher coletivamente os "passos de dana" para montagem da coreografia.
       Criar um cenrio e decidir a roupa para a dana.
       Ensaiar bastante e apresentar!
        necessria a participao de todos os alunos, pois nas aulas de dana na escola no interessa
    se algum "dana melhor" do que os outros, e sim, o envolvimento e participao de todos da turma
    na atividade.
       Que tal apresentar a dana para toda a escola prestigiar os danarinos?

                                Vimos neste mdulo que existem vrios gneros de dana, e que
                             todos eles, alm de possibilitar a expresso de nossas idias, contri-
                             buem para adquirir conscincia corporal, entender como o corpo se
                             movimenta e se relaciona com o espao. Mas, sobretudo, voc no
                             acha que a dana proporciona prazer, emoo e momentos de rela-
                             cionamento humano? Ento vamos danar, pois "Quem no dana,
                             dana!"


                             z Referncia
                                COLL, C.; TEBEROSKY, A. Aprendendo Arte. 1 ed. So Paulo: tica,
                                2002.
                                GARAUDY, R. Danar a vida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
                                LABAN, R. Domnio do Movimento. So Paulo: Summus, 1978.
                                OSSONA. P. A Educao pela Dana. Vol. 33; So Paulo: Summus
                                Editorial, 1988.



320 Composio
                                                                                               Arte

  OSTROWER, F. Universos da Arte. Rio de Janeiro: Campos Ltda, 1983.
  PROENA, M. das G. V. Histria da Arte. 4 ed. So Paulo: tica.
  Brasil, 1994 STAEL, M. (trad.). O Livro da Arte. So Paulo: Martins Fon-
  tes, 1999.
  TAVARES, I. M. Educao Corpo e Arte. Curitiba: IESDE, 2004.


z Filme
  Ficha Tcnica Filme
  Ttulo Original: Scent of a Woman
  Gnero: Drama
  Tempo de Durao: 156 minutos
  Ano de Lanamento (EUA): 1992
  Estdio: Universal Pictures / City Light Films
  Distribuio: Universal Pictures / UIP
  Direo: Martin Brest
  Roteiro: Bo Goldman, baseado em roteiro do filme "Perfume de mulher"
           (1974), escrito por Giovanni Arpino
  Produo: Martin Brest
  Msica: Thomas Newman
  Direo de Fotografia: Donald E. Thorin
  Desenho de Produo: Angelo P. Graham
  Direo de Arte: W, Steven Graham
  Figurino: Aude Bronson-Howard
  Edio: Harvey Rosenstock, William Steinkamp e Michael Tronick




                                                                             Quem no dana, dana! 321
      Ensino Mdio




322 Composio
                                                                                                    Arte




                                                                                     20

                                                                COMO FAZER A
                                                                COBRA SUBIR?
                                                                                <Carlos Alberto de Paula1



                                                                    izem que os indianos, tocando
                                                                    somente uma flauta, conseguem
                                                                    fazer uma cobra, suavemente,
                                                                  sair do cesto.
                                                               Ser que as msicas que eles tocam
                                                               so diferentes das nossas?
                                                               Seriam elas compostas de magia?




1
 Colgio Estadual Lysimaco Ferreira da Costa - Curitiba - PR

                                                                             Como fazer a cobra subir? 323
      Ensino Mdio


                              z As msicas do mundo
                                  O continente Asitico tem chamado muita ateno de ns ocidentais nos
                              ltimos anos, as guerras no Iraque e Afeganisto, os conflitos entre judeus
                              e palestinos e as transformaes econmicas na China. Em todas estas situ-
                              aes est presente um debate sobre a relao entre o novo e o antigo, o
                              moderno e o secular.
                                  Por meio da msica podemos perceber esta relao, porque a m-
                              sica representa o saber, o cotidiano, os hbitos, enfim, vrios aspectos
                              da cultura de um povo.
                                  Os diferentes povos precisaram selecionar alguns sons da totalida-
                              de de sons presentes na sua cultura para determinar o que  msica.
                              Diversas culturas estabeleceram essa seleo sonora por meio de um
                              fenmeno acstico decisivo, que  a srie harmnica de cada som (WIS-
                              NIK, 2004).
                                  Por exemplo, uma corda vibrando numa certa freqncia ressoa
                              outras freqncias que so seus mltiplos e que tambm so progres-
                              sivamente mais rpidas. A diferena entre estas freqncias so os in-
                              tervalos de alturas sonoras e determinam o que hoje conhecemos co-
                              mo as notas musicais.
                                  No Ocidente, foi Pitgoras (matemtico e filsofo grego que viveu no
                               sculo VI a.C.) quem primeiro teorizou e estabeleceu uma relao num-
                                        rica da srie harmnica, por meio do instrumento chamado mo-
                                           nocrdio, que em latim quer dizer de uma s corda. Varian-
                                             do o seu comprimento e a tenso usada na corda, foi que
                                             Pitgoras estabeleceu os intervalos entre as notas musicais,
                                            definindo com isto a srie harmnica, que  a base das pri-
                                            meiras escalas do mundo ocidental.
                                < Figura 1: Pitgoras




                     ATIVIdAdE

        Voc pode fazer como Pitgoras e construir seu prprio monocrdio na escola ou mesmo em casa,
     simples e interessante. Ento, mos  obra!!
         Para fazer um monocrdio  necessrio esticar uma corda de ao ou nylon (pode ser uma corda de
    violo ou de piano usada), ter uma caixa de ressonncia (de preferncia de madeira, com uma parte aber-
    ta e outra fechada ou semifechada) para que o som seja ampliado e marcar as divises em que a corda
    dever ser presa e a extenso que ser tocada para registrar cada nota (freqncia). Para se obter a srie
    harmnica, a corda pode ter qualquer comprimento ou largura, o importante  que seja presa e esticada
    com uma tenso suficiente para que possa ter uma ressonncia forte o bastante para que seja ouvida.




324 Composio
                                                                                                   Arte

    Veja o exemplo do modelo 01, bem simples, e o outro do mode-
lo 02, em que so utilizados pequenos cavaletes para fixar a corda no
segmento necessrio para entoar as diferentes notas.

   Monocrdios




 < Modelo 01
                                                           < Modelo 02


                 PESQUISA

     Na primeira figura, na qual aparece um desenho de Pitgoras, vemos seis cordas porque, ao contr-
 rio de subdividir uma corda, aumentando sua tenso, so utilizadas seis cordas, sendo que cada uma
 tem a tenso (ocasionada pelos pesos) correspondente de cada parte de uma s corda subdividida.
 Esta  outra experincia interessante que voc pode fazer, calcular o peso que  necessrio para cor-
 responder  tenso de esticamento da corda em cada uma das partes menores subdivididas.  impor-
 tante que voc busque na fsica o conceito de tenso e freqncia para realizar esta experincia.

    Seria bom lembrar que o som  ocasionado pela vibrao de um
objeto qualquer, a qual  denominada freqncia, e a unidade da fre-
qncia  denominada Hertz. Quanto mais tensa a corda estiver, ela
produzir uma freqncia mais rpida, aumentado o nmero de Hz.
No ouvido humano, por exemplo, o tmpano vibra e conseguimos ou-
vir sons com a freqncia de 20 a 20.000 Hertz. As notas musicais tm
a sua freqncia variando em torno de 392 Hz, que  a nota sol da es-
cala musical.
    Os harmnicos so vibraes mais rpidas, como mltiplos do mes-
mo pulso do som fundamental. Portanto, a srie harmnica  uma pro-
gresso de freqncias (progresso freqncial) no espao sonoro.
    O primeiro harmnico de um som fundamental  a mesma nota re-
petida uma oitava acima (intervalo de oito teclas brancas do piano), ao
prender a corda na sua metade (1/2), ela ter o dobro de sua tenso de
esticamento, mas soar a mesma nota, com uma freqncia mais rpi-
da, produzindo um som mais agudo.

                                                                             Como fazer a cobra subir? 325
      Ensino Mdio

                            Com a diviso de 2/3 da corda, formar o segundo harmnico, que
                         o intervalo de quinta em relao ao som fundamental.
                            O terceiro harmnico ser com a diviso em 3/4 da corda, que se
                        constituir em um intervalo de quarta em relao ao segundo harm-
                        nico.
                            O quarto e o quinto harmnico conseguiremos com a diviso de
                        4/5 e 5/6 da corda respectivamente, produzindo os intervalos de tera
                        maior e de tera menor.
                            Vamos desenhar um grfico para melhor entender essa progres-
                        so numrica (numerador 1, 2, 3, 4, 5 e denominador 2, 3, 4, 5, 6) e
                        das partes que devero ser subdivididas da corda para produzir a s-
                        rie harmnica.
                                                      Som Fundamental




                                                                                 .
                                                                                1o Harmnico-oitavo
                                                                             .
                                                                            2o Harmnico-quinta
                                                                          .
                                                                         3o Harmnico-quarta
                                                                     .
                                                                    4o Harmnico-tera maior
                                                                .
                                                               5o Harmnico-tera menor




                            A partir do ponto em que a corda for presa, fazendo vibrar a parte
                        menor da diviso, teremos sucessivamente um som mais agudo, com
                        freqncia cada vez mais rpida, e fazendo vibrar a parte maior estare-
                        mos formando a srie harmnica. A srie harmnica  importante por-
                        que estabelece os intervalos sonoros que por meio de diversas combi-
                        naes estabelecero um conjunto mnimo de notas as quais formam
                        a melodia da msica.
          < Harpa           Este conjunto mnimo de notas que compe a melodia  chamado
                        de escala (ou modo, ou gama) e varia muito de acordo com o contex-
                        to cultural em que ela  produzida. Voc j percebeu que quando ou-
                        vimos uma msica, conseguimos identificar a sua origem, se  msica
                        nordestina, indiana ou japonesa? Conseguimos isso porque identifi-
                        camos de forma no-consciente o modo de organizar as escalas des-
                        tas diferentes culturas.
                            O professor WISNIK (2004) esclarece que estas propriedades har-
            < Marimba   mnicas do som foram estudadas por diversas culturas, a partir dos
                        instrumentos musicais que lhes eram comuns  na Grcia, Pitgoras
                        construiu o monocrdio a partir das cordas utilizadas nas liras, harpas
                        e ctaras; os chineses utilizaram as cordas e o comprimento dos bam-
                        bus; os povos da Oceania, as marimbas, os gongos e os sinos.
                            A partir dos intervalos da srie harmnica pesquisada pelos gregos
                        e por diversos outros povos, foram construdas as escalas mais conhe-
                        cidas e usadas no mundo todo:

326 Composio
                                                                                                     Arte

    Escala pentatnica  encontrada na China, Indonsia, frica e Am-
rica (msica nativa). Esta escala  organizada a partir de uma srie de
           
quintas (2. harmnico) sucessivas e encadeadas.



                ATIVIdAdE

     Voc pode perceber estes intervalos dividindo a corda (use o monocrdio) em 2/3 e batendo ou
 pinando na corda, depois dividir a parte menor em 2/3 novamente e assim sucessivamente. Cada no-
 ta alcanada indo para o alto e agudo (com a corda cada vez menor) ser uma seqncia de interva-
 los de quinta. A escala pentatnica  composta com esta srie de intervalos at constituir as cinco no-
 tas da escala.


    At agora no falamos o quanto a corda do monocrdio deve ser
esticada, isso  muito importante porque nos instrumentos musicais
define a afinao. Na msica modal, da ndia, por exemplo, o msi-
co afina o instrumento ou a voz de acordo com uma srie de "ragas"
(eram 800, sendo que 63 ainda esto em uso) que esto associadas a
um perodo do dia ou estao do ano. Portanto, no  utilizada a afi-
nao fixa, que conhecemos hoje em dia baseada no diapaso (na for-
ma de garfo, de apito ou eletrnico).
    Cada "modo" de executar a msica est relacionado a um deus,
uma estao do ano, uma cor, um animal, um astro. A escala pentat-
nica tradicional chinesa corresponde  ordem social e poltica, sendo
que a nota kong (f) representa o prncipe; chang (sol), os ministros;
                                                                                     < Diapaso
Kio (l), o povo; tch (d), os negcios e yu (r), os objetos.
    Esta msica tem um carter ritual e teraputico, sendo capaz de exal-
tar, levar ao transe ou ao xtase. A relao entre as escalas e as formas
de organizao da sociedade chinesa determinam que a msica no de-
ve mudar, sob pena de infligir graves danos  ordem social. Por isso que
mesmo com a ampliao dos meios de comunicao e a disseminao da
cultura ocidental e capitalista, no Oriente percebemos que h uma forma
musical prpria e que nos parece muito estranha, sem sentido, aparentan-
do "ser coisa do passado."
    Escala diatnica  foi Pitgoras (sculo VI a.C.) quem primeiro esta-
beleceu uma escala de sons adequados ao uso musical Ocidental. For-
mando uma srie a partir da frao de 2/3 (que corresponde ao in-
tervalo musical de "quinta"), ele conseguiu definir sete notas musicais
contendo cinco tons (d-r, r-mi, f-sol, sol-l e l-si) e dois semitons
(mi-f e si-d). Pitgoras estabeleceu os intervalos e as notas musicais,
mas estas notas s tiveram essa denominao de "d, r, mi, f, sol, l,
si" a partir do sculo XI com o msico Guido de Arezzo.




                                                                              Como fazer a cobra subir? 327
      Ensino Mdio

                                  A descoberta da progresso numrica do som teve grande influn-
                              cia no conhecimento ocidental, sendo que as relaes entre som, nme-
                              ros e astros constituram-se com a Astronomia, a Msica, a Aritmtica e
                              a Geometria as disciplinas bsicas do conhecimento na Grcia Antiga e
                              por toda a Idade Mdia. Com o nome de "Quadrivium", foi estudada nas
                              escolas dos monastrios. At o perodo do Renascimento, por cerca de
                              2.000 anos, foi a principal forma de pensar a msica no Ocidente.

                     ATIVIdAdE

        Voc lembra o que  progresso na Matemtica? Existe a Aritmtica e a Geomtrica. Qual  a diferena
    entre elas? Na progresso aritmtica (P.A.), uma seqncia de nmeros  obtida por meio da soma do ter-
    mo anterior com um nmero definido que chamamos de razo. Na progresso geomtrica (P.G.), a seqn-
    cia de nmeros  obtida por meio da multiplicao do termo anterior com um nmero que tambm chama-
    mos de razo. A razo da P.A.  obtida por meio da diferena de um nmero com o seu anterior. A razo da
    P.G.  obtida pela diviso de um termo pelo seu anterior. Voc seria capaz de reconhecer que tipo de seqn-
    cia  esta? 1, 5, 9, 13, 17, ...
       E qual a razo?


       No Divino Monocrdio do filosfo ingls Robert Fludd
   (1574-1637), a nota correspondente a cada planeta  associa-
   da a uma diviso da corda do monocrdio. Tal como Cce-
   ro (sculo I a.C.), filsofo romano que combinava as
   notas agudas e graves ao movimento das prprias
   esferas (estrelas), tambm neste modelo o som
   associado a cada planeta  tanto mais agu-
   do quanto maior for a distncia do plane-
   ta  Terra.
       Essa msica produzida pelo cosmos,
   inaudvel e indicativa da ressonncia
   entre os astros, o corpo e a alma de ca-
   da ser humano foi chamada de Msi-
   ca das Esferas. O filosfo grego Plato
   (sculo V a.C.) dizia que no podemos
   ouvir esta msica porque ela faz par-
   te do nosso ser desde sempre, ou seja,
   o ser humano  parte constituinte desta
   harmonia csmica.
       No Ocidente, durante a Idade Mdia,
   a parte de execuo musical que a histria
   registra era somente por meio do Canto Gre-
   goriano, organizado e institudo pelo papa Gre-
   grio VI (sculo V). Esta  uma orao cantada, s
   por homens (monges), com todos cantando uma mes-

328 Composio
                                                                                                 Arte

ma linha meldica (em unssono). Neste perodo, que a Igreja Catlica
era o poder poltico e espiritual, a msica era estudada como expresso
matemtica e espiritual nos monastrios e cantada como forma de co-
municao com Deus. Voc pode ouvir o canto gregoriano em missas
tradicionais, filmes histricos ou em CD, como dos monges beneditinos,
do Mosteiro da Ressurreio, no Municpio de Ponta Grossa.
    A partir do sculo IX e, principalmente, nos sculos XII e XIII, a
msica comeou a passar por transformaes. Influenciada pela cons-
tituio da nascente burguesia, caraterizada pelo trabalho coletivo e
corporativo dos burgos (pequenas cidades em torno dos castelos), es-
ta msica urbana inicia com o organum, que acrescenta mais uma voz
 melodia cantada, iniciando de forma rudimentar a polifonia (msica
a vrias vozes). Ao mesmo tempo, no canto gregoriano de uma s me-
lodia  tambm acrescentada outra voz, mais aguda (de pr-adolescen-
te, mas nunca de mulher), cantando uma oitava acima ou uma quinta.
Desta forma, a Igreja Catlica vai, aos poucos e com forte resistncia,
incorporando na sua msica estas inovaes da burguesia.
    Escala temperada ou cromtica  at o sculo XVI a escala musical era
dividida usando a progresso aritmtica com razo unitria, como vi-
mos 1  2  3  4  5  6..., mas em 1614 o matemtico e banqueiro Jo-
hn Napier, Baro de Merchinston, props uma nova maneira de contar.
Esta nova operao  o logaritmo  imediatamente reduziu complica-
das contas, que chegavam a levar anos. Voc certamente conhece uma
operao matemtica chamada potenciao. Por exemplo, 2 = 2.2.2,
que  igual a 8, isto , a base 2, elevada ao expoente 3 resulta na po-
tncia 8. Potenciao nada mais  que multiplicar um nmero (chama-
do de base) tantas vezes quantas for o expoente. Se em potenciao
conhecemos a base (2, no caso) e a potncia (8), a operao que per-
mite encontrar o expoente que devemos atribuir  base para obtermos
a potncia  o que denominamos logaritmo.
    Veja o exemplo abaixo:



      Logaritmo         0       1      2      3      4      5       6
      Base              2       2      2      2      2      2       2
                        ||      ||     ||     ||     ||     ||      ||
                        1       2      4      8      16     32      64



    No final do sculo XVII e incio do sculo XVIII, o msico Johann
Sebastian Bach compe uma srie de msicas denominada O cravo
bem temperado, utilizando a diviso da escala em logaritmos e Jean-
Philippe Rameau escreve o estudo Tratado de Harmonia, que conso-
lida esta nova forma de compor msica.



                                                                            Como fazer a cobra subir? 329
      Ensino Mdio

                                   Em decorrncia disto procurou-se estabelecer uma forma nica uma
                               forma nica de afinao ou padro de esticamento (tenso) das cordas
                               e dos outros instrumentos, como de sopros. A medida de unidade uti-
                               lizada passa a ser o Hertz (pulso da freqncia sonora); assim, todos
                               os instrumentos so afinados pelo diapaso, normalmente utilizado re-
                               produzindo a nota l que  equivalente a 440 Hz.
                                   Os msicos dividiram a escala temperada (D, D#, R, R#, Mi, ...,
                               Si) em 12 partes logartmicas, diferente da forma matemtica de Pitgo-
                               ras. No quadro abaixo, relacionamos a nota da escala temperada com
                               o logaritmo e a freqncia (Hz) correspondente.

                                                                                                                                   d
                   Nota       d    d#      r     r#     mi       f     f#     sol     sol#     l      l#      si
                                                                                                                              escala acima
              Temperado        1    21/12   2/212   23/12   24/12   25/12   26/12   27/12   28/12   29/12   210/12   211/12        2
                 Freqncia   262   277     294     311     330     349     370     392     415     440     466      494          523


                                   As 12 notas da escala cromtica ou temperada correspondem aos
                               logaritmos de base 2: 20, 21/12, 22/12.... e em todos os instrumentos as no-
                               tas devem ser afinadas de acordo com a freqncia estabelecida co-
                               mo padro.
                                   Estas modificaes foram fundamentais para que fosse possvel fa-
                               zer msica com vrias vozes e instrumentos (polifonia), inaugurando a
                               msica tonal, que  o parmetro musical que ouvimos at hoje.
                                   Toda essa modificao foi necessria porque a escala pitagrica, ba-
                               seada nos sons naturais e divididos numericamente, no fechava o ci-
                               clo de oitos notas. Vejamos: seguindo a srie harmnica, partindo da
                               nota d, quando chegar ao prximo d mais agudo, ele estar um pou-
                               co acima do que deveria, ou seja, a sua prpria oitava, o ciclo nun-
                               ca se fecha, no reencontra numericamente. A msica oriental at ho-
                               je seque a escala natural porque toda experincia sonora que fizermos,
                               chegaremos  srie harmnica.
                                   Na escala temperada ou cromtica, utilizando os logaritmos, foi al-
                               terado a sonoridade natural e de ordem numrica da escala, modifi-
                               cando artificialmente o comprimento inteiro da corda e dividindo-a ex-
                               ponencialmente em doze partes, baseado na raiz duodcima de 2. Isso
                               fez com que a diferena fosse ajustada, possibilitando uma ampliao
                               infinita de relaes entre estas notas musicais para a composio, bem
                               como a execuo conjunta dos mais diversos instrumentos musicais.
                                   Esta msica baseada em tons, notas com sons fixos e escala crom-
                               tica (msica tonal)  a msica que estamos acostumados. Normalmen-
                               te, o som de uma escala diferente nos causa um estranhamento, no o
                               achamos natural, como se fosse desafinado.




330 Composio
                                                                                                          Arte

z E a msica que ouvimos hoje ?
    Apesar de atualmente a nossa referncia para ouvir e apreciar uma
msica seja a escala cromtica, a partir do incio do sculo XX comea-
ram a ocorrer uma srie de transformaes na msica, contrapondose
aos padres clssicos da msica tonal. Msicos como Arnold Schoen-
berg passaram a compor msica atonal, rompendo com a tonalidade;
Igor Stravinsky rompe com a rigidez mtrica da msica clssica e uti-
liza novos ritmos e harmonias; Maurice Ravel compe O Bolero, pre-
nunciando a msica minimalista (que utiliza o mnimo de variaes rt-
micas, meldicas e harmnicas) to presente na msica hoje.
    Voc j deve ter ouvido O Bolero de Ravel ou a Sagrao da prima-
vera (de Stravinsky). Estas msicas esto presentes nas propagandas,
no rdio e at mesmo como campainha de celular.
    No Brasil, Carlos Gomes baseia-se na cultura brasileira para escre-
ver a pera O Guarani e Heitor Villa-Lobos compe suas msicas a
partir de temas do folclore e da cultura popular. A nossa msica popu-
lar mistura elementos da msica clssica com sons africanos, indgenas
e orientais, por meio do trabalho de msicos como Chiquinha Gonza-           < Pixinguinha (1897  1973)
ga, Pixinguinha, Cartola e tantos outros que passam a ser prestigiados
e tornam-se populares.
    O blues, que tem sua raiz nos cantos de trabalho dos povos de
origem africana nos Estados Unidos,  uma sobreposio harmnica
do sistema tonal e sistema modal. Originrio deste grupo social es-
pecfico, o blues passa a ser conhecido por vrios outros povos, sen-
do a base para outras formas musicais, como o jazz e, posteriormen-         < Isto  Jazz?
te, o rock.                                                                   No, so os Batuta Brasileiro.

    Nesse perodo (primeira metade do sculo XX) em que ocorreram
as duas grandes guerras mundiais e os movimentos das classes traba-
lhadoras por melhores condies de vida e de trabalho, a Arte, em
todas as suas modalidades, passa a contestar as formas clssicas de
produo artstica, que representavam a burguesia e seu paradigma
fundado na racionalidade.
    Na segunda metade do sculo XX, consolidou-se a indstria cul-
tural (msica como produto de consumo) e a globalizao da cultu-
ra por meio dos avanos dos meios de comunicao. Com o rock and
roll introduziu-se a eletrificao dos instrumentos e a incorporao do
rudo (de sons alm das notas da escala cromtica) na msica ouvida
por milhes de pessoas.




                                                                          Como fazer a cobra subir? 331
      Ensino Mdio

                               O sintetizador (que multiplica timbres) e o seqenciador (computa-
                            dor que escreve seqncias com preciso e as repete indefinidamente)
                            esto mudando completamente o modo de produo sonora. A msi-
                            ca que ouvimos no nosso cotidiano explora um universo amplo e por
                            vezes catico de diversidades rtmicas, meldicas e harmnicas.

                                                             A Banda alem Kraftwerk  uma das pioneiras (final da
                                                            dcada de 70) e referncia da Techno Music. Introduzindo
                                                            o uso de sintetizadores e vocais eletrnicos e amplificados
                                                            em suas msicas.




                     PESQUISA

        Por que ser mesmo que a cobra sobe quando ouve a flauta, ser que  porque a msica tradicio-
    nal indiana utiliza a srie harmnica, que  um som natural (como vimos na escala pentatnica)?


       Ser que ela  treinada para levantar quando ouve determinadas notas?
       Ou ser que a magia  uma das caractersticas da msica, considerando que em toda a his-
   tria da humanidade a msica foi uma forma de xtase, transe, sonhos, alegria, tristeza e uma
   experincia transcendental?


   z referncias:
      GELSON, Iezzi et al. Matemtica: cincia e aplicao. So Paulo: Atual, 2001. v. 1.
      MXIMO, Antnio. Fsica. So Paulo: Scipione, 1997.
      PAHLEN, Kurt. Histria Universal da Msica. So Paulo: Melhoramentos, 1965.
      SCHAFER, R. Murray. A Afinao do Mundo. So Paulo: FEU, 1997.
      WISNIK, Jos Miguel. O Som e o Sentido. 2. ed. So Paulo: Cia. das Letras, 2004.
                                               a


      VIDEOCULTURA. Arte e cultura. TV Cultura, Fundao Padre Anchieta. So Paulo. Disponvel em: <www.
      tvcultura.com.br/artematematica.>


      Imagem de Abertura
      WILLIAN HOGARTH, London Street cries, sculo XVII Gravura.


332 Composio
                                    Arte



   ANOTAES




               Como fazer a cobra subir? 333
      Ensino Mdio



                     ANOTAES




334 Composio
                                    Arte



   ANOTAES




               Como fazer a cobra subir? 335
      Ensino Mdio



                     ANOTAES




336 Composio
